domingo, novembro 02, 2014

TU, QUE EU AMO, NÃO MORRERÁS!

Cara irmã morte, decidi escrever-te uma carta. 

Trago-te ‘colada’ a mim desde o dia em que nasci. Sei que no dia em que decidires vir ao meu encontro, para que eu faça a minha ‘última viagem’, há sonhos que vão ficar por realizar, palavras que vão ficar por dizer, abraços que vão ficar por dar…há também memórias que levarei comigo, rostos que jamais esquecerei! Será uma viagem feita de recordações, cheia de partilhas, com muita gratidão nos lábios e no coração. Nesse dia não me roubarás nada, apenas me convidarás a ‘ir mais adiante’ no caminho que desde sempre estava preparado para mim.
Queria pedir-te, no entanto, que quando ‘me abraçares’ tragas contigo, para derramar no coração daqueles que ficam, o ‘perfume da eternidade’. Não te peço que os impeças de chorar, pois sei que cada lágrima na hora da partida é um pequeno diamante que o amor foi lapidando ao longo da vida. Também não te peço que os iludas ou ‘anestesies’ tentando convencê-los que não é dor aquilo que sentem. Deixa que eles sintam eu a desprender-me dos seus braços, faz que sintam ainda, por uma última vez, a doçura das minhas carícias e o calor do meu respirar. Deixa que me olhem nos olhos para me dizer: “a-Deus!” e assim me possam confiar (e confiar-se também eles!) Àquele que me sonhou, amou, fez viver e que agora me espera para entrar, do outro lado da porta da Vida, naquela comunhão de Amor que vai para além da paz e do silêncio do cemitério.
Nesse dia, em que o silêncio será teu companheiro de viagem, não te peço flores de alto preço nem longos discursos, muito menos te peço que se escondam as lágrimas com óculos de sol. Não te peço, por fim, que me canonizem ou, no outro extremo, que me amaldiçoem. Peço-te apenas que dês àqueles a quem eventualmente magoei um pedido sincero de perdão e a certeza de que, abraçado pela infinita misericórdia de Deus, no céu serei seu intercessor; Se ainda puderes, e quiseres, deixa naqueles a quem mais amo, tatuada a certeza de que estarão sempre comigo. E, naqueles para quem tu és olhada como uma ‘irmã severa’, peço-te que faças germinar no seu íntimo a certeza serena que nasce daquela Esperança eterna, que agora se faz porta para que eu possa entrar no coração da Vida!
Cara irmã morte, peço-te apenas que, como no comum dos dias, esse ‘último abraço’ e esse “a-Deus” sejam marcados pela simplicidade e pela gratidão de um coração que cantou e viveu a alegria em cada passo. Que se cantem ‘aleluias serenos’. Sobre o caixão apenas ‘grãos de trigo’. Nos lábios palavras de ternura colhidas na Palavra. No coração, não o vazio mas a Vida. E quando a terra me entregar ao céu entoe-se um ‘magnificat’ cheio de Páscoa!

E agora, minha querida irmã, antes de terminar esta carta, e sabendo que todos os dias nos visitas, a nós que somos aqui peregrinos, deixa que desta vez seja eu que te abrace, te ‘surpreenda’ e te faça ‘degustar’ com a serena certeza que Aquele que me ama tatuou para sempre no meu coração:

«Eu sei que o meu Redentor está vivo e no último dia Se levantará sobre a terra. Revestido da minha pele, estarei de pé; na minha carne verei a Deus. Eu próprio O verei, meus olhos O hão-de contemplar» (Job 19).

Minha querida irmã morte, vamo-nos cruzando, por aí, na ‘dança da vida’. Sabes não te temo, e, no dia em que vieres, faremos juntos uma festa com a certeza de que em Cristo “nascemos e não morreremos jamais” (Chiara Corbella).  

BOM DOMINGO para ti que crês na Vida para abraçar a morte!


terça-feira, outubro 21, 2014

...PORQUE O AMOR NUNCA SE ATRASA!



Quem vive ritmado pelo Amor sabe que nenhuma espera será longa porque a vida, 'respirada' a plenos pulmões, é sempre capaz de desenhar no tempo os caminhos que conduzem para além dele...É assim, com a delicadeza da ternura, que o Amor vai semeando esta 'epifania do essencial'.

Esperei por Ti,
na viagem do tempo,
no amanhecer de cada estação.

Ao cair de cada folha no outono,
no alegre despontar da vida
na aurora de todas as primaveras,
no pôr do sol de cada verão,
na travessia serena de cada inverno…

Esperei por Ti,
sem pressa e sem medo,
porque o Amor nunca se atrasa.

E dancei contigo em todas as praças da Vida
embalado pelo perfume suave de um abraço
Que fazia de nós uma só carne.

Esperei por Ti,
para beijar e abraçar a tua história,
derramando em cada uma das tuas feridas
o bálsamo da paz e a delicadeza da ternura
que enche de futuro cada passo
e que amplia as fronteiras do coração.

Esperei por Ti,
sem pressa e sem medo,
porque o Amor nunca se atrasa.

E, as encruzilhadas do tempo,
sabendo que Te esperava,
fizeram de teu coração um diamante
para que brilhassem nele todas as cores da Vida
e pudesses vir ao meu encontro
trazendo no peito a doce luz
que nenhuma noite pode apagar.

Descalço,
corri ao Teu encontro,
beijei-te na fronte para te dar a paz
e, naquela hora de graça,
o tempo tornou-se apenas um instante
que agora nos abraça 'para sempre'
…e nos faz casa um para o outro.

Esperarei por Ti,
sem pressa e sem medo,
porque o Amor nunca se atrasa.





segunda-feira, outubro 20, 2014

…A ‘OUTRA FACE’ DA MOEDA!



Os fariseus e os herodianos andavam equivocados. Só sabiam ler a vida ‘pela metade’. Por isso, era-lhes muito difícil levantar o olhar do coração de modo a buscar caminhos de dignidade para o povo que o Senhor escolheu. Viviam mais preocupados em ‘anular’ ou em ‘desnudar’ a Cristo, do que em conhecê-lo e segui-lo! Acontece com eles o que tantas vezes acontece connosco, ‘sacralizamos’ o que é indigno e ‘dessacralizamos’ o que é divino. Por outras palavras, vivemos a nossa experiência de fé ancorados no auto-consumo da superficialidade com que lemos a vida, os acontecimentos e no modo como nos comprometemos com a história. Vemos mas não contemplamos, ouvimos mas não escutamos, exigimos sem nos comprometer e vivemos sempre de mãos limpas porque incapazes de amar.
O encontro com o Evangelho revela-nos a nossa identidade e convoca-nos para uma pertença. Habituados que estamos às ‘leis do mercado’ que geram, cada vez mais, uma ‘desfiguração do humano’, também nós entramos facilmente na lógica perversa dos fariseus e herodianos: “É lícito ou não pagar tributo a César?”. Mas a questão fundamental nunca é essa! É verdade que o bem comum merece-nos sempre empenho real e contributo ético, mas também exige de nós denuncia profética, compromisso que gere autonomia responsável e não dependências indignas. Habitando um tempo tão complexo como aquele em que vivemos, as nossas análises do ‘deve’ e do ‘haver’ têm de ser secundarizadas em favor de uma outra lógica que vá além dos ‘impérios’ e da ‘divinização do poder’. É preciso recomeçar ‘a partir de baixo’, com a vulnerabilidade da ternura e com a força sempre renovadora de um serviço que nos compromete em levantar e aliviar todos os crucificados da terra. Não é ideologia ‘partidária’ nem ‘politização do Evangelho’, trata-se do Amor (pro)activo que brota da incarnação daquele que sendo rico se fez pobre (2 Cor 8, 9).
A questão, portanto, não é “quanto vale o que dou?” mas sim “em que(m) é que invisto o que partilho?”. Não se trata de ‘economia’ mas de ‘dignidade’, e esta última não tem preço, não se negoceia nem se pode suprimir. Mais, no limite trata-se de confiança (= Fé!), trata-se de rever não só a nossa ética pessoal mas também a nossa ética social, porque quando o Evangelho não se faz vida, não adiante dizer que somos discípulos. No máximo somos apenas, como os fariseus e os herodianos, ‘míopes mercadores do essencial’ que não souberam ver a outra face da moeda. Que a Palavra nos desperte da contemplação acomodada da ‘divinização do mal e da banalidade’ e, se queremos ‘dar a César o que é de César’, viremos ‘a moeda’ e aprendamos a ver nela o rosto do irmão, essa sim a ‘face justa’ da moeda! Bom Domingo!



segunda-feira, outubro 06, 2014

O AMOR NÃO DESISTE…NEM RESISTE!



 É próprio do Amor surpreender, ajoelhar-se, cuidar, envolver e ‘ressuscitar’. O Amor vai sempre na frente porque não tem pretensão de ser o primeiro, mas sim porque quer abrir caminhos para que quem é amado possa atingir a meta. Se vai na frente, é para rasgar horizontes de novidade. Se vai ao lado, é para ritmar a fidelidade e fortalecer os passos. Se vai atrás, é para recordar que a misericórdia é sempre maior que qualquer das nossas fragilidades e para nos estimular a olhar na direção justa. Já o disse aqui algumas vezes: quem vive de passado é museu, quem se deixa abraçar pelo Amor olha-se sempre com futuro!

O nosso encontro com Evangelho leva-nos, esta semana, a ‘sair derrotados’ das nossas lógicas curtas e tantas vezes mesquinhas. Habituados e acomodados a uma ‘justa retribuição’ que responde ao mal com o mal, somos ‘derrotados’ pela pedagogia do coração de Deus: o Amor responde ao mal com fidelidade e à ofensa com perdão, com oferta de recomeço. É dura para nós esta lógica!!!

Se o sonho de Deus nos revela que somos criados para ‘produzir frutos de eternidade’ (Mateus 21, 33-43) não podemos então contentar-nos com uma vida mesquinha. Só se vinga quem é incapaz de amar. Quem ama sabe ler a história com serenidade, sem preconceitos e sem superficialidade, e sabe ainda que o desamor nunca é ‘resposta’ mas sempre caminho que conduz a uma solidão existencial que nos afasta dos outros…porque nos afasta de nós.

Para dar fruto é preciso abater os muros que cercam o nosso coração, as muralhas que nos colocam sempre na ‘defensiva’ ou no ‘ataque’, os olhares míopes de quem vê sempre no raiar do sol uma ameaça à nossa ‘escuridão interior’. É que o Amor não desiste…e nem resiste! Porque é dom total, ele é sempre uma oferta livre e compartilhada daquela sabedoria que vê em cada recomeço uma ‘primavera existencial’. Não é assim o coração de Deus?! Porque não cria resistências e porque a sua ‘inteireza’ está na fidelidade, Deus que é Amor nunca se cansa de se inclinar, de nos procurar, de nos levantar e sarar. É o primeiro a confiar e o único que não desiste! Pede-nos apenas que ‘a vinha que somos’ (= símbolo da vida ritmada e abraçada pela ternura de Deus) não seja um espaço cercado pelo ‘arame farpado’ da nossa indiferença mas sim um recinto aberto, sem muros ou esquemas de 'defesa-ataque', onde todos possam entrar e saborear no calor da mesa e do coração ‘o vinho novo’, a aliança nova e eterna de um Amor que é salvação, vida abundante. Para todos. Para sempre! Pois para quem ama a 'eternidade' é a medida e é (re)começo, nunca um fim…Boa Semana