segunda-feira, março 11, 2013

Nos (a)braços do Pai…

A nossa vida é uma viagem, melhor, uma ‘peregrinação’ feita de ritmos certos e de outros ‘descompassados’. Feita de passos dados com firmeza e de falta de ousadia para dar outros tantos. Somos uma história feita de audácia, de determinação, de criatividade e, em algumas circunstâncias, de medo(s), confusão e rotina. Mas quem bebe na fonte da esperança sabe sempre ver mais longe e mais profundamente…É que a história não se resume aos factos que se sucedem, aos acontecimentos que vivemos e/ou às memórias que ficaram… 
 
A HISTÓRIA É SEMPRE UM CONVITE A “LEVANTAR-SE!”, é apelo a construir futuro sem viver agrilhoado ao passado. É desafio a saborear o presente de modo activo e corresponsável. Gosto pois de olhar a vida como uma ‘pauta musical’ onde o silêncio e as notas entram numa ‘DANÇA’ feita de TERNURA e de AMOR que dão ritmo e fazem nascer a melodia. E foi assim, nesta cadência de escrever a melodia de ‘uma vida feita de partidas e regressos’, que me deixei interpelar pelo Evangelho deste Domingo.
Dei por mim a perguntar-me: «Como terão sido aqueles dias?...»…Um prato que sempre esteve na mesa, não estava a mais…apenas à espera! Um Pai ‘inquieto’, que não dorme e corre para a porta, de cada vez que ouve o rumor de passos, esperando aquele que parece nunca mais chegará...Um filho, ou melhor, dois que não se dão conta do quanto este Pai os ama e de como aquela casa ‘não faz sentido’ se eles não viverem esta ‘sinfonia’ de UM AMOR QUE SE DÁ SEMPRE, QUE SE DÁ TODO…EM TUDO!

Olhando a natureza, por entre a chuva que vai caindo, vejo também uma ‘polifonia de vida e de amor’ a despontar. As árvores vestem-se de ‘Páscoa’, muitas já cheias de flores, e a Páscoa acontece quando o nosso coração de filhos, estejamos onde estivermos, decide ‘levantar-se’ e ‘regressar a casa!’…

Por entre a memória e o afeto dos caminhos percorridos, por entre a exigência e a ternura de um regresso e de um futuro que nos pertence construir no ‘aqui’ e ‘agora’ da nossa existência, desperta-nos o apóstolo S. Paulo quando nos diz: «Se alguém está EM CRISTO, é uma nova criatura. As coisas antigas passaram; TUDO FOI RENOVADO. Tudo isto vem de Deus, que por Cristo nos reconciliou consigo» (2 Cor 5, 17-21).

Há um abraço que sempre nos espera,
Há um Deus que só sabe abraçar(-Te)!

A caminho da Páscoa espera-te 'esse abraço'!...BOA SEMANA!

domingo, março 03, 2013

"Minoria criativa" ...



Os frutos de um pontificado não se colhem todos no imediato, é preciso que o tempo passe para que se possam ler e colher com mais profundidade. Se tivesse que definir o pontificado de Bento XVI talvez a expressão que, a meu ver, melhor o definiria seria “minoria criativa”. Creio que a expressão condensa a renovação espiritual que ele pretendeu suscitar, o diálogo entre a fé e a razão que alimentou e desenvolveu com uma intensidade talvez nunca antes vista na história da Igreja e a experiência do diálogo ecuménico e inter-religioso que levou por diante. Por outro lado, creio que ao jeito dos profetas procurou trazer já à reflexão no presente, com a lucidez de quem lê na fé os acontecimentos da história, aquela que num tempo muito breve será a condição dos crentes, sobretudo no contexto europeu. A primeira vez que Bento XVI falou desta realidade foi na sua viagem no voo para Praga em, 26 setembro 2009, quando foi interpelado pelos jornalista acerca do facto da igreja ser, naquele país, uma minoria e de como poderia ela contribuir para o bem da nação. Na ocasião respondeu assim: «Normalmente são as minorias criativas que determinam o futuro, e neste sentido a Igreja católica deve compreender como minoria criativa que tem uma herança de valores que não são coisas do passado, mas uma realidade muito viva e actual».
Ser uma minoria criativa, capaz de interpelar pela densidade com que vive e celebra o dom da fé toda a humanidade, de modo a que esta repense o seu modo de viver, de olhar o homem e de se comprometer com a história, eis o trabalho destes 8 anos de pontificado. Passar de uma fé feita de uma ‘tradição’ que se deixou cristalizar pelo tempo e pela acomodação, a uma fé que ‘incomoda’, que suscita perguntas, dada a radicalidade e profundidade com que é vivida e anunciada nos gestos quotidianos. Basta estar atento ao percurso que nos propôs nas suas encíclicas e isso torna-se ainda mais evidente.
A uma Igreja (europeia!) errante e confusa o Papa propõem-lhe a redescoberta do ‘coração’ e dos ‘sinais da fé’, não pela via da opulência, do esplendor dos séculos passados, mas pela via da beleza e da verdade quotidianas de quem sabe dar razões da sua fé e da sua esperança, num cristianismo cheio de vida e audácia evangélica que faz da Igreja uma casa aberta ao mundo, no coração do mundo.
Esta insistência e este percurso do pontificado de Bento XVI não são uma ideia suscitada do acaso só porque hoje se ‘começam a esvaziar as igrejas na europa’, esta ‘intuição profética’ foi sendo amadurecida durante toda a sua vida, de um modo particular nos anos post-conciliares, quando o jovem teólogo Ratzinger em 1969, num conjunto de lições radiofónicas, disse o seguinte: «Da crise hodierna nascerá uma igreja que terá perdido muito. Tornar-se-á pequena e deverá repartir mais ou menos dos inícios. Não será mais capaz de habitar os edifícios que construiu em tempos de prosperidade. Com a diminuição dos seus fiéis, perderá também grande parte dos seus privilégios sociais. Repartirá de pequenos grupos, de movimentos e de uma minoria que recolocará a fé no centro da experiência. Será uma igreja mais espiritual, que não se arrogará um mandato politico flirtando ora com a esquerda ora com a direita. Será pobre e tornar-se-á a Igreja dos indigentes. Então as pessoas verão aquele pequeno rebanho de crentes como qualquer coisa de totalmente novo: descobri-lo-ão como uma esperança para si mesmos, a resposta que sempre tinham procurado em segredo» (J. Ratzinger, Faith and Future, Ignatius Press, 2009).
É para o futuro que aponta Bento XVI. Um futuro escrito não apenas com ‘tonalidades’ mas com a ‘verdade total’ do Evangelho. Ao apontar para o futuro deixa-nos como legado imediato três desafios muito concretos: Uma vida cristã autêntica, feita de um cristianismo ‘credível’; Uma igreja mais ‘leve’ e ‘transparente’, não assente no poder, nas intrigas palacianas, mas cada vez mais voltada para a missão, para o anuncio alegre e determinado da salvação de Deus em Cristo; Um apelo a vencer a indiferença e o relativismo que nos rodeiam com uma capacidade de diálogo capaz de ouvir os que pensam de modo diferente, trilhando com eles ‘o caminho do belo’ para que, por essa via, redescubram o Homem e o mundo como expressão de Deus que é Amor.


segunda-feira, fevereiro 25, 2013

ESCUTA(-ME)...

Para amar é preciso dar-se.
Para ver não bastam os olhos, é preciso também o coração.
Para caminhar não basta saber onde se deve ir, é preciso dar passos concretos.
Para crescer, é preciso aprender a escutar!


‘ESCUTAR’ é uma 'arte' difícil, exigente. Todos ouvimos, mas nem todos escutamos! A FÉ nasce da escuta, da escuta atenta que é fruto do ENCONTRO da nossa razão e do nosso coração com Aquele que nos ama desde sempre e para sempre. Disse-no-lo o Papa Bento XVI no último sábado: “Crer não é mais do que, na escuridão do mundo, tocar a mão de Deus e assim, no silêncio, escutar a Palavra, ver o Amor.”

O nosso quotidiano deveria sem um tempo, um espaço e uma oportunidade para todos crescermos na capacidade de escutar. Quando escutamos os outros, as suas histórias, os seus anseios, os seus sonhos, crescemos sempre! É este o convite que o Pai nos lança para esta semana também, o de uma escuta activa, empática, com o único que pode dar razões de esperança ao nosso ser e ao nosso existir, segreda-nos assim o Pai ao coração: «Este é o meu Filho, o meu Eleito: escutai-O» (Lucas 9, 28-36).

A verdadeira 'transfiguração da vida' acontece quando começamos a escutar(-nos)! É que dentro de cada pessoa há um universo imenso, uma 'constelação de coisas bonitas' que nem a noite pode apagar. Tal como Abrãao foi chamado a ver na noite os milhões de estrelas que cintilam e que dizem que o dia (= um tempo novo) já vem a caminho (Génesis 15, 5-18), também cada um de nós é chamado a ver na sua vida, dentro de si, estas pequenas ‘estrelas’, esta luz, que desperta para um tempo de renovação…É que “transfigurar” a vida, o nosso quotidiano, é muito mais do que fazer coisas. E essa descoberta faz-se quando se descobre que:

'SÓ SE ESCUTA BEM COM O CORAÇÃO'! 


«Senhor, abre os nossos ouvidos à Tua voz
E rasga os nossos corações
com a ternura da Tua Palavra.
Transfigura os nossos dias,
Com o Teu amor feito Páscoa,
faz brilhar nas nossas trevas a luz do teu perdão,
e faz que os nossos gestos e palavras nunca sejam de vaidade e orgulho.
Reveste-nos de coragem para não cairmos na indolência
de quem se resigna a ver a vida passar…
E, no fim, dá-nos a alegria plena de viver para sempre contigo».

domingo, fevereiro 17, 2013

Deixar a errância para entrar em Casa…



Pode um “coração inquieto” desenhar novos mapas no quotidiano? E com que ‘seguranças’ se faz um projeto?...Entramos na quaresma. 40 dias para aprenderes a olhar para além do deserto…Caminharás com os pés descalços…ao teu ritmo. Um convite a deixar a errância para entrar em Casa…



Errância

Dentro de nós há muitos trilhos para percorrer. O nosso “mapa interior” fala-nos de quotidiano feito de muitas histórias e encontros. Fala-nos de momentos e pessoas, de acontecimentos que nos marcaram mais profundamente ou de outros que simplesmente o tempo levou…Mas a vida que somos, e a história que vamos escrevendo, traz também consigo muito de errância, de trilhos percorridos com banalidade, de momentos em que cedemos o passo à amargura de desfiar os dias sem luz e sem cor…e quando parece que já não há história para acontecer e vida para viver, enrola-se o “mapa da vida” cedendo uma vez mais o passo, como que definitivamente, a um conformismo que agrilhoa pés e mãos, faz embotar a cabeça e o coração e olha o quotidiano como o tempo da perdição



Mas se muita vida é feita de errância, mesmo nos trilhos e caminhos mais ignotos, há sempre uma porta (a da Fé) que abre horizontes novos, faz despertar o coração e ensina a reescrever a vida e a história (pessoal) com um rumo que, afinal, faz sentido. É desta errância de quem busca rumo e se deixa abraçar pela novidade que nos fala a ‘confissão de Fé’ com que hoje nos brinda o Livro do Deuteronómio:



Meu pai era um arameu errante, que desceu ao Egipto com poucas pessoas, e aí viveu como estrangeiro” (Deut. 26, 4-10)



Sem terra, sem pátria, sem identidade, sem história. Aparentemente uma errância que conduz ao vazio. E no entanto Deus faz despontar o novo! Da escravidão do Egipto saem já em longa ‘procissão’ os que hão-de sentar-se como filhos e irmãos na mesa do banquete da Nova Aliança. Do anonimato do estrangeiro nasce a nova identidade, não mais de servo mas de amigo, concidadão dos santos. E aos apátridas Ele, o criador do Universo, faz agora, e para sempre, herdeiros do Reino novo e eterno que mais ninguém lhes pode roubar…Toda a errância se faz sem ver claro, é passo no desconhecido, mas com Deus nenhum caminho leva ao incerto. E isto não podemos esquecê-lo!



Memória

A errância encontra sentido e rumo quando o coração se deixa habitar pela memória agradecida de quem aprendeu a ver no tempo o Eterno a tecer com ‘ouro fino’ uma existência que é dom e que é chamada ao gratuito de um amor que só sabe servir e acolher, sem julgar e sem temer. E se, como no-lo recorda S. Paulo, “com o coração se acredita” (Romanos 10, 8-13) então um ‘coração sem amnésia’, e grato, faz acontecer o milagre da fé. De uma fé que nasce do Encontro, que é gerada pela Palavra em cada verbo, adjectivo ou substantivo pronunciados na ‘narração do quotidiano’ e que se renova na partilha fraterna à volta da mesa dos irmãos quando na fracção do Pão se gera, como naquele entardecer no Cenáculo, o milagre da Vida em abundância. 


A memória, agraciada e agradecida, é um convite a não “remoer a fragilidade passada” mas a deixar que ela seja ternamente envolvida, como uma mãe que afaga um seu filho, com o perdão que converte e salva. E quantos abraços destes, com coração e perdão, nós precisamos de receber…e de dar!



Projeto

Entrámos na quaresma! Não se trata de uma ‘rotina masoquista’ para “cristãos frágeis que ainda não sabem comportar-se bem”. Atravessar a porta (da Fé) em tempo de quaresma significa predispor o coração e a inteligência a caminhar, não na errância mas na confiança, tal como o Mestre que “durante quarenta dias, esteve no deserto, conduzido pelo Espírito” (Lucas 4, 1-13).

Entrar nos desertos que nos habitam ou que gerámos, em nós e nos outros, dinamizados pela confiança significa essencialmente recusar-se a viver num conformismo de quem repete rotinas sem celebrar a vida, de quem se gasta na preguiça de não querer crescer, de quem se senta a ver a vida passar…provavelmente seria mais cómodo, mas a vida assim não teria sabor!



É a confiança que gera em nós a capacidade de construir, de abrir com serenidade e realismo as portas do futuro, sem nos refugiarmos no passado ou sem vivermos amarguradamente o presente. Da confiança nasce a responsabilidade, que é um outro modo de dizer Fidelidade…diária…progressiva…humilde…ativa…alegre! Diante de todas as ‘tentações’ (dentro ou fora de nós) não somos simplesmente os que resistem, nem vivemos a vanglória de nunca cair…Somos aqueles que com coração de filhos aprenderam a não desistir de  invocar: “Pai, não nos deixes cair em tentação…livra-nos do mal!”. E isto sim, é um projeto! Eu vou vivê-lo, e tu?