um espaço de partilha, reflexão, discussão e anuncio do amor misericordioso de um Deus loucamente enamorado por todos os que criou à sua imagem e semelhança...
Procuro-Te
por entre uma multidão
que caminha e se atropela
entre ciclos de vaidade e confusão
procuro-Te e não Te Vejo, onde estás?
e assim, por entre uma amálgama de gente,
busco o Teu rosto, sem Te ver
procuro o Teu olhar, sem o merecer
desejo o Teu amor, para me não perder...
e num gesto derradeiro,
em sobressalto,
um velho sicómoro
é lugar caricato para me encarrapitar
ao menos para ter o gosto de Te ver passar...
nesta demanda de um velho peregrino
que quer caminhar,
mesmo sem entender o caminho,
ali estou,
mais perto do céu, nas alturas,
…e nunca me senti tão pequeno.
Sou eu,
Eu sei que Tu o sabes,
Me conheces e sondas,
E no cruzar de olhares,
Desmoronas a pequenez do meu querer,
E do crer de tantos dias rotineiros.
Quero ficar em ti,
na tua casa, Hoje!
A minha alma estremece e vibra,
atónita talvez,
No desconcerto de ter o Tudo em mim,
Comigo, no meu lar,
E mesmo sem falar digo que sim!
O meu coração pequeno,
Tantas vezes pródigo de Deus e de mim,
Teima em não se calar: “a medida de Deus é amar” E como címbalo sonoro
Rompe a mudez da vida,
Triste e aborrecida,
E num dar-me sem medida
Convida-me a partilhar.
Na multiplicação por quatro
Vão as fronteiras quebradas
dum orgulho “em-mim-mesmado”
que se abriu à novidade
da eterna claridade
de um Deus em mim “acampado”.
e na alegria do encontro
com o Fiel peregrino,
nesta casa de Zaqueu,
quem desceu daquele sicómoro,
atónito e transformado,
já percebi…que fui eu!
A santidade é um
caminho feito de quotidiano, não se improvisa, nasce da
fidelidade gerada e desejada em todos os dias. Nasce de um coração que se
alegra por semear eternidade em cada acontecimento e em cada pessoa. Nasce da
fé, do encontro com o Deus-Amor que nos habita e nos ‘habilita’ a sermos
“santos como Ele é Santo”.
A santidade é, para tantos, ‘inconveniente’, dado
que é uma
provocação a não nos acomodarmos. Ela é 'perigosa' por causa do bem que faz despontar, pela
gratuidade que semeia, pela sabedoria com que ensina a viver, isto é, pelo
'discernimento' que ajuda a ler a vida com Esperança e a projectá-la com
Fidelidade. É ‘perigosa’ também pela 'sabedoria do coração' que suscita e que
faz olhar a vida como uma constante 'peregrinação'...é por isso que a Santidade nunca
é light... Ela desinstala-nos...sempre!
«Os pobres em espírito, os humildes, os que
choram, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os puros de
coração, os que promovem a paz, os que sofrem perseguição por amor da justiça»
de que nos fala o Evangelho (Mt 5, 1-12) não são uma espécie de ‘super-homens’
ou ‘super-mulheres’ de um passado lá longe, também não são ‘extraterrestre… os Santos são sempre ‘intraterrestres’! Vivem o Evangelho com
os pés na terra! Eles, vivendo no coração do mundo, comungaram dos mesmos
sofrimentos, dúvidas, falhas e medos que nós experimentamos diariamente…mas
decidiram quebrar a ‘solidão autonómica’
e abrir-se, como dizia S. Máximo, à Theo-nomia,
isto è, àquela liberdade onde é Deus quem dá ritmo, saber e sabor ao caminho de
cada dia. É por isto, e por muito mais, que a santidade é sempre um convite à transgressão. Ela é desafio
permanente, como o ressoar de um campanário, a superar ‘medidas curtas’, a
olhar a realidade como dom e a vivê-la no ‘excesso do dom’.
A santidade nunca se contenta com um cumprimento ‘escrupuloso’
da lei, supera sempre todo e qualquer legalismo, pois o seu centro é a ‘lógica
do dom’. É também por isto que a santidade não se coaduna, nunca, com maiorias
ou consensos alargados (como agora é moda dizer-se na política!). A santidade é
sempre livre para obedecer e humilde para discordar. É profecia de comunhão e adversária da solidão. É escola de servos e nunca promotora de vaidade.
A santidade não se incensa nem se lamenta, não ataca
nem defende, mas Escuta, Dialoga e Entusiasma! É que a
Santidade é o respirar da vida a plenos pulmões, ou seja, é aquela sintonia e sinfonia de uma vida que se torna, cada vez mais, ‘a casa do Amor’.
A santidade é, então, a Páscoa feita quotidiano!
A santidade não é uma conquista pessoal mas desafio/chamamento
à perseverança e à confiança filial, porque os santos são os que não desistem de recomeçar, são os que
vivem ancorados na misericórdia infinita de Deus. São aqueles que aprenderam a
dizer a Deus, com a vida, “seja FESTA a Tua vontade!” (Don Tonino Bello). São
os que descobriram a sua condição de Filhos (1 Jo 3, 1-3), não como uma ‘ideia’ ou uma ‘boa
intenção futura’, mas na carne, no coração e na inteligência, no quotidiano…os
santos são os que se colocam a caminho, com determinação, sem medo e sem
reservas, de coração aberto…como aquela multidão incontável (Apoc. 7, 2-4.9-14),
que vinda da grande tribulação, se encontra agora com o Cordeiro para se deixar
conduzir por Ele.
Celebramos hoje a
solenidade de “todos os santos”, isto é, a certeza que nos vem da fé de que
entre o tempo e a eternidade não há descontinuidade mas uma comunhão de vida,
de vida (e)terna, uma vida que se faz cântico permanente à Santidade de Deus.
Celebramos a
multidão de homens e mulheres que deram ‘carne’, rosto e voz ao Evangelho. Alguns
são da nossa família, nossos amigos e conhecidos.
Celebramos a
alegria da fé e a certeza de que não caminhamos sozinhos. Somos da Família de
Deus. Somos A Família de Deus, Templo de Deus, chamados a viver de olhos
abertos e coração disponível o Evangelho.
E para que possamos ser mais
santos e mais irmãos, para que possamos alegrar-nos e exultar, viver e partilhar
a verdade com “esta
geração dos que procuram o Senhor” (Salmo 24) peçamos-Lhe com fé:
Queremos ser Santos, Senhor,
queremos recomeçar,
com um coração novo e disponível,
aberto à Tua Palavra e comprometido com os irmãos.
Dá-nos, Senhor, um coração simples para Te contemplar,
um coração generoso para Te acolher,
um coração sábio para Te procurar em todas as
situações.
Livra-nos, Senhor, do medo e da acomodação,
Livra-nos do conformismo de quem acha que ‘já não vale
a pena’.
Dá-nos um coração entusiasmado,
cheio de alegria em procurar-Te,
com a ternura de um coração materno
com o entusiasmo de uma criança,
com a sabedoria dos idosos,
com a audácia dos jovens,
com a determinação dos mártires,
com a fidelidade dos santos.
Dá-nos, Senhor,
Um coração que sabe esperar…
…um coração que sabe esperar-Te.
É por tudo isto,
então, que a santidade é SEMPRE um convite à transgressão…pois cada baptizado, mesmo não sendo um ‘fora-da-lei’, é sempre aquele que vai (e
se dá) para além dela. Boa Festa…Todo(s)
Santo(s), é o que te desejo!
Rezar não é fácil, desnuda-nos. Confronta-nos com o
que somos, com o que fizemos e com o que podemos ser. Rezar é abrir-se ao
futuro! Há quem diga que para rezar é preciso ter coragem. Eu, pessoalmente,
acho que o que é verdadeiramente necessário é ter amor! Só reza quem ama. A
oração é, no fundo, uma questão de ‘cor-ação’. É perceber, afinal, que a nossa
teimosia, os nossos ritmos sempre em ‘descompasso’, as nossas lamúrias (acerca
de nós e dos outros), a nossa falta de esperança, os nossos horizontes curtos, necessitam
de um constante ‘upgrade’ de Amor, de um permanente ‘download’ de Esperança e,
necessitam ainda, de serem provocados para um ‘upload’ quotidiano das nossas vivências,
dos nossos passos, cheios de Páscoa...mas não ‘cheios de nós’. É que a oração
liberta-nos do ‘narcisismo’, talvez seja por isso que rezar parece (a tantos e
tantas vezes) uma missão impossível.
É por isto, e por muito mais do que isto, que Jesus
recorda no Evangelho de hoje (Lucas 18, 1-8) «a necessidade de orar sempre sem
desanimar». Reza quem descobre que não é autossuficiente, reza quem sabe que
Deus escuta a voz dos humildes. Reza quem percebe que a oração não é ‘magia’
mas Encontro, feito de vida. Sim, rezar é respirar a Vida! A ‘viúva’ que bate à
porta e clama por justiça, recorda-nos que é preciso ser fiel, perseverar, não
deixar morrer os sonhos, cuidar do nosso ‘jardim interior’ onde ‘Deus faz novas
todas as coisas’ e abrir-se ao futuro com uma confiança ilimitada.
Quem reza não ‘envelhece’! E não se trata de fazer ‘plásticas’,
pois a oração não é carnaval nem uma questão de ‘estética’ ou de ‘cosmética’.
Quem reza não ‘envelhece’, porque aprende a ver e a saborear a novidade
permanente de Deus no mundo não com o saudosismo do tempo que já lá vai, não
com a ingenuidade optimista das fugas para a frente, mas com aquele realismo
evangélico de quem sabe que todo o tempo é tempo de Deus, é ‘Kairós’, tempo da
salvação viva e activa, uma salvação que é (um) presente!
Rezar, no fundo, é a confiança feita acção! Dizia Madre
Teresa de Calcutá: «nós complicamos a oração como complicamos muitas outras
coisas. Ela é – para vós, para mim, para todos nós – amar Jesus com um amor sem
reserva e sem limite. E esse amor, sem reserva e sem limite, é posto em prática
sempre que fazemos o que Jesus nos diz: ‘Amai-vos como Eu vos amei’».
Rezar é, portanto, redescobrir no Amor a coragem de
se abrir ao futuro, sem isolamento ou depressão, mas fraternamente, em
comunhão. A oração é o modo ‘inventado’ por Deus para nos ajudar a ‘desmascarar’
a nossa indiferença quotidiana, para nos ensinar a contemplar os outros com um ‘coração
de criança’, para nos fazer saborear a vida em cada respiro e para nos fazer
olhar para além de nós…porque rezar é habitar (desde já) a eternidade.
Rezar dá-nos ‘discernimento’, isto é, um coração que
sabe ler os factos como ‘história de salvação’. Uma história da qual faço parte
e à qual faço falta! Rezar torna-nos ‘radicais’, ou seja, ensina-nos a viver a
partir da raiz das coisas e não tanto da ‘espuma dos dias’. Rezar dá harmonia
ao quotidiano fazendo de cada gesto, palavra ou silêncio um “cântico de
gratidão” que nos leva a dizer: «Meu Deus, pelo que passou ‘obrigado’. Ao que está
para vir: ‘Sim’».
Precisamos de rezar! Rezar o que somos, agradecer o
que temos. Precisamos de rezar uns pelos outros, porque a oração quebra a
indiferença…e faz a diferença. Não te esqueças então que toda a oração começa
com o verbo confiar(-se).
DESAFIO: Escolhe para cada dia desta tua semana uma
pessoa e/ou uma situação pela qual queiras rezar. Confia tudo isso e todos
esses, em cada amanhecer, ao nosso Deus que é Amor. Fá-lo do jeito que quiseres…pois
na oração ‘o jeito certo’ é mesmo rezar. Eu rezarei por ti! BOA SEMANA!
Para «derrubar» muros é preciso abraçá-los! Parece estranho,
não? Mas é verdade.
Já viste quantas coisas mudam em ti com esse ‘poder
vulnerável’ que tem a Ternura?
Amar alguém significa dizer-lhe, com a vida, os
lábios, a inteligência e o coração: «partilho a minha vida contigo e, se
necessário, darei a minha vida por ti!». É que o amor não é um sentimento. É
uma opção, uma decisão, um projecto…mais ainda, é um estilo de vida!
Para amar não basta ter ‘coração’…Quantas vezes feridos
com a vida, e com os outros, o nosso coração se fecha em si mesmo? Um ‘coração
ensimesmado’ é muito perigoso pois facilmente constrói um arsenal de defesa(s)
e generosamente começa a construir um sem-fim de muros, de barreiras, de ‘portagens’
e de ‘alfândegas’ onde tudo é cobrado e taxado, onde tudo é passado pelo crivo do
rancor e pelos critérios de uma ‘memória amarga’…
Um coração livre, ‘cheio de Deus e casa aberta para
todos’, só se constrói quando nos deixamos vencer, convencer e revestir pela Ternura…Gosto
de imaginar o mundo ritmado por ela. Um mundo onde a ‘ternura’ é Rainha, mestra
e modelo. Um mundo cheio de abraços que curam feridas, um mundo feito de
sorrisos que devolvem esperança, um mundo feito de projecto com ‘o outro ao
centro’, um mundo onde as palavras são apenas ‘sinfonia agradecida’ para cantar
o essencial que já é visível aos olhos…
Gosto de imaginar a Ternura como ‘um perfume’
derramado cada-dia-em-cada-vida. Um perfume de Vida. De Páscoa. De Ressurreição.
Um perfume novo que converte a vida e transforma o coração…o perfume que Agostinho,
o convertido de coração livre, canta assim:
«Tarde Te amei, beleza antiga e sempre nova, tarde Te amei! Tu estavas dentro de mim e eu estava fora de mim. Era nesse fora que eu Te procurava; com o meu espírito deformado, precipitava-me sobre as coisas formosas que criaste. Tu estavas comigo, mas eu não estava contigo… Retinha-me longe de Ti aquilo que não existiria se não existisse em Ti. Chamaste, gritaste e rompeste a minha surdez. Brilhaste, resplandeceste e dissipaste a minha cegueira. Exalaste sobre mim o Teu perfume: aspirei-o profundamente e, agora, suspiro por Ti. Saboreei-Te, e tenho fome e sede de Ti. Tocaste-me e agora desejo ardentemente a tua paz».
O mundo sem ternura seria um gélido museu de
memórias passadas!
Quem se abre ao futuro desperta(-se) da sonolência
do conformismo e começa a gerar um ‘coração de discípulo’. É que para amar não
basta ter coração…é preciso que ele seja ‘peregrino’…é preciso que ele abrace e
se deixe abraçar…é preciso que aceite ‘estar’ e livremente ‘deixe partir’…porque
afinal, todas as histórias de amor começam com o verbo DAR!