terça-feira, maio 05, 2015

DE QUE TAMANHO SÃO AS TUAS RAÍZES?...

 
Há realidades que o coração inscreveu na nossa vida e que jamais esqueceremos: o afeto com que em pequenos fomos embalados no colo das nossas mães, o calor do abraço que nos levantou quando caímos por terra na nossa primeira tentativa de articular dois passos, o ‘beijo sagrado’ nos nossos joelhos feridos, depois de mais uma queda, que nos fazia sentir imediatamente sarados, a voz que acalmou os nossos medos quando, de noite, nos visitava algum pesadelo, aquela palavra amiga que corrige, e que abre futuro, fazendo-nos olhar para além dos nossos erros, enfim…um ‘narrar infinito’ não de coisas mas de um amor dedicado, e delicado, que foi moldando o nosso coração com as raízes do amor e que nos ajudou a construir a vida ritmados pela ternura que converte, cura, salva.

É assim, também, que o Evangelho, Amor feito Páscoa, continua a tecer em nós esta semana os fios daquela Vida que nos faz filhos e irmãos, quando nos recorda que somos Páscoa para o mundo de cada vez que o nosso agir faz ver que ‘acreditamos no nome de Jesus Cristo e nos amamos uns aos outros’ (1 Jo 3, 18-24). Acreditar e amar são verbos (não possessivos!) para serem conjugados na nossa existência quotidiana através da partilha solidária e daquela comunhão fraterna que vence o egoísmo com a vulnerabilidade da ternura sendo para todos, e em tudo, misericórdia (amor que oferece recomeço e ‘não passa adiante’ do grito do faminto).

Compreendemos então que para ‘permanecer em Cristo’ (Jo 15, 1-8), e com Ele produzir fruto abundante, não podemos fugir do mundo! Há hoje uma tentação grande de querer ser fruto sem ter raízes (profundas) na terra…e se o que somos, e fazemos, não toca verdadeiramente ‘as misérias humanas’, de que valem os nossos refinados ‘incensos’?

Quando Jesus nos interpela, o coração e a vida, e nos recorda quem ‘sem Ele nada podemos fazer’, não está com isto a dizer-nos que somos ‘escravos’ ou que pretende impedir-nos de sermos livres. Está simplesmente a fazer ressoar no nosso coração aquela ‘memória que nos leva ao coração da Mãe’ e que nos recorda que somos frágeis, nutridos por um amor infinito que nos levanta, acaricia e estimula a fazer caminho. Está a recordar-nos que sem esse dinamismo vital, na realidade não seremos, nem faremos, nada…porque nos faltarão as raízes.

…Já agora, como é que são as tuas raízes? BOA SEMANA!

* Que o nosso coração se deixe moldar ao longo deste mês pela “Mãe de todos os caminhos” e, se quisermos, ousemos rezar-lhe com estas palavras do Papa Francisco:

«Bem-Aventurada Virgem de Fátima,
Guarda a nossa vida entre teus braços:
Abençoa e fortalece qualquer desejo de bem;
Reacende e alimenta a fé;
Ampara e ilumina a esperança;
Suscita e anima a caridade;
Guia todos nós no caminho da santidade.
Ensina-nos o teu mesmo amor de predilecção
Pelos pequeninos e pelos pobres,
Pelos excluídos e sofredores,
Pelos pecadores e os desorientados;
Reúne todos sob a tua protecção
E recomenda todos ao teu dilecto Filho, nosso Senhor Jesus.»


segunda-feira, abril 20, 2015

O ÚLTIMO ABRAÇO…


«Adeus Luís. Muito e muito obrigado. Por tudo!
E se te magoei alguma vez em alguma coisa perdoa-me»
(02 Setembro 2014)


Senti, naquela hora, que aquele seria o seu jeito de me dizer um "adeus Luís, até ao céu!" sem me deixar inquieto porque sabia que eu iria sofrer muito quando a 'irmã morte' o viesse buscar. Guardei no coração as palavras até hoje, dia em que a notícia da sua morte despertou a memória (forçadamente) adormecida de uma hora que não queria que chegasse. 

Sinto ainda hoje o calor e o afeto daquele abraço de pai, de mestre, de amigo, de irmão. Foi à porta da casa que era também ‘abrigo de todas as horas’ para os que procuravam consolo, acolhimento, ternura, um conselho ou uma palavra de entusiasmo. Ali vivia modestamente, e não podia ser de outra maneira, pois a medida do seu existir era o Evangelho. Com um coração inquieto repetiu-me em cada dia do último mês de agosto: “sabes, já me resta pouco tempo!”. Vendo que o coração do ‘guerreiro de todas as horas’ começava a dar sinais de cansaço extremo, sempre tentei aliviá-lo nos trabalhos o mais que podia e, por entre o refrão que me repetia, lá lhe dizia: “Não pense nisso. Teimoso como é ainda vai viver até aos 100!”. Ria com aquele seu jeito tão expressivo e concluía com um ar de quase despedida: “Não filho, não. Estou cansado”. Mas, de imediato retomava o entusiasmo contando-me, mais uma vez, as histórias desde quando tinha chegado a esta terra (esquecida e sofrida!) do nordeste do Brasil. Aquela doce repetição nunca foi para mim um peso, havia sempre mais um pormenorzinho que me revelava um novo ‘diamante’ da sua alma de Pai e pastor, de irmão e amigo, de confidente e de discípulo.

 Era assim o Padre Manuel Neves, de alma límpida e cristalina como a água mais pura, com um coração cheio de Páscoa, inquieto para que o nome de Jesus e de Maria fossem sempre mais conhecidos e amados, sereno quando via o seu povo fazer silêncio para rezar, entusiasmado quando via o seu rebanho levantar a voz para denunciar tudo o que era ‘anti-humano’ e profundamente feliz quando, com os laços da fraternidade nascida do Evangelho, via o Povo ser comunidade que vive a fé e transforma a vida. Era um profeta. Um santo. Um servo de todos. Por amor. Como Jesus. Até ao fim. 

Hoje volto à porta da casa paroquial de Chapadinha com o coração rasgado pela dor da sua partida. Sinto-me órfão! O Padre Neves era para mim um segundo pai. Quando nos conhecemos pela primeira vez, na Sé velha de Coimbra, em 2006, na celebração de envio das irmãs Criaditas dos pobres para a cidade de Chapadinha, gerou-se de imediato uma comunhão e sintonia que só a fé pode gerar. Desde aquela hora que passei a ouvi-lo com ‘um coração de filho’.

Na comunhão, intimidade e sintonia que se foi gerando, acabámos por ser nas horas de alegria, mas também naquelas da tristeza, amigos, irmãos e confidentes. Como ‘filho’ aprendi muito com ele. E o muito que lhe devo só pode ser agradecido com o coração, porque para o Padre Neves o essencial sempre foi a gratuidade. Não se trata de uma homenagem ‘póstuma’ onde só se dizem as virtudes, porque sempre lhe disse o que pensava dele, o bem que ele me fazia e o quanto lhe era grato. Leal na amizade e na comunhão que nos unia partilhámos o sonho de uma Igreja sempre mais missionária, sem medo de tocar a terra, mesmo que ferindo-se ou ‘sujando as mãos’ com a dor dos outros. Inúmeras vezes me falava do quanto ecoavam, sempre mais fortes, dentro dele os rumos traçados pelo Concílio Vaticano II e a inspiração determinada e profética de Paulo VI (queria ir a Roma quando fosse a sua canonização!). Sofria muito, aliás muitíssimo, quando via o seu povo ser esmagado pela mentira e pela corrupção que geram a miséria e desfiguram o humano. Por isso era tão ‘rebelde’! Não gostava de uma Igreja de ‘bem comportadinhos’, fechada em seguranças de um tempo que já passou e ‘blindada’ diante do presente e da novidade que Deus sempre suscita.

Há conversas e conselhos que guardarei para sempre. Foram ditos em horas providenciais para mim! Na memória do coração e da fé guardarei não só o seu jeito, às vezes rude mas sempre terno, mas também as lágrimas que ele dificilmente deixava escapar mas que eu pude, algumas vezes, testemunhar. Como Pai escondia-as quase sempre naquele seu: “Obrigado. Muito obrigado!” ou então no seu desajeitado: “porra, pá!”. Mas o coração comovia-se, e muito!

Se o pai que gera na carne sofre para evitar a dor dos seus filhos, o Padre Neves, pai que gerava no Espírito, sofria muito com a dor continuada dos que não tinham que comer e eram ‘anestesiados’ pela ilusão de uma cesta básica, nascida da desonestidade política e da falta de compromisso social de tantos cristãos que a única coisa que querem do Evangelho é um ‘Deus-doce’, à sua medida, e que não os incomode muito; sofria ao ver os velhinhos tão abandonados e explorados por filhos e netos ingratos; sofria quando as famílias que ele tanto amava iam sendo ‘devoradas’ e destruídas pelo álcool, pela droga, a infidelidade e por uma sociedade promíscua; sofria quando via os jovens acomodados, sem rumo, sem voz e sem futuro; sofria com as injustiça e calúnias vindas de quem não percebia que o seu tom de voz mais elevado, os seus gestos mais ‘agressivos’, a sua contínua denuncia do mal nada tinha a ver com ‘política partidária’ mas com uma vivência séria (e a sério!) do Evangelho de Cristo, o Filho de Deus, que era o seu único amor. A sua paixão. A sua Vida!

Veio de longe e fez-se próximo de todos. Tudo o que tinha repartiu. Gastou-se até ao fim e deixa-nos um caminho aberto: a estrada do Evangelho.

Para honrar o Padre Neves não será preciso, a título póstumo, dizer muitas coisas. As homenagens públicas das instituições ele mesmo as dispensaria e diria, com aquele seu jeito, “ó filhos ajudem os pobres a sair da miséria, criem hospitais dignos para os nossos doentes e velhinhos, cuidem das famílias, amem e protejam as crianças, eduquem os jovens e façam surgir oportunidades de um futuro melhor nesta terra. Que os políticos sejam honestos e que se dê cultura às pessoas”. Por fim, estou certo, acrescentaria: “e os católicos que estão aqui, que não sejam ‘catoliquinhos’ mas sejam homens e mulheres com as bem-aventuranças no coração e que façam ver o Reino de Deus já aqui” e iria concluir: “obrigado por tudo. Muito obrigado!”.


Padre Neves, até ao céu! Não morrerá a semente que plantou. O que em nós foi semeado foi o Evangelho. Dizer-lhe obrigado é pouco, mas é também o tudo que sempre me ensinou (tão profundamente bem!) a dizer. É que, tal como me ensinou, serei eu agora a esconder as lágrimas repetindo-lhe uma última vez: “Obrigado. Muito obrigado!”. “Porra, pá!”. 


*O texto-partilha não é simplesmente uma 'homenagem' ao Padre Neves, é também um "Obrigado. muito obrigado!" ao Padre Casimiro que, em todos estes anos, foi irmão e companheiro desta grande peregrinação vivida em Chapadinha pelo Pe Neves e também ao Pe Pedro José, da Diocese de Aveiro, que ali esteve 10 anos como missionário e com os quais aprendi a ternura do Evangelho sem nenhum 'verniz' ou 'adoçante'.

domingo, março 22, 2015

…SÓ SE VÊ BEM COM O CORAÇÃO!

 
Só o Amor sabe esperar e recomeçar, sabe acolher e reconciliar, sabe abrir caminhos de novidade e tornar mais próximo o futuro, a eternidade. Este ‘segredo do Evangelho’ sabe-o somente quem ousa viver com um coração peregrino. Um coração que faz de cada meta um (re)partir, um caminho de discernimento, diálogo, vida! Neste caminho não há quem vá ‘adiantado’ ou ‘atrasado’, porque o amor não tem uma hora marcada, ele, e somente ele, preenche todas as horas, cada gesto, cada respiro.

Podemos imaginar, e a alegria do Evangelho permite-nos isso sempre, como era feliz aquela doce inquietação dos gregos que tinham vindo para ‘Ver Jesus’ (cf. João 12, 20-33). Por entre o olhar e o ver, o que aqueles homens desejam realmente é o encontro. Querem deixar-se encontrar com Jesus, querem deixar-se abraçar pela Sua misericórdia, querem escutar uma palavra que não os julgue mas que os liberte, querem deixar-se contemplar pelo Único que sabe abrir portas onde todos constroem muros.

Com a clareza de Filho e Irmão, Jesus responde à doce inquietação, ao entusiasmo, daqueles gregos não com uma ‘troika’ de leis e medidas disciplinares, mas com uma oferta de sentido para o caminho: ser grão…trigo lançado no coração da humanidade para germinar o dom da Páscoa. Para isso é preciso entrar pela porta da cruz e fazer dessa ‘hora’ um escancarar do pórtico da vida, da vida plena que dá ritmo e sabor a cada gesto quotidiano. É assim que Jesus lhes desvenda e sussurra o segredo do Evangelho: para ser primavera não basta produzir flores, é preciso ter raízes fortes. Profundas. A germinarem no coração da vida.

Tal como o grão de trigo, que lançado à terra morre para produzir fruto abundante, assim também o nosso existir, os nossos caminhos, a nossa busca interior e os nossos gestos concretos devem ser habitados desta ‘fecundidade Pascal’. Não uma fecundidade ‘in vitro’ ou ‘intra muros’, sempre em busca de seguranças que nos façam viver ‘ao ataque na constante defesa’, mas aquela fecundidade dos ‘pés descalços e do coração desnudado’ que sabe suscitar primavera mesmo onde o dia parece mais sombrio ou onde a vida parece já não fazer mais sentido. E, quando na noite mais lúgubre, deixarmos de amaldiçoar a escuridão para bendizer o dom das estrelas, então sim, se abrirão em nós, de dentro para fora, os olhos do coração e veremos a realidade como um constante ‘milagre’, um dom desconcertante e gratuito, que nos oferece em cada partida ‘recomeço’ e em cada chegada ‘o calor do afeto que sabe gerar a Páscoa no coração do outro’. Com razão dizia Saint-Exupéry: “O essencial é invisível aos olhos…”. BOA SEMANA!

Faz-nos ir ao Teu encontro, Senhor, na nossa Jerusalém quotidiana.
Abre os nossos ouvidos à Tua voz
e que os nossos olhos se abram para Te ver, Vivo e presente, no rosto de cada irmão.

Faz-nos ir ao Teu encontro, Senhor, como aqueles estrangeiros que não quiseram calar a sede de verdade que traziam dentro. Que os nossos corações inquietos encontrem em Ti a paz. Que os nossos caminhos mal andados encontrem em Ti um rumo. Que o peso das nossas angústias e desesperos encontrem em Ti a vida e a esperança.

Faz-nos ir ao Teu encontro, Senhor, com um coração de criança, simples e humilde, aberto à Tua Palavra inspiradora e ao Teu amor reconciliador. Que as nossas vidas, Senhor, sejam um grão de trigo que se multiplica e se faz pão abundante para que não falte a cada irmão a alegria Teu amor terno, da Tua Páscoa.

Faz-nos ir ao Teu encontro, Senhor,…


terça-feira, março 10, 2015

DEUS NÃO GOSTA DE PORTAS FECHADAS…

Como ‘nómadas’ e ‘peregrinos’ vamos vivendo, na complexidade do nosso quotidiano, momentos de encontro e de desencontro com Deus e com os outros. Sabemos que a nossa busca interior é feita de recomeços e, anima-nos a certeza de que o caminho que Deus faz para nos procurar é tecido, serenamente, pelo coração do Pai com a filigrana da ternura e da misericórdia.

O Evangelho, esta semana, desnuda-nos e coloca diante dos nossos olhos e do nosso coração a ‘falsificação’ que todos, tantas vezes exterior e/ou interiormente, vamos fazendo da nossa relação com Deus. Da Fé queremos apenas a ‘religião’, do templo apenas um lugar onde ‘incensar’ as nossas vaidades e do átrio da vida um banco para nos sentarmos acomodadamente e podermos, sem sobressaltos, ‘comercializar’ as nossas idolatrias.

Mesmo sabendo que Deus não gosta de portas fechadas, continuamos a querer ‘aprisioná-lo’ por entre os muros que criámos à nossa medida. Queremos um Evangelho ‘emoldurado’, uma vida cristã cheia de ‘reumatismo espiritual’ e, acima de tudo, continuamos a desejar (soberbamente!) que os outros correspondam simplesmente às nossas expectativas…incluindo nessa ‘listinha’ também o próprio Deus! É de tudo isso que Jesus nos liberta esta semana quando ‘joga por terra’ tudo o que nos desumaniza e tudo aquilo que desumaniza a fé e quer fazer dela uma ‘religião de bem comportadinhos’ (cf. João 2,13-25).

Como escreveu sabiamente Don Tonino Bello em 1990: “Hoje o problema mais urgente nas nossas comunidades cristãs não é aquele de ‘inaugurar’ portas que se abrem para dentro do espaço sagrado. O problema mais dramático dos nossos dias é aquele de abrir as portas do interior do templo para a praça. É desta simbologia que temos necessidade! Para nos fazer compreender que o intimismo tranquilizador das nossas liturgias torna-se ambíguo se não se escancara aos espaços do território profano. E para afirmar que o rito deve chegar aos átrios, entrar nos condomínios, deter-se nas paragens e tocar o homem nos seus ‘estaleiros’ quotidianos. Caso contrário será uma fuga perigosa da realidade».

É hora de sair do nosso ‘santuário interior’. É hora de ‘escancarar’ as portas do templo da vida e sair ao encontro de todos os que continuam a não ter lugar na mesa, a não ter o pão quotidiano, a não ter trabalho, saúde…a não ter um abraço e uma palavra de conforto. Todas as portas foram feitas para serem abertas. Quantas em ti ainda continuam fechadas?...BOA SEMANA!

Faz-nos sair do templo, ó Pai,
Do templo das nossas idolatrias,
Dos nossos conformismos e acomodações.

Faz-nos sair do templo, ó Pai,
E conduz-nos pela mão até à praça
Para que possamos anunciar aí
As maravilhas do teu amor,
Sem muros nem defesas,
Sem autoritarismo ou vaidade,
Sem legalismo ou banalidade…

Faz-nos sair do templo, ó Pai,
E de tudo o que nos serve de desculpa
Para não nos comprometermos contigo e com o Reino.

Desassossega-nos,
Chama-nos,
Leva-nos pela mão, pois somos frágeis,
Modela os nossos corações com a Tua ternura
E transforma-nos com a Tua misericórdia.

Faz-nos discípulos missionários
Cheios de alegria pascal nos lábios, no coração e na vida.
Faz-nos sair do templo, ó Pai,…


quarta-feira, fevereiro 18, 2015

UM ‘CORAÇÃO DE ALABASTRO’...


“Tu nos criastes para ti, ó Senhor,
e nosso coração anda inquieto
enquanto não repousa em ti…”

(Santo Agostinho, Confissões)


O nosso coração move-se e comove-se. Não obstante todas as vulnerabilidades, há sempre uma sede de bem e de verdade, de beleza e de amor que o dinamiza. Um coração que não se envolve, que não se deixa tocar e ‘ferir’ pela realidade, sobretudo a daqueles que estão nas margens, é um coração em agonia na indiferença e em marcha fúnebre para a ‘solidão relacional’. Um coração que não sabe chorar nem recolher como diamantes as lágrimas do outro, no jardim da vida, é uma realidade entorpecida, cega…é que só sabe chorar, o coração que aprendeu a festejar, a acolher, a agradecer, a escutar…o coração que soube atravessar todas as estações da vida, sem pressa e sem medo. Recorda-nos, a este propósito, o Papa Francisco: “A Deus não lhe é indiferente o mundo, mas ama-o até ao ponto de entregar o seu Filho pela salvação de todo o homem” (Mensagem Quaresma 2015).

Sim, o Coração de Deus não é indiferente e convoca-nos para fazermos a diferença…com coração! Porque tudo o que não nasce do afecto, não toca a realidade nem converte a vida. É o afecto que move o mundo, é a ternura que o abraça, é o amor que o transforma. Há 3 dinamismos do coração que nos podem ajudar muito esta quaresma:

Caminhar com UM CORAÇÃO PEREGRINO

Sendo convite a fazer caminho, a quaresma é um tempo para nos redescobrirmos como discípulos. É o tempo para bebermos ‘nas fontes da salvação’ a alegria de cada passo dado. É tempo para caminharmos, sem medo, de pés descalços, sem qualquer ‘blindagem’, sem ‘jogos de defesa’ e muito menos ‘estratégias de ataque’…um coração peregrino sabe deter-se apenas no fundamental e fazer acampamento com a sua tenda somente nos lugares onde o discernimento convoca para ir mais fundo, para vencer o banal. É aí também, no lugar da história e da ‘memória fundamental’, que o coração peregrino aprende a ser um ‘místico do quotidiano’ deixando-se surpreender pelo milagre da vida e dos passos dados com aquela graça de quem sabe ver ‘o eterno no instante’…

Tocar o outro com UM CORAÇÃO CONVERTIDO

Para atravessar o deserto é preciso partilhar o pão e o caminho. Por isso a quaresma é provocação constante a tecer a ‘filigrana da vida’ deixando que o outro tome conta de mim, da minha história. Nenhum de nós é uma obra já acabada. Somos um diamante que continua a ser ‘esculpido’, delicadamente, não só por Deus e seu amor infinito, mas também pela graça infinita dos outros que têm muito para nos contar, partilhar, confiar. Por entre escuta, diálogo e cumplicidade, a vida toma conta de nós com o mesmo fulgor com que a eternidade atravessou a morte para sempre. E, se toda a conversão nasce da escuta, é importante não esquecer que a conversão também é gerada no encontro. É por isso que a quaresma é um ‘despertador permanente para a nossa caridade’. Sim, caridade! Caridade sem fingimento, como diria S. Paulo. Aquele amor (e)terno que sabe ver o outro, ver o bem no outro e deixar-se contemplar pelo outro. Sem máscaras e sem rótulos. Porque nenhum de nós é uma etiqueta, nem o nosso agir pode simplesmente corresponder ao que os outros esperam de nós. Não é à toa que o Papa Francisco nos diz: “o Cristão é aquele que permite a Deus revesti-lo da sua bondade e misericórdia, revesti-lo de Cristo para se tornar, como Ele, servo de Deus e dos homens (...) A quaresma é um tempo propício para nos deixarmos servir por Cristo e, deste modo, tornarmo-nos como Ele". É que Cristo anda pelos nossos caminhos, peregrino, ao nosso lado. Sendo irmão e companheiro de viagem deixa-se abraçar ‘no outro’ quando o nosso coração sai da ‘zona de conforto’, quando somos profetas capazes de derrubar os respeitos humanos que nos querem ‘comportadinhos’ mas que dificilmente nos deixarão alguma vez ‘ser santos’. Sim a quaresma é tempo e caminho para tocar a fragilidade do outro, e a nossa, sem termos medo de sujar as mãos! E se Deus é o primeiro a ser Pai…porque é que nós somos tantas vezes juízes?...

Testemunhar com UM CORAÇÃO PERFUMADO

Porque é oferta de recomeço e porta escancarada para a Páscoa, o tempo da quaresma é projecto a viver cada passo com um ‘coração de alabastro’ (Mateus 26, 7). Um coração perfumado que aprendeu a derramar Páscoa em cada pegada da vida, em cada encontro, em cada história. Um coração perfumado é sempre ‘casa do Ressuscitado’, escola de ternura e misericórdia. Nunca é em demasia lembrar que: “ter um coração misericordioso não significa ter um coração débil. Quem quer ser misericordioso precisa de um coração forte, firme, fechado ao tentador mas aberto a Deus; um coração que se deixe impregnar pelo Espírito e levar pelos caminhos do amor que conduzem aos irmãos e irmãs; no fundo, um coração pobre, isto é, um coração que conhece as suas limitações e se gasta pelo outro” (Papa Francisco).

…É para tudo isto que nos convoca a Páscoa! Ela vem aí.
Onde e como está o teu coração?





segunda-feira, fevereiro 09, 2015

«…YOU RAISE ME UP!


Por detrás de todo o lamento há um murmúrio secreto de confiança, há um coração que na noite se abre ao dia e sussurra “eu confio em ti!”. É desta ‘secreta confiança’ que são feitos muitos dos nossos gestos, das nossas palavras, gestos, silêncios e decisões. É assim também quando temos que atravessar a porta do sofrimento humano…Precisamos de nos descalçar, de formar na ‘arte da escuta’ o nosso coração, precisamos de ‘desposar a esperança’ com um coração habitado por aquela primavera de quem sabe que o futuro é desconhecido, mas não é incerto!

Esta semana somos também nós atravessados por uma esperança que não (des)ilude, uma esperança activa que nos faz perceber que deixamos marca em tudo e em todos os que tocamos (cf. Mc 1, 29-39). E, assim como fica ‘tatuada’ na realidade a nossa impressão digital, também em nós deveria ficar tatuada a ternura de quem sabe que um toque vale mais de mil palavras e um silêncio (contemplativo e misericordioso) vale por mais de mil imagens, dado que requer aquele ‘olhos nos olhos’ feito de uma cumplicidade que nasce do amor e que é habitada pela fidelidade que faz sempre dos pontos finais um ponto de partida.

Não nos basta, para abraçar a vida em plenitude e para nos recordar que somos amados, o ‘depois dou-te um toque’ com que tantas vezes nos comunicamos. Nem nos serve um abraço fugaz ou a ‘pancadinha nas costas’ como se fossemos os eternos ‘amigalhaços da superficialidade’. Tocar no outro, e tocar o outro, é um dom que não se improvisa. É uma responsabilidade. É um compromisso, e uma aliança, com aquela ‘ternura Pascal’ de quem aprendeu a beijar a história sagrada daqueles com quem se cruza…e só o pode fazer quem deixou que Deus, em Jesus, pudesse abraçar e beijar a sua fragilidade.

Sim, o nosso Deus é um ‘enamorado pela nossa pequenez’! Não porque nos queira pequenos, mirrados e sufocados num ‘vale de lágrimas’, mas porque desde sempre nos sonhou para sermos um (in)finito abraçado pela Páscoa…

A verdade é que fomos mais habituados a olhar para Ele como ‘um que nos julga’ em vez de O acolhermos como ‘O único que nos cura’. Mas Deus, quando nos toca, não nos esmaga; e quando a Sua mão entra na nossa história, não é para nos ‘apontar o dedo’ mas para levantar-nos e dizer-nos: “Vamos recomeçar? Eu acredito em ti!”.


Porque é Amor, Deus só sabe recomeçar. E é assim que Deus nos quer nesta semana: a deixar a acomodação e a suscitar recomeços. Ele quer-nos a ‘dar a mão e a levantar’ aqueles que se deixaram entrevar (= encher de trevas/escuridão), os que perderam no caminho a linha do horizonte, os que andam interiormente cheios de ‘diabos’ (= divisão/confusão),…e tu, em quem vais deixar ‘a tua marca’? E como?...Boa Semana!



quarta-feira, dezembro 17, 2014

CIRENEUS DA ALEGRIA!



A alegria cristã é cheia de Páscoa. Atravessa as cruzes da nossa existência com a eternidade, semeando em nós a certeza de que nada, nem ninguém, nos pode separar do Amor (Pascal) de Cristo! Não será estranho, portanto, que a nossa alegria, do coração e da vida, seja ‘Evangelho’ (= Boa e feliz notícia) para o mundo. É assim em cada tempo, e também neste tempo de Advento, nesta semana em que a Alegria invade cada respiro e cada palavra que nos é dada na Palavra.

Ai de nós se a alegria que nos foi dada como dom-para-todos ficasse encerrada nas nossas ‘bafientas’ sacristias ou enclausurada nos nossos apressados preconceitos e julgamentos pouco evangélicos. Quando a alegria não é partilhada, é a Vida que é sufocada! É querer neutralizar o Evangelho que deixa de ser Palavra de Vida e passa a ser ‘letra morta’. Mas a Boa Nova não se deixa aprisionar pelas nossas medidas curtas nem pelas nossas fragilidades. Vai sempre à frente a abrir caminhos de novidade e a consolidar o dinamismo do Reino que se traduz na alegria dos ‘bem-aventurados…’ (Mt 5).

Neste caminho, feito de pés descalços, peregrinando com delicadeza no território sagrado do nosso coração e da nossa vida, guia-nos a certeza de que a alegria cristã não é ‘euforia’ nem ‘utopia’, mas a SERENIDADE de um coração que sabe ler cada tempo como GRAÇA, viver cada situação com SABEDORIA e assumir cada decisão com DISCERNIMENTO. Eis os pilares essenciais da alegria cristã! Pilares que precisam de ser conjugados com os verbos proféticos e fundamentais: “ANUNCIAR aos pobres, CURAR os corações atribulados, a PROCLAMAR a libertação aos cativos e a liberdade aos prisioneiros, DIFUNDIR o ano da graça do Senhor” (Isaías 61, 1-11).

Sim, para viver a Alegria do Evangelho é preciso ‘compaixonar-se’ e servir, escutar e acolher, denunciar e comprometer-se. A alegria do Evangelho não é festa de uma noite, não se resume num só dia, nem nos afasta da realidade. A alegria do Evangelho tem Rosto, tem Vida, tem nome e habita cada hora…porque nos habita o coração para sempre! É um projeto que nos convoca, um apelo que nos desassossega, um dinamismo que não podemos ignorar ou ‘descafeinar’. Deixar-se abraçar pelo Evangelho é deixar-se transformar em Cireneu da Alegria, sabendo que: “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração” (GS 1).

Não há, portanto, alegria maior do que aquela de saber ‘definir-se’ diante da vida! Mergulhados nesta alegria que nos conduz a Belém para sermos ‘contempl-ativos’ da Vida, provocam-nos as interrogações feitas a João Batista, no Evangelho deste Domingo, e que ficam como desafio para nós esta semana: «Quem és tu?...Que dizes de ti mesmo?» (cf. Jo 1, 6-28)…e com que alegria vives tudo isso?...BOA SEMANA!


quinta-feira, dezembro 04, 2014

NÃO TENHO TEMPO!...

Estamos demasiado habituados a pensar todas as coisas a partir de nós. Não somos donos do tempo mas queremos domesticá-lo, e para isso inventámos o relógio. Como se isso ainda não fosse suficiente, já repetimos todos mil vezes na expressão: “Não tenho tempo!”.

Pois bem, eis que o tempo (e o seu Senhor!) se chega a nós. Este é um tempo (kairós = de Salvação e de graça!) para despertarmos e nos darmos conta de que a Salvação continua operante no nosso quotidiano, nas nossas rotinas, até mesmo nos nossos gestos distraídos ou apressados. Sim Ele não vem cá, Ele está cá! Nós é que precisamos de despertar da nossa sonolência para nos deixarmos abraçar, como na primeira hora em que a fé foi semeada em nossos corações, por este abraço que aquece o coração e a vida, que dá liberdade na responsabilidade e que tem como medida (e)terna a fidelidade.

É que o advento não é um ‘ginásio espiritual’ para nos prepararmos para a prática das boas virtudes no Natal. Advento é convite, é chamamento, a levantar os olhos para-além-do-chão e a ver, afinal, que Aquele que nos ama não nos abandonou a uma triste solidão para irmos ‘gemendo e chorando neste vale de lágrimas’. Aliás, jamais poderia fazê-lo! É que o Amor nunca esquece, não se atrasa nem se apressa. Chega sempre na medida e no tempo certo. É por isso que a Palavra de Deus neste Domingo nos ofereceu um imperativo fundamental para não nos distrairmos nem nos perdermos no caminho que a Vida está a percorrer até nós: VIGIAI! (cf. Mc 13, 33-37)

Não se trata de fiscalizar, nem de estar na defensiva. Também não se trata de ‘construir um castelo’ para (vi)vermos a-vida-longe-da-Vida. Trata-se de assumir que a nossa fé em Cristo nunca nos limitou a olhar só para trás nem só para o alto, e sempre nos interpela a olhar também pra frente. Vigiar é, portanto, um outro nome para dizer ‘CUIDAR’…Cuidemos então uns dos outros neste advento. Deixemos que o Único que pode sarar as nossas feridas e derramar nos nossos corações o óleo da consolação e da alegria, nos prepare para vivermos sempre, e de um modo especial neste tempo, dinamizados por este cuidado paterno/materno que tão belamente nos descreve o profeta Isaías: “Nunca os ouvidos escutaram, nem os olhos viram que um Deus, além de Vós, fizesse tanto em favor dos que n’Ele esperam… Vós, porém, Senhor, sois nosso Pai e nós o barro de que sois o Oleiro; somos todos obra das vossas mãos” (Is. 63).

Está na hora! Acerta o teu relógio e (re)começa. Não, não vais atrasado! O Amor sempre nos espera. Não está longe da vida. É a Vida. E pelo caminho, nas encruzilhadas por onde fores passando não te canses de semear com um coração paterno/materno esta grande certeza de que fora do amor não há salvação. Bom Advento, com um coração ‘samaritano’…!

De quem vais cuidar neste Advento? e como?...e vais deixar Deus cuidar de ti?...