quinta-feira, outubro 17, 2013

Para amar…não basta ter coração!



Para «derrubar» muros é preciso abraçá-los! Parece estranho, não? Mas é verdade.
Já viste quantas coisas mudam em ti com esse ‘poder vulnerável’ que tem a Ternura?

Amar alguém significa dizer-lhe, com a vida, os lábios, a inteligência e o coração: «partilho a minha vida contigo e, se necessário, darei a minha vida por ti!». É que o amor não é um sentimento. É uma opção, uma decisão, um projecto…mais ainda, é um estilo de vida!

Para amar não basta ter ‘coração’…Quantas vezes feridos com a vida, e com os outros, o nosso coração se fecha em si mesmo? Um ‘coração ensimesmado’ é muito perigoso pois facilmente constrói um arsenal de defesa(s) e generosamente começa a construir um sem-fim de muros, de barreiras, de ‘portagens’ e de ‘alfândegas’ onde tudo é cobrado e taxado, onde tudo é passado pelo crivo do rancor e pelos critérios de uma ‘memória amarga’…

Um coração livre, ‘cheio de Deus e casa aberta para todos’, só se constrói quando nos deixamos vencer, convencer e revestir pela Ternura…Gosto de imaginar o mundo ritmado por ela. Um mundo onde a ‘ternura’ é Rainha, mestra e modelo. Um mundo cheio de abraços que curam feridas, um mundo feito de sorrisos que devolvem esperança, um mundo feito de projecto com ‘o outro ao centro’, um mundo onde as palavras são apenas ‘sinfonia agradecida’ para cantar o essencial que já é visível aos olhos…

Gosto de imaginar a Ternura como ‘um perfume’ derramado cada-dia-em-cada-vida. Um perfume de Vida. De Páscoa. De Ressurreição. Um perfume novo que converte a vida e transforma o coração…o perfume que Agostinho, o convertido de coração livre, canta assim:

«Tarde Te amei, beleza antiga e sempre nova, tarde Te amei!
Tu estavas dentro de mim e eu estava fora de mim.
Era nesse fora que eu Te procurava;
com o meu espírito deformado, precipitava-me sobre as coisas formosas que criaste.
Tu estavas comigo, mas eu não estava contigo…
Retinha-me longe de Ti aquilo que não existiria se não existisse em Ti.
Chamaste, gritaste e rompeste a minha surdez.
Brilhaste, resplandeceste e dissipaste a minha cegueira.
Exalaste sobre mim o Teu perfume: aspirei-o profundamente e, agora, suspiro por Ti.
Saboreei-Te, e tenho fome e sede de Ti. Tocaste-me e agora desejo ardentemente a tua paz».



O mundo sem ternura seria um gélido museu de memórias passadas! 

Quem se abre ao futuro desperta(-se) da sonolência do conformismo e começa a gerar um ‘coração de discípulo’. É que para amar não basta ter coração…é preciso que ele seja ‘peregrino’…é preciso que ele abrace e se deixe abraçar…é preciso que aceite ‘estar’ e livremente ‘deixe partir’…porque afinal, todas as histórias de amor começam com o verbo DAR!




domingo, outubro 06, 2013

SERVIR(-se)!?...



«Era uma vez…uma ilha, pequena, a norte do continente africano. 
Um lugar muito belo, apreciado pelos turistas. 
Tem 5 mil habitantes, são muito simpáticos e afáveis. 
Tem uma área de 20,2 km². 
Um mar calmo, de águas quentes, e um suave perfume. 
É bonita, não achas?...»



Interrompo esta bela história para te dizer que estou aqui, sentado diante do computador. É Domingo. Já celebrei Eucaristia. Fui ouvir o Papa no ‘Angelus’ na praça de S. Pedro…Escutei bem o ‘peso’ de afecto, ternura e sofrimento que tinham esta palavras: «Gostaria de recordar com vocês as PESSOAS que perderam suas vidas em Lampedusa, na quinta-feira passada. Vamos todos rezar em silêncio por estes NOSSOS IRMÃOS E IRMÃS: mulheres, homens, crianças...DEIXEMOS CHORAR NOSSOS CORAÇÕES. Rezemos em silêncio».



Dei por mim, quase sem querer, a perguntar como Habacuc na primeira leitura da Eucaristia de hoje: “Até quando, Senhor, pedirei socorro, sem que me escutes? Até quando clamarei: «Violência!», sem que me salves? Porque me fazes ver a iniquidade e contemplar a desgraça?”



No ‘grito’ deste homem de Deus está também o grito de tantos e tantas que nestes dias viraram ‘vítimas’ e ‘número’ (hoje já vai em 211!). Fala-se hoje de Lampedusa (sim, é esse o nome daquela ilha) de modo leviano! Alguns ‘servem-se’ para ter audiência…para outros ‘serve’ como pedra de arremesso para uma qualquer oposição tão partidarista quanto oportunista.



De pergunta-em-pergunta dou-me conta novamente do que disse (e de como disse!) o Papa. Não se serve das PESSOAS QUE MORRERAM para ter um ‘share de audiência’…também não faz delas uma arma ‘sindicalista’ para uma qualquer exigência…e, ao contrário de mim, pobre pecador, também não faz perguntas a Deus…antes, coloca-os no coração de Deus pois sabe que são seus (e nossos!) irmãos e irmãs…e pede que deixemos “chorar o coração”…



Sabe o valor de uma lágrima quem tem memória, sabe o que é o dom da fé quem não foge da história, da realidade, e sabe quem é Deus aquele que descobriu a todos como irmãos.



Para viver na Fé, e com Fé, este jeito de ser “servo inútil a tempo pleno”, como diria D. Tonino Bello, é preciso pedir a Deus que nos liberte da autossuficiência que dispensa os outros e o Outro, pedindo-lhe também que nos dê a coragem de repetir em cada respiro: «aumenta a nossa [pequena] fé»…



Se acreditamos com o coração, professamos a fé com os olhos abertos! E não podemos ignorar ou contornar a realidade. Mas, já viste como é tão acomodado o nosso (o meu) ser cristão? Queres um exemplo? Faço-o em modo de pergunta: «Como é que reages quando algum mendigo na rua vem pedir-te algo?»…Aí tens a resposta! Não basta só dar-lhe uma moeda ou ignorá-lo. É ali que a “Lampedusa quotidiana” ganha (mais um) outro rosto e coração em agonia…é ali que ‘desembarca’ na nossa vida, diante de nós, na praia da nossa existência (a ‘1 km do areal’- como dizem hoje no telejornal!) alguém que sucumbirá certamente, agora não afogado no mar de águas calmas, mas provavelmente no mar da nossa indiferença...



Afinal, se olho para a vida, «Lampedusa» não é simplesmente o nome de uma ilha «lá longe na Itália»…Lampedusa é aqui tão perto! E as pessoas que morrem perto da minha/tua praia continuam a ser tantas, não achas? Talvez fosse bom começar a semana a transformar em interrogação a afirmação com que o Mestre nos interpela no final do Evangelho (Lucas 17,5-10) neste Domingo: 

 «Somos servos…e fiz(emos) o que devía(mos) fazer?»


segunda-feira, setembro 23, 2013

A LIBERDADE...é DIZER "SIM"!



 O Evangelho é uma escola de liberdade. Em cada encontro, em cada diálogo, com cada pessoa, o Mestre acolhe a “biografia” do que fomos e somos e abre-lhe sempre horizontes novos. É a ‘pro-vocação’ daquele que nos ama desde sempre, o único e que pode dar sentido novo, um novo alento, aos nossos dias tantas vezes cheios de rotinas e de medos.

Mas olhemos mais atentamente o nosso quotidiano. Com que liberdade é que ele é tecido? Com que profundidade é que ele é celebrado? Às vezes andamos tão cheios de coisas e preocupados com tantas outras…que a nossa liberdade se resume não a fazer escolhas, discernidas e amadurecidas, mas simplesmente a repetir rotinas. Seria muito pouco se liberdade fosse simplesmente “fazer aquilo que me apetece”, a verdadeira liberdade é dizer sim ao que me constrói, ao que me humaniza, ao que me aproxima mais do céu e que não me descompromete com a terra.É desta liberdade interior, desta sabedoria do coração, que nos falam as leituras desta semana. Somos livres não simplesmente para ‘voar’, como diz a canção, somos livres para crescer! De que serviria uma liberdade que não nos ajudasse a crescer, por dentro e com os que nos rodeiam?

A liberdade nunca é uma ilha, é autónoma mas é sempre dialógica. Uma liberdade que não gera o encontro, que não suscita a partilha, que não promove a justiça, não merece ser acreditada, vivida ou celebrada. Diz S. Paulo que a liberdade só se entende quando se torna ‘aliança’ com a caridade (= amor que se faz serviço ao outro), pois uma liberdade que não serve…não serve! A Liberdade gerada pelo Espírito (Santo), de que fala o apóstolo, é aquela que nos faz ver no outro um irmão. E quando os outros são nossos irmãos, então somos todos família e o mundo torna-se uma casa comum que é preciso cuidar…imagina a liberdade que te trará olhares assim a realidade?

É também com a liberdade que nos confronta hoje o Evangelho. A proposta de Jesus é muito clara: «Segue-Me». Trata-se de fazer opções amadurecidas no encontro com Ele. Por isso, recordava-nos o Papa Francisco: «Jesus quer-nos livres, como Ele, com a liberdade que vem desse diálogo com o Pai, com Deus. Jesus não quer cristãos egoístas, que seguem o próprio eu, que não falam com Deus, nem cristãos fracos, que não têm vontade, telecomandados, incapazes de criatividade, que procuram sempre ligar-se à vontade de outros e não são livres”, acrescentou, de improviso…se um cristão não sabe falar com Deus, não o sabe escutar na sua própria consciência, não é livre…Temos de aprender a escutar mais a nossa consciência, mas cuidado: isto não significa fazer seguir o próprio eu, dar espaço ao que me interessa, o que me convém, o que me agrada, não é isso. A consciência é o espaço interior da escuta da verdade, do bem, da escuta de Deus».

A liberdade exige o amor. O amor exige discernimento. O discernimento suscita o compromisso e o compromisso liberta-nos do medo!

quarta-feira, junho 19, 2013

FORA DO AMOR…NÃO HÁ SALVAÇÃO!

Imagina um mundo sem amor?
Sem amor, o que seria de cada amanhecer ou de cada jardim que floresce? Sem amor, não cantariam os pássaros nem veríamos as estrelas a iluminar a escuridão. Sem amor, o que seria de ti e de mim? Seríamos desconhecedores da ternura, errantes, num vazio dentro e fora de nós, ruminando amargura e ‘celebrando’ o sem-sentido.

O amor para ser verdadeiro, dentro e fora de nós, não precisa de ser adocicado, nem uma ‘história perfeita’. Já reparas-te, por exemplo, como há tanto amor nas tuas cicatrizes? Sim, só o amor pode curar as nossas ‘chagas’ e não nos deixar cair no desespero, no lamento ou na angústia. É que o amor não é uma ‘história de Hollywood’ e muito menos uma ‘capa de revista’. O Amor é a sede que trazes dentro e que dá ritmo ao teu quotidiano. O amor desperta em ti o infinito e faz-te mergulhar profundamente para além da ‘espuma’ dos dias. No amor não há rotina, mas sim fidelidade. No amor, o cansaço chama-se ‘entrega’ e o estar próximo chama-se ‘servir’...

É de Amor e de recomeço que nos falam as leituras deste Domingo. É que o Amor nunca desiste…de recomeçar! Às nossas buscas, tantas vezes sem norte (desnorteadas, portanto!), Deus responde sempre com um excesso de dom que desconcerta todas as nossas lógicas: A misericórdia. Ela é o perfume do quotidiano, aquele ‘amor que vai a caminho’ e se ajoelha para ajudar o outro a levantar-se e a recomeçar…não acusa, perdoa. Não recrimina, liberta. Não olha para trás, aponta o futuro.

Sem Misericórdia (= amor que oferece sempre futuro) é impossível abraçar o passado. E sem abraçar o passado, com total confiança, não há arrependimento. É que, ao contrário do que se pensa, o arrependimento não mata…mas sim converte, e faz amar! Todos nós somos esta história de reconciliação entre passado-presente-futuro. Assim como num violino as cordas vibram para despertar em nós, com o seu som, um abrir infinito de janelas na alma, também a misericórdia ‘acorda’ e faz ‘vibrar’ o nosso coração, para despertar nele a sintonia (e a sinfonia!) da vida.

Na história da mulher do Evangelho estamos todos nós! Não é uma ‘mendicante’, é uma ‘Confiante’. Porque arrepender-se é um acto de fé (= confiança), e só na fé se percebe tamanha ternura e delicadeza. Quem ama não tem nada a perder, porque amar não é fazer contas! Quem ama confia. E quem confia vive em paz. Vive reconciliado. O Papa Francisco disse há uns tempos que muitas vezes “os únicos óculos de que dispomos para ver bem a Deus são as nossas lágrimas”. Aquela mulher compreendeu isso e entregou as suas lágrimas como se fossem os diamantes mais preciosos de toda uma vida, feita de buscas talvez erradas, mas finalmente ‘re-feita’ no encontro que salva! É que, quando se descobre Cristo, quando se mergulha a fundo na sua Páscoa, muda tudo! O passado não é mais acusação mas convite a deixar-se abraçar pelo Amor. O presente não é mais um peso, ou rotina, mas a escola quotidiana onde dom e partilha se conjugam com fidelidade. O futuro, esse, é convite a construção conjugando o perfume da esperança com o bálsamo da Eternidade. Pois como nos recorda S. Paulo na II leitura, Só o Amor, total e jubiloso, pode dizer: «Não sou eu que vivo: é Cristo que vive em mim».

E quando é assim, quando se vive assim, então, é Páscoa todos os dias!
Porque…Só no Amor é que há salvação. Boa Semana ;)


EVANGELHO - Lucas 7, 36-50
DESAFIO – Perdoa, Perdoa-te…e Reconcilia(-te)!