um espaço de partilha, reflexão, discussão e anuncio do amor misericordioso de um Deus loucamente enamorado por todos os que criou à sua imagem e semelhança...
De quantos encontros são feitos
os nossos dias? Na correria do quotidiano é normal cruzarmo-nos com muita
gente, vemos apressada e superficialmente rostos, acenamos com a cabeça ou com
as mãos para dar uma breve saudação, em alguns casos ainda conseguimos apertar a
mão do outro, mas é um ‘toque’ superficial, sem tempo, pois ‘temos de ir’ que o
relógio não para.
É urgente que os nossos caminhos
quotidianos se tornem ‘sacramento do encontro’, lugar onde nos vemos e nos
contemplamos, lugar onde degustamos a vida e a compartilhamos em profundidade,
lugar onde o outro se torna parte de mim, lugar onde a história sagrada do
outro se torna um apelo a ver, sentir e cheirar o bem, o bom e o belo da vida,
de cada vida, em cada história.
Se cada encontro (re)começar com
um olhar contemplativo e um coração escancarado (re)aprenderemos, com a força
sempre sedutora e vulnerável da ternura, que somos muito mais, e muito melhor,
do que imaginamos! (re)descobriremos o eterno em cada momento e o ‘tesouro escondido’
por dentro de cada gesto e palavra pronunciadas. É que afinal nenhum de nós é
um obra já acabada e o que falta ainda (re)construir não se encontra na espuma
dos dias, exige de nós ir mais fundo...exige discernimento ( = ler por dentro).
A Palavra que nos visita esta
semana desperta-nos para uma vida ‘Cristificada’ (Lc 9, 51-62). Com Ele, e como
Ele, somos Ungidos ( =Cristo, na língua
Grega; Messias, na língua Hebraica);
Com Ele, e como Ele, somos Peregrinos que atravessam o tempo fazendo de cada
lugar e encontro um Kairós ( = tempo
habitado pela Salvação); Com Ele, e como Ele, tocamos as feridas da existência
humana e sentimos o doce desassossego do Espírito que faz com que “tudo o que é
verdadeiramente humano encontre eco em nosso coração” (GS 1); Com Ele, e como Ele,
temos como mesa e altar o quotidiano e ali nos repartimos para sermos sabor e
presença do Reino que o Pai nos oferece, não como prémio mas como medida para
tudo o que somos, pensamos, dizemos e fazemos; Com Ele, e como Ele,
atravessamos a cidade dos homens com o Evangelho no coração e nos lábios para
oferecer a todos uma palavra de benção, reconciliação, cura e libertação.
Eu e tu somos uma missão nesta
terra, é para isso que estamos no mundo. É preciso considerarmo-nos como que
marcados a fogo por esta missão de iluminar, abençoar, vivificar, levantar,
curar, libertar. Nisto uma pessoa se revela enfermeira do no espírito,
professor no espírito, político no espírito..., ou seja, pessoas que decidiram,
no mais íntimo de si mesmas, estar com os outros e ser para os outros’ (EG 273).
Então, como fez Elias com Eliseu (Rs 19, 16b), ou como Cristo fez com Pedro e
Paulo, também Ele te diz hoje: “Vai...e Unge! Vai...e cura. Vai...e abraça.
Vai...e perdoa! A todos, para sempre, como Ele fez. Pois foi para essa
Liberdade que Cristo nos libertou. BOA SEMANA!
Distraídos e anestesiados somos
devorados pelo relógio que nunca para! Bauman diz que vivemos num tempo em cuja
identidade ou é de ‘turista’ ou de ‘vagabundo’, as referências e decisões sólidas
tornaram-se fluídas e, não obstante a tragicidade de tudo isso, somos cada vez
mais indiferentes...
Com seus ritos e dogmas a
indiferença vai fazendo caminho entre nós: na falta do ‘bom dia’, na omissão de
gentileza, na falta de apreço pelo que o outro é, no modo como nos olhamos
pessoal ou coletivamente...estamos, lentamente, a ‘demonizar’ e a esquecer o
humano. A nossa memória, quase potenciada ao infinito pela nova religião (do
latim ‘religare’) chamada tecnologia, é afinal cada vez mais curta e os nossos “terabytes
emocionais”, que deveriam ser espaço (e)terno para o (re)encontro, o diálogo e
a partilha, estão cada vez mais monossilábicos e vazios, dando lugar a um
sentimentalismo epidérmico e perigoso.
Precisamos, urgentemente, (re)aprender
a arte de cuidar e contemplar. Precisamos de silêncio e de um coração de
criança para reaprender afetos. Se nos falta encanto para ver o novo,
precisamos reaprender a contemplar o quotidiano e a ver em cada instante ‘o
milagre’ de um caminho feito de escuta, decisão, ousadia e criatividade. Nenhum
de nós é um monólogo. Muito menos somos cinzentos! As cores da vida, e do
coração, dão-nos a possibilidade de nos tornarmos ‘semeadores da ternura’ e (re)construtores
da esperança.
Cada vida é um (re)começo! Uma
história tecida com a filigrana de tantos encontros, palavras, silêncios, gestos,
olhares. Sim, podemos recomeçar sempre. Todos os dias. A ternura abre portas
onde só vemos paredes, um olhar planta infinito onde só vemos limites, um gesto
abre ao futuro onde antes só se via passado, um abraço desperta acolhimento
onde antes só se via recusa, e o coração...bom, esse faz-nos sussurrar a Vida
onde se via apenas morte!
Quando nos faltar a coragem, ou
o medo parecer mais forte, vamos olhar-nos olhos nos olhos ainda mais
intensamente, vamos deixar que nossos corações se (re)encontrem e, na
cumplicidade que só o Amor desperta, vamos sussurrar um ao outro: “Vou cuidar
de ti! Não temas! Dá-me um abraço”.
Há quem viva a vida só pela
metade. Esses, de medo em medo, semeiam amargura e lamentações, como se existir
fosse uma ‘fatalidade’ e viver fosse tão somente um ‘vale de lágrimas’. Para a
vida ter saber, sabor e sentido não bastam ‘bons propósitos’, boas ideias ou ‘pensamentos
nobres’...já para não falar dos sempre ‘ótimos (e absolutos!) juízos’ que temos
acerca dos outros!
Precisamos ser ‘artesãos da vida’.
Precisamos urgentemente (re)aprender, com um coração de criança, a acolher sem
estar à defesa e a saber que o outro é ‘diferente de mim’, mas não é ‘meu
inimigo’; é decisivo que (re)aprendamos a ‘eternidade da ternura’ num simples e
demorado olhos-no-olhos e coração-a-coração. É curioso como a poeira do tempo e
da história nos vais anestesiando o encanto pela simplicidade...Há quanto tempo
não te sentas no colo de tua mãe? Ainda te lembras da última vez que
acariciaste o rosto dos teus avós? Quantos abraços tens oferecido aos que se
cruzam contigo diariamente? De quanto perdão vão carregadas as tuas palavras? E
os teus olhos como contemplam a presença discreta e silenciosa do Deus-Amor no
mundo? Não te parece contraditório que nós, os discípulos de Cristo, sejamos
tantas vezes os primeiros a ‘amaldiçoar’ o tempo e a história em que vivemos?
Se cada um de nós se desse conta do quanto Deus age na história não perderíamos
tanto tempo com as ‘lamentações de perdição’ e os nossos dias seriam uma
sinfonia de ação de graças. Não sou ingénuo, sei que o mal existe no mundo,
sobretudo nos corações fechados, mas o bem que vemos, ouvimos e fazemos é
infinitamente maior!
A Palavra desta semana
encontra-nos e desconcerta todos os nossos esquemas e pré-juízos! O que está em
causa naquele ‘encontro’ na casa do fariseu não é o pecado, mas a nossa
capacidade de acolher (Lc 7, 36-50). Não basta deixar entrar e ‘preparar a mesa’,
isso é ‘boa educação’, é preciso que o outro tenha espaço no nosso coração, e
isso é Evangelho! Só é capaz de oferecer um perdão desmesurado quem sabe que
cada pessoa é terra e história sagrada, que todos somos recomeço e que Deus é o
único que não desiste de nós e o primeiro a levantar-nos. O perdão não é uma
questão de ‘contabilidade’, é oferta antecipada de um dom imerecido, incondicional
e gratuito. “Ninguém pode ser condenado para sempre pois esta não é a lógica do
Evangelho” (AL 297).
No frasco de alabastro levado
pela mulher-peregrina vai a oferta do seu quotidiano. É a oferta total, amorosa
e confiante da sua fragilidade, dos seus recomeços, das suas dores, perdas e
angústias. É a sua oração de súplica, antecipando não somente o anúncio da
morte de Jesus, mas também a sua própria morte para uma ‘vida velha’ feita de
descaminhos. Ela sabia que só Aquele que é a Vida poderia vencer todas as
mortes que trazia dentro! Foi assim que silenciosamente, naquela casa, o
encontro gerou o perdão e no perdão se deu a cura (interior). Sim, o perdão de Deus
levanta-nos sempre sem nos humilhar e renova em nós a certeza de que somos
filhos e não mais mendigos. Gosto de olhar este encontro como uma metáfora da
nossa vida...gosto de ficar ali em silêncio de olhos fixos em Jesus e naquela ‘mulher-coragem’
que nos ensina a ‘não temer o Amor’. Este encontro desperta sempre em mim um
sonho...partilho-o contigo: Sonho com o dia em que todos nós os batizados
acreditarmos INFINITAMENTE no perdão de Deus...nesse dia começaremos a ser
Cristãos! BOA SEMANA!
*É bom (re)lembrar:
“Saiamos, saiamos para oferecer a todos a vida de
Jesus Cristo! (...) Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter
saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se
agarra às próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada com ser o
centro, e que acaba presa num emaranhado de obsessões e procedimentos. Se
alguma coisa nos deve santamente inquietar e preocupar a nossa consciência é
que haja tantos irmãos nossos que vivem sem a força,a luz e a consolação da amizade
com Jesus Cristo, sem uma comunidade de fé que os acolha, sem um horizonte de
sentido e de vida. Mais do que o temor de falhar, espero que nos mova o medo de
nos encerrarmos nas estruturas que nos dão uma falsa proteção, nas normas que
nos transformam em juízes implacáveis, nos hábitos em que nos sentimos
tranquilos, enquanto lá fora há uma multidão faminta e Jesus repete-nos sem
cessar: ‘dai-lhes vós mesmos de comer’.”(Papa Francisco, EG 49)
A nossa vida quotidiana é cheia de surpresas, eventos, alegrias, dores
e sofrimentos. Nela há tantas histórias, lugares e pessoas que nos marcam
profundamente; há abraços e memórias, palavras, olhares e encontros que tornaram
(e)terno um instante. Na nossa história pessoal há também pessoas que nos
feriram...há mágoas que teimamos não deixar cicatrizar, há silêncios amargos, ‘pesos
interiores’, há recordações que são mais barulhentas que um campanário em dia
de finados...
Por entre a memória e afeto, cheios de passado ou escancarados ao
futuro, há também dentro de nós ‘o dom das cicatrizes’. De quantas cicatrizes é
feito um coração? É uma pergunta que talvez nos possa acompanhar estes dias! Todos
somos afeto...e sem afeto nada somos. É importante que o nosso coração saiba
olhar para além dos sentimentos mas também que aprenda a discernir sem a frieza
de uma racionalidade estéril que sabe reagir, analisar, planejar mas que
dificilmente tocará algum dia a realidade.
Sabemos pela Palavra da Vida, o Evangelho, que não adianta projetar se
não estamos dispostos a sujar as mãos! Não adianta saber quem é Deus se não nos
deixamos encontrar e converter por Ele. De que adianta, aliás, saber (e
debitar!) todo o Catecismo se na verdade não somos habitados pelo Evangelho? A
experiência de fé não é uma decisão ‘ética’ ou ‘estética’, é encontro! E todo o
encontro pressupõe uma história sagrada, um caminho, uma vida...
É muito interessante lembrar aqui a arte japonesa do kintsugi (ou
kintsukuroi), arte que consiste em reparar com ouro objetos de cerâmica
quebrados. Ela nos re-ensina, a nós que somos nutridos pelo Evangelho, como
para Jesus cada encontro é uma vida, e toda a vida é um encontro. Sem filtros
ou barreiras, sem impossíveis ou distâncias. O Mestre de todos os encontros é
também o único que sabe que embora possamos cometer alguns erros, jamais
seremos um erro!
É este ‘excesso do dom’ que interpela e seduz, é este “Amor-de-todo-o-amor”
que faz do Centurião um peregrino (Lc 7, 1-10). É este Amor que converte e
salva que nos coloca ‘em saída’ e nos faz ver que, para além dos nossos
preconceitos, para além dos nossos julgamentos, para além dos nossos filtros
hipócritas, há muito ‘dom’ a acontecer. Jesus, ‘o Profeta fora da lei’, faz-nos
ver como ‘fora do templo também há salvação’! Ei-Lo provocador a lembrar-nos: “Digo-vos
que nem mesmo em Israel encontrei tão grande fé”. Não se trata simplesmente de
um elogio, mas de um olhar contemplativo e de um encontro que viu naquele
coração os fios de ouro (kintsugi) da ação divina, o dom divino a fazer do
Centurião-peregrino um modelo para todos os que buscam contemplar as cicatrizes
(o ouro!) onde outros só veem passado (ódio/amargura). O Centurião de Cafarnaum
é ‘parábola’ do caminho que ainda nos falta fazer! Nesse caminho o primeiro
passo, que nos desinstala e transforma, dá-se quando a nossa vida é capaz de
dizer: “Senhor, não sou digno que entres em minha casa, mas diz uma palavra...e
serei curado!”.
De quanto céu é feita a tua vida? É uma pergunta essencial para quem ousa
ir além da espuma dos dias! Não se trata de ‘ser bonzinho’ ou de ‘fazer de
conta que o mal não existe’, muito menos se trata de ser ‘ingénuo’. Encher a
vida de céu significa colocar como ponto de partida de cada passo, e em cada
gesto ou palavra, o discernimento. Trata-se essencialmente de um processo de ‘degustação
interior’ que permite ver o que nos humaniza e aquilo que nos desfigura.
Vivemos num tempo onde leveza é confundida com superficialidade, reflexão
e ponderação são olhadas como ‘uma perda de tempo’, e como já ‘não temos tempo’
segue-se adiante, de experiência em experiência, aumentando cada vez mais o
vazio existencial. Vai-se enraizando, sobretudo nas novas gerações, um certo ‘analfabetismo
emocional’ que privilegia uma vida cheia de emoções e comoções mas que é
incapaz de fazer olhar ‘para longe’ e ‘para o alto’. A grande crise que vivemos
não é primeiramente moral, vivemos isso sim uma verdadeira ‘crise humanitária’
e espiritual. Precisamos reaprender a ser humanos, precisamos reencontrar-nos
com as grandes questões da vida e do mundo, não basta saber para onde temos de
ir é preciso educar a vontade...e querer ir! Esta é talvez a maior pobreza do
nosso tempo: não sabermos quem somos, esquecermo-nos de onde viemos e não
ousarmos ir onde Deus nos sonhou e nos espera.
O Evangelho, boa notícia do coração de Deus para o mundo, vem em nosso
auxílio e desperta-nos da ‘espuma dos dias’ (Lc 24, 46-53). O Ressuscitado encontra-nos, como aos
discípulos, em Betânia ( = Casa do Pobre) e pede que a nossa pobreza, sem
deixar de ter os pés bem firmes na terra, se habitue a ‘olhar para o alto’. Não
se trata de fuga, mas de um sentido: aceitar que cada gesto da nossa inteligência
e do nosso coração esteja ‘cheio de céu’. É que, quando o céu nos habita, a
indiferença dá lugar ao diálogo, o ódio é vencido pela ternura, a distância
encurta-se e faz-se encontro, o egoísmo é vencido e tudo se torna motivo para
servir.
Na escola do Evangelho só avança quem aceita ser moldado pelo ‘Amor do
Pai e do Filho’, o Espírito Santo. Aqui não há lugar para auto-suficiência! Neste
caminho o ‘fazer juntos’ é mais importante que o ‘fazer tudo certo’. É por isso
que esta ‘sedução pelo céu’ só é possível, e acontece, num coração-templo!
Com ritmos e experiências diferentes é fundamental redescobrir que
somos ‘peregrinos com um coração-templo’. A caminho do Pentecostes, pedimos ao
Único Amor capaz de ‘renovar a face da terra’ que venha em nosso auxílio, cure
as nossas feridas e nos ajude a “que os nossos olhos, feitos para olhar as
estrelas, não morram a olhar para os nossos sapatos” (J. Tolentino Mendonça).
“Quem és tu, doce Luz que me preenche e ilumina a obscuridade do meu
coração? Conduzes-me como a mão de uma mãe e se me soltasses, não saberia nem
dar mais um passo. És o espaço que envolve todo meu ser e o encerra em si. Se fosse
abandonado por ti cairia no abismo do nada, de onde tu o elevas ao ser. Tu,
mais próximo de mim que eu mesmo e mais íntimo que minha intimidade, e sem
dúvida, permaneces inalcançável e incompreensível, e que faz brotar todo nome:
Espírito Santo – Amor eterno!”
(Oração de Edith Stein, uma santa nossa contemporânea e vítima do regime nazi em Auschwitz)
Não há nada mais vulnerável no mundo do que o Amor. No
entanto, toda essa sua vulnerabilidade nos revela um paradoxo
extraordinariamente belo: na sua fragilidade (omni)potente o Amor cria, cura,
liberta, transforma, converte. Basta ver o que pode o abraço amoroso do pai
após uma queda quando somos pequenos; e quem já esqueceu o calor da ternura da
mãe que vigiava, de noite, o nosso respirar enquanto dormíamos? Ficarão para
sempre impressas na nossa alma as palavras e as carícias que enxugaram as
nossas lágrimas quando se feriram os nossos joelhos nas primeiras quedas da
infância; continuaremos a ‘degustar eternamente’ o colo que sempre foi amparo
quando os medos pareciam mais fortes que a coragem.
O amor adianta-se sempre para perdoar. Cria laços e desperta
recomeços. Faz-nos dançar, pular e cantar de alegria. Faz-nos ajoelhar para
agradecer e servir. Faz-nos caminhar porque desperta sonhos e alimenta
projetos. Faz-nos calar, pois sabe acolher, escutar e discernir. Faz-nos parar
para contemplar, pois nos ensina a ver o eterno no instante. Cheio de beleza, e
com o perfume do afeto, o amor faz-nos peregrinos em busca da sabedoria que
nasce do encontro com a verdade. Faz-nos discípulos quando se revela a nós como
Amor-Pascal, Amor-Crucificado, Amor-Ressuscitado.
É com este Amor, que faz novas todas as coisas (Apoc. 21,
5), que nos abraça a Palavra desta semana! Mais que um ‘mandamento’, é uma
‘identidade nova’. No tempo e na história, não haverá nunca outro modo de
conhecer e reconhecer um discípulo de Cristo a não ser por este Amor-Pascal que
tudo renova, tudo crê, tudo espera e tudo suporta (1 Cor 13). Naquele “Como eu
vos amei” do Mestre, está o início da maior revolução da história da humanidade
(Jo 13). Não poderemos mais viver ‘na defesa’ ou ‘no ataque’, não mais
poderemos separar ‘maniqueísticamente’ o mundo entre ‘os bons’ e ‘os maus’,
jamais se poderá grampear com o Amor-Pascal palavras como poder, luxo,
auto-suficiência...
O Amor-Pascal é sempre oferta de recomeço, Ele mesmo sabe
que estamos ainda titubeando no caminho! Só Ele nos pode despertar da
acomodação e entusiasmar a fazer caminho.
Estamos diante da ‘porta da fé’ (actos 14, 27), que se abre
de dentro para fora, e nos interpela a derrubar as nossas idolatrias com a
força vulnerável do único Amor que salva. Um Amor que não é novela, nem a
banalidade do ‘happy end’ de hollywood.
No Amor-Pascal estamos sempre no (re)começo, pois “Jesus
Cristo quer [que sejamos] uma Igreja atenta ao bem que o Espírito derrama no
meio da fragilidade” (AL 308). Um amor que não toque a fragilidade, que não
abrace as periferias, que não se deixe ‘sujar’... não é amor cristão! Um Amor
assim não é utopia, é Evangelho! Boa Semana.
Há perguntas que nos acompanham
uma vida inteira! São elas que dinamizam cada amanhecer e nos trazem aquela ‘doce
certeza’ que preenche cada gesto quotidiano com a Esperança que nasce da Fé. No
caminho, cada encontro é um Milagre, cada olhar uma contemplação do Mistério,
cada abraço um ‘sacramento quotidiano’ que converte e fortalece a vida com o
dom sempre vulnerável da ternura Pascal!
É neste (a)mar, cheio de Vida
Pascal, que o Crucificado-Ressuscitado nos encontra esta semana e nos convida a
estreitar tudo aquilo que nos distancia das margens, a abandonar em modo
definitivo o mar da desilusão, da ‘vida velha’ em que todos insistimos viver,
para mergulharmos mais profundamente nesse (a)mar novo onde Ele não nos deixa
sucumbir na amargura de insiste apenas (sobre)viver num ‘ruminar’ constante do
passado.
No (a)mar da vida e da história
pessoal de cada um de nós há caminhos novos que é preciso percorrer com
determinação! E Deus quer-nos cheios de futuro. Para Ele somos um (a)mar de
possibilidades, um infinito de amor cheio de muitos ‘sins’ para dar ao projeto
de Eternidade que Ele desenha em cada passo do nosso caminho e no mais profundo
do nosso coração.
Deus-Amor, cujo Rosto
contemplamos em Jesus, não nos quer acomodados a repetir um passado estéril ou
o peso de uma rotina que não nos converta a vida e o coração. Na hora de correr
o risco de abraçar o que é ‘novo’, Deus é o primeiro a tomar a iniciativa em
Jesus! Vem ao nosso encontro para alimentar a nossa ‘mendicidade’ com o único ‘Pão
e Peixe’ que nos devolve a consciência de que somos Filhos. É assim que Deus (re)começa
esta nossa passagem (=Páscoa) no (a)mar.
“Ninguém pode ser condenado para
sempre, essa não é a lógica do Evangelho” (Papa Francisco). Determinante para
Deus é sempre o caminho que está ainda por fazer! Deus esconde o nosso passado
no coração de Cristo e n’Ele abre para nós caminhos novos onde o perdão e a ternura,
a vida e o sonho ‘dançam’ prazerosamente a suave melodia do reino novo de Justiça,
Paz e Alegria no Espírito Santo. É assim que Ele nos quer! Ritmados pela Páscoa
e a fazer de cada encontro um (a)mar de possibilidades.
Deus gosta de horizontes largos! Seja
nas margens do Jordão, no mar de Tiberíades ou no mais profundo do nosso ser. É
aí que acontece sempre a ‘sedução’ e o fascínio daquele ‘primeiro encontro’ e ‘primeiro
olhar’ que muda a vida, converte o coração e nos faz discípulos para sempre.
No (a)mar da vida, Cristo
continua a vir ao nosso encontro. Com Seu Amor Pascal fixa em nós o Seu olhar e
interpela-te: “Tu, amas-Me?”. Somente o Amor se antecipa e acolhe...e só Ele pode
oferecer recomeço (Jo 21, 1-19)! BOA SEMANA!
Há já muito tempo que ando para te escrever. Sempre tive muita curiosidade em falar contigo mas tenho andado tão a correr que só me recordo que temos de marcar um encontro nesta altura do ano! No Domingo, uma vez mais, ouvi falar de ti. Estranha aquela forma como te chamavam (“Tomé, um dos Doze, chamado Dídimo” - Dídymos é, na verdade, a tradução literal em grego do aramaico Toma’ [= «Gémeo»]). E percebi como há, afinal, um ‘parentesco’ que nos une.
Também eu sou teu gémeo no meio das minhas ‘incredulidades quotidianas’, quando me recuso a aceitar que na vida há uma dimensão de ‘Mistério’ que não chegarei mais a compreender plenamente e, como tal, não adianta nada insistir e persistir em querer ‘ver’ tudo ou ‘tocar’ (= dominar) todas as realidades.
Também eu sou teu gémeo quando me ‘tranco’ na casa sempre cómoda de não acreditar no testemunho dos outros, achando ‘mil vezes’ que só eu posso ter razão e ser a última palavra sobre determinada matéria, assunto…e bem sabes também quantas vezes vivo de ‘opiniões’ e sem ‘ideias’ ou ‘ideais’!
Também eu sou teu gémeo quando me esqueço que no quotidiano nem tudo são ‘sinais’ mas que a vida é sempre um ‘Milagre’.
Também eu sou teu gémeo, neste dia e nesta hora, quando me deixo ‘vencer’ por este Amor-Divino (= Misericórdia) que não me acusa, nem me recusa, mas me dá a possibilidade de recomeçar a estrada da Fé e da confiança.
Também eu sou teu gémeo quando a minha oração são as tuas palavras: “Meu Senhor e meu Deus!”.
Sabes, Tomé, partilho contigo algumas mudanças que o Mestre, e a Sua Páscoa, têm realizado em mim:
Vou descobrindo, cada vez mais, que a misericórdia de Deus é o amor que ‘não resiste’ (= não cria obstáculos) e que ‘não desiste’ (= sempre pronto a recomeçar). E tenho procurado, em cada dia e passo-a-passo, crescer na confiança. Sei o quanto é difícil amar com um coração com ‘cicatrizes’, fruto de algumas mágoas que durante muito tempo carreguei dentro de mim, mas posso dizer-te que é muito libertador aceitar a ‘vitória’ do perdão; Afinal só o amor pode curar, e fechar, as mágoas, fazendo de cada ‘cicatriz’ um convite a amar mais, a amar sempre.
Vou descobrindo, também, desde que aceitei ser discípulo, que a Fé não é uma questão de ‘medo de Deus’ mas é a porta para entrar no Amor de Deus, no Seu coração, e para ‘acampar’ aí, deixando que em cada dia, em cada respiro, esse Amor dê ritmo, forma, saber e sabor a cada coisa que sou e faço.
Com a tua experiência de discípulo deves, portanto, imaginar quantas outras coisas tenho descoberto: tenho andado a aprender a ‘ler’ no rosto de cada pessoa a ‘imagem de Deus’, a pouco e pouco vou também descobrindo a Igreja como ‘A casa do(s) Ressuscitado(s)’…e, sabes, desde que descobri que o medo em mim só terá o espaço que eu lhe quiser dar, tenho tido uma alegria imensa, infinita e serena, no meu coração que em cada dia me vai dando coragem, determinação e audácia para perdoar, para recomeçar, para anunciar.
Olha Tomé, ouvindo o Evangelho neste Domingo, pensava também no facto do meu coração se estar a transformar, a pouco e pouco, como o teu naquele cenáculo onde Ele te encontrou fechado e cheio de medo [Jo 20, 19-31].
Com o ‘perfume do Espírito Santo’ e com a ‘vitória do Amor sobre a morte’ também em mim se começam a escancarar as portas, a abrir caminhos novos, desenhados pela alegria de crer e pelo entusiasmo de comunicar esta Fé que é dom e missão, que é compromisso responsável com o irmão…porque afinal, Crer e Amar, não são apenas sinónimos, são uma identidade e uma condição para quem aceita o ‘escândalo’ de ser discípulo d’Aquele que é o ‘Amor de todo o amor’.
Meu caro Tomé, esta carta já vai longa. Sei que por estes dias andas cheio de entusiasmo a falar d’Ele, a doar em nome d’Ele o perdão e a consolação de Deus aos que se sentem sós, cansados, esquecidos. Aqui, onde vivo o meu quotidiano, irei tentar fazer o mesmo, pois até nisso quero ser teu gémeo. Em breve voltarei a escrever-te! Um abraço. E boa páscoa também para ti meu irmão.
*P.S. Tomé, sempre que houver ‘actualizações’ (= Páscoa) na tua condição de discípulo não hesites em partilhá-las, mesmo que seja no facebook, pois nunca se sabe o quanto isso pode ser útil, dinamizador, para tantos outros ‘teus gémeos’ que habitam o 'continente digital' ;)
Não há solidão maior do que a de não se sentir amado! É que nenhum de
nós foi criado para a solidão, no sonho de Deus todos somos comunhão. Para a
noite tem o dia, para enxugar as lágrimas a esperança, para acariciar a dor a
ternura, para rasgar horizontes novos ao passado tem o futuro, basta estar
atento para percebermos no ‘milagre da vida’ a dança eterna desta comunhão com
o Deus-Amor.
É para romper a solidão, e nos abrir ao amor (e)terno, que o Evangelho
nos comunga nesta semana e nos faz entrar na intimidade mais intima do nosso
Deus. Chegou a hora! O Profeta de Nazaré que não se calou diante da injustiça,
que levantou do chão os que mendigavam perdão, que nos mostrou que a vida é caminho
de bem-aventurança, que nos fez ver Seu Reino já presente no meio de nós, que
nos revelou que a única palavra definitiva é somente aquele Amor que nos
permite degustar interiormente todas as coisas, senta-se agora para repartir fraternalmente
o pão da Sua existência e assim nos permitir ser comunhão, fazer comunhão.
Iniciámos uma Semana chamada de ‘Santa’, de ‘Semana Maior’ e na
Liturgia do Rito Ambrosiano (de Milão) ela é também chamada de ‘Semana Autêntica’.
O que somos chamados a viver não é um ‘filme’ ou mera ‘recordação’. Nós somos
parte desta história. Somos esta história de Salvação! História cheia de
recomeços e de futuro, uma história de Amor, Conversão, Reconciliação. Nesta
história não somos nem estrangeiros, nem hóspedes. Somos Filhos! Gerados pela
misericórdia, aos olhos humanos absurda, de um Deus que se enamorou da nossa
pequenez. Um Deus excesso de Amor que nos revela que não há omnipotência maior
do que aquela de dar a vida, de ser vida.
Aqui não há papéis principais nem secundários, não há ‘Óscar’ para
premiar carreiras, não há passadeiras vermelhas para desfilar opulência e
banalidades. Esta é uma história cheia de Vida, de afeto, de ternura, de
misericórdia. História de uma vida cheia de silêncio, de encontro, de lágrimas
que regam a nossa infertilidade e aridez para semear nela o que só a Eternidade
pode oferecer. E se hoje, aqui e agora, somos ‘vencedores’ é somente porque nos
deixámos seduzir e vencer pela força sempre atrativa e irradiante do amor-perdão
que Deus é, e que só Ele nos pode dar. Só o Amor-(e)terno pode sussurrar: “Hoje
estarás comigo no Paraíso!”. Só a Misericórdia pode rasgar portas de eternidade
onde o tempo teimar em ser só passado...
Desperta-nos o Evangelho para sermos peregrinos seguindo aquele que é o
Caminho; desperta-nos o Amor para seguirmos Aquele que é a vida; desperta-nos a
Misericórdia para seguirmos o único que é a Verdade. E, no fim, como peregrinos
que percorrem de pés descalços o caminho que nos leva do ‘santuário do
quotidiano’ ao coração de Deus, há-de ser nosso também o cântico de confiança
entoado pelo Mestre: “Pai, em Tuas mãos entrego o meu espírito”. BOA SEMANA!
Somos todos carentes de amor! No mundo dos afetos há palavras que nos curam,
olhares que nos abrem ao infinito, abraços que nos levantam e reconstroem. Tal
como na música, também aqui o silêncio não é ‘ausência’, mas sim o espaço que
medeia o encontro entre o coração e a inteligência, entre o discernimento e a
ação, entre o pensamento e a palavra. É bom lembrar ainda que na vida de todos
os dias há muitas ‘sinfonias’ escritas com um silêncio contemplativo e adorador...são
aqueles momentos em que o céu nos visita num encontro, num aperto de mão, num
abraço que nos ‘desbloqueou’ o coração e a vida.
É também nesta sintonia e sinfonia de afeto que nos cruzamos com a
sublime página do Evangelho de Lucas (Lc 15, 1-32) onde um Pai pródigo de Amor
e misericórdia espera sempre o regresso do seu filho ‘mendigo’ de afeto e de
reconciliação. É uma metáfora da nossa vida interior! Afastar-se do coração do
Pai é desfigurar a nossa identidade. Já não nos sentimos filhos, apenas ‘mendigos’
de pão para a boca...quando o que nos falta afinal é afeto que cure e perdão
que ofereça recomeço. Por entre idas e vindas, facilmente esquecemos que autonomia
não é anarquia e liberdade não significa agir sem pensar ou decidir sem rezar.
O Pai não nos quer famintos, mas saciados; não nos quer dobrados sobre
o peso dos nossos erros ou pecados, mas peregrinos curados pela ternura da sua
infinita misericórdia; jamais nos olha de cima para baixo e sempre nos convida
a levantar para o alto e para longe os nossos olhos e os nossos corações. É que
Deus não nos sonhou pequenos, mas eternos! Na mesa da vida há sempre um prato
que nos espera, há um Pai-inquieto que nunca deixa de acreditar no nosso
regresso, um pai que não dorme e corre para a porta de cada vez que houve o
rumor de passos...esperando que seja aquela ‘a hora derradeira’ em que vai
poder abraçar de dignidade e perdão o ‘mendigo’ que não se acha mais filho.
A caminho da Páscoa, e quando a natureza se veste já com os primeiros
perfumes da primavera, é bom não esquecermos que “quando a Igreja escuta, cura,
reconcilia, torna-se no que ela é, no que ela tem de mais luminoso: uma
comunhão de amor, de compaixão, de consolação; o límpido reflexo de Cristo Ressuscitado.
Nunca distante, nunca na defensiva, livre de severidades, ela pode irradiar a
confiança humilde da fé nos corações humanos” (Ir. Roger de Taizé).
E é assim, por entre a memória e o afeto, por entre exigência e
ternura, que vamos ‘degustando’ cada recomeço, oferecendo e recebendo Páscoa de
cada vez que ousamos dizer: “DÁ-ME UM ABRAÇO...”. BOA SEMANA! ;)
Para crescer, é
preciso aprender a escutar. Para amar, é preciso dar-se. Para ver, não bastam
os olhos, é preciso também o coração. Para caminhar, não basta saber onde se
deve ir, é preciso dar passos concretos, ter a ‘ousadia do primeiro passo’...pois,
para quem tem fé, o futuro é sempre desconhecido, mas nunca é incerto.
Há vidas tão
cinzentas e tão às escuras, há vidas sem ‘cheiro’, sem afeto, de sentimentos
reprimidos e de vaidades cada vez mais ‘inchadas’...há vidas que querem
saborear apenas ‘o imediato’ e jamais se permitem degustar o Eterno. Há vidas
que vivem esmagadas pela ‘fatalidade do passado’ e jamais arriscam voltar-se
para o futuro.
O Caminho para a
Páscoa é convite à ‘Metanoia’ (conversão). Não se trata só ‘mudar dentro’, mas ‘de
dentro para fora’, num movimento que nasce na ‘intimidade mais intima’ e nos
lança no encontro com o quotidiano. Um quotidiano que queremos encher de luz,
de cor, de ‘perfume’, de coração e sabedoria, de discernimento e ousadia.
A Transfiguração de Jesus vem perguntar-te então: que tipo de homem/mulher
queres ser tu: dos que arriscam (como Abraão) ou dos que se resignam numa
passividade interminável? É que “Transfigurar” a vida, o nosso quotidiano, é muito mais do que fazer
coisas…é, acima de tudo, encontrar um sentido para tudo o que se faz. E Nessa
busca Deus é sempre o primeiro a acreditar em Ti, também tu és: “O filho muito
amado”.
Talvez possas sussurrar
ao coração de Deus esta oração:
Senhor, abre os nossos ouvidos à Tua voz
E rasga os nossos corações com a ternura da Tua Palavra. Transfigura os nossos dias, Com o Teu amor feito Páscoa, faz brilhar nas nossas trevas a luz do teu perdão, e faz que os nossos gestos e palavras
nunca sejam de vaidade e orgulho. Reveste-nos de coragem para não cairmos na indolência De quem se resigna a ver a vida passar… E, no fim, dá-nos a alegria plena de viver para sempre contigo
*Algumas dicas para Transfigurar a vida quotidiana (abraçar +, escutar +, elogiar +, acolher +, contemplar +, rezar +,...)
“De quanta rotina foi feita a tua última quaresma?”. Talvez tenhamos
que começar por esta provocadora-inquietação para nos definirmos diante de mais
uma quaresma que hoje inicia. As rotinas não são necessariamente más, há ‘bons
hábitos’ que somos chamados a repetir quotidianamente e, quanto mais os
repetirmos, mais aprenderemos a pisar o terreno sagrado de uma vida espiritual
transbordante de intimidade com Deus e de comunhão com os irmãos. Quem se cansa
da boa rotina do ‘bom dia’, de um abraço demorado, um olhar pleno de ternura,
um silêncio afetuoso, uma palavra encorajadora...? São os pequenos-milagres-quotidianos
feitos com a simplicidade de um coração habitado pelo Evangelho.
Mas, voltemos às rotinas. Há palavras que de tanto as
escutarmos se tornaram, talvez, um refrão para uma determinada ‘dormência
espiritual’, deixando-nos como que ‘anestesiados’ e em modo ‘piloto automático’.
Uma dessas palavras é ‘Quaresma’, essa nobre senhora vestida de roxo que desperta,
pelo menos anualmente, para um ar taciturno e compungido. Outra das rotinas
traduz-se na companhia que essa nobre senhora traz consigo: o Jejum, a Oração e a Esmola. Atitudes e
práticas cada vez mais ‘neutralizadas’, basta lembrar que para muitos o Jejum
virou ‘dieta’, a Oração uma prática ‘zen’ que não compromete muito a vida e a Esmola
virou ‘uma ajudinha para os pobres’, de preferência algo que sobre na carteira
ou no imenso guarda-roupa lá de casa.
É paradoxal como tudo se vá transformando em ‘rotineiro’ e ‘descartável’!
No dia em que (re)descobrirmos que a Oração
é para nos ajudar a ter Discernimento,
isto é, sabedoria para ‘pesar a vida’ com o que ela tem de essencial e não nos
deixarmos manipular; que o Jejum é
desafio a educar a nossa vontade,
para não vivermos ao sabor da emoção e/ou mergulhados no amargo da desilusão; e
que a Esmola é o fruto maduro de um coração cheio de Evangelho que não
se deixou vencer pela indiferença...nesse dia ‘perfumaremos o rosto’, sairemos
irradiantes para a praça e, com todos os irmãos, cantaremos eternamente o dom da
misericórdia do Pai.
Que o nosso coração desperte para que “não nos deixemos cair
na indiferença que humilha, na habituação que anestesia o espírito e impede de
descobrir a novidade, no cinismo que destrói. Abramos os nossos olhos para ver
as misérias do mundo, as feridas de tantos irmãos e irmãs privados da própria
dignidade e sintamo-nos desafiados a escutar o seu grito de ajuda. As nossas
mãos apertem as suas mãos e estreitemo-los a nós para que sintam o calor da
nossa presença, da amizade e da fraternidade. Que o seu grito se torne o nosso
e, juntos, possamos romper a barreira de indiferença que frequentemente reina
soberana para esconder a hipocrisia e o egoísmo. (...) será uma maneira de
acordar a nossa consciência, muitas vezes adormecida perante o drama da
pobreza, e de entrar cada vez mais no coração do Evangelho, onde os pobres são
os privilegiados da misericórdia divina” (Papa Francisco, Misericordiae Vultus).
A Páscoa chama por nós...e já vem ao nosso encontro! Traz no
seu corpo as marcas da Paixão, nos lábios a Eternidade e no coração um Caminho
novo para a casa do Pai que, cheio de afeto e ternura, nos sussurra: “ESPEREI
POR TI TODOS OS DIAS. A MESA ESTÁ POSTA. VAMOS FAZER FESTA?!”.
Um dia que tinha sido igual a
tantos outros...Aqueles pobres pescadores lavavam, provavelmente, as redes da
sua desilusão (Lc 5, 1-11). Aparentemente tudo é derrota... No coração daqueles
pobres pescadores tinham-se fechado as portas do futuro, o presente era amargo
e o peso do fracasso do passado era demasiado duro para ser verdade. É fácil
para nós imaginar o que seria chegar a casa, mais uma vez, sem nada para
colocar na mesa!
Não podemos negar que fomos
educados para vencer sempre, somos filhos da cultura ‘super-homens’. Vencer foi
sempre a palavra de ordem e ‘perder’ um impossível que dá nós no estômago e
gera ansiedade. Errar? nem pensar! Somente os outros. Foi assim, aos poucos,
que todos nós fomos introduzidos num tempo e cultura onde a vulnerabilidade foi
sendo confundida com fraqueza e, como tal, “dos fracos não reza história!”.
Sentença maldita que nos foi anestesiando e convencendo que a vulnerabilidade era
uma maldição.
A vulnerabilidade é sempre o começo
de qualquer história, da nossa história pessoal, ela nos ensina a não vivermos ‘cheios
de nós’, nos desperta para confiar, e nos interpela a alargar as fronteiras do
coração e da vida, a deixarmo-nos tocar pela ternura sem termos medo de ser
feridos, pois é próprio do amor moldar para curar.
Na voz de Cristo que interpela
Pedro, e a sua fragilidade, vai um apelo: “deixa-te tocar. Aceita que não podes
tudo sozinho. Reconhece, pelo menos hoje, o que vai dentro de ti...e confia!”.
Pedro ouve este sussurro na alma e, surpreendido pela medida do Evangelho, percebe
que é hora de recomeçar! De coração aberto e com a simplicidade de quem sabe
que só o amor cura e salva, Pedro responde com a mais bela expressão que um
coração em festa pode ter quando se encontra com o Deus-Amor: “Senhor,
afasta-Te de mim, que sou um homem pecador”.
Com aquele Pe(s)cador Jesus começa uma
nova etapa na ‘peregrinação interior’ que é chamado a fazer cada coração
humano. O Mestre escolhe um coração inquieto para levar a Paz; Para falar do Céu,
escolhe um homem com os pés na terra; Para oferecer Eternidade, escolhe um
homem habituado a navegar na noite; Para Perdoar, escolhe um pecador que escutou
a Sua voz...é que o Reino de Deus não nos pede, como ponto de partida, que
sejamos já perfeitos, pede-nos somente que o coração esteja disponível. É assim
também que o Mestre sussurra à nossa alma a medida para esta semana: “Dá-me o
teu ‘nada’, serei o teu tudo!”. Aceitas? Boa Semana!
Quanto Amor e Ternura carregam os
nossos gestos quotidianos? De quanta Paz são cheios os nossos abraços? E quanta
Misericórdia oferecemos, diariamente, nas nossas palavras? Estas, e outras,
interrogações são motor para esta nossa semana, despertando assim os nossos
corações para o ‘essencial’ do Evangelho. E é do essencial visível aos olhos
que Jesus nos fala e para o qual Ele nos convoca!
Não basta ser batizado para ser
cristão! Não basta simplesmente comover-se diante do sofrimento humano, é
preciso mais. O Evangelho exige mais! E esse ‘mais’ do Evangelho pode
resumir-se na solene proclamação de Isaías: “O Espírito do Senhor está sobre
mim, porque Ele me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres. Ele me enviou a
proclamar a redenção aos cativos e a vista aos cegos, a restituir a liberdade
aos oprimidos e a proclamar o ano da graça do Senhor”. Todo batizado é um
ungido, um enviado, um comprometido em fazer ‘reinar’ Deus no coração do mundo...começando
pelos últimos! E para que Deus reine divinamente no coração dos últimos é
necessário denunciar a injustiça, oferecer dignidade, restituir a esperança e celebrar
o quotidiano.
Mais do que uma ‘opção’ pelos
pobres, o que precisamos é de uma ‘decisão’ em ser pobre. E decidir-se é uma
questão de Amor. Um Amor que acolhe, unge, cura, perdoa e restitui à Vida! Só
assim é que nos tornamos, quotidianamente, aquele “um só Corpo” de que nos falava
S. Paulo (1 Cor 12, 12-30).
Eis alguns exercícios diários essenciais
que temos de (re)aprender com este ‘êxtase’ permanente de Deus-Amor, com este
Seu ‘Jubileu quotidiano’: reconhecer o outro como uma história sagrada; Tocar e
beijar as feridas do outro com ternura; levantar da miséria oferecendo
recomeço, futuro; acolher sem preconceito; Denunciar a indiferença; celebrar
cada respiro como um milagre;
O Evangelho não é uma proposta
ética ou estética, é Vida e Compromisso (e)terno com o outro que é ‘meu irmão’,
que é ‘Filho de Deus’! Encontrar-se com Cristo e decidir-se pelo Seu Reino é,
portanto, (re)aprender quotidianamente a entrar na intimidade de Deus e a fazer
festa com Ele...no coração dos últimos! Vamos lá?! Boa Semana!
“De quantas portas fechadas é feita a tua vida?”, é a provocação que
nos acompanha esta semana! Na verdade, o
começo de um Jubileu, agora ‘mais próximo’ e ‘mais dentro’ de nós, é sempre
oportunidade para (re)fazer uma ‘peregrinação interior’.
A porta é muitas vezes invocada como sinal de segurança, de preservação
da intimidade, de salvaguarda do que é privado...muitas vezes é também um sinal
de profunda rejeição! Há portas que nunca se destrancam, outras só se entreabrem
quando se responde à famosa interrogação: “Quem é?”. Que bom seria que antes da
pergunta viesse a afirmativa: “Entre!”. Como metáfora da vida, a porta
recorda-nos o quanto algumas vidas são uma prisão permanente...e há vidas e corações
tão ‘blindados’! Por entre portas trancadas, blindadas ou entreabertas a nossa
vida é um desafio permanente a destrancar, a desblindar...a escancarar.
Não foi em vão que um santo do nosso tempo nos interpelava assim: “Não,
não tenhais medo! Antes, procurai abrir, melhor, escancarar as portas a Cristo!
Ao Seu poder salvador abri os confins dos estados, os sistemas económicos assim
como os políticos, os vastos campos de cultura, de civilização e de progresso!
Não tenhais medo! Cristo sabe bem “o que está dentro do homem”. Somente Ele o
sabe!” (João Paulo II)
A misericórdia,
oferta de recomeço para os pecadores e esperança para os frágeis, pede-nos a
capacidade de redescobrir que “a casa de Deus é um abrigo, não uma prisão e a
porta se chama Jesus” (Papa Francisco). Pede-nos sobretudo a ousadia de sair do
templo e fazer o “Jubileu ao contrário”, tal como o sonhou Tonino Bello quando
afirmava que o problema maior das nossas comunidades cristãs não é o de abrir
portas de entrada para os espaços sagrados mas portas que se escancarem do
templo para a praça, seguindo a Cristo-peregrino e tocando todos os ‘estaleiros
quotidianos’ onde cada pessoa continua a ser desfigurada e espera ansiosamente
o regaço, consolo e a ternura do Deus-Amor.
Por estes dias somos chamados a redescobrir que a misericórdia e a alegria são irmãs gémeas. Há uma alegria, a que nasce da fé, que precisamos também de aprender a cantar quotidianamente com estas palavras do grande Profeta da Esperança: "Deus é o meu Salvador, tenho confiança e nada temo. O Senhor é a
minha força e o meu louvor. Ele é a minha salvação” (Isaías 12).
Interrogados e desafiados pela pergunta evangélica: “Que devemos fazer?” (Lc 3, 10-18), anima-nos a convicção de que toda a vida é feita de (re)começos, especialmente
quando percebemos que “a misericórdia de Deus é a sua responsabilidade por nós.
Ele sente-se responsável, isto é, deseja o nosso bem e quer ver-nos felizes,
cheios de alegria e serenos” (Papa Francisco). Eis, portanto, os nossos pés que
se colocam a caminho...de Portas abertas e de coração escancarado. Boa Semana!
"Deus só pode dar-nos seu amor, o nosso Deus é ternura" (Cântico de Taizé)
‘Saber esperar é uma virtude’, eis uma frase que
repetimos algumas vezes (negativamente!) uns aos outros para justificar os
nossos atrasos. Na verdade, vivemos num tempo que ‘não tem tempo’! Apressados,
e com os nossos relógios a devorar a agenda de compromissos e reuniões, vamos
perdendo aquela capacidade contemplativa de um artesão que se deixa enamorar
pelos detalhes e aceita que seja a ternura a ritmar as horas e a moldar cada
segundo com o sabor do infinito.
Para dar sabor, e sabedoria, ao tempo que vivemos
eis que a Esperança bate de novo à nossa porta para ser mestra e companheira de
viagem neste itinerário espiritual que nos conduzirá ao Natal. Fá-lo com a
delicadeza de um ‘coração materno’ acolhendo-nos, e recolhendo-nos em seu
regaço, para nos consolar, beijar nossas feridas e refazer a nossa comunhão com
o Amor; Fá-lo com a determinação da Fé para despertar em nossa alma uma
primavera espiritual que abre os olhos do coração e nos faz ver mais
profundamente cada detalhe; Fá-lo com a luz da humildade para nos despertar da
dormência e escancarar as portas da nossa vida para o encontro com o outro onde
nos descobrimos e reconstruímos, por entre fragilidade e risco, com a força
sempre libertadora do perdão que oferece recomeço.
O Advento está aí, Chegou! Este ano entrámos nele por
uma Porta especial. Foi escancarada no coração da África para, a partir dali, nos
lembrar que “todos nós pedimos paz, misericórdia, reconciliação, perdão,
amor...para Bangui, para toda a República Centro-Africana, para o mundo inteiro”
pois “com o amor seremos vencedores na vida e sempre daremos vida. O amor nunca
nos deixará derrotados” (Papa Francisco).
Iluminados pela Palavra que sempre nos alimenta e
entusiasma (LC 21, 25-36), e abraçados por uma Esperança que não (des)ilude, talvez
seja oportuno sussurrar ao nosso coração estas questões: de quanta esperança eu
habito os meus dias? E quanta esperança ofereço nos meus gestos? Com quanta
esperança espero o outro?...É que a esperança não é somente uma questão de
ter...é sobretudo uma questão de ser! Bom Advento. Boa semana!