um espaço de partilha, reflexão, discussão e anuncio do amor misericordioso de um Deus loucamente enamorado por todos os que criou à sua imagem e semelhança...
segunda-feira, abril 04, 2016
MISERICÓRDIA: O AMOR QUE NÃO DESISTE DE RECOMEÇAR!
Há já muito tempo que ando para te escrever. Sempre tive muita curiosidade em falar contigo mas tenho andado tão a correr que só me recordo que temos de marcar um encontro nesta altura do ano! No Domingo, uma vez mais, ouvi falar de ti. Estranha aquela forma como te chamavam (“Tomé, um dos Doze, chamado Dídimo” - Dídymos é, na verdade, a tradução literal em grego do aramaico Toma’ [= «Gémeo»]). E percebi como há, afinal, um ‘parentesco’ que nos une.
Também eu sou teu gémeo quando a minha oração são as tuas palavras: “Meu Senhor e meu Deus!”.
Com o ‘perfume do Espírito Santo’ e com a ‘vitória do Amor sobre a morte’ também em mim se começam a escancarar as portas, a abrir caminhos novos, desenhados pela alegria de crer e pelo entusiasmo de comunicar esta Fé que é dom e missão, que é compromisso responsável com o irmão…porque afinal, Crer e Amar, não são apenas sinónimos, são uma identidade e uma condição para quem aceita o ‘escândalo’ de ser discípulo d’Aquele que é o ‘Amor de todo o amor’.
segunda-feira, março 21, 2016
EM TUAS MÃOS ENTREGO...
Não há solidão maior do que a de não se sentir amado! É que nenhum de
nós foi criado para a solidão, no sonho de Deus todos somos comunhão. Para a
noite tem o dia, para enxugar as lágrimas a esperança, para acariciar a dor a
ternura, para rasgar horizontes novos ao passado tem o futuro, basta estar
atento para percebermos no ‘milagre da vida’ a dança eterna desta comunhão com
o Deus-Amor.
É para romper a solidão, e nos abrir ao amor (e)terno, que o Evangelho
nos comunga nesta semana e nos faz entrar na intimidade mais intima do nosso
Deus. Chegou a hora! O Profeta de Nazaré que não se calou diante da injustiça,
que levantou do chão os que mendigavam perdão, que nos mostrou que a vida é caminho
de bem-aventurança, que nos fez ver Seu Reino já presente no meio de nós, que
nos revelou que a única palavra definitiva é somente aquele Amor que nos
permite degustar interiormente todas as coisas, senta-se agora para repartir fraternalmente
o pão da Sua existência e assim nos permitir ser comunhão, fazer comunhão.
Iniciámos uma Semana chamada de ‘Santa’, de ‘Semana Maior’ e na
Liturgia do Rito Ambrosiano (de Milão) ela é também chamada de ‘Semana Autêntica’.
O que somos chamados a viver não é um ‘filme’ ou mera ‘recordação’. Nós somos
parte desta história. Somos esta história de Salvação! História cheia de
recomeços e de futuro, uma história de Amor, Conversão, Reconciliação. Nesta
história não somos nem estrangeiros, nem hóspedes. Somos Filhos! Gerados pela
misericórdia, aos olhos humanos absurda, de um Deus que se enamorou da nossa
pequenez. Um Deus excesso de Amor que nos revela que não há omnipotência maior
do que aquela de dar a vida, de ser vida.
Aqui não há papéis principais nem secundários, não há ‘Óscar’ para
premiar carreiras, não há passadeiras vermelhas para desfilar opulência e
banalidades. Esta é uma história cheia de Vida, de afeto, de ternura, de
misericórdia. História de uma vida cheia de silêncio, de encontro, de lágrimas
que regam a nossa infertilidade e aridez para semear nela o que só a Eternidade
pode oferecer. E se hoje, aqui e agora, somos ‘vencedores’ é somente porque nos
deixámos seduzir e vencer pela força sempre atrativa e irradiante do amor-perdão
que Deus é, e que só Ele nos pode dar. Só o Amor-(e)terno pode sussurrar: “Hoje
estarás comigo no Paraíso!”. Só a Misericórdia pode rasgar portas de eternidade
onde o tempo teimar em ser só passado...
Desperta-nos o Evangelho para sermos peregrinos seguindo aquele que é o
Caminho; desperta-nos o Amor para seguirmos Aquele que é a vida; desperta-nos a
Misericórdia para seguirmos o único que é a Verdade. E, no fim, como peregrinos
que percorrem de pés descalços o caminho que nos leva do ‘santuário do
quotidiano’ ao coração de Deus, há-de ser nosso também o cântico de confiança
entoado pelo Mestre: “Pai, em Tuas mãos entrego o meu espírito”. BOA SEMANA!
segunda-feira, março 07, 2016
DÁ-ME UM ABRAÇO...
Somos todos carentes de amor! No mundo dos afetos há palavras que nos curam,
olhares que nos abrem ao infinito, abraços que nos levantam e reconstroem. Tal
como na música, também aqui o silêncio não é ‘ausência’, mas sim o espaço que
medeia o encontro entre o coração e a inteligência, entre o discernimento e a
ação, entre o pensamento e a palavra. É bom lembrar ainda que na vida de todos
os dias há muitas ‘sinfonias’ escritas com um silêncio contemplativo e adorador...são
aqueles momentos em que o céu nos visita num encontro, num aperto de mão, num
abraço que nos ‘desbloqueou’ o coração e a vida.
É também nesta sintonia e sinfonia de afeto que nos cruzamos com a
sublime página do Evangelho de Lucas (Lc 15, 1-32) onde um Pai pródigo de Amor
e misericórdia espera sempre o regresso do seu filho ‘mendigo’ de afeto e de
reconciliação. É uma metáfora da nossa vida interior! Afastar-se do coração do
Pai é desfigurar a nossa identidade. Já não nos sentimos filhos, apenas ‘mendigos’
de pão para a boca...quando o que nos falta afinal é afeto que cure e perdão
que ofereça recomeço. Por entre idas e vindas, facilmente esquecemos que autonomia
não é anarquia e liberdade não significa agir sem pensar ou decidir sem rezar.
O Pai não nos quer famintos, mas saciados; não nos quer dobrados sobre
o peso dos nossos erros ou pecados, mas peregrinos curados pela ternura da sua
infinita misericórdia; jamais nos olha de cima para baixo e sempre nos convida
a levantar para o alto e para longe os nossos olhos e os nossos corações. É que
Deus não nos sonhou pequenos, mas eternos! Na mesa da vida há sempre um prato
que nos espera, há um Pai-inquieto que nunca deixa de acreditar no nosso
regresso, um pai que não dorme e corre para a porta de cada vez que houve o
rumor de passos...esperando que seja aquela ‘a hora derradeira’ em que vai
poder abraçar de dignidade e perdão o ‘mendigo’ que não se acha mais filho.
A caminho da Páscoa, e quando a natureza se veste já com os primeiros
perfumes da primavera, é bom não esquecermos que “quando a Igreja escuta, cura,
reconcilia, torna-se no que ela é, no que ela tem de mais luminoso: uma
comunhão de amor, de compaixão, de consolação; o límpido reflexo de Cristo Ressuscitado.
Nunca distante, nunca na defensiva, livre de severidades, ela pode irradiar a
confiança humilde da fé nos corações humanos” (Ir. Roger de Taizé).
E é assim, por entre a memória e o afeto, por entre exigência e
ternura, que vamos ‘degustando’ cada recomeço, oferecendo e recebendo Páscoa de
cada vez que ousamos dizer: “DÁ-ME UM ABRAÇO...”. BOA SEMANA! ;)
terça-feira, fevereiro 23, 2016
DE DENTRO PARA FORA...
Para crescer, é
preciso aprender a escutar. Para amar, é preciso dar-se. Para ver, não bastam
os olhos, é preciso também o coração. Para caminhar, não basta saber onde se
deve ir, é preciso dar passos concretos, ter a ‘ousadia do primeiro passo’...pois,
para quem tem fé, o futuro é sempre desconhecido, mas nunca é incerto.
Há vidas tão
cinzentas e tão às escuras, há vidas sem ‘cheiro’, sem afeto, de sentimentos
reprimidos e de vaidades cada vez mais ‘inchadas’...há vidas que querem
saborear apenas ‘o imediato’ e jamais se permitem degustar o Eterno. Há vidas
que vivem esmagadas pela ‘fatalidade do passado’ e jamais arriscam voltar-se
para o futuro.
O Caminho para a
Páscoa é convite à ‘Metanoia’ (conversão). Não se trata só ‘mudar dentro’, mas ‘de
dentro para fora’, num movimento que nasce na ‘intimidade mais intima’ e nos
lança no encontro com o quotidiano. Um quotidiano que queremos encher de luz,
de cor, de ‘perfume’, de coração e sabedoria, de discernimento e ousadia.
Talvez possas sussurrar
ao coração de Deus esta oração:
Senhor, abre os nossos ouvidos à Tua voz
E rasga os nossos corações
com a ternura da Tua Palavra.
Transfigura os nossos dias,
Com o Teu amor feito Páscoa,
faz brilhar nas nossas trevas a luz do teu perdão,
e faz que os nossos gestos e palavras
com a ternura da Tua Palavra.
Transfigura os nossos dias,
Com o Teu amor feito Páscoa,
faz brilhar nas nossas trevas a luz do teu perdão,
e faz que os nossos gestos e palavras
nunca sejam de vaidade e orgulho.
Reveste-nos de coragem para não cairmos na indolência
De quem se resigna a ver a vida passar…
E, no fim, dá-nos a alegria plena de viver para sempre contigo
Reveste-nos de coragem para não cairmos na indolência
De quem se resigna a ver a vida passar…
E, no fim, dá-nos a alegria plena de viver para sempre contigo
*Algumas dicas para Transfigurar a vida quotidiana (abraçar +, escutar +, elogiar +, acolher +, contemplar +, rezar +,...)
quinta-feira, fevereiro 11, 2016
...A PÁSCOA CHAMA POR NÓS!
“De quanta rotina foi feita a tua última quaresma?”. Talvez tenhamos
que começar por esta provocadora-inquietação para nos definirmos diante de mais
uma quaresma que hoje inicia. As rotinas não são necessariamente más, há ‘bons
hábitos’ que somos chamados a repetir quotidianamente e, quanto mais os
repetirmos, mais aprenderemos a pisar o terreno sagrado de uma vida espiritual
transbordante de intimidade com Deus e de comunhão com os irmãos. Quem se cansa
da boa rotina do ‘bom dia’, de um abraço demorado, um olhar pleno de ternura,
um silêncio afetuoso, uma palavra encorajadora...? São os pequenos-milagres-quotidianos
feitos com a simplicidade de um coração habitado pelo Evangelho.
Mas, voltemos às rotinas. Há palavras que de tanto as
escutarmos se tornaram, talvez, um refrão para uma determinada ‘dormência
espiritual’, deixando-nos como que ‘anestesiados’ e em modo ‘piloto automático’.
Uma dessas palavras é ‘Quaresma’, essa nobre senhora vestida de roxo que desperta,
pelo menos anualmente, para um ar taciturno e compungido. Outra das rotinas
traduz-se na companhia que essa nobre senhora traz consigo: o Jejum, a Oração e a Esmola. Atitudes e
práticas cada vez mais ‘neutralizadas’, basta lembrar que para muitos o Jejum
virou ‘dieta’, a Oração uma prática ‘zen’ que não compromete muito a vida e a Esmola
virou ‘uma ajudinha para os pobres’, de preferência algo que sobre na carteira
ou no imenso guarda-roupa lá de casa.
É paradoxal como tudo se vá transformando em ‘rotineiro’ e ‘descartável’!
No dia em que (re)descobrirmos que a Oração
é para nos ajudar a ter Discernimento,
isto é, sabedoria para ‘pesar a vida’ com o que ela tem de essencial e não nos
deixarmos manipular; que o Jejum é
desafio a educar a nossa vontade,
para não vivermos ao sabor da emoção e/ou mergulhados no amargo da desilusão; e
que a Esmola é o fruto maduro de um coração cheio de Evangelho que não
se deixou vencer pela indiferença...nesse dia ‘perfumaremos o rosto’, sairemos
irradiantes para a praça e, com todos os irmãos, cantaremos eternamente o dom da
misericórdia do Pai.
Que o nosso coração desperte para que “não nos deixemos cair
na indiferença que humilha, na habituação que anestesia o espírito e impede de
descobrir a novidade, no cinismo que destrói. Abramos os nossos olhos para ver
as misérias do mundo, as feridas de tantos irmãos e irmãs privados da própria
dignidade e sintamo-nos desafiados a escutar o seu grito de ajuda. As nossas
mãos apertem as suas mãos e estreitemo-los a nós para que sintam o calor da
nossa presença, da amizade e da fraternidade. Que o seu grito se torne o nosso
e, juntos, possamos romper a barreira de indiferença que frequentemente reina
soberana para esconder a hipocrisia e o egoísmo. (...) será uma maneira de
acordar a nossa consciência, muitas vezes adormecida perante o drama da
pobreza, e de entrar cada vez mais no coração do Evangelho, onde os pobres são
os privilegiados da misericórdia divina” (Papa Francisco, Misericordiae Vultus).
A Páscoa chama por nós...e já vem ao nosso encontro! Traz no
seu corpo as marcas da Paixão, nos lábios a Eternidade e no coração um Caminho
novo para a casa do Pai que, cheio de afeto e ternura, nos sussurra: “ESPEREI
POR TI TODOS OS DIAS. A MESA ESTÁ POSTA. VAMOS FAZER FESTA?!”.
"Cantarei
ao Senhor, enquanto viver;
Louvarei o meu Deus enquanto existir.
Nele encontro a minha alegria
Nele encontro a minha alegria"
segunda-feira, fevereiro 08, 2016
DÁ-ME O TEU ‘NADA’, SEREI O TEU TUDO!
Um dia que tinha sido igual a
tantos outros...Aqueles pobres pescadores lavavam, provavelmente, as redes da
sua desilusão (Lc 5, 1-11). Aparentemente tudo é derrota... No coração daqueles
pobres pescadores tinham-se fechado as portas do futuro, o presente era amargo
e o peso do fracasso do passado era demasiado duro para ser verdade. É fácil
para nós imaginar o que seria chegar a casa, mais uma vez, sem nada para
colocar na mesa!
Não podemos negar que fomos
educados para vencer sempre, somos filhos da cultura ‘super-homens’. Vencer foi
sempre a palavra de ordem e ‘perder’ um impossível que dá nós no estômago e
gera ansiedade. Errar? nem pensar! Somente os outros. Foi assim, aos poucos,
que todos nós fomos introduzidos num tempo e cultura onde a vulnerabilidade foi
sendo confundida com fraqueza e, como tal, “dos fracos não reza história!”.
Sentença maldita que nos foi anestesiando e convencendo que a vulnerabilidade era
uma maldição.
A vulnerabilidade é sempre o começo
de qualquer história, da nossa história pessoal, ela nos ensina a não vivermos ‘cheios
de nós’, nos desperta para confiar, e nos interpela a alargar as fronteiras do
coração e da vida, a deixarmo-nos tocar pela ternura sem termos medo de ser
feridos, pois é próprio do amor moldar para curar.
Na voz de Cristo que interpela
Pedro, e a sua fragilidade, vai um apelo: “deixa-te tocar. Aceita que não podes
tudo sozinho. Reconhece, pelo menos hoje, o que vai dentro de ti...e confia!”.
Pedro ouve este sussurro na alma e, surpreendido pela medida do Evangelho, percebe
que é hora de recomeçar! De coração aberto e com a simplicidade de quem sabe
que só o amor cura e salva, Pedro responde com a mais bela expressão que um
coração em festa pode ter quando se encontra com o Deus-Amor: “Senhor,
afasta-Te de mim, que sou um homem pecador”.
Com aquele Pe(s)cador Jesus começa uma
nova etapa na ‘peregrinação interior’ que é chamado a fazer cada coração
humano. O Mestre escolhe um coração inquieto para levar a Paz; Para falar do Céu,
escolhe um homem com os pés na terra; Para oferecer Eternidade, escolhe um
homem habituado a navegar na noite; Para Perdoar, escolhe um pecador que escutou
a Sua voz...é que o Reino de Deus não nos pede, como ponto de partida, que
sejamos já perfeitos, pede-nos somente que o coração esteja disponível. É assim
também que o Mestre sussurra à nossa alma a medida para esta semana: “Dá-me o
teu ‘nada’, serei o teu tudo!”. Aceitas? Boa Semana!
terça-feira, janeiro 26, 2016
FESTA DE DEUS...NO CORAÇÃO DOS ÚLTIMOS!
Quanto Amor e Ternura carregam os
nossos gestos quotidianos? De quanta Paz são cheios os nossos abraços? E quanta
Misericórdia oferecemos, diariamente, nas nossas palavras? Estas, e outras,
interrogações são motor para esta nossa semana, despertando assim os nossos
corações para o ‘essencial’ do Evangelho. E é do essencial visível aos olhos
que Jesus nos fala e para o qual Ele nos convoca!
Não basta ser batizado para ser
cristão! Não basta simplesmente comover-se diante do sofrimento humano, é
preciso mais. O Evangelho exige mais! E esse ‘mais’ do Evangelho pode
resumir-se na solene proclamação de Isaías: “O Espírito do Senhor está sobre
mim, porque Ele me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres. Ele me enviou a
proclamar a redenção aos cativos e a vista aos cegos, a restituir a liberdade
aos oprimidos e a proclamar o ano da graça do Senhor”. Todo batizado é um
ungido, um enviado, um comprometido em fazer ‘reinar’ Deus no coração do mundo...começando
pelos últimos! E para que Deus reine divinamente no coração dos últimos é
necessário denunciar a injustiça, oferecer dignidade, restituir a esperança e celebrar
o quotidiano.
Mais do que uma ‘opção’ pelos
pobres, o que precisamos é de uma ‘decisão’ em ser pobre. E decidir-se é uma
questão de Amor. Um Amor que acolhe, unge, cura, perdoa e restitui à Vida! Só
assim é que nos tornamos, quotidianamente, aquele “um só Corpo” de que nos falava
S. Paulo (1 Cor 12, 12-30).
Eis alguns exercícios diários essenciais
que temos de (re)aprender com este ‘êxtase’ permanente de Deus-Amor, com este
Seu ‘Jubileu quotidiano’: reconhecer o outro como uma história sagrada; Tocar e
beijar as feridas do outro com ternura; levantar da miséria oferecendo
recomeço, futuro; acolher sem preconceito; Denunciar a indiferença; celebrar
cada respiro como um milagre;
O Evangelho não é uma proposta
ética ou estética, é Vida e Compromisso (e)terno com o outro que é ‘meu irmão’,
que é ‘Filho de Deus’! Encontrar-se com Cristo e decidir-se pelo Seu Reino é,
portanto, (re)aprender quotidianamente a entrar na intimidade de Deus e a fazer
festa com Ele...no coração dos últimos! Vamos lá?! Boa Semana!
quarta-feira, dezembro 16, 2015
PORTAS ABERTAS, CORAÇÕES ESCANCARADOS!
“De quantas portas fechadas é feita a tua vida?”, é a provocação que
nos acompanha esta semana! Na verdade, o
começo de um Jubileu, agora ‘mais próximo’ e ‘mais dentro’ de nós, é sempre
oportunidade para (re)fazer uma ‘peregrinação interior’.
A porta é muitas vezes invocada como sinal de segurança, de preservação
da intimidade, de salvaguarda do que é privado...muitas vezes é também um sinal
de profunda rejeição! Há portas que nunca se destrancam, outras só se entreabrem
quando se responde à famosa interrogação: “Quem é?”. Que bom seria que antes da
pergunta viesse a afirmativa: “Entre!”. Como metáfora da vida, a porta
recorda-nos o quanto algumas vidas são uma prisão permanente...e há vidas e corações
tão ‘blindados’! Por entre portas trancadas, blindadas ou entreabertas a nossa
vida é um desafio permanente a destrancar, a desblindar...a escancarar.
Não foi em vão que um santo do nosso tempo nos interpelava assim: “Não,
não tenhais medo! Antes, procurai abrir, melhor, escancarar as portas a Cristo!
Ao Seu poder salvador abri os confins dos estados, os sistemas económicos assim
como os políticos, os vastos campos de cultura, de civilização e de progresso!
Não tenhais medo! Cristo sabe bem “o que está dentro do homem”. Somente Ele o
sabe!” (João Paulo II)
A misericórdia,
oferta de recomeço para os pecadores e esperança para os frágeis, pede-nos a
capacidade de redescobrir que “a casa de Deus é um abrigo, não uma prisão e a
porta se chama Jesus” (Papa Francisco). Pede-nos sobretudo a ousadia de sair do
templo e fazer o “Jubileu ao contrário”, tal como o sonhou Tonino Bello quando
afirmava que o problema maior das nossas comunidades cristãs não é o de abrir
portas de entrada para os espaços sagrados mas portas que se escancarem do
templo para a praça, seguindo a Cristo-peregrino e tocando todos os ‘estaleiros
quotidianos’ onde cada pessoa continua a ser desfigurada e espera ansiosamente
o regaço, consolo e a ternura do Deus-Amor.
Por estes dias somos chamados a redescobrir que a misericórdia e a alegria são irmãs gémeas. Há uma alegria, a que nasce da fé, que precisamos também de aprender a cantar quotidianamente com estas palavras do grande Profeta da Esperança: "Deus é o meu Salvador, tenho confiança e nada temo. O Senhor é a
minha força e o meu louvor. Ele é a minha salvação” (Isaías 12).
Interrogados e desafiados pela pergunta evangélica: “Que devemos fazer?” (Lc 3, 10-18), anima-nos a convicção de que toda a vida é feita de (re)começos, especialmente
quando percebemos que “a misericórdia de Deus é a sua responsabilidade por nós.
Ele sente-se responsável, isto é, deseja o nosso bem e quer ver-nos felizes,
cheios de alegria e serenos” (Papa Francisco). Eis, portanto, os nossos pés que
se colocam a caminho...de Portas abertas e de coração escancarado. Boa Semana!
"Deus só pode dar-nos seu amor, o nosso Deus é ternura" (Cântico de Taizé)
terça-feira, dezembro 01, 2015
...É TEMPO DE SER ESPERANÇA!
‘Saber esperar é uma virtude’, eis uma frase que
repetimos algumas vezes (negativamente!) uns aos outros para justificar os
nossos atrasos. Na verdade, vivemos num tempo que ‘não tem tempo’! Apressados,
e com os nossos relógios a devorar a agenda de compromissos e reuniões, vamos
perdendo aquela capacidade contemplativa de um artesão que se deixa enamorar
pelos detalhes e aceita que seja a ternura a ritmar as horas e a moldar cada
segundo com o sabor do infinito.
Para dar sabor, e sabedoria, ao tempo que vivemos
eis que a Esperança bate de novo à nossa porta para ser mestra e companheira de
viagem neste itinerário espiritual que nos conduzirá ao Natal. Fá-lo com a
delicadeza de um ‘coração materno’ acolhendo-nos, e recolhendo-nos em seu
regaço, para nos consolar, beijar nossas feridas e refazer a nossa comunhão com
o Amor; Fá-lo com a determinação da Fé para despertar em nossa alma uma
primavera espiritual que abre os olhos do coração e nos faz ver mais
profundamente cada detalhe; Fá-lo com a luz da humildade para nos despertar da
dormência e escancarar as portas da nossa vida para o encontro com o outro onde
nos descobrimos e reconstruímos, por entre fragilidade e risco, com a força
sempre libertadora do perdão que oferece recomeço.
O Advento está aí, Chegou! Este ano entrámos nele por
uma Porta especial. Foi escancarada no coração da África para, a partir dali, nos
lembrar que “todos nós pedimos paz, misericórdia, reconciliação, perdão,
amor...para Bangui, para toda a República Centro-Africana, para o mundo inteiro”
pois “com o amor seremos vencedores na vida e sempre daremos vida. O amor nunca
nos deixará derrotados” (Papa Francisco).
Iluminados pela Palavra que sempre nos alimenta e
entusiasma (LC 21, 25-36), e abraçados por uma Esperança que não (des)ilude, talvez
seja oportuno sussurrar ao nosso coração estas questões: de quanta esperança eu
habito os meus dias? E quanta esperança ofereço nos meus gestos? Com quanta
esperança espero o outro?...É que a esperança não é somente uma questão de
ter...é sobretudo uma questão de ser! Bom Advento. Boa semana!
terça-feira, novembro 17, 2015
NÃO TENHO MEDO!
Os recentes acontecimentos no coração da Europa fizeram também com que o
nosso coração ficasse em sobressalto. Uma vez mais a humanidade se reencontra
com o agir desumano e com a blasfêmia que usa o nome de deus para destruir.
De imediato se reagiu e se decidiu que o ‘contra-ataque’ seria a melhor
resposta...não bastava já sermos derrotados pela crueldade do coração humano
que quer instrumentalizar deus, e temos agora os ‘deuses’ da humanidade a
garantir-nos que pela (in)segurança da guerra sairemos vencedores nesta batalha!
Pobres de nós que nos perdemos entre guerras sem sentido, guerras que fazemos
dentro e fora de nós e que apenas alimentam (e aumentam!) o ego... A nossa passividade
encontra habitualmente como única saída a(s) guerra(s) - dentro e fora de nós!
Para não reagir também eu ‘a quente’, em vez de colocar a bandeira francesa
no perfil do facebook, fui rezando (e repetindo) estes dias uma das bem-aventurança:
“bem-aventurados os fazedores da paz, porque serão chamados filhos de Deus”. Dei
por mim a pensar: de quantos fundamentalismos (religiosos) é feita a nossa vida
quotidiana?...às vezes são tantos! Logo a começar pelo modo como nos olhamos
uns aos outros na rua (o meu olhar é contemplativo ou acusador?), passando pelo
modo como nos cumprimentamos (o meu ‘bom dia’ é apenas um ato formal?), até ao
modo como nos tocamos/abraçamos (ofereço aconchego no meu abraço?), já para não
falar nas palavras que dizemos uns aos outros na família ou no
trabalho...afinal, tem dias em que podemos ser tão, ou mais, fundamentalistas
como aqueles que realizaram o massacre em Paris...e disso não nos damos conta,
nem protestamos, nem ‘bandeirizamos’ os nossos perfis!
Eu creio na não-violência como resposta de Paz aos fazedores da guerra.
Não é passividade. Muito menos resignação. É uma opção. Cheia de Evangelho! É por
isso que não tenho medo! Não tenho medo de confiar nas pessoas. Não tenho medo
dos islâmicos. Não tenho medo dos refugiados. Não tenho medo de Deus. Não tenho
medo de ser chamado filho de Deus! Digo-o para que não tenhamos, também nós,
medo de nos lembrar: do Darfur, do Sudão do Sul, das perseguições na Nigéria, das
vitimas de Minas gerais, dos muros fechados numa Europa ‘mãe da democracia’,
das redes de tráficos de pessoas, do trabalho escravo na China, na Índia e no
Bangladesh...e de todos os outros fundamentalismos (religiosos), que também nós
somos e vivemos todos os dias, e diante dos quais não nos indignamos.
A promessa do Evangelho que escutámos este Domingo: “Passará o Céu e a
Terra, mas as minhas palavras não passarão” (Mc 13, 24-32) não é palavra do
passado, é realidade! Que o medo não nos torne fundamentalistas (religiosos)
num permanente ‘contra-ataque’ e que a certeza da Paz, que nasce no coração dos
que se sabem filhos de Deus, nos leve a sermos mais ousados e criativos. Não é
ingenuidade. É uma opção. É Evangelho. É presença do Ressuscitado. A paz esteja
contigo, meu irmão de cada Domingo! BOA SEMANA!
terça-feira, novembro 03, 2015
UMA SANTIDADE...INCÓMODA!
Para contemplar a vida não
basta abrir os olhos, é preciso ‘destrancar’ o coração. Consegues ainda
‘degustar’ o sabor das caricias da tua avó quanto te sentavas no seu colo? E
ainda te lembras do ‘perfume’ deixado em ti pelo sorriso amável daquele velhinho
a quem deste lugar no autocarro? Ah, já para não falar do sorriso penetrante
daquele irmão-mendigo que tiveste a coragem de olhar nos olhos e, ao dares uma
moeda, deste também ternura e tempo. Ainda te lembras? Se tudo isso são para ti
mais do que memórias, então sê bem-vindo à Santidade!
É na rotina dos dias que se
‘pavimenta’ de eternidade o caminho. E há tantos que abriram caminho de
eternidade para nós...não saberemos nunca agradecer o suficiente! Na verdade, o
que celebramos com a solenidade de ‘todos os santos’ não é somente esta coragem
de fazer extraordinário o que é pequeno e quotidiano, celebramos sobretudo a
simplicidade (anónima e universal!) de quem sabe encher de eterno cada
acontecimento, cada encontro, cada pessoa. E porque o Evangelho é sempre
desassossego do coração e da vida, celebrar a santidade é saber-se desafiado
pela misericórdia e ternura de Deus a ser oferta de recomeço, buscador de
dignidade, um grito profético e ensurdecedor de um coração insurreto na
caridade e na justiça. Não é à toa que a liturgia da Igreja nos coloca, no
coração e na vida, as Bem-Aventuranças (Mt 5) nossa identidade fundamental, já
a preparar-nos para o exame (final) do Amor (Mt 25), celebrado como Vida
(e)terna!
Se o Batismo nos faz profetas,
então que a nossa santidade seja ‘incómoda’ e de ‘mãos sujas’. Que ao altar da
vida levemos como incenso o ‘perfume rude’ dos sem teto; o perfume ‘barato e
incómodo’ das mulheres de rua que vendem a sua carne (que é a mesma de Cristo!)
a tantos ‘bem comportadinhos’ que vivem de paz com deus, mas são devoradores
dos irmãos; o ‘perfume agonizante’ de tantos que vivem carregando pesos de um
passado que os devora e não os deixa entrever um futuro de paz; o perfume de
uma igreja “acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas
estradas” (EG 40). Porque “Se alguma coisa nos deve santamente inquietar e
preocupar a nossa consciência, é que haja tantos irmãos nossos que vivem sem a
força, a luz e a consolação da amizade com Jesus Cristo, sem uma comunidade de
fé que os acolha, sem um horizonte de sentido e de vida” (EG 49).
Quando nos deixamos tocar e
‘perfumar’ pelos últimos, então o Evangelho torna-se a nossa medida de ser e
agir, o bálsamo quotidiano com que aromatizamos todos, e tudo, que tocamos... e
haverá perfume melhor do que abraçar Deus com as nossas mãos sujas?!
Compartilho contigo a vida das
palavras de um pequeno grande profeta, que mesmo estando no céu, continua a
despertar aqui na terra uma ‘santidade incómoda’:
«Pelos
tempos fora se destacaram santos e santas:
de mãos erguidas, de mãos dadas, de mãos largas,
de mãos rotas, de mãos cheias, de mãos limpas...
de mãos erguidas, de mãos dadas, de mãos largas,
de mãos rotas, de mãos cheias, de mãos limpas...
Nestes dias, e como 'sinal dos
tempos',
exigem-se santos e santas
exigem-se santos e santas
de mãos sujas,
de mãos rudes.
de mãos rudes.
Mãos admiráveis, de cristãos e
cristãs, manchadas
porque remexem escórias sociais,
e de vidas conspurcadas, não raro, tiram pérolas!
porque remexem escórias sociais,
e de vidas conspurcadas, não raro, tiram pérolas!
Adoráveis mãos firmes de
crentes
tratadas como dementes,
a construir sacrários vivos de Cristo.
- Oh paradoxo evangélico
um Cristo demitido do corpo social.
tratadas como dementes,
a construir sacrários vivos de Cristo.
- Oh paradoxo evangélico
um Cristo demitido do corpo social.
Um Cristo ressuscitado porém,
que mãos sujas desenterram de escombros;
vidas aos tombos... remidas também! »
que mãos sujas desenterram de escombros;
vidas aos tombos... remidas também! »
(José Dias da Silva)
quarta-feira, julho 01, 2015
«TALITHA, QÛM!»...porque a tua dor tem rosto e nome!
Nenhum
sofrimento, por mais intimo que seja, é anónimo. Todas as nossas dores têm
‘nome e rosto’. Mesmo quando silenciado pela boca, o nosso sofrimento pode
ler-se (e reler-se!) no nosso rosto, nas nossas (poucas) palavras, numa
infinitude de gestos que ficam por realizar ou que são realizados sem vigor,
sem alma ou ansiosamente sem vida. Do sofrimento só se pode falar na primeira
pessoa, porque jamais seremos capazes de entender ou de conhecer profundamente
o sofrimento do outro (que é meu irmão!). Na terra sagrada que é cada
sofrimento, pessoal ou comunitário, só se pode entrar de pés descalços e de
coração aberto. Não há espaço para sentenças de tipo “tupperware” muito bem
arrumadinhas e hermeticamente fechadas como se fossem a última (e definitiva!)
palavra. O sofrimento é uma polifonia de sentido e de sabedoria que só consegue
captar, apreender e enraizar no seu mais intimo, tal aprendizagem, quem tem a
humildade de se fazer companheiro-samaritano nesta viagem.
Há
palavras em excesso diante de tanto sofrimento humano, e há silêncios cúmplices
que são verdadeiramente escandalosos. Como sempre, o Evangelho, escola de
ternura e sabedoria, abre caminho diante de nós para que possamos entrar na
terra sagrada do sofrimento humano sem ‘doutorices’, sem respostas tipo ‘take
away’ ou ‘Mac drive’, pois ser visitado pelo sofrimento não pode jamais
equivaler-se a um ‘passar apressado’, e anónimo, numa qualquer área de serviço
de auto-estrada onde o que já foi previamente confeccionado serve para tudo,
para todos e em tudo. Jesus, sabedoria do Coração do Pai, diante do sofrimento
humano, sabe deter-se, acompanhar, tocar, falar e fazer viver (Marcos 5,
21-43). Ensina-nos o Evangelho que cada pessoa vale mais do que o tempo, Que
cada história é um tesouro precioso, que cada dor precisa do ‘sacramento da
presença’, do perfume do silêncio, do bálsamo de uma esperança que não ilude nem
idealiza, mas que realiza!
Irmanado
com as nossas dores e angústias, com as nossas tristezas e alegrias, Deus, em
Jesus Seu Filho e nosso irmão, toca-nos e deixa-se tocar, interpela-nos olhos
nos olhos e coração a coração com a novidade sempre libertadora do Evangelho e
escancara em nós, a partir do mais profundo do nosso ser, um dinamismo de vida
que nenhuma morte pode esconder ou silenciar. Como nos recorda D. António
Couto: «“Talitha,
qûm” [= menina, filha, irmã, levanta-te!]. Não passa despercebido que a palavra
de Jesus interpela a própria morte, e trata aquela menina ternamente por irmã,
irmãzinha, as irmã querida. Na verdade, o aramaico Talitha é o feminino de
Talya’. E o aramaico Talya’ é a mais bela e significativa palavra para dizer
Jesus, pois significa ao mesmo tempo ‘Filho”, ‘Cordeiro’, ‘Servo’, ‘Pão’».
Começa uma nova semana! 7 dias para
viver com um ‘coração samaritano’. Sabemos, e sentimos, que “O homem não pode viver sem amor. Ele
permanece para si próprio um ser incompreensível e a sua vida é destituída de
sentido, se não lhe for revelado o amor, se ele não se encontra com o amor, se
o não experimenta e se o não torna algo seu próprio, se nele não participa
vivamente” (João Paulo II). ´Bora lá ser, ao longo da semana, rosto e presença
diante dos muitos sofrimentos, pessoas, histórias e rostos com que nos cruzamos
diariamente?!
segunda-feira, junho 15, 2015
ACREDITAS NA VIDA DEPOIS DO NASCIMENTO?
Quem já viveu a experiência do sofrimento sabe bem como é a inquietação do
coração quando, durante a noite, vigia para que o outro que sofre não se sinta
só e tenha tudo o que necessitar. Ser ‘visitado’ pelo sofrimento é entrar numa
escola onde se (re)aprende o que é verdadeiramente humano. Os pequenos gestos,
que se tornam em gestos decisivos e fundamentais; as pequenas carícias, que
devolvem a esperança e são um bálsamo para as dores; as palavras que ganham outra
densidade, pois diz-se apenas o essencial e o silêncio gera uma cumplicidade
que se traduz em olhos que contemplam…mesmo se inundados pelas lágrimas. Perto ou
longe tu já viveste esta experiência!
Parto desta experiência vital para te falar de um dos segredos mais belo do
Evangelho: Acreditar na vida depois do nascimento! Sim, quando Jesus nos fala
do seu Reino como ‘semente lançada à terra’ (Marcos 4, 26-34), fala-nos desta capacidade de semear
(e enraizar!), no que é finito, a eternidade. Fala-nos de um dom que se planta
com liberdade, que germina e cresce com a vulnerabilidade da ternura de quem
sabe acompanhar e que produz um fruto que se torna alimento e abrigo para os
que de coração humilde sabem ver (e acolher!), no tempo, essa novidade que
converte a vida: o Evangelho!
A semente plantada no coração do mundo és tu. Sou eu. Somos nós! E, uma vez
que todas as grandes transformações acontecem de dentro para fora, consegues já
ver o que Deus está a semear em ti e contigo? Com razão alguém disse um dia “só
quem acredita no que é pequeno, sabe ver o que Deus faz!”…e tu, Acreditas na
vida depois do nascimento? Deixo-te com uma história que talvez já conheças,
mas que é sempre bom (re)ler…e ACREDITAR! Boa Semana!
«No ventre de uma mulher grávida estavam dois bebés. O primeiro
pergunta ao outro:
- Acreditas na vida depois do nascimento?
- Certamente. Algo tem de haver após o nascimento. Talvez estejamos
aqui principalmente porque nós precisamos nos preparar para o que seremos mais
tarde.
- Que estupidez, não há vida após o nascimento. Como seria essa vida?
- Eu não sei exactamente, mas certamente haverá mais luz do que aqui.
Talvez caminhemos com nossos próprios pés e comeremos com a boca.
- Isso é um absurdo! Caminhar é impossível. E comer com a boca? É
totalmente ridículo! O cordão umbilical alimenta-nos. Eu digo somente uma coisa:
A vida após o nascimento está excluída, o cordão umbilical é muito curto.
- Na verdade, certamente há algo. Talvez seja apenas um pouco diferente
do que estamos habituados a ter aqui.
- Mas ninguém nunca voltou de lá, depois do nascimento. O parto apenas
encerra a vida. E afinal de contas, a vida é nada mais do que a angústia
prolongada na escuridão.
- Bem, eu não sei exactamente como será depois do nascimento, mas
com certeza veremos a mamã e ela cuidará de nós.
- Mamã? Acreditas na mamã? E onde ela supostamente está?
- Onde? Em tudo à nossa volta! Nela e através dela nós vivemos. Sem ela
tudo isso não existiria.
- Eu não acredito! Eu nunca vi nenhuma mamã, por isso é claro que não
existe nenhuma.
- Bem, mas às vezes quando estamos em silêncio, você pode ouvi-la
cantando, ou sente, como ela afaga nosso mundo. Saiba, eu penso que só então a
vida real nos espera e agora apenas estamos nos preparando para ela...»
quinta-feira, junho 04, 2015
NO AMOR...SOMOS UM!
Não somos simplesmente diante dos outros ou com os outros, somos ‘para os outros’. É assim também que a Palavra, semente de Vida (e)terna para o nosso ser e agir, nos faz entrar no coração daquilo que é essencial na nossa fé: proclamar que Deus é Trindade, origem e fonte de todo o Amor. Amor para todos!
O Amor que nasce do Evangelho é sempre ‘presença’, uma liberdade que se dá e que está disponível para acolher, na gratuidade, o que o outro é e a partir de onde ele está. O Amor (quando é verdadeiro!) nunca idealiza, realiza! Mais ainda, converte e transforma a partir da raiz, em profundidade. Para sempre. É isso que, no dizer de Paulo, nos faz filhos e nos resgata da escravidão! Somos herdeiros de uma identidade que nada, nem ninguém, poderá jamais ‘desfigurar’. Como disse, sabiamente, o Papa emérito Bento XVI: “o verdadeiro amor promete o infinito!”. Mas, para nós, trata-se de algo ainda maior e mais profundo, pois Deus, que é Amor infinito, não só promete, dá! Dá-se para sempre! A todos. E nós somos enxertados, isto é, ligado de modo vital, a Ele para sempre no Amor. Por Amor. Com Amor.
É assim que (re)começa em nós, agora que passaram as grandes festas da Páscoa, o tempo que a liturgia chama de ‘tempo comum’ ( = deixar que Cristo nosso Irmão e Redentor habite os nossos caminhos e alargue as fronteiras do nosso coração). É um tempo que não começa ao acaso, nem por acaso. Se todos os recomeços são providenciais, recomeçar a partir do coração da Trindade é fundamental. Livra-nos da idolatria (dentro e fora de nós!), desperta-nos para a ternura (evitando a tentação de fazer dos outros objetos!) e coloca-nos num dinamismo essencial: ser rosto de um Reino que foi semeado em cada coração e que precisa germinar e dar fruto.
O Amor-Trinitário pede-nos que renunciemos ‘à tentação da perfeição’, porque ela torna-nos egoisticamente solitários, e um solitário, mesmo que fosse perfeito, só poderia amar-se a si mesmo! O Amor-Trinitário convoca-nos para aquele ‘Amor-vulnerável’ de quem se sabe sempre peregrino, trabalhado pelas mãos do ‘Divino Oleiro’, e num 'Êxodo' evangelicamente dinâmico que nos faz olhar para além daquilo que os olhos conseguem ver e fazer de cada gesto, palavra, encontro, olhar, silêncio um hino de ‘Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo’. Não se trata, portanto, de “matemática teológica” para tentar descortinar se a Trindade é 1 = 3 ou 3 = 1, trata-se isso sim de redescobrir, com o encanto de um coração de criança, que com a Trindade, No Amor,...somos UM!
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