um espaço de partilha, reflexão, discussão e anuncio do amor misericordioso de um Deus loucamente enamorado por todos os que criou à sua imagem e semelhança...
Vamos começar com uma pergunta: ‘de
quantas cegueiras são feitos os teus passos cotidianos’? Se em cada passo o teu
coração fosse uma porta escancarada, uma vida que se lê com a filigrana da
ternura, talvez os teus dias fossem menos indolentes e a tua vida menos
monótona...
Se para amar não basta ter
coração...o mesmo acontece para o ver, não basta ter olhos ou simplesmente
olhar...quantas vezes feridos com a vida, e com os outros, o nosso coração habitado
pelo rancor e o ódio nos torna ‘viandantes cegos de olhos abertos’.
Um coração cheio de alfândegas,
portagens ou muros, onde tudo é taxado ou cobrado, torna-nos amargos diante do
presente, diante dos outros, diante do dom. Quando é assim, continuamos naquela
lógica dos discípulos: “quem é que pecou para ele nascer cego?” (Jo 9, 1-41).
Deus quer-nos de olhos abertos e
de coração escancarado, não nos quer enclausurados em questionamentos estéreis
que fazem d’Ele uma caricatura, um ‘deus-sádico’...o Deus de Jesus Cristo é
Luz, é presença sanante, unção para os corações atribulados. Deus também não
nos quer mendigos, quer-nos Filhos!
É assim que Ele, o Caminho, se
faz peregrino e Deus-conosco nos trilhos do nosso cotidiano. É aí que Ele nos
toca, cura...e salva. É assim que Ele enche de luz a nossa cegueira, desata os
nós da nossa indigência e nos restitui à dignidade original com que Deus sempre
nos sonhou e amou.
Voltemos à pergunta inicial: de
quantas cegueiras são feitos os teus passos cotidianos? De quanta cegueira são
feitos os teus olhares? Quanta cegueira habita o teu coração? A quem têm ‘ungido’
as tuas mãos?
Na graça do Espírito que nos convoca
e anima, seguindo no discipulado daquele que é a Luz do mundo, há um Reino que
nos desassossega e chama, dado que «o Espírito do Senhor está sobre mim, me
ungiu para anunciar a Boa-Nova aos pobres; envia-me a proclamar a libertação
aos cativos e, aos cegos, a recuperação da vista; a mandar em liberdade os
oprimidos, a proclamar um ano favorável da parte do Senhor» (Lc 4, 18-19).
Eis a Alegria do nosso caminho
Batismal-Pascal: Abrir os olhos do coração e da vida! Seguir Jesus e proclamar
em gestos de reconciliação e unção a graça que nos liberta da mendicidade e de
toda a cegueira, isto é, saber que “Ele é o Pastor que nos conduz, nada nos
falta...nada tememos...pois a sua bondade e graça nos acompanham” (Salmo 23).
Não é intimismo, é gratidão do coração, é missão! BOA SEMANA!
De quanta escuta são feitos os
nossos dias? Quanta ousadia carregam os nossos frágeis gestos? São perguntas
essenciais para quem aceita a peregrinação que nos leva à Páscoa. Não há
conversão ‘improvisada’, nem discipulado ‘morno’...a ousadia da fé pede-nos uma
‘totalidade’ feita de cotidiano, tecida nos encontros e palavras, nos olhares
demorados e nos abraços que oferecem recomeço e Páscoa. É a fé que nos faz
contemplar. É a escuta que nos faz avançar. É o discernimento que nos faz
ousar. É a caridade que nos faz agir.
Convocados e reunidos pela
Palavra que liberta e salva, somos esta semana inspirados e desafiados pela ‘vulnerável
firmeza’ de Abraão. Sair, avançar, crer, caminhar...verbos que nos despertam os
sentidos e a inteligência, atitudes que nos mobilizam de dentro para fora e nos
colocam diante da mais essencial das questões: temer ou ousar?...o caminho iniciado
por Abraão é metáfora de todas as nossas peregrinações...somos feitos para
caminhar, para saborear cada passo degustando neles a eternidade...a quaresma,
caminho que nos rasga o coração para acolher o dom e nos coloca como horizonte a
Páscoa, faz-nos redescobrir o essencial da identidade cristã: caminhar...e
descobrir o caminho como bênção e como Aliança.
Não se trata de correr
quilómetros, nem mesmo de ver quem chega primeiro! No caminho da fé só se
atrasa quem cede à banalidade...para os que ousam, mesmo de mãos sujas ou
coração ferido, Deus espera-os e acompanha-os com a filigrana da sua ternura e
misericórdia.
O Evangelho, Palavra que desperta
o coração e rasga novos horizontes ao nosso existir, narra-nos que a intimidade
com Deus exige itinerância (Mt 17, 1-9). Seria muito cómoda uma fé que nos anestesiasse
ou nos afastasse da realidade...mas o nosso Deus não vive nas nuvens! “levantai-vos
e não tenhais medo” não é apenas um imperativo, é uma condição existencial. O
Evangelho não é para tornar ‘doce’ a nossa existência, é Palavra que quer
tornar fecundo o nosso viver, por isso não há lugar para a acomodação, para uma
experiência religiosa alienante do tipo maniqueísta...a realidade está aí,
cheia de contradições e de ‘novas escravidões’, cheia de complexidade e de muitos
corações feridos...precisamos Levantar! Deus espera-nos nas cidades e bairros,
nas ruas e lugares que cotidianamente percorremos. Deus convoca-nos para não
cedermos à tentação de um cristianismo de bem-estar ou de uma religião que
formalmente satisfaça a idolatria do nosso ego...
Precisamos levantar e descer para
não vermos a realidade somente do alto mas, sobretudo, lado a lado...olhos nos
olhos, coração a coração, deixando que aí, nas nossas planícies e trilhos cotidianos,
Deus nos interpele a (re)descobrir e a compartilhar a única luz que dá sentido,
sabor e significado...Ele coloca-nos diariamente diante dos corações aflitos,
cansados ou desnorteados...e aí nos sussurra: “Este é o meu Filho muito amado,
escuta-O!”...e não será assim que a Luz transfigura a Ação?...Boa Semana!
Chegou
a quaresma! Não se trata de uma ‘prescrição médica’ para combater os ‘excessos
pós carnaval’, também não é uma ‘maratona espiritual’ para recuperar ‘o tempo
perdido’ e, se ainda persistir alguma dúvida, que fique claro que a quaresma
também não é ‘um tempo sombrio e sisudo’ que a Igreja nos impõe para ver se
chegamos à Páscoa ‘bem comportadinhos’.
A quaresma é o fruto maduro da Páscoa
de Cristo! Com ela o
próprio Deus, que se faz caminho e peregrino conosco, nos convida a iniciar
esta peregrinação que não se resume apenas a 40 dias, é um itinerário de
vida...de uma vida que na escuta e no acolhimento, no discernimento e na
oração, na gratidão e no dom, vai colhendo em cada passo a Salvação, a Graça e
a Misericórdia. A grande questão que o caminho Pascal que hoje (re)iniciamos
nos coloca é: velhos propósitos ou vida nova? Repetição ou ousadia?
Comodismo ou conversão? É que por debaixo das cinzas que hoje são
colocadas na tua cabeça há um 'perfume novo', um 'tempo novo' e um 'fogo
novo' com o qual Deus quer ungir a tua vida, sarar tuas feridas, renovar o
teu coração.
O caminho quaresmal está grávido de
Páscoa, de Vida em
abundância. Se a cada ano a Igreja nos interpela e desafia ao recomeço é porque
na sua sabedoria ela descobriu que o coração humano precisa ser estimulado
para não se acomodar em vãs repetições, precisa ser desafiado a deixar as
miopias rotineiras e a abrir-se de novo ao dom, ao outro, a Deus.
Não
se trata, portanto, de fazer do Jejum
um exercício diet ou fitness; muito menos fazer da Caridade um ‘aumento de boas intenções’; menos ainda de fazer da Oração um palavreado infinito onde não
há espaço para a escuta, a gratidão e o discernimento. O segredo Pascal do qual está grávida toda a quaresma é-nos sussurrado
por Jesus ao coração quando nos diz: “Assim, quando deres esmola, não
toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas
ruas, para serem louvados pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua
recompensa. Quando deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a
direita, para que a tua esmola fique em segredo; e teu Pai, que vê o que está
oculto, te dará a recompensa. Quando rezardes, não sejais como os hipócritas,
porque eles gostam de orar de pé, nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para
serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa.
Tu, porém, quando rezares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora a teu Pai
em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa. Quando
jejuardes, não tomeis um ar sombrio, como os hipócritas, que desfiguram o
rosto, para mostrarem aos homens que jejuam. Em verdade vos digo: já receberam
a sua recompensa. Tu, porém, quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto,
para que os homens não percebam que jejuas, mas apenas o teu Pai, que está
presente em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa»
(Mt 6, 1-18).
O
Evangelho convoca-nos. A Igreja, como Mãe, acompanha-nos. Ao nosso lado
caminham os peregrinos que são nossos irmãos. À nossa frente vai Cristo a
pedir-nos para abrir a porta e escancarar o coração, pois é nesse ‘altar
cotidiano’ que Ele nos vai revelar os segredos do Reino ao longo do caminho (Mt
25, 33-40) e assim se fazer Páscoa em nossa vida!
A
Páscoa está plantada em nossos corações, chegou a hora de deixar o dom
florescer e produzir fruto. Pelo caminho é bom ir relembrando:
“A
Quaresma é o tempo para dizer não.
Não à asfixia do espírito pela poluição causada pela indiferença, pela
negligência de pensar que a vida do outro não me diz respeito; por toda a
tentativa de banalizar a vida, especialmente a daqueles que carregam na sua
própria carne o peso de tanta superficialidade. A Quaresma significa não à
poluição intoxicante das palavras vazias e sem sentido, da crítica grosseira e
superficial, das análises simplistas que não conseguem abraçar a complexidade
dos problemas humanos, especialmente os problemas de quem mais sofre. A
Quaresma é o tempo de dizer não; não à asfixia duma oração que nos tranquilize
a consciência, duma esmola que nos deixe satisfeitos, dum jejum que nos faça
sentir bem. A Quaresma é o tempo de dizer não à asfixia que nasce de intimismos
que excluem, que querem chegar a Deus esquivando-se das chagas de Cristo
presentes nas chagas dos seus irmãos: espiritualidades que reduzem a fé a
culturas de gueto e exclusão.
A
Quaresma é tempo de memória, é o
tempo para pensar perguntando-nos: Que seria de nós se Deus nos tivesse fechado
as portas? Que seria de nós sem a sua misericórdia, que não se cansou de
perdoar-nos e sempre nos deu uma oportunidade para começar de novo? A Quaresma
é o tempo para nos perguntarmos: Onde estaríamos nós sem a ajuda de tantos
rostos silenciosos que nos estenderam a mão de mil modos e, com ações muito
concretas, nos devolveram a esperança e ajudaram a recomeçar?
A
Quaresma é o tempo para voltar a
respirar, é o tempo para abrir o coração ao sopro do Único capaz de
transformar o nosso pó em humanidade. É o tempo não tanto para rasgar as vestes
frente ao mal que nos rodeia, como sobretudo para dar espaço na nossa vida a
todo o bem que possamos realizar, despojando-nos daquilo que nos isola, fecha e
paralisa. A Quaresma é o tempo da compaixão para dizer com o salmista: «Dai-nos
[, Senhor,] a alegria da vossa salvação, sustentai-nos com um espírito
generoso», a fim de proclamarmos com a nossa vida o vosso louvor (cf. Sal
51/50, 14), e que o nosso pó – pela força do vosso sopro de vida – se transforme
em «pó enamorado»”(Papa
Francisco, Homilia da Missa de imposição das cinzas 2017).
Chegou
o tempo do (re)começo, não estranhes que te deseje: BOA PÁSCOA... É para lá
que caminhamos!
Somos
confrontados diariamente com um crescimento assustador da agressividade. Das palavras
aos atos ela aí está, não só nos muros que se anunciam como ‘defesa’ da invasão
dos migrantes ou no jargão repetido de que o oriente é uma ameaça pois nele (quase)
todos são fundamentalistas ou na violência com que nos (des)informam os jornais, mas
também nos nossos olhares recriminadores, nas nossas ‘palavras apressadas’, nos
julgamentos silenciosos, muitas vezes carregados de ira ou sede de vingança...nenhum
de nós está imune a esta ‘tentação quotidiana’.
Vem
tudo isto a propósito da Palavra com que Deus visita o nosso coração esta semana
(MT 5, 17-37). Há um caminho que Ele iniciou no mais intimo da nossa alma, o Concílio
Vaticano II chamou-lhe ‘santuário da consciência’ (GS 16), é aí que Ele nos
fala e revela o seu projeto de Amor. Pede-nos escuta atenta, uma fé de 'pés
descalços’, um coração aberto ao discernimento. É assim que Ele nos faz
saborear não somente o ‘amor à Lei’ mas aquela ‘Lei do Amor’ que Ele
solenemente plantou e vem cuidando sempre que nos deixamos modelar e nos
transformamos em ‘altar de reconciliação’.
O
Encontro Pascal que gera o seguimento e o discipulado faz-nos descobrir que
seguir Jesus implica sempre ‘ir além da lei’, é a ‘bendita transgressão’ que se
torna ‘medida’ do Evangelho, sinal do Reino e da descoberta fundante de quem
sabe, sente e vive que a sua identidade é a de servo inútil, nunca juíz!
Um
coração ressuscitado nunca se detém na ‘matemática’, alegra-se sempre com ‘o
milagre dos recomeços’, das feridas saradas, dos passos que ousam seguir em
frente e para o alto! A plenitude, como nos revela Jesus não está somente (nem
primeiramente!) no cumprimento escrupuloso da lei mas no sentido, sabor e
significado que o ‘coração-santuário’ sabe descobrir nela e nos ‘pés descalços’
que, de passo em passo, sabem iniciar o caminho da mudança que, na lei do Amor,
se chama ‘conversão’.
Somente
tocados pela graça e habitados pelo Reino, é que podemos ser um ‘presente’ e
uma ‘presença’ para o irmãos de quem nos esquecemos quando, na correria dos
dias, vamos a caminho da casa do Pai... Não é à toa que o Evangelho nos manda ‘voltar
atrás’...Reconciliar...(Re)unir...é assim que o dom se torna sal e luz para o
mundo. E só assim se cumpre a Lei plenamente! Boa Semana!
"Embora
aparentemente não nos traga benefícios tangíveis e imediatos, é indispensável
prestar atenção e debruçar-nos sobre as novas formas de pobreza e fragilidade,
nas quais somos chamados a reconhecer Cristo sofredor: os sem abrigo, os
toxicodependentes, os refugiados, os povos indígenas, os idosos cada vez mais
sós e abandonados, etc. Os migrantes representam um desafio especial para mim,
por ser Pastor duma Igreja sem fronteiras que se sente mãe de todos. Por isso,
exorto os países a uma abertura generosa, que, em vez de temer a destruição da
identidade local, seja capaz de criar novas sínteses culturais. Como são belas
as cidades que superam a desconfiança doentia e integram os que são diferentes,
fazendo desta integração um novo factor de progresso! Como são encantadoras as
cidades que, já no seu projecto arquitectónico, estão cheias de espaços que
unem, relacionam, favorecem o reconhecimento do outro! Sempre me angustiou a
situação das pessoas que são objecto das diferentes formas de tráfico. Quem
dera que se ouvisse o grito de Deus, perguntando a todos nós: «Onde está o teu
irmão?» (Gn 4, 9). Onde está o teu irmão escravo? Onde está o irmão que
estás matando cada dia na pequena fábrica clandestina, na rede da prostituição,
nas crianças usadas para a mendicidade, naquele que tem de trabalhar às
escondidas porque não foi regularizado? Não nos façamos de distraídos! Há muita
cumplicidade... A pergunta é para todos! Nas nossas cidades, está instalado
este crime mafioso e aberrante, e muitos têm as mãos cheias de sangue devido a
uma cómoda e muda cumplicidade."
De quanta
alegria é feito o nosso caminho quotidiano? Quanta alegria oferecem as nossas
palavras e o nosso olhar? Vivemos num tempo marcado por uma ‘cultura da
insegurança’ que gera em muitos uma estranha nostalgia do passado. Os profetas
da desgraça, que sempre se apresentam nestas circunstâncias, parecem querer
roubar-nos a alegria sincera ao ‘demonizarem’ o mundo contemporâneo...incapazes
de dialogarem, refugiam-se numa vida blindada pelo veneno da amargura de quem
não sabe ver o bom, o bem e o belo; Incapazes de contemplar o milagre da
presença e ação de Deus nos outros, tornam-se pregadores de uma solidão
egoísta; Incapazes de se inclinarem para cuidar da fragilidade humana,
tornam-se ‘fiscais’ com uma moral rígida cheia de absolutos e pouco aberta ao
dinamismo da graça e do discernimento; incapazes de se deixar interrogar pelo
dom, tornam-se idolatras de um deus criado à sua imagem e semelhança, a quem
servem mais por medo do que por amor.
É bom não esquecermos que a
alegria não se improvisa! A alegria cristã é fruto do encontro, um encontro Pascal
que muda a vida com a radicalidade da simplicidade, do serviço e da
fraternidade. Não é alienação, é compromisso!
Vem tudo isto a propósito do
Evangelho que nos acompanha esta semana (Mt 5, 1-12). Em que consiste afinal a
felicidade? O Evangelho faz-nos ver que é feliz aquele que abre o coração a
Deus, aquele que se deixa ‘desnudar’ dos ‘absolutos que nos desfiguram’ e
aceita caminhar na lógica da vulnerabilidade.
Para vencer a lógica do egoísmo somos
chamados à pobreza; para vencer a indiferença o evangelho nos convoca para a
compaixão; diante da agressividade o Evangelho nos interpela a viver o discernimento;
diante das injustiças o Evangelho nos estimula à lógica da profecia e do
compromisso; Se no caminho houver erros, falhas ou pecados o Evangelho coloca-nos
diante da lógica do dom; diante da ‘mundanização’ e do desiquilíbrio o
Evangelho nos chama a viver por inteiro no coração de Cristo; por fim, diante
de todas as guerras (por dentro ou por fora) o Evangelho nos interpela a
assumir a não violência como medida de sabedoria para fazer pontes e
reconstruir o diálogo. Não se trata de uma lógica ‘perversa’ ou simplesmente ‘do
avesso’, trata-se de um caminho espiritual que nasce do encontro com
Cristo-Vivo e só se torna efetivo quando em nossos corações reinarem os mesmo
sentimentos que habitam o d’Ele.
A alegria cristã não é ‘piegas’,
muito menos ‘romântica’ como se fosse uma ‘cena perfeita’ de filme com final ao
‘estilo americano’, em tarde de domingo chuvoso com lareira acesa, manta e
chocolate...A alegria cristã nasce do encontro e se fortalece e redescobre no
discipulado! Ela tem essa capacidade paradoxal de se deixar experimentar, e de
se fazer presente, mesmo no meio do mais árido dos desertos. É por isso que a
alegria cristã nunca é alienação, nem dá ressaca! Ela é dinamismo e opção, é
decisão e compromisso, é seguimento! E se ela estiver no início de tudo, não
precisaremos de ‘esperar o fim’ para a saborear...ela nos dará o sabor e o saber
em cada passo e fará do milagre da nossa existência uma ‘alegria completa’...quotidianamente!
Boa Semana!
Zygmunt Bauman escreveu que “a vida
é muito maior que a soma dos seus momentos”. O dom que nos é dado para viver
não se resume à ‘contabilidade’ superficial dos bons ou maus acontecimentos,
vai além! Em cada encontro, em cada lugar onde estamos, nas pessoas com quem
nos cruzamos, nos caminhos que percorremos, há uma centelha divina que nos
acompanha, ilumina e desafia.
Vem isto a propósito da Palavra
com que Deus nos visita esta semana (Jo 1, 29-34). Jesus faz-se caminho e vem
ao nosso encontro nas circunstâncias em que nos encontramos. Deus sempre gosta
de nos visitar nos locais que habitamos! O ‘extraordinário’ de Deus acontece no
nosso cotidiano, habitualmente na dinâmica de um encontro que suscita
intimidade e seguimento. Tal como João, também nós precisamos estar atentos a
Cristo que passa e aprender a decifrar os ‘sinais’ da Sua presença.
Sabemos que a predileção de Deus
é começar sempre ‘pelas margens’, foi assim naquele encontro no rio Jordão, é
também assim com cada um de nós. Onde houver necessidade de presença, cura,
esperança e libertação, aí está Deus a fazer-se próximo, a transformar a partir
de dentro, a atrair para caminhar juntos! Somente Ele sabe o que somos e o que
precisamos, por isso não hesita um instante em se fazer consolação,
misericórdia, ternura e salvação.
Jesus gosta de estreitar as
margens, de fazer pontes, de iniciar o diálogo, de oferecer perdão, de abrir
horizontes. Como Deus-Peregrino, Jesus oferece comunhão para vencermos a
solidão e a indiferença, unge as nossas feridas e transforma os nossos corações
para que possamos ser vasos de esperança para a humanidade, chama-nos para o
seguirmos pois sabe que, mais do que nunca, o mundo precisa hoje de rostos e de
ternura para (re)aprender a olhar para além da ‘soma dos momentos’ e a degustar
com sabedoria e discernimento o eterno e o instante.
Contemplar, Acolher, Escutar, Seguir
e Imitar Jesus, eis os verbos essências para uma ‘gramática cotidiana’ do nosso
discipulado. Como tenho conjugado estes verbos? Qual o peso que eles têm na
minha vida?
Só podemos ‘ver’ o que João viu quando
estes verbos deixarem de ser apenas ‘infinitivos impessoais’ e se tornarem uma ‘conjugação
pessoal’ de verbos transitivos que unem o cotidiano com o Mistério da Fé. Aí
sim, veremos o ‘Cordeiro’, nos sentaremos em Sua mesa e saborearemos com Ele o
Pão que dá vida e coragem, o Pão que nos transforma em ‘Luz para as nações’. Nessa
hora, nossos olhos se abrirão para ver ‘mais além’ e ‘para o alto’ e o nosso
batismo não terá sido somente ‘uma questão de água’, mas sim o motor decisivo de
uma vida ritmada pelo ‘Fogo-Amor Eterno de Deus’ que permanece em nós e nos faz
Ver-Seguir e Dizer: “Eu vi e dou testemunho de que Ele é o Filho de Deus”. BOA
SEMANA!
Um bom desafio para esta semana pode ser a (re)leitura do nº 262-283 da Exortação Evangelii
Gaudium do Papa Francisco procurando refletir sobre como andas a conjugar os
verbos essenciais da ‘gramática do seguimento de Jesus’. Pode encontrar o texto
do Papa clicando Aqui
(foto retirada de http://radioalansaar.co.za/barrel-bomb-attack-kills-11-children-in-syrias-aleppo-monitor/)
Caríssimos,
eu desobedeceria ao meu dever de bispo se lhes dissesse “Feliz Natal” sem
incomodá-los. E eu quero incomodar. Eu não posso suportar a ideia de fazer
saudações inócuas, formais, impostas pela rotina do calendário.
Então,
meus queridos irmãos, a vocês as minhas melhores saudações incômodas!
Que Jesus, nascido por amor, lhes dê
náuseas pela vida egoísta, absurda, sem impulso vertical, e lhes conceda a
graça de recriar a sua vida na doação de si mesmos, na oração, no silêncio, na
coragem. Que o Bebê que dorme em cima da palha lhes tire o sono e
faça vocês sentirem o travesseiro da sua cama tão duro quanto uma pedra até
acolherem de verdade um desalojado, um necessitado, um pobre que vaga pelas
suas ruas por falta de compaixão.
Que
o Deus feito carne faça
vocês se sentirem vermes toda vez que a sua carreira se tornar o ídolo da sua
vida; toda vez que passar os outros para trás for o projeto dos seus dias; toda
vez que as costas do próximo se tornarem o instrumento da sua escalada.
Que Maria, a mãe que só encontrou no
esterco dos animais o berço em que deitar com ternura o fruto do seu ventre,
force vocês, com os seus olhos feridos, a suspender suas festinhas de fim de
ano até que a sua consciência hipócrita enxergue que as latas de lixo e os
incineradores das clínicas são transformados impunemente em túmulos sem cruz de
vidas humanas exterminadas.
Que José, aquele que encarou mil portas
fechadas na cara e que é símbolo de todas as desilusões paternas, incomode a
esbórnia da sua comilança e dê curto-circuito no seu desperdício de luzes
piscantes até vocês entrarem em crise sincera diante do sofrimento de tantos
pais que derramam lágrimas pelos filhos sem saúde, sem trabalho e sem
oportunidades.
Que
os anjos, anunciadores da paz,
tragam a guerra à sua tranquilidade sonolenta, incapaz de enxergar que, sob o
seu silêncio cúmplice, perpetram-se injustiças, expulsam-se pessoas,
fabricam-se armas, militariza-se a terra dos humildes, condenam-se povos ao
extermínio da fome.
Que
os pobres que acorrem à
gruta de Belém enquanto os poderosos conspiram na escuridão e a cidade dorme na
indiferença façam vocês entenderem que, se quiserem ver “uma grande luz”,
precisam se levantar e partir; façam vocês entenderem que as esmolas de quem
lucra com o couro das pessoas são calmantes inúteis; façam vocês entenderem que
as belas roupas compradas com o décimo terceiro podem até causar boa impressão,
mas não aquecem a alma; façam vocês entenderem que a coexistência de pessoas
sem lar e de especulação corporativa é um ato de horrendo sacrilégio.
Que
os pastores que velavam no
meio da noite vigiando o rebanho e perscrutando a alvorada deem a vocês um
sentido para a história, a emoção da expectativa, a alegria do abandono em Deus
e lhes inspirem o desejo profundo de viver pobres em espírito, porque viver
pobre em espírito é a única maneira de morrer rico aos olhos de Deus.
Que,
em nosso velho mundo moribundo, nasça a esperança. Feliz Natal!
Todos os nomes têm rosto,
trazem consigo uma história para contar, revelam-nos um mundo polifónico de
afetos, uma sinfonia de sentimentos, experiências e vivências. Dar nome é,
portanto, entrar num território sagrado, é tocar o mistério do outro...é dizer
ao outro: “o que tu és, tem sentido e significado dentro de mim”.
Também Jesus quis ter um nome e
uma família, quis fazer história conosco e em nós, quis dizer-nos, com o seu
ser e agir, que n’Ele temos um sentido e um significado. Não somos um acaso ou
simplesmente criaturas, somos seus irmãos, herdeiros com ele do Reino que o Pai
preparou, n’Ele e com Ele somos uma história de salvação!
Diante do Amor não precisamos
ter medo! O Amor fez-se Emanuel, um Deus-conosco e para nós, como nos recordou
tão sabiamente Bento XVI: “O sinal de Deus é a simplicidade. O sinal de Deus é
o menino. O sinal de Deus é que Ele faz-se pequeno por nós. Este é o seu modo
de reinar. Ele não vem com poder e grandiosidades externas. Ele vem como menino
- inerme e necessitado da nossa ajuda. Não nos quer dominar com a força.
Tira-nos o medo da sua grandeza. Ele pede o nosso amor: por isto faz-se menino.
Nada mais quer de nós senão o nosso amor, mediante o qual aprendemos
espontaneamente a entrar nos seus sentimentos, no seu pensamento e na sua vontade
- aprendemos a viver com Ele e a praticar com Ele a humildade da renúncia que
faz parte da essência do amor. Deus fez-se pequeno a fim de que nós pudéssemos
compreendê-Lo, acolhê-Lo, amá-Lo”.
Gosto de olhar José a saborear
tudo isto interiormente (Mt 1, 18-24). Gosto de contemplar Deus a habitar os
seus sonhos. Gosto do jeito com que Deus sussurra ao coração de José a ternura do
Mistério que ele é chamado a acolher e a viver. No silêncio ativo de José gosto
de ler as entrelinhas de quem se deixa moldar pelo divino Oleiro, de quem
aceita fazer do seu nada amor. Gosto da determinação de José! Sim, para tudo é
necessária uma ‘determinada determinação’ (Stª Teresa de Ávila) e José sabe que
o caminho que Deus lhe abre diante dos olhos e do coração é o caminho da (e)ternidade,
do dom, do silêncio que sabe dar-se e que se faz amor eterno.
A caminho do Natal, deixemos
que o Mistério toque o nosso cotidiano. Deixemo-nos interrogar: “Como acolhemos
a ternura de Deus? Deixo-me alcançar por Ele, deixo-me abraçar, ou impeço-Lhe
de aproximar-Se? Porém a coisa mais importante não é procurá-Lo, mas deixar que
seja Ele a procurar-me, a encontrar-me e a cobrir-me amorosamente com suas
carícias. Esta é a pergunta que o Menino nos coloca com a sua mera presença: permito
a Deus que me queira bem?” (Papa Francisco).
A casa está pronta. A mesa está
posta. Por entre o frio gélido de um rigoroso inverno, vem ao nosso encontro a
Luz do mundo, a única luz que aquece nossos corações e dissipa as nossas
trevas. De quanta Luz vais encher o teu coração neste Natal? Com quanta Ternura
vais aquecer os corações ao teu redor? Quantas portas vais destrancar e permitir
aos outros que habitem a tua história sagrada?
Tal como Jesus, também o teu nome é uma história sagrada. Também o teu rosto é sinal de salvação! também a tua vida é um Evangelho. Também tu podes fazer a diferença. Crês nisso? Boa Semana. Vem aí o Natal...(Re)nasce!
*caso a indiferença ainda não te tenha anestesiado, a foto postada no início é de Aleppo...o que está a acontecer ali não é uma 'guerra civil'...é a terceira e pior das guerras mundiais...a da indiferença!
Nenhuma
história pessoal é um livro já acabado! Somos ‘peregrinos’, a nossa história
sagrada é feita dos ‘milagres’ cotidianos, dos pequenos encontros, do cruzar de
olhares que vencem a indiferença, das batidas do coração algumas vezes aceleradas
outras mais tranquilas...temos muito para narrar, dentro e fora de nós. Se nos déssemos
conta do muito e do belo que acontece dentro de nós todos os dias, talvez os
nossos olhos fossem menos míopes, nossos lábios menos lamurientos, nossas
palavras mais afetuosas, nos gestos mais delicados e nosso coração um altar
onde celebraríamos em cada entardecer a doce alegria da nossa existência.
Gosto
de olhar o tempo do Advento com a tónica do afeto...gosto de contemplar o nosso
Deus-paciente naquele Seu excesso de dom que o faz precipitar-se dos altos céus
para ser conosco, e em nós, o Deus-baixíssimo...um Deus que não se limita à
medida dos homens mas que é plenamente humano! Gosto de ler Deus nas
entrelinhas da vida e ver, de surpresa em surpresa, o seu agir discreto e
silencioso oferecendo uma paz não melancólica ou nostálgica, mas uma paz ativa
que desperta sentidos, convoca a inteligência e pede discernimento. Gosto de
escutar Deus nos seus profetas, os de ontem e os de hoje, e de vê-lo consolar,
acompanhar e despertar o seu Povo...
A
Palavra que nos nutre ao longo desta semana faz-nos entrar num dinamismo de
novidade que transforma os nossos desertos em caminhos, as nossas certezas em
tempo de discernimento, as nossas fragilidades em oportunidade de crescer, as
nossas chagas em ‘tesouro fecundo’ que o tempo cicatriza fazendo delas porta do
futuro. Naquele “Arrependei-vos” (Mt 13, 1-12) com que João nos inquieta nos
desertos que nos habitam está condensada a provocação de Deus a deixarmos que
Ele reine em nós, na nossa vida, em nossas opções, nos nossos afetos...é que
onde Deus reina o humano é pleno, o silêncio torna-se fecundo, o agir não
cansa.
Há
arrependimentos que nos amarguram e torturam, neles há sempre histórias e
acontecimentos que insistimos repetir, ruminar, até nos autodestruirmos e
deprimirmos. Isso não é arrependimento, é apenas um processo de culpa e de
acusação com que lutamos diariamente...e diante do qual nos sentimos sempre
vencidos.
O
arrependimento que nasce da fé não nos coloca ‘contra a parede’, não nos ‘aponta
o dedo’, liberta-nos da culpa e aponta-nos caminhos! Arrepender-se não mata,
converte! E toda a conversão é sempre uma primavera da alma que faz florir a
esperança mesmo no meio do mais rigoroso inverno.
Esta
semana vamos cruzar-nos no caminho com a ‘Cheia de Graça’, Ela nos garante como
‘sacramento da Ternura’ que o segredo é confiar. E toda a conversão começa
sempre com esse gesto sublime de quem aceita entregar tudo nas mãos do único que
nos pode oferecer recomeço. A todos. Sempre! Boa Semana.