segunda-feira, março 26, 2018

OS OLHOS DO CENTURIÃO...



Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.  Assim escreveu Saramago, como que a provocar-nos com a pergunta que fica nas entrelinhas: Afinal, O que vês? Em que(m) reparas? Num tempo tão cheio de ritmos frenéticos, de indiferença e de ‘liturgias da banalidade', abre-se diante de nós um pórtico que interpela o nosso coração e a nossa inteligência, VEM AÍ A PÁSCOA!


Fomos chamados e convocados há 40 dias para um caminho de renovação interior. Logo no primeiro passo, que é sempre iniciativa d’Ele, começámos com a garantia de que Deus é o primeiro a acreditar em nós e o único que não desiste de nós. Ali mesmo Ele deixou claras as suas intenções: «Estabelecerei a minha aliança convosco, com a vossa descendência e com todos os seres vivos que vos acompanham ...» (Gen 9, 8-15 ).

Chegámos agora diante da Páscoa, estamos no começo da Semana Maior (ela não vai ter mais dias, mas é a grande semana que nos leva a mergulhar nas fontes da Salvação!). O que vimos (e ouvimos) durante o grande caminho dos 40 dias? Onde nos detivemos? Com que determinação deixámos Deus tocar nossas feridas e curar nossos lamentos? Onde o sussurro da Páscoa foi mais forte que o nosso medo e o nosso pecado? Deus chamou-nos para um caminho Batismal-Pascal e, como Pai, dispôs-se a moldar o nosso coração endurecido pelo medo e pela vergonha do pecado. De aliança em aliança foi-nos narrando e oferecendo ternura e recomeço...

Entremos então nesta ‘Semana da Ternura e do Recomeço deixando-nos guiar pelos olhos do centurião. Aquele homem, não sabemos se era o mesmo de Cafarnaum (Lc 7), era para os seus contemporâneos um homem importante, tinha poder e podia exigir obediência...No entanto, encontramo-lo ali, diante do calvário, mudo! Estava, num frente a frente com Jesus! Não sabemos o que o silêncio daquele espetáculo cruel lhe perguntava interiormente...Sabemos apenas que do seu olhar contemplativo e, do seu coração e inteligência, brotou a ‘bem-aventurança’ do Calvário: “Na verdade, Este homem era o Filho de Deus!” (Mc 14, 1- 15, 47)...

Os olhos do Centurião são janelas pelas quais a Ternura de Deus nos interpela a dar passos concretos rumo à Páscoa.  O que vamos viver e celebrar, o oceano em que vamos mergulhar nos próximos dias, não é uma liturgia da banalidade ou do superficial, muito menos um rito para aplacar a ira do deus-sádico, menos ainda um tempo para ‘lágrimas de crocodilo’...

A PÁSCOA VEM AO NOSSO ENCONTRO, pede-nos imersão, do coração e da vida, no coração de Deus. No Calvário é-nos oferecido sentido, sabor e significado para a nossa vulnerabilidade quotidiana. Da Cruz do Crucificado-Ressuscitado, Deus que é Pai de Misericórdia, quer-nos fazer beber das fontes da Salvação para que possamos caminhar com um Coração-Pascal. Talvez seja oportuno tatuarmos por dentro dos nossos corações esta certeza de Isaac de Nínive: “Deus só pode dar-nos o seu amor!”. Então, quando assim fizermos, abriremos nossos olhos e, como o centurião, também nós reconheceremos o nosso Salvador. O Salvador do Mundo. Por todos. Por Amor. Para Sempre! BOM CAMINHO. BOA SEMANA...SANTA!




segunda-feira, março 12, 2018

O ‘essencial’ do Evangelho...



Caro Nicodemos, faz algum tempo que queria escrever-te.

Sei que de Deus sabes muitas coisas, tens estudado a Torah e, nas tuas obras cotidianas, os ‘últimos’ têm encontrado em ti um bálsamo para as suas dores, seja pelas tuas palavras doces e plenas de sabedoria e sensibilidade, seja pela tua esmola generosa que sempre restitui dignidade e abre portas de esperança. Se outros me falassem de ti diriam que és um homem correto, honesto e caridoso. Nada mal, heim?!

Esta minha carta, caro Nicodemos, é mais do que ‘uma carta’, na verdade ela é uma conversa muito simples que faz tempo quero ter contigo. Sou, como tu, um peregrino. Amo a vida, as pessoas, a natureza. Gosto do que é simples, não fico indiferente diante do sofrimento, não me calo diante da injustiça e procuro viver cada dia plantando um pouco de ternura através daquilo que chamo ‘os milagres cotidianos’. Seria bom que tudo isso fosse diariamente a 100%, mas nunca te esqueças: sou um peregrino...sempre precisado de perdão ( = Recomeço). Não te disse ainda, mas sou discípulo de Jesus. Sim, esse que vens seguindo há já algum tempo em silêncio! E tem tanta gente fazendo o mesmo...

Vou contar-te um segredo: durante muito tempo houve uma pergunta que me tirou o sono: “Haverá um Amor capaz de curar, iluminar e salvar?”, imagino que também essa pergunta te acompanhe! Não te preocupes, não vou dar-te uma resposta, compreenderás mais tarde o motivo...

Sabes, Nicodemos, quando se busca o que é (e)terno, não bastam as ‘respostas já prontas’. Diante das grandes perguntas da vida há uma decisão importante: não se entregar à aparente ‘frustração’, isso já é um começo importante! Tem tanta gente que busca respostas e, na primeira ‘não resposta’, baixa os olhos e, daí em diante, apenas vê o chão...

Soube por João que esta noite vieste ao encontro de Jesus...sei como é entusiasmante esse caminho! Ir ao encontro de Jesus e deixar simplesmente que Ele nos olhe. Afinal, só Ele sabe quem nós somos! Descobrimos nessa hora o ‘essencial’ do Evangelho: “Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito, para que todo o que acredita n’Ele não morra, mas tenha a vida eterna. Porque Deus não enviou o Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele” (Jo 3, 16-17).

Caro Nicodemos, não sei o que farás depois desse encontro. Quero apenas dizer-te que a comunidade dos discípulos de Jesus, também conhecida como Igreja, estará de portas abertas para te acolher, a ti e a todos os outros ‘Nicodemos’ que de noite, ou de dia, andam à procura de uma luz e de um Amor capaz de curar, iluminar e salvar! Aqui as tuas dores serão as nossas dores, as tuas alegrias as nossas alegrias, e as tuas dúvidas, ao invés de serem um problema, serão mais um passo para juntos sedimentarmos o caminho do nosso seguimento de Jesus... Sê bem-vindo, meu irmão!



segunda-feira, fevereiro 05, 2018

A 'BOA NOTÍCIA'...


De quantas rugas é feita a tua história? Parece despropositada a pergunta. Para alguns será ‘deselegante’ e ofensiva, mas gostaria de começar por aqui esta semana!

Habitamos um tempo marcado por grande arrogância e violência. Ser vulnerável é ‘coisa de fracos’. Os afetos são facilmente mascarados (e manipulados!), as ‘etiquetas’ que colocamos nos outros  são uma ‘auto-defesa infantil’ de quem não é capaz de, com adultez e sabedoria, lidar com os próprios limites. E, pensar diferente, é hoje uma ‘ousadia quase pornográfica’...é paradoxal mas, quanto mais ‘democráticos’ dizemos ser, quer como pessoas, igreja ou sociedade, mais intolerantes nos manifestamos em nossas atitudes, palavras e gestos. Não se trata de um ‘diagnóstico pessimista’, até porque sou 'evangelicamente otimista' por natureza. Gosto de escutar e de contemplar as pessoas, e vou-me dando conta do quanto temos afetivamente regredido, humanamente decrescido e espiritualmente adoecido...voltemos à pergunta: "de quantas rugas é feita a tua história?"

Vem tudo isto a propósito da Palavra com que Deus nos visita esta semana (Mc 1, 29-39). Jesus continua itinerante (peregrino!) e revela-nos que uma ‘Igreja em saída’ implica também ‘sair da igreja’, pois nenhum muro pode deter a graça de Deus que é sempre ‘sedutoramente irradiante’, é que “a casa de Deus é um abrigo, não uma prisão” (Papa Francisco).  Jesus sai dos ‘limites religiosos’ e inicia uma ‘peregrinação da ternura’ que rompe preconceitos e derruba os muros da indiferença. Para seguir Jesus é preciso ‘não ter fronteiras’! Por onde passa, Ele se faz próximo, toca e ‘levanta’. 3 verbos essenciais para fazer irromper o Evangelho nos corações e na vida.

O ‘Mestre dos recomeços’, ensina-nos que segui-lO não implica um ‘intimismo de fuga’ nem, no extremo oposto, um apelo a sermos ‘tarefeiros do evangelho’. Na hora da ‘saída’, Jesus é claro: precisamos ser ‘porta escancarada’ para quem chega, sem qualquer tipo de blindagem ou subterfúgio (espiritual!). Precisamos cuidar e deixar-nos cuidar. Precisamos de silêncio e de palavras. Precisamos escutar, mas também responder. Precisamos rezar para saber discernir. Precisamos agir para não atrofiar o amor. Precisamos avançar...para ir ao encontro!

Sair, não ter fronteiras, tocar e curar. É neste ‘cenário’ que Cristo nos coloca e questiona. Diante da ‘síndrome da vida perfeita’, o Evangelho ‘devolve-nos’, como um espelho, as nossas dores e as nossas ‘rugas’ e leva-nos a descobrir, cada vez mais, que elas são fruto do afeto e da memória, do tempo compartilhado e da vida entregue. Sem pressas.

‘Sair’, não nos levará muito longe, talvez nos leve somente ‘até à Porta’... aí, no sabor e no saber de cada dia, descobriremos tantos e tantas, de ‘coração faminto de esperança’. Vão pedir-nos abrigo e ‘o pão dos afetos’. Nessa hora, tocaremos suas feridas, dançaremos juntos e, olhando-nos longamente nos olhos, ofereceremos uns aos outros os ‘sulcos’ que o tempo escavou em nossos rostos. Então, de mãos dadas, iremos sussurrar mutuamente essa entrega dizendo: 

Toma as minhas rugas, a minha história, o meu afeto, 
o meu tempo, a minha vida. Sem pressas”. 





terça-feira, janeiro 23, 2018

O QUE NOS FAZ CRISTÃOS?...


Eis a pergunta que nos pode acompanhar essa semana! Não te apresses em responder... saboreia a interrogação como um convite a fazer uma ‘peregrinação interior’.

O “vinde e vede” (Jo 1, 35-42) com que João nos colocou olhos-nos-olhos com Jesus, tem agora um capítulo novo e decisivo.  Não há discipulado sem intimidade, mas também não há seguimento de Jesus sem conversão. Discipulado e conversão são gêmeos! Duas faces de uma mesma moeda: seguir Jesus, ser como Ele foi, fazer como Ele fez!

É comum escutarmos em discurso religioso (com frequência quase infinita!) a palavra ‘conversão’, em muitos casos, ela tornou-se um jargão/refúgio de ‘disparo automático’. Importa esclarecer que ‘conversão’ não é uma ‘conversa grande’, muito menos algo ‘obscurantista’ do tipo ‘refúgio impermeável para preguiçosos’. A conversão dá trabalho! Ela nasce de uma urgência: “seguir Jesus de modo que o seu Evangelho seja guia concreta da vida; significa deixar que Deus nos transforme, parar de pensar que somos nós os únicos construtores da nossa existência; significa reconhecer que somos criaturas, que dependemos de Deus, do seu amor” (Bento XVI).

Há uma 'urgência do coração' que define prioridades! Naquele “Cumpriu-se o tempo e está próximo o Reino de Deus” (Mc 1, 14-20), o Evangelho introduz-nos num tempo e numa realidade nova. Deus convoca-nos para realizarmos, como dizia um grande pedagogo, os 'inéditos possíveis'. Pede-nos que façamos com Cristo o percurso das periferias (Galileia) para o centro (Jerusalém). Não se trata apenas de um itinerário geográfico, nem de meras referências ‘religiosas’, trata-se de um caminho de purificação da vida e da fé. Chegou a hora de abandonar todas as idolatrias (e são sempre tantas dentro de nós!). O ‘Deus Vivo’ pede-nos a coragem da humildade, a determinação do coração, a intimidade que transforma e a profundidade que renova.

A conversão nasce das ‘raízes do coração’. Quando Jesus nos interpela o coração e a vida, e nos recorda que se ‘cumpriu o tempo’, não está com isto a amedrontar-nos, ameaçar-nos ou a dizer-nos que agora tudo tem de ser feito à pressa... Está, isso sim, a fazer ressoar no nosso coração aquela ‘memória’ que nos desperta e recorda que somos nutridos por um amor infinito que nos levanta, acaricia e estimula a fazer caminho. Enquanto caminhava entre nós, recordava-nos o Ir. Roger de Taizé:

“Se soubesse que Deus vem sempre ter contigo...O mais importante é descobrir que Ele te ama, mesmo quando tu pensas que não O amas. Cristo espera ser acolhido por cada um de nós. Se tu não consegues dar-Lhe uma resposta, Ele respeita o teu silêncio. Mas quando te abres e O acolhes, por ação do Espírito Santo, cria dentro de ti uma comunhão íntima com Ele. Na surpresa dessa comunhão, Ele habita no mais fundo da tua alma. A sua presença é tão clara como a tua própria existência. Tens dúvidas? Escavam-se em ti como que buracos de incredulidade? Contudo, permaneces na fidelidade. A dúvida, por vezes, é apenas o outro lado da fé. Na invisibilidade da Sua presença, o Ressuscitado poderia dizer-te: “sei que há dias cinzentos e opacos na tua vida. Conheço as tuas dificuldades e a tua pobreza, mas apesar disso és abençoado, habitado por fontes vivas, fontes de fé escondidas no mais profundo de ti mesmo. A surpresa da presença de Jesus, o Ressuscitado, cria em ti uma morada de luz. Ela ilumina mesmo quando tudo parece envolto em obscuridade e brilha como brasas debaixo da cinza. Por vezes perguntas-te a ti mesmo: o fogo que há em mim vai apagar-se? Não foste tu que o acendeste. Não é a tua fé que cria Deus, não são as tuas dúvidas que O vão lançar para o nada. Lembra-te: o simples desejo de Deus é já o começo da fé. Quando te abres à vida eterna, a confiança da fé começa e não tem mais fim...”. Boa Semana!





segunda-feira, janeiro 08, 2018

QUANDO O CORAÇÃO VÊ...


Somos (e)ternos buscadores de sentido, sabor e significado. Como viandantes, somos ritmados pelo cotidiano que nos interpela e se apresenta diante do coração e da vida como ‘oferta de salvação’. Sim, precisamos ser salvos! Salvos, de dentro para fora, de tudo o que nos sufoca: os medos, as frustrações, a ansiedade, os nossos fracassos, os nossos pecados...enfim, tanta ‘bagagem’ para uma viagem onde só o essencial é necessário!

Gosto de olhar aqueles Magos, de que Mateus nos fala no Evangelho, como homens de coração inquieto, disponíveis e determinados. ‘Magos’ significa, literalmente, “ilustres” ou “grandes”; era a designação dada aos que se dedicavam à astrologia. Sendo ‘buscadores de sinais’, não os exigem. Sabem esperar. Sabem contemplar. Vivem com um coração não se entrega ao superficial.

Como os pastores, também os magos estão ‘nas periferias’. Não é a curiosidade que os move, é a sede da Vida! Eles sabem ver num ‘sinal que brilha na noite’ a convocação para ‘um novo dia’. Quando chega a luz do Céu, a ‘Glória a Deus nas alturas’ canta-se com os ‘pés na terra’, ‘peregrinando’, fazendo de cada passo um caminho sem retorno. O Céu ‘falou’ e o coração soube ‘ver’, agora é a ‘hora dos peregrinos’!
Os Magos interpelam-nos sobre ‘o que vemos’ e ‘o que contemplamos’. Com a sua determinação interrogam-nos sobre ‘o que esperamos’ e ‘com que disposição’. Com que frequência olhamos o Céu? Com que liberdade acolhemos os Seus sinais? Não são interrogações de ‘ocasião’, são o essencial para o nosso seguimento batismal de Jesus!

Não foi em vão que Jesus nos disse um dia: “Os últimos serão os primeiros”. Chegou a hora! Das ‘margens’ para o ‘Coração’, Jesus começa a convocar os ‘peregrinos’. De agora em diante o caminho faz-se passo a passo, dia após dia, seguindo-O com ‘determinada determinação’ (Teresa de Ávila). É uma convocação que vem do alto, que nos pede mergulho profundo ‘nas fontes da Salvação’. É que Isaías tinha razão, e com ele também nós cantamos e Adoramos neste dia:

“Deus é o meu Salvador, tenho confiança e nada temo. O Senhor é a minha força e o meu louvor. Ele é a minha salvação. Tirareis água, com alegria, das fontes da salvação. Agradecei ao Senhor, invocai o seu nome. Anunciai aos povos a grandeza das suas obras, proclamai a todos que o seu nome é Santo. Cantai ao Senhor, porque Ele fez maravilhas, anunciai-as em toda a terra. Entoai cânticos de alegria e exultai, habitantes de Sião: porque é grande no meio de vós o Santo de Israel» (cf. Is 12, 2-6)


domingo, dezembro 24, 2017

UM NATAL 'SUBVERSIVO'...


O Natal recorda-nos que Deus fez uma escolha: escolheu ser pobre. Não cedeu aos caprichos do Império Romano, símbolo do poder que subjuga e escraviza; Não cedeu aos caprichos religiosos de quem desejava um deus encerrado num templo e ‘domesticado’ pela vontade dos homens; Não cedeu à ‘falsa esperança’ de ser um poderoso guerreiro com ‘ódios de estimação’; Não cedeu aos preconceitos nacionalistas de ser ‘um deus só para alguns eleitos’; Não cedeu à falsa expectativa de se apresentar como um ‘deus-sádico’; não cedeu à tentação de se fazer conhecer como um deus ‘onipotente-vingativo’...

Subvertendo todas as lógicas, e purificando todas as nossas (falsas!) expectativas, em Jesus, Deus revela-se como um Deus de Ternura e Misericórdia, um Deus que não se cala diante da injustiça, um Deus que faz das periferias o centro, um Deus que nos traz uma paz que não é anestesia, nem ‘paz de cemitério’, mas compromisso em restituir dignidade; um Deus que se apresenta aos homens como fiel companheiro de viagem pelas estradas da vida, um Deus que rejubila com as nossas conquistas, um Deus que beija e cura as nossas feridas, um Deus que nos liberta de ‘tudo o que pesa dentro de nós’ e, com a força do perdão, nos ensina que toda a vida é feita de recomeços...Um Deus ‘pequenino’ que deseja tornar ‘grande’ o nosso existir.

Diante do presépio, e a partir dele, há uma lógica ‘subversiva’ que nos interpela. Ali, Deus recorda-nos que a experiência de fé nunca pode ser ‘superficial’ ou ‘banal’, pede-nos que não nos deixemos ‘convencer’ por uma religiosidade da ‘aparência’ e provoca-nos a tocar todas as feridas da humanidade, a caminhar delicadamente no território sagrado que é cada pessoa, a escutar ‘divinamente’, antepondo a misericórdia ao julgamento.


A partir de Belém, daquela manjedoura onde Ele assumiu nossa carne, o Céu não nos pede para ‘sermos bonzinhos’, mas sim para sermos humanos, plenamente humanos, tão humanos...que com Cristo, e em Cristo, nos tornemos divinos. FELIZ NATAL!



terça-feira, dezembro 05, 2017

O RISCO DO ENCONTRO...


Trazemos dentro de nós o poder de transformar vidas: palavras que salvam, gestos que curam, olhares que libertam, toques que transformam. É com esta perspectiva que mergulho neste Advento! É com esta ‘vigilância’ (não policial, mas evangélica!) que aceito percorrer um caminho que será tecido pela filigrana da fé e dos afetos, da Esperança e do Silêncio.

Muitos confundem o advento com ‘imobilização’ pensando que ele é (apenas) tempo de espera. Mas esperar (ou ter Esperança!) exige de nós atitude, determinação, exige que o nosso coração se mova, que nossos olhos se abram, que nossos lábios aprendam a sussurrar e a degustar cada palavra com a ternura que converte. Advento não é ficar ‘estacionado’ na garantia de que Deus continua a agir, a mover-se para nós e em nós. O Advento pede-nos que acolhamos o “Verbo procedente do Silêncio” (Inácio de Antioquia). É caso para nos perguntarmos, agora que iniciou mais um ano litúrgico: onde estava no último advento? De onde estou (re)partindo neste Advento?...

A Palavra da Vida, que escutámos no último Domingo, recordava-nos que o primeiro passo do nosso Advento deve ser a confiança. Temos um Pai! Um Pai que nos procura, um oleiro que nos molda sem nos esmagar, um Pai-peregrino que nos acompanha, consola e, mesmo diante das nossas rebeldias, não recua...antes se apressa para nos envolver num (e)terno abraço que nos aquece o coração e nos (re)lembra que na vida da fé o ‘milagre do recomeço’ dá solidez aos nossos passos.

Para perscrutarmos os sinais da Sua presença, e corrermos para Seus braços, a boa notícia do Evangelho recordava-nos que precisamos ‘vigiar’. E o que é afinal essa vigilância? Esse é o segundo passo do nosso caminho. Vigiar significa essencialmente estar desperto, estar acordado...não deixar que a ‘sonolência espiritual’ feche os olhos do nosso coração e da nossa vida. Advento é caminho para o Encontro! Se adormecermos, não faremos esta peregrinação que nos mostrará que “Ele está no meio de nós”!

Com todos estes desafios diante da vida, inteligência e do coração e, relendo alguns números da Evangelii Gaudium do Papa Francisco, onde diz: “O Evangelho convida-nos sempre a abraçar o risco do encontro com o rosto do outro, com a sua presença física que interpela, com os seus sofrimentos e suas reivindicações, com a sua alegria contagiosa permanecendo lado a lado. A verdadeira fé no Filho de Deus feito carne é inseparável do dom de si mesmo, da pertença à comunidade, do serviço, da reconciliação com a carne dos outros. Na sua encarnação, o Filho de Deus convidou-nos à revolução da ternura. (...) o desafio que hoje se nos apresenta é responder adequadamente à sede de Deus de muitas pessoas, para que não tenham de ir apagá-la com propostas alienantes ou com um Jesus Cristo sem carne e sem compromisso com o outro. Se não encontram na Igreja uma espiritualidade que os cure, liberte, encha de vida e de paz, ao mesmo tempo que os chame à comunhão solidária e à fecundidade missionária, acabarão enganados por propostas que não humanizam nem dão glória a Deus” (Evangelii Gaudium nº 88-89), dei por mim a pensar: e se o nosso Advento de 2017 fosse tempo para uma redescoberta do Pai Nosso?...Boa Semana!


O que te proponho:

1. Começa por escrever/colocar no teu diário, num papel em cima da tua mesa de trabalho ou noutro local à tua escolha, o texto do Pai Nosso.

2. Pelo menos 3x ao dia, para 5 minutos e reza tranquilamente.

3. Se quiseres podes seguir este esquema, começando em cada Domingo e deixando que ele faça eco no teu caminho semanal:

I Domingo – Tomo consciência da presença de Deus em minha vida como um Pai que molda, transforma e santifico o Seu nome sendo ternura e consolação para os outros.

“Pai Nosso que estais nos céus,
santificado seja o vosso Nome”

II Domingo – Preparo o meu coração para acolher e construir o Reino procurando ser honesto, acolhedor de quem pensa diferente de mim e aprendendo a dialogar com serenidade.

“Venha a nós o vosso Reino,
seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu”

III Domingo – Vivo a Alegria do Evangelho tendo durante esta semana um gesto concreto de partilha.

“O pão nosso de cada dia nos dai hoje”

IV Domingo – Celebro o dom do Natal de Jesus procurando reconciliar-me, com Deus e com os outros.

“Perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido
e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do Mal.



segunda-feira, novembro 20, 2017

O QUE TENS FEITO...?



O que tens feito com os teus talentos? É espontânea esta interrogação diante da Palavra que nos interpela esta semana (Mt 25, 14-30). A questão torna-se ainda mais incisiva se olharmos alguns dados que não podem ser para nós somente ‘estatísticas’: Uma em cada dez pessoas, 767 milhões no mundo todo, sobrevivem com menos de US$ 1,90 por dia... A região da África Subsaariana concentra mais pessoas em situação de pobreza extrema do que todo o resto do mundo. São cerca de 388 milhões, o que corresponde a mais de 40% da população local...O que tens feito com os teus talentos?

Com inspirada ousadia, o Papa Francisco recordava neste Domingo que somos todos ‘mendigos do essencial’, “mendigos do amor de Deus, que nos dá o sentido da vida e uma vida sem fim. Por isso, também hoje, estendemos a mão para Ele a fim de receber os seus dons”...Mais uma vez ressoa a questão: O que tens feito com os teus talentos?

É desconcertante escutar o Evangelho e contemplar esta confiança de quem reparte tudo o que é seu...e vai! Sim, só o Amor tem esta liberdade de se dar, de confiar...e de se fazer Peregrino. Só um Amor assim é capaz de nos fazer sair do medo e suscitar compromisso, fidelidade, entrega. Ele sabe que a criatividade é o outro nome do Amor, por isso não hesita, nem por um segundo, em colocar em nossas mãos frágeis e pequenas a imensidão do Seu ser, do Seu amor, da Sua vida. É assim que, de talento em talento, Deus assume este ‘escândalo’ de ser o primeiro a confiar em nós...e o único que jamais desiste! Eis, portanto, a questão: O que tens feito com os teus talentos?

A pergunta que se repete, não é para nos determos no nosso ‘umbiguismo’ pensando que resta-nos apenas a missão de ‘tarefeiros do Evangelho’, uma espécie de repetidores sem alma de uma Palavra ‘neutralizada’ pelas nossas incapacidades ou lamentações...aí de nós quando esse ‘veneno’ for o motor da nossa existência! A repetição é para nos despertar e para nos estimular a (re)aprender a olhar, saborear e realizar, de dentro para fora e do céu para a terra, esta ousada missão que é irmã da confiança e filha do Amor, a missão de sermos multiplicadores da vida, da dignidade, da ternura e da salvação de Deus...Para isso o Evangelho apresenta-nos uma ‘escola’ onde podemos diariamente reaprender a acolher e multiplicar os dons: os pobres!

Recordou-nos o Papa Francisco: “No pobre, Jesus bate à porta do nosso coração e, sedento, pede-nos amor...Lá, nos pobres, manifesta-se a presença de Jesus, que, sendo rico, Se fez pobre. Por isso neles, na sua fragilidade, há uma «força salvífica». E, se aos olhos do mundo têm pouco valor, são eles que nos abrem o caminho para o Céu, são o nosso «passaporte para o paraíso». Para nós, é um dever evangélico cuidar deles, que são a nossa verdadeira riqueza; e fazê-lo não só dando pão, mas também repartindo com eles o pão da Palavra, do qual são os destinatários mais naturais. Amar o pobre significa lutar contra todas as pobrezas, espirituais e materiais. E isto far-nos-á bem: abeirar-nos de quem é mais pobre do que nós, tocará a nossa vida. Lembrar-nos-á aquilo que conta verdadeiramente: amar a Deus e ao próximo. Só isto dura para sempre, tudo o resto passa; por isso, o que investimos em amor permanece, o resto desaparece. Hoje podemos perguntar-nos: «Para mim, o que conta na vida? Onde invisto?» Na riqueza que passa, da qual o mundo nunca se sacia, ou na riqueza de Deus, que dá a vida eterna? Diante de nós, está esta escolha: viver para ter na terra ou dar para ganhar o Céu. Com efeito, para o Céu, não vale o que se tem, mas o que se dá...”.


Os talentos multiplicam-se quando o nosso coração se volta para o pobre e, com ele, reaprendemos a confiança, a alegria e o Amor que Salva... O que tens feito com os teus talentos? BOA SEMANA!


terça-feira, novembro 07, 2017

O QUE TE MOVE?...


O que te move?  É uma boa pergunta para nos acompanhar esta semana! Aviso já que não é uma pergunta ‘individualista’, mas é um questionamento maduro para quem sabe que a vida não é apenas o frenesim de horas, minutos ou segundos que se sucedem ininterruptamente.

Há quem se mova e há quem se comova. Há os que são empurrados e há os que ousam dar pequenos passos. Há quem tenha dúvidas, e precise de uma pausa para discernir, mas há também aqueles que parecem ter (sempre) certezas e vemo-los caminharem destemidos diante da vida e rumo ao futuro. Todos, tal como nós, trazem dentro interrogações e projetos, sonhos e desafios que ora assustam, ora entusiasmam...

O Evangelho, Esperança e Sabedoria para os viandantes, recorda-nos que aquilo que nos move (ou que nos deve (co)mover), não podem ser nem os ‘títulos’ (e hoje há tantos!), nem os preconceitos (estão a aumentar!), muito menos os ‘ódios de estimação’, o protagonismo ou a ambição...

Habitados pela Palavra que salva, o que nos (co)move é aquele ‘milagre quotidiano’ a que chamamos Vida. Nela, e com ela, somos chamados a ser como ‘crianças ao colo da Mãe’, sem soberba nem ‘blindagem’, sem altivez nem ‘reumatismo espiritual’, oferecendo a todos a luz do Evangelho, pois “a verdadeira felicidade não consiste em possuir algo, nem em tornar-se alguém; a felicidade autêntica consiste em estar com o Senhor e viver por amor...” (Papa Francisco).

Com ousadia evangélica questionava recentemente o grande profeta-irmão-bispo D. António Couto: “por que será que os Santos se esforçaram tanto, e com tanta alegria, por serem pobres e humildes, e nós nos esforçamos tanto, e com tristeza quanto baste por sermos ricos e importantes?”.

Em cada recomeço, Deus nos concede infinitas possibilidades de voltar às ‘raízes’, é isso que te desejo e te convido a fazer esta semana. Senta. Deixa que a Palavra ‘dance’ na tua alma e reza assim:

“Senhor, não se eleva soberbo o meu coração, 

nem se levantam altivos os meus olhos. 
Não ambiciono riquezas, 
nem coisas superiores a mim. 
Antes fico sossegado e tranquilo, 
como criança ao colo da mãe. 
Espera, Israel, no Senhor, 
agora e para sempre”.
(Salmo 130 (131), 1.2.3 )



segunda-feira, outubro 23, 2017

VAIS CONTINUAR A FAZER CONTAS?...


Diante de um mundo complexo (e desafiador!), vemos como a maioria das pessoas tem uma tendência natural para ‘quantificar’ a vida e os seus acontecimentos. Diz-se que hoje tudo tem um preço...até a ética (segundo alguns!). Tornámos o existir uma espécie de ‘exercício matemático’ onde o que vale é ‘somar’...uma matemática estranha que tem feito da vida uma ‘correria imensa’ onde o saber e o sabor de cada dia se esfumam cada vez mais, tornando o dom maior que é o viver um ‘fardo’ em vez de um ‘milagre (e)terno’.

Para não continuarmos errantes e distraídos, pensando que o quotidiano é insignificante, a Palavra que a cada Domingo nos ressuscita, vem esta semana despertar-nos das nossas lamentações e provocar o nosso coração para mais um passo nesta peregrinação que é a vida.

É que a vida não se resume somente ao que os nossos olhos vêem! Por isso, diante da artimanha montada para surpreender e contradizer Jesus (Mt 22, 15-21), dá-se o ‘milagre do sentido’: enquanto os fariseus e os herodianos se unem para continuar a ‘fazer contas’, pensando que na vida só vale somar, o Mestre surpreende-os colocando-os diante do essencial: ‘afinal, quais são as prioridades da tua vida? O que faz com que os teus dias sejam um dom?’...

É bom lembrar que “dar a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” não é uma ‘oposição’ de poderes...até porque o único poder do Amor é servir! A expressão significa essencialmente: não criar idolatrias. Por outras palavras, onde há discernimento não há espaço para manipulação, nem para ‘ódios de estimação’, muito menos para uma ‘paz podre’.

Com a sabedoria de Pai e Pastor, neste dia mundial das missões, o Papa Francisco interpelou-nos (re)lembrando que: “a missão da Igreja não é a propagação duma ideologia religiosa, nem mesmo a proposta duma ética sublime. (...) Por meio da proclamação do Evangelho, Jesus torna-Se sem cessar nosso contemporâneo, consentindo à pessoa que O acolhe com fé e amor experimentar a força transformadora do seu Espírito de Ressuscitado que fecunda o ser humano e a criação, como faz a chuva com a terra (...). O mundo tem uma necessidade essencial do Evangelho de Jesus Cristo. Ele, através da Igreja, continua a sua missão de Bom Samaritano, curando as feridas sanguinolentas da humanidade, e a sua missão de Bom Pastor, buscando sem descanso quem se extraviou por veredas enviesadas e sem saída. ”. Mas também nos advertiu ao recordar que: “uma Igreja autorreferencial, que se compraza dos sucessos terrenos, não é a Igreja de Cristo, seu corpo crucificado e glorioso. Por isso mesmo, é preferível uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças”.


Na lógica sempre humanizadora do Evangelho, “dar a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” significa não ceder à tentação de ficar mudo diante da injustiça, não fechar os olhos diante dos ‘corações aflitos’, não hipotecar o coração deixando que algo possa mais do que o Amor...E Tu, vais continuar a fazer ‘contas’? BOA SEMANA!


segunda-feira, outubro 09, 2017

NÃO BASTA SER SEMENTE...


Se fosses uma semente, o que serias?...pode parecer-te estranho começar assim a semana, mas quem não se questiona, definha...e morre! Viver, é saborear em cada interrogação a possibilidade de deixar germinar o dom. Há sementes que germinam para ‘sufocar’ a vida (e hoje parecem ser tantas!); outras sabendo que a vida se constrói (e se partilha!) de dentro para fora, preferem permanecer na sua ‘esterilidade’...é mais cómodo assim!

A Palavra que desperta o coração e nos dá a Vida, coloca-nos esta semana diante da pedagogia de Deus. Não se trata de uma ‘pedagogia da resistência’ nem de uma ‘pedagogia da sobrevivência’, pois Deus não é adolescente e aos Seus olhos nenhum de nós é uma ameaça. A Palavra coloca-nos diante da ‘pedagogia do recomeço’...Deus sabe (só Ele sabe!) que nas entrelinhas da vida, no modo como vamos tecendo e habitando o cotidiano, são muitas as contradições nos habitam. Ele sabe os propósitos e a determinação com que damos em cada amanhecer o primeiro passo...mas também conhece a fragilidade para onde confluem os trilhos percorridos de pés descalços, mãos vazias e coração trémulo.

Deus sabe que o Seu Amor nos escandaliza! Quantas vezes tentamos domesticá-lo. No entanto, o Divino Amante, não hesita, nem por um instante, em habitar as nossas contradições com este paradoxo de ser Tudo para o nosso nada, Perdão para o nosso pecado, Vida na nossa morte, Paz para nossa inquietude.

Nos vinhateiros da parábola (Mt 21, 33-43), que Jesus nos sussurrou ao coração, estamos representados também nós cheios das nossas inseguranças passadas, agrilhoados nos nossos absolutos do tempo presente e nas nossas tentativas insanas de sufocar o futuro, esquecendo que ele será sempre dom e nunca ameaça.  

Não se trata, apenas, de ser semente...é preciso frutificar! É por isso que Deus não desiste. Também no seu tempo Jesus encontrou resistências, corações surdos e cegos. Não esqueçamos que o medo gera sempre fanatismos e violência...no tempo de Jesus, foi o medo que cristalizou atitudes e trancou os corações. E onde há medo, a liberdade será sempre escrava.

Deus quer-nos livres. Habitados pela gratidão de quem olha para a frente (e para o alto!) sabendo que a peregrinação da vida se vive de coração aberto, perfumando de ternura e compaixão os corações aflitos, ungindo com o dom da paz os viandantes cansados e sendo regaço acolhedor para todos os que se sentem indignos e órfãos.


Diante do nosso coração e da nossa inteligência coloca-se um desafio ‘cotidianamente solene’: Em cada semente, uma promessa. Em cada promessa, uma aliança. Em cada aliança, frutificar. Foi isso que lhe pedimos ao concluir a missa este domingo, rezando: “Senhor, neste sacramento em que saciais nossa fome e nossa sede, fazei que, ao comungarmos o Corpo e o Sangue do vosso Filho, nos transformemos n’Aquele que recebemos”...ainda te lembras? BOA SEMANA!


quarta-feira, setembro 27, 2017

DEUS NÃO TEM BOLSOS!...


São muitas as imagens que precisamos desconstruir no nosso relacionamento com Deus. Há quem tenha sido mais educado para temer a Deus do que para o amar, o medo faz-nos sempre escravos! Se a nossa vida se rege pelo medo, facilmente nos tornamos uma ‘sinfonia de lamentações’, peregrinos do absurdo e da desilusão...isso não é discipulado, é veneno!

Para não nos perdermos nesta grande peregrinação que é a vida, precisamos voltar sempre ao Evangelho para degustar e contemplar quem Deus é e quem somos para Ele, qual o seu projeto e como isso tem eco, ou não, em nossos corações. Isaías recordou-nos magistralmente, na Palavra deste Domingo, que o nosso Deus escuta(-nos) e é generoso no perdão (Is 55, 6-9) e enfatiza o fato de Deus não corresponder às nossas medidas curtas, forjadas (quase sempre) pela nossa mesquinhez .

O Deus de Jesus Cristo, Esperança para os viandantes e força para os fracos, não fica refém dos nossos limites, faz-nos ir além...mostra-nos que em cada ferida há a possibilidade de cicatrizar, que em cada mágoa há sempre a possibilidade do perdão e que, mesmo no meio da solidão mais profunda, há sempre uma voz que sussurra ao intimo dos nossos corações aquele: “Não temas, Eu estou contigo!”, que nos levanta e escancara as portas do coração deixando que a luz da vida ilumine o nosso ‘jardim interior’ e transforme nossa alma numa ‘primavera cheia de Páscoa’.

Vem tudo isto a propósito da desconcertante Palavra que esta semana ilumina os nossos caminhos e amplia as nossas medidas (Mt 20, 1-16). O nosso Deus é um Deus em ‘êxodo’ e em ‘êxtase’, faz-se peregrino para que não nos sintamos órfãos, visita-nos nas praças da nossa solidão e acomodação, chama-nos para sermos atores (e não meros espectadores!) nesse grande sonho e projeto a que chamamos ‘Reino de Deus’ e, no Seu soberano e infinito excesso de dom, é um Deus que quer ficar de ‘mãos vazias’, dando tudo, dando-se todo...a todos...para sempre!

Sim, Deus não tem bolsos! Sua economia não assenta no mérito, mas na oferta (infinita e permanente) de dignidade. Na ‘matemática divina’ o começo faz-se a partir dos últimos, é a eles que é primeiramente oferecido o dom, não porque Deus goste de fazer ‘birra’ (Ele não é adolescente!), muito menos porque seja injusto, mas para nos colocar diante do coração e da vida a ‘medida do Evangelho’, ou se preferirmos, a medida do ‘coração que encontrou em Cristo as razões de seu viver’ (Fil 1, 20-27).


Na ‘contabilidade’ do Reino, ganhamos tudo quando não deixamos que ninguém fique de fora, ocioso, na praça da solidão...é que o nosso Deus é comunhão, de pessoas e de corações, e isso não cabe nos bolsos! BOA SEMANA!


segunda-feira, setembro 11, 2017

ON/OFF?...


“A que(m) te ligas? De que(m) te desligas?”, duas perguntas essenciais para quem quer fazer da peregrinação cotidiana um caminho de sabedoria, sentido e significado. Não há caminho sem desprendimento, cada passo dado em frente deixa para trás trilhos percorridos, memórias, encontros afetos...seguir em frente não significa ‘apagar’ a história, só peregrina com leveza quem sabe levar no coração uma memória agradecida, memória de quem se entrega ao futuro sabendo que ele é apenas desconhecido, mas nunca incerto!

Se há memórias que aprisionam, há outras que libertam. Ousar ‘ir além’ é medida do Evangelho! Não podemos resignar-nos ou acomodar-nos, o Evangelho, palavra de Libertação e Vida, convoca-nos para sermos instrumento de re-ligação (a etimologia de religião!). Religar é mais do que unir...é saber esperar, acolher, cuidar, integrar...religar é dizer ao outro: ‘aceito que as tuas fragilidades não sejam o fim. Acredito em ti, e contigo, que é possível ir mais além e mais profundamente’... é aprender a tecer com a filigrana da ternura e da compaixão cada recomeço até que cada um ao nosso lado (e nós próprios também!) sejamos inteiros...e por inteiro!

Habitados pela Palavra que nos abre horizontes de novidade e vida plena, somos desafiados pelo Mestre a re-ligar e a re-unir: “Em verdade vos digo: tudo o que ligardes sobre a terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes sobre a terra será também desligado no céu. Digo-vos ainda isto: se dois de vós se unirem sobre a terra para pedir, seja o que for, consegui-lo-ão de meu Pai que está nos céus. Porque onde dois ou três estão reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles” (cf. Mt 18, 15-20)

Sonhados para a unidade e para a comunhão fraterna, precisamos hoje, mais do que nunca, de re-descobrir e re-ligar o que é verdadeiramente humano...há laços de afeto e ternura que não podem sucumbir diante da indiferença generalizada; há muito bem sendo feito que tem rostos e nomes que precisam ser conhecidos; há tantos ‘milagres’ de perseverança e de paz diante de tanta violência e agressividade que deveríamos compartilhar mais frequentemente...

Todo re-começo nasce da escuta...por isso: “Escuto, mas não sei se o que oiço é silêncio ou Deus. Escuto sem saber se estou ouvindo o ressoar das planícies do vazio ou a consciência atenta que nos confins do universo me decifra e fita. Apenas sei que caminho como quem  é olhado, amado e conhecido. E, por isso, em cada gesto ponho solenidade e risco” (Sophia de Mello Breyner Andresen).


Temos uma semana pela frente. Ligar ou desligar? Eis a questão!


domingo, agosto 06, 2017

O AMOR, ESCUTAI-O!


De quanta escuta é feita a tua vida?...

A fé cristã vive da escuta. Sempre que escutamos reencontramo-nos! É difícil escutar...vivemos hoje tão freneticamente cheios de ruído à nossa volta que facilmente nos acomodamos e cedemos à ‘tentação do barulho’...sempre que deixo de escutar, desumanizo-me.

Na grande peregrinação da fé, escutar não é atitude passiva, é o ‘coração do encontro’ com um Deus que é diálogo, comunhão, Trindade. Só escuta quem é capaz de amar...o orgulhoso ‘não tem tempo’, ‘não pode’ e ‘não sabe’ escutar...Também não basta ter ouvidos, para escutar é preciso ter coração (bom!), um coração que se (co)move, que se deixa ‘ferir’ e não se entrega à indiferença, um coração mais disposto a abraçar do que  a julgar...Se a escuta fosse o paradigma do nosso cotidiano, seriamos menos juízes e mais irmãos; ousaríamos mais, em vez de sermos ‘escravos do medo’; e, como a fé nasce da escuta, nosso discipulado e seguimento de Jesus seria mais criativo, mais cheio da alegria do ‘Reino’ e menos cheios das lamentações!

É a escuta que transfigura a vida! A Palavra de Deus que nos alimenta esta semana desperta-nos, mais uma vez, para essa urgência da “Escuta que faz seguir”(Mt 17, 1-9)...O encontro com Aquele que é a Luz dos Povos (LG) vence as nossas escuridões interiores e impede-nos que cedamos à tentação de estacionarmos no já conquistado. O Encontro com Jesus exige desapego. O Seu seguimento pede-nos 'determinação batismal', isto é, encher o cotidiano com um novo sabor e uma nova luz, não foi á toa que Ele nos disse que era ‘o Pão da vida’, a ‘Luz do mundo’!

O tempo que vivemos, a história que habitamos, não se compadece com um ‘cristianismo de escuridão’...É preciso ir além, ir mais longe, ir mais profundamente! Este (re)começo só pode ser feito a partir da escuta. É nela que os nossos passos ganham a densidade do (e)terno.


Olhos contemplativos, mente que reflete e coração aberto...eis o ‘mapa existencial’ para uma oportuna revisão de vida. Em tempo de férias e de (re)começos talvez seja o momento para  ‘transfigurar as nossas rotinas’...recomeçamos com uma pergunta: De quanta escuta é feita a tua vida?. Boa semana! Boas Férias!


"Quando o amor vos chamar, segui-o,
Embora seus caminhos sejam agrestes e escarpados;
E quando ele vos envolver com suas asas, cedei-lhe,
Embora a espada oculta na sua plumagem possa ferir-vos;
E quando ele vos falar, acreditai nele,
Embora sua voz possa despedaçar vossos sonhos
Como o vento devasta o jardim.
Pois, da mesma forma que o amor vos coroa,
Assim ele vos crucifica.
E da mesma forma que contribui para vosso crescimento,
Trabalha para vossa poda.
E da mesma forma que alcança vossa altura
E acaricia vossos ramos mais tenros que se embalam ao sol,
Assim também desce até vossas raízes
E as sacode no seu apego à terra.
Como feixes de trigo, ele vos aperta junto ao seu coração.
Ele vos debulha para expor vossa nudez.
Ele vos peneira para libertar-vos das palhas.
Ele vos mói até a extrema brancura.
Ele vos amassa até que vos torneis maleáveis.
Então, ele vos leva ao fogo sagrado e vos transforma
No pão místico do banquete divino.
Todas essas coisas, o amor operará em vós
Para que conheçais os segredos de vossos corações
E, com esse conhecimento,
Vos convertais no pão místico do banquete divino.
Todavia, se no vosso temor,
Procurardes somente a paz do amor e o gozo do amor,
Então seria melhor para vós que cobrísseis vossa nudez
E abandonásseis a eira do amor,
Para entrar num mundo sem estações,
Onde rireis, mas não todos os vossos risos,
E chorareis, mas não todas as vossas lágrimas.
O amor nada dá senão de si próprio
E nada recebe senão de si próprio.
O amor não possui, nem se deixa possuir.
Porque o amor basta-se a si mesmo.
Quando um de vós ama, que não diga:
“Deus está no meu coração”,
Mas que diga antes:
“Eu estou no coração de Deus”.
E não imagineis que possais dirigir o curso do amor,
Pois o amor, se vos achar dignos,
Determinará ele próprio o vosso curso.
O amor não tem outro desejo
Senão o de atingir a sua plenitude.
Se, contudo, amardes e precisardes ter desejos,
Sejam estes os vossos desejos:
De vos diluirdes no amor e serdes como um riacho
Que canta sua melodia para a noite;
De conhecerdes a dor de sentir ternura demasiada;
De ficardes feridos por vossa própria compreensão do amor
E de sangrardes de boa vontade e com alegria;
De acordardes na aurora com o coração alado
E agradecerdes por um novo dia de amor;
De descansardes ao meio-dia
E meditardes sobre o êxtase do amor;
De voltardes para casa à noite com gratidão;
E de adormecerdes com uma prece no coração para o bem-amado,
E nos lábios uma canção de bem-aventurança"


(Khalil Gibran, in O Profeta)