sexta-feira, junho 27, 2014

«PELO QUE PASSOU, OBRIGADO. AO QUE HÁ-DE VIR, SIM!»



O mistério da vocação é sempre um mistério de ‘vulnerabilidade’. É feito de escuta e de discernimento, de resposta e ousadia, de confiança e de perdão. É sempre tecido com a ternura de um coração ‘ferido’ pelo grito e pela sede de consolação, compaixão e de salvação que habita o Povo de Deus. À sede de amor não se pode ser indiferente. Não se pode passar adiante. É preciso deixar-se interpelar!

A história de amor que hoje celebro é feita de muitos ‘gritos’, de muitas ‘sedes’, de muitos encontros, de tantos silêncios e de algumas palavras. É feita de gestos concretos, de histórias de vida atravessadas por momentos de luz e de sombras. É feita de muitas interrogações e de muitos caminhos serenos. É habitada por momentos de libertação e de recomeço. É modelada pela força sempre ressuscitadora da misericórdia. É desafiada e celebrada pela graça da fidelidade de tantos e tantas que me ensinam sempre o caminho de regresso ao Coração do Pai. A história da minha vida é feita de tantas vidas!  

Ser padre foi sempre, para mim, ‘um desassossego de amor’. Sabem-no aqueles com quem ao longo destes 10 anos fui partilhando a vida, o ministério, de um modo mais íntimo. Não sou perfeito. No caminho da santidade estou apenas no início. Mas move-me a certeza evangélica de que ‘há (sempre) mais alegria em dar, do que em receber’. Não é voluntarismo, é convicção. É opção. É estilo de vida. Se é a ternura que faz respirar o mundo, se é o amor que o habita e salva, é a compaixão, irmã gêmea do amor, que o dinamiza. Tenho procurado viver e testemunhar este ‘tripé’ revestindo tudo o que faço com a graça maior do Evangelho que é a da Alegria. Sim, sou feliz por ser padre. Muito Feliz!

Se o padre é um Crucificado-Ressuscitado a quem o Pai visitou com a sua misericórdia e que enviou ao mundo para o amar tal como Cristo o amou, até ao fim (cf. Jo 13), a sua vida e missão só pode ser dinamiza pelo único ‘poder’ que move verdadeiramente o mundo, a misericórdia, a oferta de recomeço. Sim, para mim ser padre é sempre uma experiência de recomeço. Todos os dias. Cada dia. Para que não esmoreça nem o entusiasmo, nem a fidelidade.

Passaram 10 anos desde aquele dia 27 de junho de 2004. Há pessoas que hoje não quero esquecer. À minha família estou-lhes grato pela liberdade com que sempre me deixaram viver esta ‘loucura do Evangelho’. Estou grato a D. João Alves, bispo determinado e sábio, que me acolheu no seminário. Profundamente agradecido a D. Albino Cleto, bispo atento e amigo, que me ordenou presbítero e com quem aprendi que a ternura e o amor têm de ser concretos e valem mais do que ‘as certezas absolutas’ de quem nunca se quer ‘queimar’ nem ‘tocar a realidade’. Com ele aprendi também que à indiferença se responde com mais amor, ainda que isso nos faça sofrer muito. Em silêncio. Muitas vezes. Um agradecimento muito especial, ‘eucarístico’, aos meus colegas de seminário e aos meus irmãos de presbitério. É caminhando juntos que se aprende, que se vive, que se cresce.

Um agradecimento especial a ti que te foste cruzando comigo, em encontros, retiros, peregrinações, acompanhamento espiritual, na reconciliação, nas comunidades paroquiais, nas missões em Portugal ou no Brasil, etc. e que me ensinaste a ser mais cristão, mais padre, mais d’Ele…e mais para todos.

Com a alegria da primeira hora, e com um cântico de gratidão a que só o silêncio sabe dar sinfonia, renovo a determinação da ‘primeira hora’ e peço-te que 'cantes' e rezes comigo, assim:

Senhor…
Dá-me pés de barro, para que,
quando vierem terrenos pedregosos,
eu sinta que só Tu és a força e o caminho…
Dá-me um olhar cristalino,
para que possa ver-Te sempre presente
em cada rosto desfigurado, marginalizado,…
Dá-me mãos abertas para acolher
todos os que são abandonados,
vivem na solidão,…
Dá-me um coração de carne,
para amar sem medida,
sempre…
Dá-me coragem para denunciar a mentira,
Humildade para assumir os meus erros,
Humor para rir das minhas asneiras,
E, quando no fim,
como grão de trigo eu cair à terra,
a minha Fidelidade e Felicidade,
nesta entrega total a Ti,
Façam germinar Homens e Mulheres
loucamente apaixonados
pelo anúncio do Teu Evangelho.
Ámen


terça-feira, junho 24, 2014

UM DEUS QUE NOS COMUNGA…

«Não importa quais sejam os amores que alimentaram a nossa existência aqui na terra: fecundos ou estéreis, estáveis ou despedaçados, gloriosos ou miseráveis, ou, talvez, ambas coisas ao mesmo tempo. Sejam quais tenham sido os nossos amores, um dia, Jesus encarregar-se-á de todos, por intercessão de Maria, a primeira especialista em humanidade, para transformá-los numa realidade infinitamente melhor e, com grande surpresa para nós próprios e para todos os comensais que pensavam ter já saboreado o vinho melhor no início, uma vez mais, pela última vez, Jesus repetirá o milagre de Caná, transfigurando cada amor» (E. RONCHI)


Síntese perfeita da dança entre o amor, a ternura e o tempo, o pão é para nós alimento, força, partilha (vem daqui a palavra ‘companheiro’ = aquele com quem se reparte o pão!). O pão traz consigo ‘a memória do amor’ esculpida pelo tempo. De semente lançada à terra até ao grão maduro, há um ‘germinar de esperança’ e de novidade que faz deste crescer uma realidade dinâmica, tecida pelo silêncio, pela fidelidade de quem sabe cuidar e pela humildade de quem sabe acolher com um coração agradecido.
A Palavra com que nos encontrámos neste domingo em que celebrámos o ‘Corpo de Deus’ convocou-nos para três atitudes fundamentais: Uma memória agradecida, uma presença ativa e um dinamismo existencial.
A ‘memória agradecida’ é fruto de um coração peregrino. Quem não sabe por onde andou, e de onde vem, dificilmente poderá ter nos lábios um ‘cântico de gratidão’. É que no nosso deserto quotidiano, como outrora no deserto do Povo bíblico, Deus continua a ‘purificar’ as nossas fomes. Não podemos alimentar-nos de tudo! É que há ‘alimentos’ que nos matam, pois geram em nós uma ‘gula espiritual’ que devora a vida devorando os outros. E há ‘alimentos’ que nos curam, que nos salvam…e que nos fazem ter fome. Fome de vida. De eternidade. De salvação. De misericórdia. O nosso Deus suscita o nosso ‘canto agradecido’, não porque nos ‘enche’ do que lhe pedimos, mas porque nos purifica do que nos torna pesados, indolentes. Sem vida. Foi assim no deserto, é assim nos nossos desertos quotidianos também. Um Deus que suscita em nós, e para nós, ‘oásis’ com a vulnerabilidade da Sua ternura e amor de Pai.
Para quem tem fé a memória é sempre sinal (e sacramento!) da Presença, de uma presença ativa. Se o nosso coração peregrino se sabe amado, a nossa vida enche-se desta presença que é ‘comunhão’. Com os outros. Para os outros. Por isso Paulo recordava-nos que é com Cristo, e a Cristo, que estamos ‘agrafados’. Irmanados. Somos Corpo com Ele e n’Ele. Sem Ele somos ‘realidade fragmentada’. É que a comunhão não se improvisa. Não é uma ‘teoria’, uma ‘ideia’, um ‘projeto’. Ou é realidade ou não é nada, porque a ‘comunhão’ é um outro nome do Amor. E o Amor é sempre concreto!
Se a memória é ‘sacramento’ da presença, certeza viva e ativa deste Amor que irradia, que contagia, que converte e envia. Então há um ‘dinamismo existencial’ novo a ritmar a nossa vida: de cada vez que comungamos, que fazemos e somos comunhão, não é só a Cristo que recebemos como alimento para a nossa Peregrinação. É Ele que nos recebe. Que nos comunga! E isto muda tudo. Ser comunhão, fazer comunhão e receber ‘em comunhão’ não pode ser uma ‘figura de estilo’, nem advérbio, adjetivo ou substantivo ‘neutro’ na nossa existência. Se Ele nos comunga é porque nos quer a ser sinal e instrumento daquela mesma comunhão que Ele é, e que só Ele nos pode dar.
Não é imaginação, é Realidade: a nossa vulnerabilidade, as nossas feridas, o nosso afeto, a nossa vida…tudo comungado por Ele. Tudo cheio de Páscoa n’Ele. Tudo Ressuscitado com(o) Ele! Eis o que nos pede esta “Comunhão” (Jo 6, 51-58)…E se Deus nos comunga assim, quem somos nós para não ‘comungar’ (com) os outros como eles são?

Esta é uma (Boa) Semana para ‘fermentar’ a nossa comunhão com Deus e com os outros. Talvez seja oportuno, de cada vez que tocas no pão pela manhã, fazeres um ‘propósito diário de comunhão’ com algo ou com alguém…’bora lá? 



sábado, junho 21, 2014

Verão, um ‘ponto de luz’…




Quando é que o amor é mais intenso?”,
ousei perguntar-lhe.
Pôs-se a pensar e disse-me:
Quando as pessoas se casam”.
Então, eu disse-lhe:
«O amor é mais intenso quando,
no entardecer da vida,
acariciando cada uma das suas rugas,
que são a história de uma vida compartilhada em todas as estações,
ele a olhar nos olhos e lhe disser simplesmente:
‘Estou aqui! Contigo. Para sempre!’»

Cada estação é um novo começo. Recebe como dom o passado e abre-se com confiança ao futuro. Pelo norte do mundo começa hoje o verão. Para uns é o ‘tempo bendito’ para o descanso, para novos amores ou aventuras. Para tantos é o tempo para o ‘feliz reencontro’ com os amigos que, no prolongar das noites, fazem revisitar as histórias passadas da feliz infância, da confusa adolescência e da cumplicidade nos tempos da juventude. Para poucos será um tempo para se deixar habitar pelo silêncio procurando algumas experiências de oração que possam trazer nova luz ao coração e à vida. E que dizer dos muitos que vão partir para dar rosto ao amor, longe ou perto, em pequenas ‘missões’ de fazer concreto aquele ‘amor que faz do mundo céu’ e se faz ‘céu p’ra todo o mundo’…é que o amor é sempre concreto, tenha ele a ‘doçura do mel’ ou a ‘sabedoria silenciosa’ de um calvário. Não se improvisa, constrói-se. Não se vende, dá-se.

É de (re)começo em (re)começo que a vida se aprende e se partilha. É de estação em estação que ela se torna ‘um tesouro’ que não podemos mais guardar egoisticamente. É em cada risco que ela se deixa trabalhar pela fidelidade, pois quem não ousa ‘gasta-se sem saber onde vai’…porque nunca soube onde estava.

Para partir é preciso descalçar-se, talvez nos seja útil esta metáfora para o verão que agora começa. Caminhar descalço, sem medo de se ferir ou de sentir como sagrado cada passo dado, cada gesto, cada encontro, cada pessoa. É que um coração habitado pelo amor, vai longe e vê longe! Não devora quilómetros, porque sabe que cada passo é fundamental. Caminha descalço e deixa-se conduzir por cada ‘ponto de luz’…

E se cada estação é um novo começo, então esta é uma (nova) estação para aprender, ou fortalecer, em nós e nos outros, aquele Amor que nasce da Fé e que só sabe dizer-se, simplesmente, assim: ‘Estou aqui! Contigo. Para sempre!’.


 «Escutando no vento, Tua voz secreta, Que me sopra por dentro, deixa-me ser só seu. No teu colo eu me entrego, para que me nutras, e me envolvas, deixa-me ser só seu. Um ponto de luz, que me seduz, aceso na alma. Um ponto de luz que me conduz».

quinta-feira, junho 12, 2014

O AMOR É PACIENTE...MAS NÃO É INDOLENTE!


 



Diz um provérbio africano que “quando os ramos discutem, as raízes abraçam-se”. Uma excelente metáfora que nos permite revisitar o que é fundamental na escola existencial do Amor e da Ternura. 

Habitando uma cultura chamada por alguns de post-contemporânea, e por outros de post-cristã, diante de um certo pessimismo existencial, que nos faz ler, tantas vezes com ‘os óculos dos vizinhos’, este tempo que denominam de “Geração Y”, “modernidade líquida”, “analfabetismo emotivo”, etc. fomo-nos habituando a pensar o amor e a falar dele 'aquilo que ele não é'. 

Mas o amor não precisa só de ser pensado e falado, precisa de ser acolhido, vivido e celebrado. Um amor que não passa pela escola de ternura, que não se amadurece em diálogo com a fidelidade e que não cresce e se compromete com os ritmos da decisão, é sempre um amor ‘menor’, adolescente. E de quanta ‘adolescência’, e indolência, são feitos os nossos ‘amores quotidianos’!

Amar não é um sentimento, é uma decisão! Uma decisão que traz consigo o afecto que, como a filigrana, foi modelando pacientemente cada passo. Cada etapa. Cada compromisso. É nessa ‘determinada determinação’, como diria Teresa de Ávila, que o amor aprende em cada tempo o tempo de cada decisão. Não se apressa, nem se atrasa. É presença e consolação. É conversão e horizonte de Páscoa. Atravessa a noite, sabendo que nela Deus acendeu as estrelas para nos fazer chegar à aurora. E, como uma criança que espera sempre a novidade, deixa-se encantar com o milagre de cada amanhecer. Compromete-se com cada dia porque sabe que, para ser amor, tem de tocar a existência em todas as suas horas, beijar as suas feridas e acariciar as suas fragilidades, dado que ele é o único caminho que vence o medo. Só assim se percebe que o amor é paciente …mas não é indolente! (cf. 1Cor 13). É assim que também as 'raízes se abraçam' para que a paciência, ritmada pela fidelidade e criatividade, dê fruto a seu tempo.
 
Habitou, celebrou e cantou bem este ‘mistério’ KHALIL GIBRAN quando nos diz no seu “O Profeta”:

“Quando o amor vos chamar, segui-o, embora seus caminhos sejam agrestes e escarpados; e quando ele vos envolver com suas asas, cedei-lhe, embora a espada oculta na sua plumagem possa ferir-vos; e quando ele vos falar, acreditai nele, embora sua voz  possa despedaçar vossos sonhos como o vento devasta o jardim.Pois, da mesma forma que o amor vos coroa, assim ele vos crucifica. E da mesma forma que contribui para vosso crescimento, trabalha para vossa poda. E da mesma forma que alcança vossa altura e acaricia vossos ramos mais tenros que se embalam ao sol, assim também desce até vossas raízes e as sacode no seu apego à terra. Como feixes de trigo, ele vos aperta junto ao seu coração. Ele vos debulha para expor vossa nudez. Ele vos peneira para libertar-vos das palhas. Ele vos mói até a extrema brancura. Ele vos amassa até que vos torneis maleáveis.Então, ele vos leva ao fogo sagrado e vos transforma no pão místico do banquete divino.Todas essas coisas, o amor operará em vós para que conheçais os segredos de vossos corações e, com esse conhecimento, vos convertais no pão místico do banquete divino.
Todavia, se no vosso amor, procurardes somente a paz do amor e o gozo do amor, então seria melhor para vós que cobrísseis vossa nudez e abandonásseis a eira do amor, para entrar num mundo sem estações, onde rireis, mas não todos os vossos risos, e chorareis, mas não todas as vossas lágrimas. O amor nada dá senão de si próprio e nada recebe senão de si próprio. O amor não possui, nem se deixa possuir. Pois o amor basta-se a si mesmo. Quando um de vós ama, que não diga: “Deus está no meu coração”, mas que diga antes: “Eu estou no coração de Deus”. E não imagineis que possais dirigir o curso do amor, pois o amor, se vos achar dignos, determinará ele próprio o vosso curso. O amor não tem outro desejo senão o de atingir a sua plenitude.
Se, contudo, amardes e precisardes ter desejos, sejam estes os vossos desejos: de vos diluírdes no amor e serdes como um riacho que canta sua melodia para a noite; de conhecerdes a dor de sentir ternura demasiada; de ficardes feridos por vossa própria compreensão do amor e de sangrardes de boa vontade e com alegria; de acordardes na aurora com o coração alado e agradecerdes por um novo dia de amor; de descansardes ao meio-dia e meditardes sobre o êxtase do amor; de voltardes para casa à noite com gratidão; e de adormecerdes com uma prece no coração para o bem-amado, e nos lábios uma canção de bem-aventurança».