um espaço de partilha, reflexão, discussão e anuncio do amor misericordioso de um Deus loucamente enamorado por todos os que criou à sua imagem e semelhança...
quinta-feira, abril 28, 2011
terça-feira, março 29, 2011
Do deserto ao coração, da água do poço à fonte da vida...
1. Quando o deserto somos nós… Olhando o povo que atravessa o deserto vemos (e ouvimos na sua murmuração) que o entusiasmo da primeira hora esmoreceu... No caminho que vai da terra da escravidão à terra prometida facilmente se põe de lado a memória das obras que o próprio Deus já tinha realizado em seu favor (passaram o mar, provaram a água doce, foram saciados com codornizes…e ainda protestam!). E aquela que devia ser uma hora de esperança, de confiança, torna-se numa amarga contemplação das vicissitudes e numa caminhada que, de murmuração em murmuração, conduz não só à revolta e à desconfiança...mas também ao desejo de abandonar Aquele por quem se sentem abandonados.
Este caminho, creio, é metáfora de todos os nossos caminhos quotidianos. Com relativa facilidade também nós “habitamos de porquês” os nossos trilhos e facilmente nos esquecemos do “com quem os fazemos e partilhamos”. Neste “com quem” falo de Deus, certamente, porque como homem de fé me habituei a ler a realidade como o lugar da sua presença e acção, mas também falo daqueles e daquelas com quem diariamente cruzamos caminho e construímos história…e como é fácil fazer de cada encontro ou uma graça ou um deserto…é que às vezes o deserto não é a realidade que nos envolve…às vezes o deserto somos nós, quando teimosamente nos repetimos em rotinas já sem vida, ou em gestos e palavras profundamente carregados de morte e despidos de acolhimento, ternura, compreensão. E assim, de deserto em deserto o caminho torna-se mais amargo, à vida acrescentam-se pesos que ela não tem…e passamos ao lado do essencial (e que é o grande convite que a quaresma nos faz) passar do deserto ao coração, da morte à Vida, do finito ao Eterno.
2. Quando o deserto nos atravessa…
O Evangelho apresenta-nos um encontro junto a um poço. Este não é um encontro qualquer, é o encontro do Mestre com uma mulher Samaritana. Ela é apresentada sem nome, numa hora estranha para se ir à fonte, ficamos a saber depois, pelo diálogo com o Mestre,
- que tem uma história pessoal pouco recomendável (5+1 Maridos),
- é por cultura uma "fora da lei" (Samaritana),
- por experiência afectiva uma rejeitada (já teve cinco maridos),
- por experiência comunitária uma excluída das relações (a esta hora já ninguém a vê!).
Podemos imaginar, intuir, o deserto que habitava o coração desta mulher…e a sede que certamente traria em seu coração.
Este encontro à hora de noa torna-se para ela um encontro providencial, é a hora em que aceita ser confrontada por Alguém que lhe diz a verdade com amor e que lhe revela, com a oferta do “dom de Deus”, que o verdadeiro arrependimento não é o fim da vida, mas antes o seu o principio.
É assim que corajosamente ela larga o cântaro que não pode conter nem aprisionar o dom e se faz ela mesma dom para os outros com a alegre notícia deste encontro.
Neste encontro “esponsal” em Sicar, é toda a humanidade que se encontra com o Esposo que vai a caminho da Páscoa, da Sua Páscoa. Também nós somos convidados a fazer este encontro e a confrontarmo-nos no que somos, no que fazemos, no que dizemos ou no que calamos, com o “dom de Deus” que passa em nós, e no meio de nós, em cada dia e em cada hora…Não ao jeito dos discípulos (que chegaram atrasados depois de virem das compras e que a única coisa que aparentemente querem é que o Mestre coma [para ver se se cala!]) mas com a disponibilidade da inteligência e do coração de quem descobriu, como nos dizem as testemunhas no final do evangelho, “que Ele [Jesus] é realmente o Salvador do mundo!”.
3. Passar do deserto ao coração, da água do poço à fonte da vida!
Paulo na segunda leitura, continuando a narrar-nos a sua paixão pelo Crucificado-Ressuscitado, escreve aos Romanos e recorda-nos que só o amor nos pode desarmar, isto é, só o amor nos pode fazer sair do círculo das nossas conveniências e interesses mesquinhos e abrir-nos ao dom infinito do amor gratuito de Deus e ao dom que são (sempre!) os outros. É por isso que “quando ainda éramos pecadores, Cristo morreu por nós” (2ª Leitura).
E como não somos meros receptores do dom, mas colaboradores activos (e alegres!) com a Graça que foi derramada em nossos corações, diante do confronto que nos faz a palavra, e a caminho da Páscoa, creio que se alargam então os horizontes da nossa inteligência e, creio também, que se renova em nós o desafio a visitarmos todos os desertos humanos levando-lhes a consolação e a esperança que brotam desta fonte da vida que é Cristo. É urgente passarmos do deserto ao coração e da água do poço à fonte da vida! E aqui cada um é que sabe por onde deve começar…
É que, a alegria de quem acolhe o dom não tem preço nem medida, não cabe num cântaro e extravasa o poço… É por isso que não podemos ignorar o desafio do salmista quando nos diz: “Vinde, exultemos de alegria no Senhor, aclamemos a Deus, nosso salvador. Prostremo-nos em terra, adoremos o Senhor que nos criou. Pois Ele é o nosso Deus e nós o seu povo, as ovelhas do seu rebanho” (Salmo Responsorial).
domingo, março 20, 2011
Atravessar o deserto com um coração novo…
Os poetas são, por natureza, os melhores “cantores” do mistério da vida. Assim escreveu magnificamente Sophia de Mello Breyner Andresen:
“Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade, para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei…”
Cada quaresma é este desafio a atravessar o deserto com um coração novo, transfigurado. É o tempo favorável para deixar a lamentação de outros tempos, fazendo do tempo, e de cada passo, uma oportunidade para crescer no dom, na intimidade, na fidelidade…
Neste contexto de Povo (Cristão) a caminho, o deserto configura-se pois como o espaço (e o tempo!) para o discernimento, para a escuta, para o despojamento…É ao mesmo tempo lugar do encontro com a nossa nudez, tempo de luta com o nosso pecado, espaço privilegiado para acolher a graça e oportunidade sempre dada para (re)habitar mais profundamente o Mistério que desde sempre nos habita.
Transfigurar a vida (o coração e a inteligência) não significa por isso um esforço voluntarista do “vou lutar até conseguir!” mas implica algo de muito mais “arriscado e profundo” que resumo de um modo muito simples assim: “confio-me/entrego-me…para ser Ressuscitado”, ou seja, colaboro com a graça e vivo uma vida permanentemente agraciada e agradecida…Pode-se falar da vida transfigurada como sendo uma “vida engraçada” (= cheia da graça/vida de Deus nosso Pai!)
Importa não esquecer que neste caminho é sempre o dom que nos conduz! Talvez por isso (habituados que estamos a uma educação para possuir, dominar, vencer…etc.) esta “transfiguração da vida” nos apareça tantas vezes como “um caminho de tal forma exigente que…parece impossível”.
Só com Deus, e com a ternura sempre sedutora do Seu amor até ao fim, percebemos que “o santo é um pecador arrependido que se deixou revestir com o manto da misericórdia do Pai, que aceitou o convite para se sentar na mesa do Banquete das núpcias do Cordeiro e que se deixou desassossegar pelo Espírito Santo percebendo que outra coisa não é senão um discípulo enviado aos confins da terra”.
Conduzidos para a Páscoa por “Aquele que é a nossa paz”, torna-se urgente diante da proposta de Deus uma resposta, sem equívocos, ao Seu chamamento: “Deixa a tua terra, a tua família e a casa do teu pai, e vai para a terra que Eu te indicar” (Génesis 12,1-4).
E porque cada resposta comporta o risco, reais são também as consequências deste seguimento: “Não te envergonhes de dar testemunho de Nosso Senhor!” (2 Timóteo 1,8-10.)
Peço por isso a Deus que transfigure:
- O nosso olhar preconceituoso,
- O nosso coração tantas vezes egoísta
- A nossa inteligência que, algumas vezes no caminhar quotidiano, se faz peregrina de um modo desesperado e desorientado.
- A nossa vida de fé…tantas vezes rotineira e sem a criatividade própria de quem é habitado pelo Espírito Santo.
Vais adiar uma vez mais
Transfigurar-Te?
quarta-feira, março 09, 2011
cinzas...para dar novas cores ao coração?!
A cinza é incómoda. O seu simbolismo recorda-nos, de imediato, destruição, precariedade, talvez, quem sabe, catástrofes. Será oportuno falar ainda hoje, quase ao jeito de desmancha-prazeres, na cinza? Afinal, não estará este símbolo, diante de uma sociedade tão cheia de tudo, em rota de colisão com aquilo que é o bem-estar e a felicidade do homem de hoje? Não estará a Igreja (“como sempre!”, dirão alguns) com este sinal a contribuir para que a vida do homem seja mais triste, mais enfadonha, quiçá até mais desesperada?...
A imposição da cinza não é um gesto meramente de lembrança da morte, da caducidade e do pecado. Com ela começamos a quaresma, isto é, um caminho que nos conduz à Páscoa. Portanto não se trata de um gesto masoquista ou penitencial vazio. Não é a celebração de um dia isolado de outros. A imposição das cinzas é um sinal de começo, é início de um caminho, é convite á participação da vida plena: a Ressurreição de Cristo.
Mais do que um caminho deprimente, repetitivo ou pessimista, como superficialmente alguns podem pensar, a quaresma é um tempo de novidade permanente. É o tempo para redescobrirmos nas cinzas do homem velho a novidade de um Deus que não desiste e que em Cristo nos dá a medida para o homem novo, não mais segundo a carne mas vivo para sempre segundo o Espírito.
As cinzas recordam-nos afinal que a vida não tem uma cor só. As cinzas alargam o horizonte da nossa inteligência e do nosso coração recordando-nos que com Cristo é sempre possivel recomeçar, ir mais além...dar novas cores à vida!
quinta-feira, março 03, 2011
(d)escrever-me!...
À medida que o tempo passa, e com a velocidade a que corre a informação, fácilmente "postamos", "clickamos", "Tagamos"...enfim, um mundo de gestos e hábitos que a pouco e pouco nos fazem perder a capacidade de verbalizar quem somos, o que sentimos, como estamos, como nos vemos, o que sonhamos...Habituámo-nos a viver, em algumas (talvez muitas) situações, sem "narrar a vida", deixando que simplesmente ela nos leve. domingo, fevereiro 13, 2011
um Amor (e)terno...
e tu, porque resistes?...
sexta-feira, fevereiro 11, 2011
quarta-feira, janeiro 26, 2011
Deus não desiste...
domingo, janeiro 23, 2011
Desconcertante...e irrecusável!
A proposta de Jesus é sempre desconcertante...e irrecusável!Na escola da Palavra, para quem deseja ler e viver mais profundamente a sua vida, o apelo do Mestre na liturgia de hoje é muito claro, incisivo, directo: «Convertei-vos, porque está próximo o Reino do Céu.»… só assim se pode compreender e aceitar o convite (irrecusável):
«Vinde comigo e Eu farei de vós pescadores de homens.» E eles deixaram as redes imediatamente e seguiram-no.
sexta-feira, dezembro 10, 2010
Na Fonte da Palavra...(Mateus 11,16-19)
sábado, dezembro 04, 2010
Na Fonte da Palavra...(Mt 9, 35 – 10, 1.6-8)
A palavra revela-nos um Deus compassivo…um Deus que assume em si e para si os dramas humanos. Diante de um mundo, e um tempo, marcado pela insegurança, diante de tantos feridos pelo ódio, a inveja, o sucesso a todo o custo,...
Jesus apresenta-se como o Rosto da compaixão, ou melhor, apresenta-se como a Compaixão que se faz salvação. O "programa do Reino" que chega ao coração dos homens é muito claro: ir aos últimos, levar-lhes a Boa Nova libertadora curando, ressuscitando, sarando, aliviando…
como “receptores activos da Graça” somos também convidados a ser “esbanjadores” dela…pois se tudo é dom, dom maior é partilhá-lo!
Meditando
como cristão sou desafiado a ser outro Cristo, a revestir-me dos seus sentimentos...O meu coração é compassivo diante de todos os dramas humanos? Procuro aliviar os que andam cansados e oprimidos? Procuro ao jeito de Jesus ser guia (pastor) para os que perderam o sentido mais profundo da vida?...
Rezando-LHE
Senhor Jesus,
Tu és o Bom e Belo Pastor
Sem Ti os nossos dias são vazios
A nossa vida não tem rumo
reveste-me com os sentimentos do Teu coração…
sexta-feira, dezembro 03, 2010
Na Fonte da Palavra...(Mt 9, 27-31)
Quase todos vamos experimentando em algumas circunstâncias da vida a incapacidade de ler o nosso próprio coração, de descobrir qual o caminho a seguir ou, como acontece algumas vezes, não descortinar a presença viva e actuante de Deus em nós, nos outros, no mundo…Tais situações são muitas vezes encaradas com uma dramaticidade quase trágica: o hoje já não teve “ontem” e dificilmente terá “amanhã”. Mas Jesus diz-nos que se confiarmos nEle com todo o nosso coração e a nossa inteligência as trevas que nos cegam darão lugar à Luz que é Ele. Basta que ousemos gritar-lhe como os dois cegos: «Filho de David, tem piedade de nós»…
Meditando
Quais são as minhas “cegueiras”? e como lido com elas?...
Rezando-LHE
Senhor Jesus,Tu és a Luz do mundo,
Bem sabes que às vezes me deixo cegar pelo orgulho, vaidade, vingança…
Abre os meus olhos à Tua luz, Ensina-me a procurar-Te e acolher-Te
mesmo quando tudo é noite,
mesmo quando parece já não valer a pena…
quinta-feira, dezembro 02, 2010
Na Fonte da Palavra...(Mt 7, 21.24-27)
Entre a exigência e a ternura, Jesus vai-nos propondo o “perfil” do discípulo. A verdade acerca de Deus e do homem só se capta na profundidade, por isso, ser discípulo de Jesus significa antes de mais “aprender a construir” uma casa (Vida) sobre a pedra angular, a rocha firme, que é Ele. Não há vida cristã sem Cristo! Por isso, falar de prudência neste contexto não significa “jogar onde é mais favorável” mas antes “perder-se” (confiar-se) nas mãos deste Deus que nos chama para Si. É nesta fidelidade criativa que todos e cada um de nós nos havemos de (re)descobrir como casa edificada por Deus… só n’Ele, por Ele e com Ele evitaremos a banalidade…
Meditando
A Palavra interpela-me à coerência entre o que sou, faço e rezo. Que “casa” estou a construir?...
Rezando-LHE
Senhor Jesus,Tu que és a rocha firme,
Ensina-me a viver uma vida marcada pela fidelidade à verdade,Pelo amor a Deus e aos irmãos, Ensina-me a não fugir da responsabilidade, a não desistir quando houver dificuldades, na hora das dúvidas ilumina-me com a certeza da Tua presença…
quarta-feira, dezembro 01, 2010
Na Fonte da Palavra...(Mt 15, 29-37)
Em Jesus o Deus que cura é também o Deus que sacia…Um Deus que mata a nossa fome de sentido, de verdade, de alegria, de esperança. Por Ele todos são convidados a participar no banquete universal da salvação…A mesa de Deus é mesa para todos, é a mesa posta para os pobres, o lugar do encontro e da intimidade, o sinal da pertença e da Presença, a fonte da Esperança e da Compaixão, o sacramento do Amor que salva a partir de dentro, do mais profundo da nossa realidade. É aí que percebemos que a eucaristia é “o Pão para os pecadores”, o único alimento que sacia os viandantes que rumam para a intimidade da Trindade.
Meditando
Como vai a minha “proximidade” com a Eucaristia?...
Rezando-LHE
Senhor Jesus,Tu és o Pão da Vida plena,
Ensina-me a adorar-Te com um coração de criança,
A falar-Te com a humildade dos simples,
A receber-Te com a confiança dos Santos,
A partilhar-Te com a audácia dos Mártires…
terça-feira, novembro 30, 2010
Na Fonte da Palavra...(Lc 10, 21-24)
Jesus é o rosto do Deus da alegria. “Contemplativo” diante do regresso dos seus discípulos regressados da missão Ele reconhece em tudo o que aconteceu a bondade actuante e próxima do Pai. Um Pai que se revela aos que são pequeninos, aos humildes, aos que se deixam “encher de Deus”. À Felicidade de Deus deve também corresponder a felicidade dos discípulos uma vez que em tudo o que aconteceu Deus lhes permitiu verem mais e mais longe…a eles foi-lhes dada a alegria de sentirem palpitar o coração de Deus no meio dos homens e mulheres do seu tempo, de cada tempo.
Meditando
Como vai a minha “proximidade” com o Pai?
Sinto-me verdadeira e plenamente Seu Filho?... Deus é a causa da minha Alegria?...
O retorno da missão desafia-nos sempre à gratidão.
Que tenho hoje para agradecer a Deus?...
Rezando-LHE
Senhor Jesus,Tu és para mim o rosto terno e misericordioso do Pai,Ensina-me a viver em profunda comunhão com Ele,Dá-me um coração capaz de O invocar na tristeza e de celebrar com Ele cada dom recebido ou partilhado…
segunda-feira, novembro 29, 2010
Na fonte da Palavra...(Mt 8, 5-11)
Diante da presença de Jesus o centurião não hesita em aproximar-se dAquele que sempre se faz próximo. Jesus não teme ir à casa dele. Não teme entrar na sua intimidade e curar o que necessita de ser curado…O centurião sabe que a palavra de Jesus é poderosa, sanante, pacificadora. No seu coração ele sente e sabe que Aquele homem é Deus, é o Filho de Deus, aquele que vem para que tenhamos vida em abundância (cf. Jo 10, 10)… mas sente que é indigno de acolher tão grande dom. E Jesus, que bem conhece o coração de todos os homens, não hesita em afirmar: “não encontrei em Israel tão grande fé”.
Meditando
Como vai a minha “proximidade” com Jesus e com a Sua Palavra?... - De que “paralisias” preciso de ser curado?... - Que desafios me lança a fé (confiança) do centurião?...
Rezando-LHE
Senhor, Bem sabes que muitas vezes sinto que não sou digno que entres na “minha casa”: no meu coração, na minha intimidade, na minha vida...Ensina-me a confiar plenamente em Ti,concede-me o dom de uma fé humilde e alegrepara que possa acolher-Te a Ti que vens de novo até nós….
segunda-feira, novembro 22, 2010
O Rei vai nu…
Vem tudo isto (ainda) a propósito da solenidade do Rei-Cristo. Agrafo assim o título da solenidade, pois habituados que estamos à pompa e à circunstância (vazias de tudo e cheias de nada), num tempo débil como o nosso, podemos facilmente incorrer em leituras ideológicas e politicas do mistério de Deus, por exemplo, numa nostalgia monárquica, quase visceral, por oposição à res-publica, ou, ainda no campo das hipóteses da nossa excelsa liberdade, numa leitura anárquica do tempo actual centrada numa individualização subjectivista do “tanto me faz…para mim é assim!”.Há já algum tempo que me habita “o mistério da vulnerabilidade”…e gosto de reflectir sobre o mundo, sobre o Cristianismo, sobre a igreja, sobre mim, a partir desta chave de leitura: o cristão é chamado pelo Mestre a viver, como Ele e com Ele um amor-desarmado, vulnerável.
O amor é ainda, em algumas circunstâncias, um belo acto formal, uma abstracção logicamente formalizada mas que não serve para coisa nenhuma...
Talvez por isso, quando se fala em vulnerabilidade, muitos se assustem, e acorram logo com sinos arrebate, como se de uma nova heresia dos tempos modernos se tratasse, pensando que se deseja a “canonização da fragilidade humana”, de um jeito resignado e fatalista. Não! A vulnerabilidade de que falo não é a de uma des-responsabilização do humano, muito menos a de uma qualquer fuga pseudo-espiritual, que procura em Deus um refúgio para não se confrontar com o que se é.
Falo da vulnerabilidade, como escola e como mistério, naquela lógica do memorial eucarístico que nos recorda que “não há maior amor (vulnerável!) do que dar a vida pelos amigos”; Ou naquela lógica do amor desarmado (e até ao fim!) do Rei dos reis e Senhor dos senhores, que nos diz, rasgando de alto a baixo a nossa inteligência e o nosso coração, “Tomai, isto é o meu corpo entregue por vós”.

Assim, a solenidade que celebramos, é como que um espelho colocado diante de nós, para que, de uma forma serenamente cristã, cada um se veja e reveja no seu modo de amar e de acolher o amor. Por isso o formal fica de fora, não tem aqui lugar, é desadequado, inestético, agressivo…é anti-Reino (de Deus).
Põe-nos em causa, o Messias-feito-Cruz. Convida-nos a revisitar a história humana (e a nossa história pessoal) como lugar de salvação e não de perdição.
Amplia os nossos horizontes, com a bem-aventurança de um Reino Novo e Eterno, que não me dispensa, do qual sou herdeiro…onde o que conta não é o mérito mas a verdade…do que sou e do que sinto, do que vivo…do onde estou…e do onde Ele me quer.
Despe-nos este Rei-Nu da tentação da vaidade, de nos acharmos os melhores e os maiores, e convida-nos a redescobrir que é dos fracos que Ele é o Deus-Forte.
Desmascara-nos nas “boas intenções” (tantas vezes mescladas de nós e vazias de Deus) e convida-nos a olhar para além do que vemos, intuindo e enraizando em nós este jeito Messiânico de ser Deus-connosco, Deus-para-nós, Deus-em-nós e Deus-de-nós.
Provoca-nos, este Rei Crucificado-Ressuscitado, a acolher a história como caminho, a ser cristão sendo (e)ternamente peregrino, a sermos uma Igreja que caminha com a humanidade e que não teme pôr-se em causa, ver-se e rever-se em Deus, em Cristo, no Espírito Santo…enfim, um convite à vulnerabilidade-evangélica que o Pai nos mostrou em Jesus e que sempre renova em nós com o Seu Espírito de Amor.
Diante do Rei-Nu:
Pilatos permaneceu armado de certezas (de coisa nenhuma) diante do amor-desarmado;
Pedro permaneceu certo de tudo (e com medo de todos) ao perceber que o amor não fere…mas dá-se (incompreensível este mistério para um coração que teima em não-se-pôr-em-causa);
O Centurião procura a lógica (para o irracional) e é desarmado por Aquele que contempla, ferido (de amor), trespassado (pelos nossos males).
Um dos ladrões, sem saber ao certo a graça de ter tal Companheiro na sua última viagem, “rouba” ao Amor a graça de ser ternamente perdoado (redescobrindo que o arrependimento não mata, mas converte e salva!);
E eu? E tu?...o que vês no Rei-Nu?
domingo, novembro 07, 2010
adversário do absurdo...profeta do significado

domingo, outubro 31, 2010
Estranha multidão...a dos Santos!
Partilho contigo que por aqui passas, um pequeno texto que em tempos me chegou às mãos com a referência de ter sido lido numa paróquia de Lisboa na celebração própria deste dia de Todos-Santos.
Não conheço o autor, mas provoca-nos e ajuda-nos a rezar...
"Estranha multidão
a dos Santos.
Passam na estrada silenciosos
Levando as estrelas das bem-aventuranças
Gravadas
Na fronte.
São de todas as raças
de todas as cores
de todos os partidos
de todos os povos.
Usam grilhetes de escravos
Tiaras de Papa.
Calçam sapatos brilhantes
Pisam o chão descalços.
Morreram virgens
Foram casados.
Eram sábios famosos
Viveram ignorados.
Usaram saris indianos
Turbantes árabes.
Eram peles-vermelhas
Negros de África.
Sofreram todas as perseguições
Todas as guerras
Todas as fomes
Todas as revoluções.
Foram profetas
Mártires
Ascetas.
Mendigaram amor
E receberam em troca
Pedras por pão.
Foram vadios
Prostitutas
Ladrões.
Escreveram poemas
Compuseram música
Pilotaram aviões.
Têm as mãos calejadas
De todas as ferramentas inventadas
Desde os primeiros dias
Da Criação.
Cavaram a terra
Partiram pedras
Revolveram minas
Semearam o pão.
Foram pobres
Puros
Pacíficos.
Choraram
Desejaram a justiça
Usaram misericórdia.
Foram amaldiçoados
Perseguidos
Nesta terra que hoje
Pisamos…
Passam na estrada silenciosos
Comovidos
- misteriosa via-láctea de estrelas
Que na noite cerrada
Ilumina o caminho".



