domingo, janeiro 12, 2014

MERGULHAR OU VIVER À SUPERFÍCIE?...



Era um dia como tantos outros, aquele dia, nas margens do Rio Jordão. Não sabiam, os que ali se encontravam, que estava para começar um ‘tempo novo’, desenhado com as carícias do Amor Eterno e ‘grávido’ de Salvação.
 

Podemos imaginar, com um coração habitado pela ‘memória reconciliada’, o mundo de perguntas, projectos e sonhos que preenchiam no coração daqueles que estavam na fila para ser baptizados por João…Quanto caminho (interior) percorrido, quanto desejo convertido e pronto para ser ‘confirmado’ com a graça do (re)começo.
 

Também nós nos encontramos nessa fila de peregrinos abraçados pelo desejo da conversão, habitados pelo sonho e dinamizados pela memória. Também nós habitamos as margens deste “Jordão quotidiano” que é o Encontro com o Evangelho, com Cristo, que agora caminha connosco. Também nós assistimos, como os contemporâneos de Jesus, desconcertados com este Deus-Peregrino que para superar as nossas ‘medidas curtas’ e dar eternidade ao nosso agir se mete na fila sem ‘passar à frente’ e sem ‘atropelar o tempo’. É verdade, a ‘delicadeza de Deus’ encanta-nos sempre e desconcerta-nos…Na Sua pedagogia, Deus não acelera o ritmo, confere-lhe uma intensidade nova! Esse é o ‘segredo’ do Evangelho. Porque não nos quer ‘à margem’ do grande Rio da Vida e porque não nos salva ‘por decreto’, Jesus não hesita em ‘comungar’ o que somos e como estamos, para nos dar o que Ele é, para nos (re)fazer, a partir de dentro, colocando no centro aquilo (e aqueles!) que não podem ser periferia.



É por tudo isto que o Céu se ‘rasga’ para sempre (e Deus jamais se preocupará em consertar essa ‘brecha’!) de modo a fazer-nos ouvir, em cada dia, em cada hora a única Palavra que pode reconstruir, reintegrar, ressuscitar: «Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha COMPLACÊNCIA» (cf. Mt 3, 13-17). Na fisiologia ‘complacência’ indica a capacidade de distensão de certas estruturas elásticas como os vasos sanguíneos, o coração, pulmões, etc...e o Coração de Deus alarga-se, e é sempre ‘maior’, de cada vez que um seu filho/a não hesita em mergulhar neste grande Rio da Vida (E)terna que é o Seu amor por nós.



Jesus, com este ‘mergulho’ profundo nas águas (tantas vezes paradas!) da nossa vida, vem dizer-nos que nos assume, por inteiro, por dentro. Somos a sua história e Ele quer ser história de Salvação connosco, para nós, em nós. E, para que não nos habite a indiferença, Isaías, profeta da Esperança e da Consolação, sussurra-nos o ‘sonho de Deus’: «Fui Eu, o Senhor, que te chamei…tomei-te pela mão, formei-te e fiz de ti a aliança do povo e a luz das nações, para abrires os olhos aos cegos, tirares do cárcere os prisioneiros e da prisão os que habitam nas trevas» (Is 42, 6-7).



Ser ‘baptizado’, ser ‘comungado’, é ser também ‘confirmado’ numa Esperança e numa Missão concreta, recorda-nos o Papa Francisco: «É graças ao Baptismo que somos capazes de perdoar e amar também quem nos ofende e nos faz mal; que conseguimos reconhecer nos últimos e nos pobres o rosto do Senhor que nos visita e se faz próximo. O Baptismo ajuda-nos a reconhecer no rosto dos necessitados, dos sofredores, também do nosso próximo, a face de Jesus».



Sendo assim…vais ‘mergulhar’ ou viver (somente) à superfície? 
BOA SEMANA!


segunda-feira, dezembro 16, 2013

VOU (D)ESCREVER-TE UM SEGREDO…

Há em todos nós um ‘sussurrar do coração’ que, lentamente, vai germinando um desejo muito profundo de encontro, de uma esperança nova, de um tempo novo. Todos sabemos, e experimentámos já, o valor de uma carícia, de um beijo ou de um abraço. Sabemos também o que é ‘pressentir’ a chegada de alguém a quem amamos. Mas, sabemos também o que é aguardar no silêncio a sua chegada. Fazer caminho de Advento, deixar que a esperança dê firmeza aos nossos passos, constância o nosso coração, discernimento ao nosso agir, implica fazer esta longa viagem que nos leva, de silêncio em silêncio, ao Encontro com Aquele que é a Palavra. Implica, principalmente, deixarmo-nos envolver pela ternura de um silêncio que não nos esmaga ou recrimina, mas antes nos recria, refaz, ‘ressuscita’, porque o silêncio que nasce da fé nunca é de acusação, mas de misericórdia, ternura, recomeço, alegria…

E é na alegria, no Júbilo (= ‘coração que dança’), que nos fazem entrar as leituras que escutámos neste domingo e que nos ‘abrem a porta’ desta semana. Em todos nós, há silêncios que precisam de ser ‘iluminados’, há noites que precisam de ‘(re)nascer’ para puderem dar lugar ao dia, há ‘fronteiras’ que continuam a precisar de ser alargadas, redesenhadas, para que ‘dilatando’ o coração possamos também aumentar o amor que colocamos em cada gesto, palavra ou pensamento. A um ‘povo desalentado’, Deus envia um ‘profeta e consolador’ que os convida à alegria que ‘ressuscita’ a vida, que gera novidade, sobretudo onde a vida se fez ‘deserto’ e se tornou auto-convencimento de que mudar/melhorar é impossível....

Deus surpreende sempre! Entra na nossa vida e ‘recicla’ todos os esquemas mentais feitos só de ‘eus’ e abre-nos a um ‘nós’ que gera partilha, fraternidade, confiança, comunidade. É para isso que é preciso ter ‘coragem’ e ‘não temer’, porque a alegria de quem tem fé, de quem ousa acreditar e confiar(-se), é uma alegria sempre ‘irradiante’, contagia, transforma. É a alegria amadurecida no silêncio, dada à luz pela ‘conversão’, uma alegria que suscita a esperança e robustece o amor.

A alegria não se pode ‘programar’. Programamos o divertimento mas não a alegria. Ela é ‘gerada’ de cada vez que fazemos escolhas bem discernidas, é gerada em vidas que se deixam trabalhar pelas ‘mãos do amor’, em olhares que não se deixam vencer pela indiferença, em corações que não se apegam ao ódio ou ao rancor…(só) compreendem bem este ‘mistério’ os pobres! Sim, só os que vivem com ‘um coração de pobre’ é que sabem ‘pressentir’ e ‘degustar’ este vibrar quotidiano das ‘cordas do coração’ tocadas pelo amor sempre (e)terno de Deus…

Os sinais da (Verdadeira) Alegria são bem claros: Abrem-se os olhos para ver a realidade com um coração novo; Desentorpecem-se as pernas para caminhar com determinação, sem lamentações do passado e sem medo do futuro; Rompe-se a surdez e abrem-se os ouvidos para que não sejamos indiferentes ao grito dos pobres que clamam por dignidade, justiça, amor; Somos curados das ‘lepras’ para nos lembrar que o nosso corpo é a ‘carne de Cristo’, casa da graça e dos afectos, e tudo isto é ‘boa nova’, anuncio aos pobres, porque a alegria que nasce da fé nunca é auto-referencial, é sempre ‘eucarística’ e com-partilhada (cf. Mt 11, 2-11). É que a alegria não é um evento, nem uma data na agenda, ela é um Encontro, quotidiano, com rostos e com história, com memória e cheia de futuro, tecida com a ternura de uma carícia e celebrada com o júbilo de um (re)nascimento.

Falei no início que ia (d)escrever-te um segredo, ora aqui vai: A alegria é um ‘segredo’ que trazes dentro, e que se multiplica e valoriza de cada vez que Lhe dizes: «seja FESTA a Vossa vontade!» (Don Tonino Bello). Por estranho que te pareça, a alegria, para ser verdadeira, nasce sempre do silêncio e passa sempre pela cruz. Não existe sem ela, e vive sempre abraçada a ela! É por isso, que a alegria de que te falo (e que te habita) é uma ‘alegria Pascal’, atravessa os ‘vales da morte’ levando nos lábios a Palavra da Vida; Porque só sabe servir, faz suas as ‘chagas’ do irmão; Porque é (e)ternamente peregrina aceita entrar em todas as casas, mesmo que seja já o ‘entardecer’; E, como é filha do silêncio e irmã da pobreza, é sempre ‘pão repartido’ com os indigentes de amor; É recomeço para quem se descobre pecador!

Não há, portanto, alegria maior, do que a de sabermos «que a vinda do Senhor está próxima», tão próxima…que Ele está já no meio de nós! Consegues vê-Lo?...BOA SEMANA!
 

domingo, dezembro 01, 2013

Entrar na ‘dança’ do Encontro…- I Domingo Advento




Gosto de olhar a vida como uma ‘dança’, cheia de movimento, de ritmos mas também de silêncio, daquele silêncio atento ao detalhe, onde a elegância se desenha com a simplicidade da ternura.



A dança exige sempre a sensibilidade, isto é, um coração capaz de escutar, capaz de se deixar abraçar e envolver até ao mais profundo para ‘ressuscitar’, a partir de dentro, aquele ‘primeiro instante’ da criação. A dança move e comove. Faz ver o belo e semeia o infinito. Desperta o sonho e enraíza a esperança…e é na Esperança que se faz a ‘gestação’ do Encontro, com o Outro, com os outros. É também de Encontro, de Caminho, de Movimento (= dança) que nos falam as leituras com que ‘abrimos a porta’ deste Advento 2013.



Vigiar, estar atento, perscrutar nos outros, no tempo e na história, o ‘perfume’ e a presença de Deus, aprender a mergulhar no quotidiano, a plenos pulmões, para converter as ‘espadas da indiferença’ em corações fecundos, as ‘lanças do ódio’ em sementes de paz, as ‘guerras’ (dentro e fora de nós) em gestos de fraternidade, de comunhão, de compaixão (1ª Leitura).



É preciso que a (nossa) noite, já pintada de luz pela filigrana das estrelas, possa ‘dar à luz’ um novo dia, tecido de esperança e de encontro(s). Um dia, uma vida, beijada pelo futuro e capaz de ‘germinar’ no quotidiano, tantas vezes rotineiro, aquela ‘vontade firme’ de fazer de cada encontro um milagre de vida, de escuta, de atenção, de…



Recorda-nos o Papa Francisco, na exortação publicada esta semana, que “o Evangelho convida-nos sempre a abraçar o risco do encontro com o rosto do outro, com a sua presença física que interpela, com o seu sofrimentos e suas reivindicações, com a sua alegria contagiosa permanecendo lado a lado”(EG 88) e chama a este ‘encontro’ a “reconciliação com a carne dos outros”.



Sim, precisamos de nos ‘deixar tocar’ sem medo de nos deixarmos ‘ferir’. Sim, precisamos de amar sem medo de ‘sujar as mãos’. Sim, precisamos de mudar sem medo ‘do que virá’…porque o futuro não é amanhã, é hoje! É preciso gerar o encontro e não dar ‘encontrões’, é preciso escutar sem ‘devorar’ as palavras, é preciso ‘dar Cristo’ a quem tem fome de vida…e é preciso dar pão a quem não tem de comer! Assim como o amor não se improvisa, assim também o Encontro não pode ser uma ‘abstração’, uma ‘ideia piedosa’. Para gerar o Encontro é preciso ‘estar’ e ‘ser’, é preciso dar…e dar-se!



Se o advento é convite à ‘vigilância’ (= redobrar a ‘atenção do coração’), ele é, na sua raiz mais profunda, um convite ao (re)encontro. É desafio a ‘revestir-se do Senhor Jesus Cristo’ (2ª leitura) para ‘assimilar’ os seus sentimentos, imitar o seu agir e, viver com o Pai e o Espírito, um amor que se faz ‘dança (e)terna’, celebração, encontro que converte a vida e transforma o coração.



F. Nietzsche escreveu um dia que «só acreditaria num Deus que soubesse dançar», o que ele não sabia é que Deus dança mesmo! E Deus dança em nós, e connosco, quando a nossa ousadia não teme pedir-Lhe:



“Senhor, ensina-nos o lugar que, no eterno romance iniciado entre Ti e nós, ocupa o baile especial da nossa existência. Revela-nos a grande orquestra dos teus desígnios, na qual Tu semeias notas estranhas, na serenidade do que Tu queres. Ensina-nos a vestir todos os dias a nossa condição humana como um vestido de baile que nos fará amar por Ti todos os seus pormenores, como jóias que não podem faltar. Faz-nos viver a nossa vida, não como um jogo de xadrez, em que todos os movimentos são calculados, não como uma partida em que tudo é difícil, não como um teorema que nos faz quebrar a cabeça, mas como uma festa sem fim em que se renove o encontro contigo. Como um baile, como uma dança, entre os braços da tua graça, na música universal do amor” (Madeleine Delbrêl).





DESAFIO:

Um Advento cheio de ‘presenças’! Em cada dia da semana escolher uma pessoa por quem rezar, a quem ligar/visitar, etc...BOA SEMANA! ;)

segunda-feira, novembro 18, 2013

PERSEVERANÇA: o amor 'abraçado pela criatividade’!

Toda a nossa vida é feita de ‘esperas’. Desde que fomos gerados esperamos 9 meses para levar alegria e despertar gratidão. Enquanto somos pequenos esperamos aquela carícia materna/paterna depois de um joelho ferido num jogo de futebol ou depois de uma luta com ‘os outros meninos que são maus’. Quando somos adolescentes/jovens desejamos que ‘os velhos’ não chateiem muito, embora esperando que estejam lá, no momento certo, no caso de algo dar errado. Quando adultos esperamos que as grandes opções da juventude possam ser confirmadas numa vida ‘longa e feliz’, pois é o tempo de fazer florescer os tantos sonhos que temos para realizar, é tempo de colher os frutos dos projetos que estiveram a germinar. Por fim, quando o sol parece declinar e a vida quase chega ao seu ocaso, somos um ‘tesouro de sabedoria’, que anseia por escuta atenta das histórias repetidas mil vezes, uma carícia nas rugas, um olhar terno e meigo que veja para além do tempo que passou por nós, um acariciar das mãos quando no inverno elas teimam em não mais aquecer, enfim, esperamos que a memória não nos atraiçoe e esperamos que a ‘memória do coração’ mantenha acesa a chama dessa espera que se faz esperança, encontro com o que é definitivo.

É desta ‘Esperança que gera o encontro com o que é definitivo’ que nos fala o Evangelho neste Domingo (Lucas 21, 5-19). Cada um de nós traz inscrito no coração o desejo de eternidade. Somos o ‘sonho de Deus’, marcados pela fragilidade mas, “por causa do Seu nome”, revestidos de infinito em cada passo, em cada respirar da nossa alma, em cada desejo do que é bom e belo. E porque o definitivo abraça o que é provisório, a história não é um peso que devemos carregar ‘tristes, sós e abandonados’, ela é irrupção do (E)terno, tempo cheio de ‘graça’ e templo onde flui a graça de um quotidiano que nos chamar a ‘ir para além dos limites’.

Somos mais do que o que vemos! Não somos um erro cometido, não somos ‘eternamente vítimas’ nem simplesmente ‘futuros vencedores’; para nós o tempo não é o lugar da angústia nem a vida ‘um vale de lágrimas’…Somos peregrinos, homens e mulheres a caminho, animados por um desejo profundo: dar rosto à alegria do Evangelho! Sabemos que hoje talvez se tenham ‘invertido’ perspetivas e valores. Talvez seja ‘réu de morte’ ou merecedor de ‘castigo’ aquele que diz a verdade. Talvez fosse mais fácil ‘fazer como todos fazem’…mais fácil era, mas não é o melhor!

E quem vive do Evangelho, sem preguiça e futilidades (2ª leitura), sabe que tem assim ‘ocasião de dar testemunho’, sem atacar e sem precisar de se defender, pois quando ‘a vida fala’ não são necessárias as palavras.

A vida chama por nós! Interpela-nos o drama das Filipinas, da Síria, como nos deve interpelar também os idosos que vivem sozinhos, os casais que conhecemos e estão em crise, os jovens que estão desempregados,…e que dizer (pelo menos agora que está frio!) dos que vivem na rua…sem aquecimento ou uma sopa quente, sem uma carícia que esperam lhes chegue de um desconhecido que não tenha medo de se dobrar e ‘tocar a carne de Cristo’ (Papa Francisco).

A vida não se improvisa, o amor não se compra, a perseverança não se adia. Ontem já passou e amanhã já é tarde! Não é preciso ‘sufocar’ a vida o que é preciso é deixar que ela ‘germine’ em cada gesto, em cada passo, todos os dias. É preciso encher de futuro cada acontecer, pois a vida está ‘grávida’ de esperança. É isso perseverar! É saber colher o perfume do (E)terno no quotidiano enchendo de Páscoa cada rotina, pois é próprio de quem ama saber esperar…e é próprio de quem espera saber amar. É que a perseverança é ‘outro nome’ para dizer ‘o amor abraçado pela criatividade’, um amor que é capaz de (re)inventar em cada dia a alegria de recomeçar…sem medo! Não te esqueças que esta semana Jesus anda por aí, no teu dia e na tua vida, a dizer-te: «Pela tua perseverança salvarás a tua alma». 'Bora lá? Boa Semana!
 

segunda-feira, novembro 04, 2013

A ‘MATEMÁTICA’ DE ZAQUEU E O ‘GPS’ DE DEUS …



Há 2 dias, no telejornal, falavam das dificuldades a nível familiar com a ‘nova matemática’ que hoje é ensinada nas escolas. Vem isto a propósito de Zaqueu, o ‘homem de pequena estatura’ de que nos fala o Evangelho (Lc 19, 1-10). É um homem de bolsos grandes e de coração pequeno, é um homem ‘mirrado’ porque é um saqueador da dignidade dos outros. É rosto de um sistema que oprime, que amordaça os mais débeis, que obedece a uma lógica onde o ‘humano’ e o ‘dom’ não têm vez nem voz.



A matemática de Zaqueu obedece a uma lógica muito semelhante à que vivemos hoje: num ambiente dominado pela ‘lógica de mercado’, as pessoas são ‘números’ que se podem ‘manipular’ ou ‘ignorar’, consoante o que é mais conveniente, ou, para agravar esta ‘lógica da indiferença’, elas são consideradas apenas como uma percentagem (a dos desempregados, por exemplo) que é preciso ‘diminuir’ mas que em cada dia se vê aumentar!



É com esta lógica matemática, que lhe faz ‘mirrar’ o coração e que lhe estreita os horizontes de vida, que Zaqueu se torna um errante. Anda à procura, de Deus e de si …é um ‘peregrino sem rosto’ e ‘sem alcance’ no meio de uma multidão que não lhe abre espaço para olhar mais longe e ver mais profundamente. Às vezes também nós caminhamos ‘sem lógica’, sem rumo,…com os nossos bolsos cheios de passado mas com um coração que teima em não se abrir ao futuro. Esta ‘matemática de Zaqueu’ é tantas vezes a nossa…Ele não sabe partilhar, não se deixa ajudar, vive em fuga, numa ‘ilha de solidão’ onde parece não mais haver porta para se entrar e lugar à mesa para dialogar.



Mas às contas de Zaqueu, à sua ‘matemática quotidiana’, cheia de rotinas que não se abrem ao infinito, faltava um ‘olhar novo’, ampliador de horizontes, transformador de corações. É o olhar de Jesus! É nele que nos devemos concentrar. Jesus vai a caminho, é a última etapa do percurso iniciado em Lucas 9,51-62. O encontro olhos-nos-olhos, a conversa com Zaqueu, não é um ‘acidente’ de percurso! Jesus anda à ‘procura do que estava perdido’, o ‘GPS’ divino anda a ‘reconfigurar’ os caminhos da humanidade, anda a ‘ampliar’ os horizontes, obrigando-nos também a ‘desenhar com as cores do amor’ novos mapas para o encontro, para a partilha, para o perdão…enfim, um desafio constante à nossa capacidade de ser, de dar e de gerar afecto. Sem colocar etiquetas, sem trancar portas.



E é à mesa, lugar da memória e da hospitalidade do coração, que a ‘matemática’ de Zaqueu se ‘converte’ e que ele percebe, finalmente, porque é que o ‘GPS’ divino não podia ‘mudar o rumo’ quando o que era preciso era ‘mudar o coração’.



A ‘nova matemática’ de Zaqueu («vou dar aos pobres metade dos meus bens e, se causei qualquer prejuízo a alguém, restituirei quatro vezes mais») traz-nos também ‘dificuldades’, habituados que estamos a uma ‘matemática do passado’ (somar para nós, subtraindo aos outros). Ainda por cima, não se aprende na escola mas à mesa! É feita de encontro, de escuta, com os pés na terra. Dá-nos um ‘mapa’ novos dos outros e de nós.



É verdade que é ‘debaixo para cima’ que olhamos o céu, mas não será olhando ‘de cima para baixo’, empoleirados nas árvores do nosso egoísmo e indiferença, que poderemos encher de futuro e de eterno cada gesto, cada palavra, cada passo, cada caminho… somente olhos-nos-olhos (com Deus e com os outros). Para isso é preciso abrir a porta…e deixar que o Outro se sente à nossa mesa.



domingo, novembro 03, 2013

Zaqueu...




Procuro-Te por entre uma multidão
que caminha e se atropela
entre ciclos de vaidade e confusão

procuro-Te e não Te Vejo,
onde estás?

e assim, por entre uma amálgama de gente,
busco o Teu rosto, sem Te ver
procuro o Teu olhar, sem o merecer
desejo o Teu amor, para me não perder...

e num gesto derradeiro,
em sobressalto,
um velho sicómoro
é lugar caricato para me encarrapitar
ao menos para ter o gosto de Te ver passar...

nesta demanda de um velho peregrino
que quer caminhar,
mesmo sem entender o caminho,
ali estou,
mais perto do céu, nas alturas,
…e nunca me senti tão pequeno.

Sou eu,
Eu sei que Tu o sabes,
Me conheces e sondas,
E no cruzar de olhares,
Desmoronas a pequenez do meu querer,
E do crer de tantos dias rotineiros.

Quero ficar em ti,
na tua casa,
Hoje!
A minha alma estremece e vibra,
atónita talvez,
No desconcerto de ter o Tudo em mim,
Comigo, no meu lar,
E mesmo sem falar digo que sim!

O meu coração pequeno,
Tantas vezes pródigo de Deus e de mim,
Teima em não se calar:
“a medida de Deus é amar”
E como címbalo sonoro
Rompe a mudez da vida,
Triste e aborrecida,
E num dar-me sem medida
Convida-me a partilhar.

Na multiplicação por quatro
Vão as fronteiras quebradas
dum orgulho “em-mim-mesmado”
que se abriu à novidade
da eterna claridade
de um Deus em mim “acampado”.

e na alegria do encontro
com o Fiel peregrino,
nesta casa de Zaqueu,
quem desceu daquele sicómoro,
atónito e transformado,
já percebi…que fui eu!