domingo, novembro 27, 2016

Advento...PARTIR DO FUTURO!


Partilho contigo meu irmão do Advento, uma bela meditação de um profeta da Paz, e desejo-te um caminho 'inquieto' até ao Natal:

"Nós olhamos para o Advento um pouco demasiado a partir do homem. Talvez fosse necessário olhá-lo mais a partir de Deus. Explico:

O Advento a partir do homem

Há uma palavra chave que caracteriza este arco do ano litúrgico, e à volta do qual nós articulamos habilmente os conteúdos do anuncio cristão: espera.

É como uma matrioska: quando a abres encontras outra, isto é, a vigilância. Se abres essa, encontras dentro a esperança. E por aí adiante, até chegares às mais interessantes sub-espécies da mesma família. Colocadas a descoberto, todas estas matrioskas encheriam uma mesa de bons sentimentos.

É um jogo muito belo de implicações e explicações que nos faz ver quanto é extensa a realidade na qual se deve exprimir a nossa conversão neste período que nos prepara para o Natal.

Espera. Vigilância. Esperança. Oração. Pobreza. Penitência. Conversão. Testemunho. Solidariedade. Paz. Transparência. Depois de ter meditado os textos bíblicos, seria interessante sentar-se à volta da mesa com as pessoas e perguntar-lhes, a cada matrioska que vão abrindo, que nome dariam às outras que ainda estão dentro. Teríamos assim uma amostra de atitudes interiores que, por nascerem de um processo crítico, poderiam ser assumidas com mais facilidade como um quadro ascético para desenhar o caminho do Advento.

Mas, com este procedimento, continuamos ainda um pouco a partir do homem. Dá-se muitas vezes a impressão que o Advento constitui um expediente cíclico que com as suas fontes, nos estimula a recentrar a vida num plano moral, e basta.

Sem dúvida que isso não é errado. Mas corre-se o risco de transformar o Advento numa espécie de ginásio espiritual, no qual se pratica um treino intensivo das boas virtudes. Permanecendo sempre como um exercício excelente, mas dando uma imagem redutora deste grande momento de graça.

O advento a partir de Deus

É momento de olharmos agora as coisas a partir de Deus. Sim, porque no céu também hoje começa o advento, o período da espera. Aqui na terra é o homem que espera o regresso do Senhor. No céu é o Senhor que espera o regresso do homem.

É uma visão prospética esplendida, que nos faz recuperar uma dimensão menos preocupada dos aspectos morais da vida cristã e mais interessada no desígnio divino da salvação.

Talvez se pudesse repetir também aqui o jogo das matrioskas. Uma vez que também para Deus a palavra chave é espera: mas que ulteriores palavras se poderiam encontrar uma no interior da outra? Podemos tentar indicando duas, colhendo assim a alma dos textos bíblicos proclamados: salvação e paz.

A palavra salvação evoca o projeto final de Deus, tal como foi desenhado na primeira leitura e no salmo responsorial. Os povos que sobem ao monte do Senhor e que exultam finalmente diante de Jerusalém, exprimem o sobressalto de Deus que vê reunidos ao seu redor todos os povos na fase final do Reino. Expectativas irresistíveis de comunhão. Solidariedade com o homem. Desejo de comunicar-lhe a própria vida. Disponibilidade para um perdão sem cálculos. Estes são os sentimentos de Deus, tal como nos é dado colher na filigrana das leituras bíblicas.

Hoje é impossível, durante a liturgia, não se referir à ternura do Pai, à sua solicitude, à sua ânsia pelo retorno a casa de seu filho. Vem-nos em mente a expressão da parábola do filho pródigo: “Enquanto estava ainda longe, o Pai o viu” (Lc 15, 20). Aqui está o início da Esperança em cada um de nós. Coragem “a noite vai avançada, o dia está próximo. A nossa salvação está agora mais próxima do que quando abraçamos a fé”.

Aqui está também o inicio do compromisso. O que fazer para não desiludir as esperas do Senhor? Quais são as ‘obras das trevas’ que é preciso recusar, e quais são as ‘armas da luz das quais é preciso revestir-se?

Não se poderia fazer hoje, talvez com oportunos silêncios, um check-up, individual e coletivo, em termos de comunhão? Talvez se volte agora ao manual das boas atitudes morais, só que desta vez como uma galáxia de compromissos para que a alergia de Deus seja completa.

A Palavra Paz evoca, por sua vez, toda uma série de percursos obrigatórios para se chegar à salvação.

Hoje não devemos perder a ocasião de ser concretos e de dizer, sem frases enfraquecidas, que a paz, a justiça e a salvaguarda da criação são o trabalho primordial de cada comunidade cristã. Que acolher de mãos cheias a reserva utópica do Evangelho é o único realismo que hoje nos é consentido. Que ousar pela fé a Paz, desafiando o bom senso da carne e do sangue, é a ‘prova dos nove’ do crédito que damos à Palavra de Deus. Que a não violência ativa deve tornar-se critério irrenunciável que regula todos os relacionamentos pessoais e comunitários.

A profecia de Isaías não tolera interpretações cómodas. Se nós cristãos permitirmos o aumento dos arsenais de espadas e de lanças em detrimento dos arados e das foices, não responderemos às expectativas de Deus.

Assim também, se não soubermos ler em termos fortemente críticos os exercícios dos povos na arte da guerra, desvalorizaremos Isaías, extinguiremos a nossa dimensão profética e, dificilmente na noite de Natal, poderemos acolher a explosão daquele 'Shalom' anunciado pelos anjos aos homens que Deus ama (Lc 2, 14)".


+Don Tonino Bello, Bispo de Molfetta, Giovinazzo e Terlizzi,
faleceu com cancro em 1993, está a decorrer o seu processo de beatificação



domingo, novembro 20, 2016

A TUA CRUZ NÃO ME É INDIFERENTE...


Não há solidão e dor maior do que a de não ser amado. Uma das doenças mais mortíferas do tempo em que vivemos é a solidão do esquecimento e da exclusão. Os novos esquecem os velhos, em família os laços são cada vez mais ténues e ‘os muros’ cada vez mais crescentes...O cotidiano facilmente se vai transformando num ‘deserto existencial’ onde se cruzam a alta velocidade indivíduos e onde aumenta o vazio de quem já não dialoga, escuta, olha nos olhos...

No encontro com o Evangelho, Palavra que restitui dignidade e oferece salvação, damo-nos conta como para Jesus cada encontro é um ‘sacramento’. Ele gosta de se demorar no encontro, gosta de olhar nos olhos, de escutar e de ler o coração, de ver para além dos nossos limites, de rasgar fronteiras onde só vemos muros, de oferecer infinito onde só olhamos perdição...gosta de entrar no nosso cotidiano, saborear conosco os passos do caminho e sentar-se conosco na mesa da nossa intimidade mais profunda para aí repartir o pão que dá sabor, sabedoria e significado ao nosso existir.

Não poderia ser diferente nesta página que acolhemos como alimento para esta semana! Ei-lo, o nosso Rei, sem blindagem nem filtros, entregue à morte para nos abrir (e)ternamente a porta da vida! Na hora da cruz continua a ser tentado pela arrogância egoísta e mesquinha que tantas vezes nos habita: “Tu não és o Cristo. Salva-te a ti mesmo!”...Como é que o Amor poderia agora contradizer-se?! Deus sabe que o nosso egoísmo gera solidão, Deus sabe que com a ânsia de querermos tudo rápido, muitas vezes ficamos sozinhos, isolados, perdidos... Deus sabe (sim, só Ele o sabe!) que o desamor com que tantas vezes vivemos, somos e nos olhamos precisa de um amor fiel, não só até à cruz mas para além dela! Precisamos de um amor que nos abrace nas nossas contradições, que nos cure sem nos alienar, que nos perdoe sem nos humilhar...e esse Amor só Ele nos pode dar!

Seduzido pela voz suplicante do malfeitor crucificado-arrependido, o Amor-de-todo-Amor não resiste a fazer o seu penúltimo milagre, faz-se perdão...pois o Amor só sabe uma coisa: oferecer recomeço onde todos põem fim! BOA SEMANA.



Esperei por Ti,
na viagem do tempo,
no amanhecer de cada estação.

Ao cair de cada folha no outono,
no alegre despontar da vida
na aurora de todas as primaveras,
no pôr do sol de cada verão,
na travessia serena de cada inverno…

Esperei por Ti,
sem pressa e sem medo,
porque o Amor nunca se atrasa.

E dancei contigo em todas as praças da Vida
embalado pelo perfume suave de um abraço
Que fazia de nós uma só carne.

Esperei por Ti,
para beijar e abraçar a tua história,
derramando em cada uma das tuas feridas
o bálsamo da paz e a delicadeza da ternura
que enche de futuro cada passo
e que amplia as fronteiras do coração.

Esperei por Ti,
sem pressa e sem medo,
porque o Amor nunca se atrasa.

E, as encruzilhadas do tempo,
sabendo que Te esperava,
fizeram de teu coração um diamante
para que brilhassem nele todas as cores da Vida
e pudesses vir ao meu encontro
trazendo no peito a doce luz
que nenhuma noite pode apagar.

Descalço,
corri ao Teu encontro,
beijei-te na fronte para te dar a paz
e, naquela hora de graça,
o tempo tornou-se apenas um instante
que agora nos abraça 'para sempre'
…e nos faz casa um para o outro.

Esperarei por Ti,
sem pressa e sem medo,
porque o Amor nunca se atrasa.



terça-feira, novembro 08, 2016

VIDA (E)TERNA...


“Quanta Ressurreição habita os teus gestos cotidianos?”. É com esta provocação que nos deixamos encontrar pela Palavra desta semana (Lc 20, 27-38). No caminho para Jerusalém, metáfora dos nossos caminhos diários, Jesus deixa-se questionar por aqueles que negavam a ressurreição. É assim o nosso Deus, um Deus que não teme as nossas perguntas, um Deus que não ignora os nossos questionamentos, um Deus que pacientemente se deixa ‘pôr em causa’ pelas nossas dúvidas, pelas nossas ‘incredulidades’. O Deus de Jesus Cristo não nos dá respostas a la carte, acolhe as nossas fragilidades e aceita fazer caminho nelas. Não nos responde o óbvio e estimula-nos a contemplar para além do banal.

A grande provocação de Jesus ao responder aos questionadores do caminho, e a nós também, parece ser a de nos confrontar com as nossas escolhas, os nossos olhares, o ‘peso’ que levam as nossas palavras, a intensidade dos nossos encontros, os nossos projetos, e nos devolver a questão: tudo isso que fazes no teu dia a dia está ‘grávido’ de vida (e)terna?

Não se trata de olhar a vida como um caminho que lá no final se encontra com o céu, trata-se sim de perceber que cada passo do caminho ou vai cheio dele...ou vai cheio de nada! Se as nossas escolhas são cheias de céu, se de cada vez que nos cruzarmos uns com os outros aprendemos a olhar-nos mais olhos nos olhos do que olhar para o chão ou para o lado, então é aos poucos que vamos morrendo para a indiferença, a superficialidade, o banal e é assim que se vai enraizando em nós esse jeito novo de ser de Deus e de ser com Ele...pois pelo caminho vamos semeando e fazendo germinar o grande sonho que ele mesmo plantou no mais íntimo do nosso coração e que Agostinho cantou assim: “Tu nos criaste para Ti, Senhor, e nosso coração anda inquieto enquanto não repousa em Ti”.

Ressuscitar é dizer ao(s) outro(s), diariamente e para além dos nossos preconceitos, “Tu continuas a existir dentro de mim!”. É aprender a olhar o horizonte quando o sol vem beijando a terra e, com a determinação de um primeiro passo, (re)iniciar a peregrinação de atravessar a noite com a doce luz da esperança no coração e nos lábios; é entusiasmar-se, como as crianças, com as coisas simples e belas da vida, tão simples e belas como um abraço demorado, um olhar pacificador, o calor de um ‘obrigado’ ou a carícia de um ‘estou aqui!’...Ressuscitar é não deixar que os sonhos morram sufocados, é viver com ousadia sabendo que em cada limite há uma possibilidade e é saber também que nenhum pecado pode mais que a misericórdia, pois o perdão que o abraça sabe fazer de cada queda um recomeço...

Como um dia escreveu tão belamente escreveu Frei Prudente Nery: “Quando chega o inverno, sem que ninguém os instrua, os pássaros erguem-se espontaneamente aos céus em incrível aventura. Conduzidos por um misterioso legado de sua espécie, seguindo apenas os pulsos magnéticos da terra, eles voam, pelas trilhas do sol, milhares de quilômetros, noite e dia, à busca apenas de permanecer na vida. Assim há de ser também conosco, quando, no crepúsculo de todos os outonos, cair sobre nós o frio do inverno. Carregados, então, pelo fascinante destino de nossa espécie, nós voaremos, seguindo apenas os acenos da eternidade, rumo à morada da luz, o coração de Deus. E aí saberemos o que, agora, apenas intuímos e, ouvindo Jesus Cristo, o Caminho, a Verdade, a Vida, cremos: Não existem dois reinos, o reino dos mortos e o reino dos vivos, o reino da terra e o reino dos céus, mas apenas o Reino de Deus, que quis que fôssemos eternos”. BOA SEMANA!

terça-feira, novembro 01, 2016

SANTIDADE...o outro nome do Amor!



"Celebramos, pois, a festa da santidade. Aquela santidade que, às vezes, não se manifesta em grandes obras nem em sucessos extraordinários, mas que sabe viver, fiel e diariamente, as exigências do Batismo. Uma santidade feita de amor a Deus e aos irmãos. Amor fiel até ao esquecimento de si mesmo e à entrega total aos outros, como a vida daquelas mães e pais que se sacrificam pelas suas famílias sabendo renunciar de boa vontade, embora nem sempre seja fácil, a tantas coisas, tantos projetos ou programas pessoais. (...) Somos chamados a ser bem-aventurados, seguidores de Jesus, enfrentando os sofrimentos e angústias do nosso tempo com o espírito e o amor de Jesus. Neste sentido, poderíamos assinalar novas situações para as vivermos com espírito renovado e sempre atual: felizes os que suportam com fé os males que outros lhes infligem e perdoam de coração; felizes os que olham nos olhos os descartados e marginalizados fazendo-se próximo deles; felizes os que reconhecem Deus em cada pessoa e lutam para que também outros o descubram; felizes os que protegem e cuidam da casa comum; felizes os que renunciam ao seu próprio bem-estar em benefício dos outros; felizes os que rezam e trabalham pela plena comunhão dos cristãos... Todos eles são portadores da misericórdia e ternura de Deus, e d’Ele receberão sem dúvida a merecida recompensa" 





segunda-feira, outubro 24, 2016

HIPERMETROPIA OU MIOPIA?!...


Diz-se habitualmente que a viagem mais longa de todas é aquela feita entre a cabeça e o coração. É verdade que há acontecimentos ou situações que nos pegam de surpresa, que nos tocam de modo muito duro e profundo, fazendo-nos até sentir, nem que seja por alguns instantes, interiormente ‘desconectados’...mas, não é menos verdade que há dias, horas ou instantes em que nos sentimos mergulhados e abraçados pela realidade de forma tão ternamente intensa que tudo ao redor ganha sentido e sabor, é como se após um longo inverno se desse o despontar de uma primavera que acontece de dentro para fora.

É assim que gosto de olhar Jesus quando Ele conta uma parábola; Deus a suscitar primavera, de dentro para fora! Despertando em nós a vida que não pode morrer, o coração que não pode sucumbir, a sabedoria que não se pode calar... A subida ao templo daqueles dois peregrinos (Lc 18, 9-14) é metáfora das nossas ‘itinerâncias’, dos caminhos (per)corridos, dos passos mal andados, dos passos dúbios ou firmes. É metáfora da nossa busca interior e da nossa luta espiritual, sim dentro de nós lutam constantemente o ‘hipócrita fariseu’ e o ‘humilde publicano’.

O fariseu que ‘reza a si mesmo’ sofre de uma perturbadora hipermetropia espiritual, vê mal ao perto! O que ele tem para oferecer no mais intimo do seu ser é somente vaidade. Está tão ocupado em apresentar suas virtudes que envenena o mais intenso e puro dos encontros da vida: estar face a face com Deus! O publicano, por sua vez, sofre de uma ‘bendita miopia’...de tão longe olha para Deus, e consciente dos caminhos percorridos, sabe que a cura para ver melhor e mais profundamente é entregar aquilo que é, sem vaidade nem máscaras, com confiança total.

Entre a arrogância e a ternura há um longo caminho que é necessário percorrer. Nessa peregrinação não há mudanças que sejam automáticas ou por decreto, há apenas trilhos e pontes, há toda uma vida que é preciso aprender a contemplar, degustar e celebrar. Há uma urgência que acompanha cada passo do caminho: entrar no santuário da consciência, o “centro mais secreto e o santuário do homem, no qual se encontra a sós com Deus, cuja voz se faz ouvir na intimidade do seu ser” (GS 16).

Por entre as hipermetropias ou miopias da vida, é importante não esquecermos que o dom é sempre total, o amor infinitamente misericordioso e Deus é sempre o primeiro a acreditar no nosso recomeço! É por isso que: “Hoje é tempo de missão e é tempo de coragem! Coragem para reforçar os passos vacilantes, coragem para retomar o gosto de dedicar a própria vida à causa do Evangelho; coragem para readquirir confiança na força que a missão traz consigo mesma. É tempo de coragem, mesmo se a coragem não significa ter a garantia de sucesso. É-nos pedido coragem para lutar, não necessariamente para vencer; é-nos pedido coragem para anunciar (o Evangelho), não necessariamente para converter (os outros); é-nos pedido coragem para ser alternativos ao mundo, sem contudo nos tornarmos polémicos ou agressivos; é-nos pedido coragem para nos abrirmos a todos, sem nunca diminuir o valor absoluto e a unicidade de Cristo, único salvador de todos; é-nos pedido coragem para resistir à incredulidade sem nos transformarmos em arrogantes; é-nos sobretudo pedido a coragem do publicano que, com humildade, rezava o Senhor para que tivesse compaixão dele que é pecador” (Papa Francisco). Boa Semana!



segunda-feira, outubro 10, 2016

CORAÇÃO PEREGRINO...

 

Nos caminhos cotidianos, por entre as suas encruzilhadas, sabemos como é decisivo vivenciar um afeto que nos reconstrua dos medos, frustrações, erros...é sempre sanante um olhar que nos devolva a capacidade de recomeçar e o desejo de sonhar, um olhar que rasgue infinito(s), de dentro para fora, e nos ajude a saborear o eterno nos ‘pequenos nadas’ com que vamos, passo a passo, fazendo da vida ‘a dança serena dos recomeços’. Aliás, o modo como nos olhamos uns aos outros diz muito do que habita o nosso coração, talvez pudéssemos até mudar o dito popular e reescrevê-lo assim: “diz-me como me olhas, e dir-te-ei quem és!”.

O Evangelho, ternura com que o Pai nos visita nos caminhos da vida, convida-nos esta semana a um olhar que vence a solidão, um olhar que devolva vida. Não é difícil sentirmos na carne, o peso e a dor da solidão daqueles pobres leprosos. Excomungados do mundo dos vivos, eram mortos errantes...presença a evitar pelo medo do contágio. Não podiam experimentar o gesto mais nobre e silencioso do afeto, o toque. Mantidos à distância, aqueles leprosos lembram-nos metaforicamente todas as realidades, e pessoas, que etiquetamos e às quais damos morte em vida, também por ‘perigo de contágio’... “em quem temos deixado de ‘tocar’?”, parece sussurrar-nos a Palavra.

Como sempre, o Profeta peregrino de Nazaré recorda-nos que o essencial em cada caminho é dar vida, é ser vida. Não hesita em acolher e escutar o grito ensurdecedor daqueles dez leprosos que lhe pedem compaixão (Lc 17, 11-19). Mostra-nos que é com o coração que se vence a indiferença! Desperta-nos para escutar o grito, tantas vezes silenciado por uma maioria indiferente, de todos ‘os leprosos’ com que nos cruzamos diariamente. E há tantas lepras silenciosas, bem mais perigosas que a Hanseníase... “a que gritos se fecham os nossos ouvidos? Que ‘lepras’ não queremos que nos toquem?”, parece perguntar-nos de modo inquietante o Evangelho.

Mas a lição não termina na escuta, vai mais além! O acolhimento do Profeta peregrino de Nazaré gera um ‘perfume novo’ na vida de um dos errantes peregrinos da solidão (aquele 1 que no Evangelho é sempre sinal de festa jubilosa no coração de Deus quando, por exemplo, recupera ‘a ovelha perdida’). Com o coração em festa, ao ver que se cumpria no caminho a Esperança que havia gestado no mais íntimo do coração por toda a vida, o ‘peregrino da solidão’ volta para agradecer. Torna-se ‘peregrino do Encontro’ e, afinal, faz-nos descobrir que a cura de todas as lepras, as do coração e as da carne, se dá afinal com a fé no mais pequeno e simples dos gestos: agradecer. E só sabe agradecer quem se sente amado, acolhido, perdoado...É sempre oportuno recordar que, se um olhar multiplica a Esperança...um abraço aprofunda-a. BOA SEMANA!





"Jesus, o evangelizador por excelência e o Evangelho em pessoa, identificou-Se especialmente com os mais pequeninos (cf. Mt25, 40). Isto recorda-nos, a todos os cristãos, que somos chamados a cuidar dos mais frágeis da Terra. Mas, no modelo «do êxito» e «individualista» em vigor, parece que não faz sentido investir para que os lentos, fracos ou menos dotados possam também singrar na vida.Embora aparentemente não nos traga benefícios tangíveis e imediatos, é indispensável prestar atenção e debruçar-nos sobre as novas formas de pobreza e fragilidade, nas quais somos chamados a reconhecer Cristo sofredor: os sem abrigo, os toxicodependentes, os refugiados, os povos indígenas, os idosos cada vez mais sós e abandonados, etc. Os migrantes representam um desafio especial para mim, por ser Pastor duma Igreja sem fronteiras que se sente mãe de todos. Por isso, exorto os países a uma abertura generosa, que, em vez de temer a destruição da identidade local, seja capaz de criar novas sínteses culturais. Como são belas as cidades que superam a desconfiança doentia e integram os que são diferentes, fazendo desta integração um novo fator de progresso! Como são encantadoras as cidades que, já no seu projeto arquitetónico, estão cheias de espaços que unem, relacionam, favorecem o reconhecimento do outro! Sempre me angustiou a situação das pessoas que são objeto das diferentes formas de tráfico. Quem dera que se ouvisse o grito de Deus, perguntando a todos nós: «Onde está o teu irmão?» (Gn 4, 9). Onde está o teu irmão escravo? Onde está o irmão que estás matando cada dia na pequena fábrica clandestina, na rede da prostituição, nas crianças usadas para a mendicidade, naquele que tem de trabalhar às escondidas porque não foi regularizado? Não nos façamos de distraídos! Há muita cumplicidade... A pergunta é para todos! Nas nossas cidades, está instalado este crime mafioso e aberrante, e muitos têm as mãos cheias de sangue devido a uma cómoda e muda cumplicidade" (Evangelii Guadium 209-211)

sexta-feira, julho 15, 2016

O MEU NOME É PAZ!


O meu nome é Paz!
Não me mates com o ódio,
Não me envenenes com a indiferença,
Não me ameaces com a suspeita ou fundamentalismos.

O meu nome é Paz!
Trago nos lábios a ‘luta inquieta’,
dos que não se escondem cobardemente na violência;
sou Irmã dos que plantam diálogo e fraternidade,
sou Mãe dos que se erguem para construir pontes e estreitar as margens,
sou Avó, sábia e prudente, de todos os valentes
que plantam flores e sementes
onde os corações áridos e revoltados semeiam a morte.

O meu nome é Paz!
Paz na terra, nos corações e na vida...
paz finalmente cumprida
quando os homens por Ele amados
Se (re)descobrirem irmãos.

Por fim,
cessem armas e vinganças,
descrenças e desconfianças,
e, sentados na mesma mesa,
repartindo o pão das diferenças
façamos do mundo a casa
onde a paz todos acolhe, contagia e transforma.

O rosto da Paz serás tu, serei eu e meu vizinho
e assim, bem devagarzinho,

...faremos dela um Caminho!



terça-feira, junho 28, 2016

VAI E UNGE!


De quantos encontros são feitos os nossos dias? Na correria do quotidiano é normal cruzarmo-nos com muita gente, vemos apressada e superficialmente rostos, acenamos com a cabeça ou com as mãos para dar uma breve saudação, em alguns casos ainda conseguimos apertar a mão do outro, mas é um ‘toque’ superficial, sem tempo, pois ‘temos de ir’ que o relógio não para.

É urgente que os nossos caminhos quotidianos se tornem ‘sacramento do encontro’, lugar onde nos vemos e nos contemplamos, lugar onde degustamos a vida e a compartilhamos em profundidade, lugar onde o outro se torna parte de mim, lugar onde a história sagrada do outro se torna um apelo a ver, sentir e cheirar o bem, o bom e o belo da vida, de cada vida, em cada história.

Se cada encontro (re)começar com um olhar contemplativo e um coração escancarado (re)aprenderemos, com a força sempre sedutora e vulnerável da ternura, que somos muito mais, e muito melhor, do que imaginamos! (re)descobriremos o eterno em cada momento e o ‘tesouro escondido’ por dentro de cada gesto e palavra pronunciadas. É que afinal nenhum de nós é um obra já acabada e o que falta ainda (re)construir não se encontra na espuma dos dias, exige de nós ir mais fundo...exige discernimento ( = ler por dentro).

A Palavra que nos visita esta semana desperta-nos para uma vida ‘Cristificada’ (Lc 9, 51-62). Com Ele, e como Ele, somos Ungidos ( =Cristo, na língua Grega; Messias, na língua Hebraica); Com Ele, e como Ele, somos Peregrinos que atravessam o tempo fazendo de cada lugar e encontro um Kairós ( = tempo habitado pela Salvação); Com Ele, e como Ele, tocamos as feridas da existência humana e sentimos o doce desassossego do Espírito que faz com que “tudo o que é verdadeiramente humano encontre eco em nosso coração” (GS 1); Com Ele, e como Ele, temos como mesa e altar o quotidiano e ali nos repartimos para sermos sabor e presença do Reino que o Pai nos oferece, não como prémio mas como medida para tudo o que somos, pensamos, dizemos e fazemos; Com Ele, e como Ele, atravessamos a cidade dos homens com o Evangelho no coração e nos lábios para oferecer a todos uma palavra de benção, reconciliação, cura e libertação.


Eu e tu somos uma missão nesta terra, é para isso que estamos no mundo. É preciso considerarmo-nos como que marcados a fogo por esta missão de iluminar, abençoar, vivificar, levantar, curar, libertar. Nisto uma pessoa se revela enfermeira do no espírito, professor no espírito, político no espírito..., ou seja, pessoas que decidiram, no mais íntimo de si mesmas, estar com os outros e ser para os outros’ (EG 273). Então, como fez Elias com Eliseu (Rs 19, 16b), ou como Cristo fez com Pedro e Paulo, também Ele te diz hoje: “Vai...e Unge! Vai...e cura. Vai...e abraça. Vai...e perdoa! A todos, para sempre, como Ele fez. Pois foi para essa Liberdade que Cristo nos libertou. BOA SEMANA!




terça-feira, junho 21, 2016

CUIDO, LOGO EXISTO!

Distraídos e anestesiados somos devorados pelo relógio que nunca para! Bauman diz que vivemos num tempo em cuja identidade ou é de ‘turista’ ou de ‘vagabundo’, as referências e decisões sólidas tornaram-se fluídas e, não obstante a tragicidade de tudo isso, somos cada vez mais indiferentes...

Com seus ritos e dogmas a indiferença vai fazendo caminho entre nós: na falta do ‘bom dia’, na omissão de gentileza, na falta de apreço pelo que o outro é, no modo como nos olhamos pessoal ou coletivamente...estamos, lentamente, a ‘demonizar’ e a esquecer o humano. A nossa memória, quase potenciada ao infinito pela nova religião (do latim ‘religare’) chamada tecnologia, é afinal cada vez mais curta e os nossos “terabytes emocionais”, que deveriam ser espaço (e)terno para o (re)encontro, o diálogo e a partilha, estão cada vez mais monossilábicos e vazios, dando lugar a um sentimentalismo epidérmico e perigoso.

Precisamos, urgentemente, (re)aprender a arte de cuidar e contemplar. Precisamos de silêncio e de um coração de criança para reaprender afetos. Se nos falta encanto para ver o novo, precisamos reaprender a contemplar o quotidiano e a ver em cada instante ‘o milagre’ de um caminho feito de escuta, decisão, ousadia e criatividade. Nenhum de nós é um monólogo. Muito menos somos cinzentos! As cores da vida, e do coração, dão-nos a possibilidade de nos tornarmos ‘semeadores da ternura’ e (re)construtores da esperança.

Cada vida é um (re)começo! Uma história tecida com a filigrana de tantos encontros, palavras, silêncios, gestos, olhares. Sim, podemos recomeçar sempre. Todos os dias. A ternura abre portas onde só vemos paredes, um olhar planta infinito onde só vemos limites, um gesto abre ao futuro onde antes só se via passado, um abraço desperta acolhimento onde antes só se via recusa, e o coração...bom, esse faz-nos sussurrar a Vida onde se via apenas morte!


Quando nos faltar a coragem, ou o medo parecer mais forte, vamos olhar-nos olhos nos olhos ainda mais intensamente, vamos deixar que nossos corações se (re)encontrem e, na cumplicidade que só o Amor desperta, vamos sussurrar um ao outro: “Vou cuidar de ti! Não temas! Dá-me um abraço”. 



segunda-feira, junho 13, 2016

NÃO TEMER O AMOR...

Há quem viva a vida só pela metade. Esses, de medo em medo, semeiam amargura e lamentações, como se existir fosse uma ‘fatalidade’ e viver fosse tão somente um ‘vale de lágrimas’. Para a vida ter saber, sabor e sentido não bastam ‘bons propósitos’, boas ideias ou ‘pensamentos nobres’...já para não falar dos sempre ‘ótimos (e absolutos!) juízos’ que temos acerca dos outros!

Precisamos ser ‘artesãos da vida’. Precisamos urgentemente (re)aprender, com um coração de criança, a acolher sem estar à defesa e a saber que o outro é ‘diferente de mim’, mas não é ‘meu inimigo’; é decisivo que (re)aprendamos a ‘eternidade da ternura’ num simples e demorado olhos-no-olhos e coração-a-coração. É curioso como a poeira do tempo e da história nos vais anestesiando o encanto pela simplicidade...Há quanto tempo não te sentas no colo de tua mãe? Ainda te lembras da última vez que acariciaste o rosto dos teus avós? Quantos abraços tens oferecido aos que se cruzam contigo diariamente? De quanto perdão vão carregadas as tuas palavras? E os teus olhos como contemplam a presença discreta e silenciosa do Deus-Amor no mundo? Não te parece contraditório que nós, os discípulos de Cristo, sejamos tantas vezes os primeiros a ‘amaldiçoar’ o tempo e a história em que vivemos? Se cada um de nós se desse conta do quanto Deus age na história não perderíamos tanto tempo com as ‘lamentações de perdição’ e os nossos dias seriam uma sinfonia de ação de graças. Não sou ingénuo, sei que o mal existe no mundo, sobretudo nos corações fechados, mas o bem que vemos, ouvimos e fazemos é infinitamente maior!

A Palavra desta semana encontra-nos e desconcerta todos os nossos esquemas e pré-juízos! O que está em causa naquele ‘encontro’ na casa do fariseu não é o pecado, mas a nossa capacidade de acolher (Lc 7, 36-50). Não basta deixar entrar e ‘preparar a mesa’, isso é ‘boa educação’, é preciso que o outro tenha espaço no nosso coração, e isso é Evangelho! Só é capaz de oferecer um perdão desmesurado quem sabe que cada pessoa é terra e história sagrada, que todos somos recomeço e que Deus é o único que não desiste de nós e o primeiro a levantar-nos. O perdão não é uma questão de ‘contabilidade’, é oferta antecipada de um dom imerecido, incondicional e gratuito. “Ninguém pode ser condenado para sempre pois esta não é a lógica do Evangelho” (AL 297).

No frasco de alabastro levado pela mulher-peregrina vai a oferta do seu quotidiano. É a oferta total, amorosa e confiante da sua fragilidade, dos seus recomeços, das suas dores, perdas e angústias. É a sua oração de súplica, antecipando não somente o anúncio da morte de Jesus, mas também a sua própria morte para uma ‘vida velha’ feita de descaminhos. Ela sabia que só Aquele que é a Vida poderia vencer todas as mortes que trazia dentro! Foi assim que silenciosamente, naquela casa, o encontro gerou o perdão e no perdão se deu a cura (interior). Sim, o perdão de Deus levanta-nos sempre sem nos humilhar e renova em nós a certeza de que somos filhos e não mais mendigos. Gosto de olhar este encontro como uma metáfora da nossa vida...gosto de ficar ali em silêncio de olhos fixos em Jesus e naquela ‘mulher-coragem’ que nos ensina a ‘não temer o Amor’. Este encontro desperta sempre em mim um sonho...partilho-o contigo: Sonho com o dia em que todos nós os batizados acreditarmos INFINITAMENTE no perdão de Deus...nesse dia começaremos a ser Cristãos! BOA SEMANA!



*É bom (re)lembrar:

“Saiamos, saiamos para oferecer a todos a vida de Jesus Cristo! (...) Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarra às próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada com ser o centro, e que acaba presa num emaranhado de obsessões e procedimentos. Se alguma coisa nos deve santamente inquietar e preocupar a nossa consciência é que haja tantos irmãos nossos que vivem sem a força,a luz e a consolação da amizade com Jesus Cristo, sem uma comunidade de fé que os acolha, sem um horizonte de sentido e de vida. Mais do que o temor de falhar, espero que nos mova o medo de nos encerrarmos nas estruturas que nos dão uma falsa proteção, nas normas que nos transformam em juízes implacáveis, nos hábitos em que nos sentimos tranquilos, enquanto lá fora há uma multidão faminta e Jesus repete-nos sem cessar: ‘dai-lhes vós mesmos de comer’.” (Papa Francisco, EG 49)

terça-feira, maio 31, 2016

UM CORAÇÃO “KINTSUGI”...


A nossa vida quotidiana é cheia de surpresas, eventos, alegrias, dores e sofrimentos. Nela há tantas histórias, lugares e pessoas que nos marcam profundamente; há abraços e memórias, palavras, olhares e encontros que tornaram (e)terno um instante. Na nossa história pessoal há também pessoas que nos feriram...há mágoas que teimamos não deixar cicatrizar, há silêncios amargos, ‘pesos interiores’, há recordações que são mais barulhentas que um campanário em dia de finados...

Por entre a memória e afeto, cheios de passado ou escancarados ao futuro, há também dentro de nós ‘o dom das cicatrizes’. De quantas cicatrizes é feito um coração? É uma pergunta que talvez nos possa acompanhar estes dias! Todos somos afeto...e sem afeto nada somos. É importante que o nosso coração saiba olhar para além dos sentimentos mas também que aprenda a discernir sem a frieza de uma racionalidade estéril que sabe reagir, analisar, planejar mas que dificilmente tocará algum dia a realidade.

Sabemos pela Palavra da Vida, o Evangelho, que não adianta projetar se não estamos dispostos a sujar as mãos! Não adianta saber quem é Deus se não nos deixamos encontrar e converter por Ele. De que adianta, aliás, saber (e debitar!) todo o Catecismo se na verdade não somos habitados pelo Evangelho? A experiência de fé não é uma decisão ‘ética’ ou ‘estética’, é encontro! E todo o encontro pressupõe uma história sagrada, um caminho, uma vida...

É muito interessante lembrar aqui a arte japonesa do kintsugi (ou kintsukuroi), arte que consiste em reparar com ouro objetos de cerâmica quebrados. Ela nos re-ensina, a nós que somos nutridos pelo Evangelho, como para Jesus cada encontro é uma vida, e toda a vida é um encontro. Sem filtros ou barreiras, sem impossíveis ou distâncias. O Mestre de todos os encontros é também o único que sabe que embora possamos cometer alguns erros, jamais seremos um erro!

É este ‘excesso do dom’ que interpela e seduz, é este “Amor-de-todo-o-amor” que faz do Centurião um peregrino (Lc 7, 1-10). É este Amor que converte e salva que nos coloca ‘em saída’ e nos faz ver que, para além dos nossos preconceitos, para além dos nossos julgamentos, para além dos nossos filtros hipócritas, há muito ‘dom’ a acontecer. Jesus, ‘o Profeta fora da lei’, faz-nos ver como ‘fora do templo também há salvação’! Ei-Lo provocador a lembrar-nos: “Digo-vos que nem mesmo em Israel encontrei tão grande fé”. Não se trata simplesmente de um elogio, mas de um olhar contemplativo e de um encontro que viu naquele coração os fios de ouro (kintsugi) da ação divina, o dom divino a fazer do Centurião-peregrino um modelo para todos os que buscam contemplar as cicatrizes (o ouro!) onde outros só veem passado (ódio/amargura). O Centurião de Cafarnaum é ‘parábola’ do caminho que ainda nos falta fazer! Nesse caminho o primeiro passo, que nos desinstala e transforma, dá-se quando a nossa vida é capaz de dizer: “Senhor, não sou digno que entres em minha casa, mas diz uma palavra...e serei curado!”.





terça-feira, maio 10, 2016

CORAÇÕES AO ALTO!


De quanto céu é feita a tua vida? É uma pergunta essencial para quem ousa ir além da espuma dos dias! Não se trata de ‘ser bonzinho’ ou de ‘fazer de conta que o mal não existe’, muito menos se trata de ser ‘ingénuo’. Encher a vida de céu significa colocar como ponto de partida de cada passo, e em cada gesto ou palavra, o discernimento. Trata-se essencialmente de um processo de ‘degustação interior’ que permite ver o que nos humaniza e aquilo que nos desfigura.

Vivemos num tempo onde leveza é confundida com superficialidade, reflexão e ponderação são olhadas como ‘uma perda de tempo’, e como já ‘não temos tempo’ segue-se adiante, de experiência em experiência, aumentando cada vez mais o vazio existencial. Vai-se enraizando, sobretudo nas novas gerações, um certo ‘analfabetismo emocional’ que privilegia uma vida cheia de emoções e comoções mas que é incapaz de fazer olhar ‘para longe’ e ‘para o alto’. A grande crise que vivemos não é primeiramente moral, vivemos isso sim uma verdadeira ‘crise humanitária’ e espiritual. Precisamos reaprender a ser humanos, precisamos reencontrar-nos com as grandes questões da vida e do mundo, não basta saber para onde temos de ir é preciso educar a vontade...e querer ir! Esta é talvez a maior pobreza do nosso tempo: não sabermos quem somos, esquecermo-nos de onde viemos e não ousarmos ir onde Deus nos sonhou e nos espera.

O Evangelho, boa notícia do coração de Deus para o mundo, vem em nosso auxílio e desperta-nos da ‘espuma dos dias’ (Lc 24, 46-53).  O Ressuscitado encontra-nos, como aos discípulos, em Betânia ( = Casa do Pobre) e pede que a nossa pobreza, sem deixar de ter os pés bem firmes na terra, se habitue a ‘olhar para o alto’. Não se trata de fuga, mas de um sentido: aceitar que cada gesto da nossa inteligência e do nosso coração esteja ‘cheio de céu’. É que, quando o céu nos habita, a indiferença dá lugar ao diálogo, o ódio é vencido pela ternura, a distância encurta-se e faz-se encontro, o egoísmo é vencido e tudo se torna motivo para servir.

Na escola do Evangelho só avança quem aceita ser moldado pelo ‘Amor do Pai e do Filho’, o Espírito Santo. Aqui não há lugar para auto-suficiência! Neste caminho o ‘fazer juntos’ é mais importante que o ‘fazer tudo certo’. É por isso que esta ‘sedução pelo céu’ só é possível, e acontece, num coração-templo!

Com ritmos e experiências diferentes é fundamental redescobrir que somos ‘peregrinos com um coração-templo’. A caminho do Pentecostes, pedimos ao Único Amor capaz de ‘renovar a face da terra’ que venha em nosso auxílio, cure as nossas feridas e nos ajude a “que os nossos olhos, feitos para olhar as estrelas, não morram a olhar para os nossos sapatos” (J. Tolentino Mendonça).




“Quem és tu, doce Luz que me preenche e ilumina a obscuridade do meu coração? Conduzes-me como a mão de uma mãe e se me soltasses, não saberia nem dar mais um passo. És o espaço que envolve todo meu ser e o encerra em si. Se fosse abandonado por ti cairia no abismo do nada, de onde tu o elevas ao ser. Tu, mais próximo de mim que eu mesmo e mais íntimo que minha intimidade, e sem dúvida, permaneces inalcançável e incompreensível, e que faz brotar todo nome: Espírito Santo – Amor eterno!”
(Oração de Edith Stein, uma santa nossa contemporânea e vítima do regime nazi em Auschwitz)

terça-feira, abril 26, 2016

NÃO É UTOPIA...É EVANGELHO!


Não há nada mais vulnerável no mundo do que o Amor. No entanto, toda essa sua vulnerabilidade nos revela um paradoxo extraordinariamente belo: na sua fragilidade (omni)potente o Amor cria, cura, liberta, transforma, converte. Basta ver o que pode o abraço amoroso do pai após uma queda quando somos pequenos; e quem já esqueceu o calor da ternura da mãe que vigiava, de noite, o nosso respirar enquanto dormíamos? Ficarão para sempre impressas na nossa alma as palavras e as carícias que enxugaram as nossas lágrimas quando se feriram os nossos joelhos nas primeiras quedas da infância; continuaremos a ‘degustar eternamente’ o colo que sempre foi amparo quando os medos pareciam mais fortes que a coragem.


O amor adianta-se sempre para perdoar. Cria laços e desperta recomeços. Faz-nos dançar, pular e cantar de alegria. Faz-nos ajoelhar para agradecer e servir. Faz-nos caminhar porque desperta sonhos e alimenta projetos. Faz-nos calar, pois sabe acolher, escutar e discernir. Faz-nos parar para contemplar, pois nos ensina a ver o eterno no instante. Cheio de beleza, e com o perfume do afeto, o amor faz-nos peregrinos em busca da sabedoria que nasce do encontro com a verdade. Faz-nos discípulos quando se revela a nós como Amor-Pascal, Amor-Crucificado, Amor-Ressuscitado.


É com este Amor, que faz novas todas as coisas (Apoc. 21, 5), que nos abraça a Palavra desta semana! Mais que um ‘mandamento’, é uma ‘identidade nova’. No tempo e na história, não haverá nunca outro modo de conhecer e reconhecer um discípulo de Cristo a não ser por este Amor-Pascal que tudo renova, tudo crê, tudo espera e tudo suporta (1 Cor 13). Naquele “Como eu vos amei” do Mestre, está o início da maior revolução da história da humanidade (Jo 13). Não poderemos mais viver ‘na defesa’ ou ‘no ataque’, não mais poderemos separar ‘maniqueísticamente’ o mundo entre ‘os bons’ e ‘os maus’, jamais se poderá grampear com o Amor-Pascal palavras como poder, luxo, auto-suficiência...


O Amor-Pascal é sempre oferta de recomeço, Ele mesmo sabe que estamos ainda titubeando no caminho! Só Ele nos pode despertar da acomodação e entusiasmar a fazer caminho.


Estamos diante da ‘porta da fé’ (actos 14, 27), que se abre de dentro para fora, e nos interpela a derrubar as nossas idolatrias com a força vulnerável do único Amor que salva. Um Amor que não é novela, nem a banalidade do ‘happy end’ de hollywood.


No Amor-Pascal estamos sempre no (re)começo, pois “Jesus Cristo quer [que sejamos] uma Igreja atenta ao bem que o Espírito derrama no meio da fragilidade” (AL 308). Um amor que não toque a fragilidade, que não abrace as periferias, que não se deixe ‘sujar’... não é amor cristão! Um Amor assim não é utopia, é Evangelho! Boa Semana.



quarta-feira, abril 13, 2016

O (A)MAR DE POSSIBILIDADES...



Há perguntas que nos acompanham uma vida inteira! São elas que dinamizam cada amanhecer e nos trazem aquela ‘doce certeza’ que preenche cada gesto quotidiano com a Esperança que nasce da Fé. No caminho, cada encontro é um Milagre, cada olhar uma contemplação do Mistério, cada abraço um ‘sacramento quotidiano’ que converte e fortalece a vida com o dom sempre vulnerável da ternura Pascal!

É neste (a)mar, cheio de Vida Pascal, que o Crucificado-Ressuscitado nos encontra esta semana e nos convida a estreitar tudo aquilo que nos distancia das margens, a abandonar em modo definitivo o mar da desilusão, da ‘vida velha’ em que todos insistimos viver, para mergulharmos mais profundamente nesse (a)mar novo onde Ele não nos deixa sucumbir na amargura de insiste apenas (sobre)viver num ‘ruminar’ constante do passado.

No (a)mar da vida e da história pessoal de cada um de nós há caminhos novos que é preciso percorrer com determinação! E Deus quer-nos cheios de futuro. Para Ele somos um (a)mar de possibilidades, um infinito de amor cheio de muitos ‘sins’ para dar ao projeto de Eternidade que Ele desenha em cada passo do nosso caminho e no mais profundo do nosso coração.

Deus-Amor, cujo Rosto contemplamos em Jesus, não nos quer acomodados a repetir um passado estéril ou o peso de uma rotina que não nos converta a vida e o coração. Na hora de correr o risco de abraçar o que é ‘novo’, Deus é o primeiro a tomar a iniciativa em Jesus! Vem ao nosso encontro para alimentar a nossa ‘mendicidade’ com o único ‘Pão e Peixe’ que nos devolve a consciência de que somos Filhos. É assim que Deus (re)começa esta nossa passagem (=Páscoa) no (a)mar.

“Ninguém pode ser condenado para sempre, essa não é a lógica do Evangelho” (Papa Francisco). Determinante para Deus é sempre o caminho que está ainda por fazer! Deus esconde o nosso passado no coração de Cristo e n’Ele abre para nós caminhos novos onde o perdão e a ternura, a vida e o sonho ‘dançam’ prazerosamente a suave melodia do reino novo de Justiça, Paz e Alegria no Espírito Santo. É assim que Ele nos quer! Ritmados pela Páscoa e a fazer de cada encontro um (a)mar de possibilidades.

Deus gosta de horizontes largos! Seja nas margens do Jordão, no mar de Tiberíades ou no mais profundo do nosso ser. É aí que acontece sempre a ‘sedução’ e o fascínio daquele ‘primeiro encontro’ e ‘primeiro olhar’ que muda a vida, converte o coração e nos faz discípulos para sempre.

No (a)mar da vida, Cristo continua a vir ao nosso encontro. Com Seu Amor Pascal fixa em nós o Seu olhar e interpela-te: “Tu, amas-Me?”. Somente o Amor se antecipa e acolhe...e só Ele pode oferecer recomeço (Jo 21, 1-19)! BOA SEMANA!