domingo, abril 21, 2019

POR AMOR. PARA SEMPRE!


De quanta Páscoa é feita a tua vida? Não se trata de uma metáfora, mas de uma pergunta vital para quem encontrou em Cristo o sentido, o sabor e o significado da sua existência

Celebramos, com profunda alegria, a Páscoa de Jesus. Nossas igrejas se enchem de aleluias festivos, de flores e de tantos sinais que nos falam de esperança, futuro e renovação. Por entre cânticos de júbilo e de festa, é importante recordar que a Alegria Pascal não dá ressaca. Não é uma alegria mundana, é comunicação de Vida e Salvação. 

A Páscoa não nos pede coisas, pede-nos a vida. Por inteiro. Sabemos que na vida cotidiana podemos programar o divertimento, mas não a alegria. A alegria só nasce em vidas que se deixam trabalhar pelas ‘mãos do amor’, em olhares que não se deixam vencer pela indiferença, em corações que não se apegam ao ódio ou ao rancor…compreendem bem este ‘mistério’ os pobres! Sim, só os que vivem com ‘um coração de pobre’ é que sabem pressentir e degustar este vibrar cotidiano das ‘cordas do coração’ tocadas pelo amor sempre (e)terno de Deus.

A Páscoa de Jesus não é apenas uma alegria reservada a nós que nos reunimos em igreja, é Páscoa para o mundo, é ‘excesso do dom’ de um Deus que só sabe amar! A alegria Pascal não é egoísta, nem alienada, é concreta, contemplativa, oblativa, como o Pai que amou tanto o mundo que lhe deu o Seu Filho (Jo 3, 16). Páscoa é vida abundante que podemos beber no Coração de Cristo e que faz sintonizar todo nosso ser e agir, como diz o Concílio Vaticano II, com “as alegrias e esperanças, tristezas e angústias dos homens e mulheres nossos contemporâneos, dado que não há nada de verdadeiramente humano que possa ser estranho ao coração de um discípulo de Cristo” (Gaudium et Spes 1). 

Celebramos hoje a Ressurreição de Cristo, Alegria Eucarística e Compartilhada. Não celebramos apenas um evento, nem uma data na agenda, celebramos um Encontro e uma Vida feita de Amor oblativo, a partir do altar da Cruz, que se oferece a nós como pão para os famintos, caminho para os peregrinos, luz para as nossas trevas, misericórdia para todos. Por isso, a Páscoa não é um fim, é um começo, de um mundo novo, feito de irmãos. Por Cristo. Com Cristo. Em Cristo. Boa Páscoa!


quinta-feira, março 07, 2019

“Não precisamos temer o silêncio verdadeiro...”


Entrevista realizada por:
Mons. Virgílio Almeida e Prof. Luis Miranda
em exclusivo para o Jornal O Auxílio - Paróquia Nossa Senhora Auxílio dos Cristãos - Bessa (PB)



1. D. Laurence, vamos iniciar o período da quaresma, que entre tantos apelos nos convida à oração. “Entra no teu quarto e fecha a porta… e ora”. Que significa este convite para as pessoas do nosso tempo?

Passamos a ter uma cultura muito extrovertida e distraída. Nossos celulares e nossa mídia nos alienaram de nosso aposento interior. A interioridade é o primeiro elemento dos ensinamentos de Jesus acerca da prece. Caso não redescubramos esse significado estaremos condenados à superficialidade. O caminho para o aposento interior é simples, mas não é fácil. A meditação é a disciplina espiritual de um discípulo de Jesus.

2. Vivemos uma cultura, marcada pela ocupação, o ruído, o barulho…Encontramos pessoas cansadas e abatidas pelo peso da vida. Falamos muito de uma verdadeira "Crise existencial”, “vazio interior”.  Em que sentido o silêncio e a meditação podem inaugurar um novo caminho de paz interior, de equanimidade, sendo um “Evangelho” para o nosso tempo?

A meditação faz parte de nossa tradição espiritual e modo de orar. Mas, também é uma expertise de sobrevivência em nossa atualidade. O aprendizado da meditação é uma urgente prioridade. Melhor será se começarmos quando ainda crianças nas salas de aulas. Mas, também precisamos aprender em idade mais madura, e para isso precisamos de apoio. Felizmente, a meditação gera comunidade. Só precisamos começar.

3. D. Laurence, depois deste longo percurso da ‘meditação cristã’, há ainda algumas pessoas que não sabem o que ela é. Se tivesse que dar uma breve definição a nossos leitores, o que diria?

Trata-se da prece do coração: ela segue os ensinamentos de Jesus acerca da prece. Também é uma sabedoria universal que encontramos em todas as tradições. A meditação alia o silêncio à imobilidade e, à simplicidade, que são os elementos essenciais da contemplação. Ela é uma tradicional prática que encontramos na Igreja primitiva. Sente-se, esteja quieto(a), feche seus olhos. Repita mentalmente, e no seu coração, uma única palavra de prece. Sugerimos o termo antigo Maranathá (do Aramaico = Vem, Senhor!). Repita-o fielmente e continuamente, de modo a aprender a colocar de lado todos os pensamentos e imagens, pela repetição dessa única palavra. O objetivo disso é o de nos tornarmos radicalmente pobres em espírito. O resto é o trabalho do Espírito. Meditamos para nos aproximarmos mais da união com Jesus, e para adentrar a prece dele, de modo à com ele nos movermos para além do ego ao Pai no Espírito.

4. Em alguns círculos religiosos, cria-se uma suspeita da "pratica de meditação”. Em que a “Meditação Cristã se assemelha e como se diferencia das práticas orientais e de outros grupos não cristãos?

A meditação é cristã se meditamos na fé cristã, de modo a nos aproximarmos de Jesus. Trata-se de parcela de nossa tradição histórica e teológica. Meditamos com outros cristãos. A meditação não substitui quaisquer outras formas de prece, mas preenche a dimensão que falta à prece.

5. Encontramos em tantas pessoas um desejo de paz, de bênçãos, de contato com o divino. Quais os benefícios e frutos na vida de quem consegue fazer a Meditação Cristã regularmente?

Os benefícios podem ser medidos: na saúde cardiovascular, no sistema imunológico, no relaxamento, na melhoria da qualidade do sono, etc. Mas, esses benefícios são apenas os sinais exteriores de frutos espirituais mais profundos, aquilo que São Paulo chamava de a colheita do espírito (amor, alegria, paciência, bondade, suavidade, e auto-controle). Identificamos isso em nosso relacionamento com nós mesmos e, especialmente, com os outros.

6. Como falar da relação entre Meditação e saúde mental, entre Meditação e uma vida espiritual consistente?

Na tradição mística o termo para saúde espiritual é “apatheia”. Sem isso, calma e equanimidade, integração e harmonia pessoal, não poderemos estar íntegros e em paz em nós mesmos.

7. Por que as pessoas desejam, mas têm um certo medo do silêncio, têm dificuldades de uma pratica regular?  Que orientações daria a quem deseja iniciar um caminho de fé pela via do silêncio, da meditação?

Temos medo da realidade, mas deveríamos temer mais a ilusão. A meditação se parece a uma criança. Caso tenha medo do silêncio e da imobilidade, procure meditar com crianças. Elas nos mostram o quanto a meditação é natural e universal. Nada tema, Jesus disse. Assim, só é necessário começar, e tudo o que você precisa lhe será dado.

8. Estamos para iniciar o tempo quaresmal, tempo de deserto, de silêncio, de oração. Mas também é tempo de viver a Palavra, de cultivar a Caridade Há ainda quem pense que o caminho da oração/contemplação significa desligar-se da realidade. O que tem a nos dizer sobre isso? É a Meditação um caminho individualista ou exatamente o contrário, nos lança na aventura da caridade, da tolerância, da compaixão, da unidade com os outros?

A meditação é a cura, o antídoto, para a solidão e o isolamento. É o caminho da solitude, que é o reconhecimento e a aceitação de nossa identidade única aos olhos de Deus. Caso lhe pareça como um deserto, isso é bom. Jesus se encaminhou para o deserto para se encontrar a si mesmo em Deus, o Pai, e de lá saiu forte e cheio de coragem. Assim é também conosco.  A meditação é o nosso deserto, a região onde encontramos Deus em solitude, e onde transformamos nosso modo de viver e de nos relacionarmos com nós mesmos e com os outros.

9. Falamos em deserto, em silêncio. Quais são, na sua opinião, os grandes desertos que a humanidade está a atravessar? Que ‘silêncios’ mais o preocupam?

O silêncio é o fruto da atenção amorosa. Não é algo negativo. Trata-se de perfeita comunhão e da plenitude de comunicação. Deveríamos temer o falso silêncio que é recusa de nos abrirmos, de nos comunicarmos. Não precisamos temer o silêncio verdadeiro que nos conduz à plenitude da presença de Deus. “Parai e sabei que Eu sou Deus”. A meditação reduz e afinal sobrepuja o medo porque ela é a obra do amor, e o amor perfeito expulsa o medo.

10. Que sugestões daria a um cristão para viver bem esta quaresma que agora se inicia?

Tanto quanto possa: medite toda manhã e toda tarde, durante 20 minutos, ou tanto quanto consiga. Repita a sua palavra de prece ao longo de todo a meditação, de modo que você possa estar na real presença de Jesus, direta e plenamente. Adicionalmente, procure evitar o álcool e os doces (é o que eu faço), de modo a poder exercitar algum autocontrole e cuidado para com o corpo, que é o templo do espírito e um instrumento da prece. Busque a oportunidade especial que cada dia te oferece de ser gentil e generoso(a) para alguém (sem esperar agradecimento ou reconhecimento). Leia o Evangelho do dia após a meditação da manhã e da tarde. E esteja alegre e em paz. Nada há a temer, se você estiver disponível para o amor que flui em seu coração. Esteja disponível para mudanças.



Quem é Dom Laurence Freeman?

Laurence Freeman nasceu na Inglaterra em 1951 onde recebeu educação beneditina e estudou Literatura Inglesa no New College da Universidade de Oxford. Antes de entrar para a vida monástica ele trabalhou para a ONU em Nova Yorque, em banco e em jornalismo. Hoje D. Laurence é um monge beneditino do Mosteiro Christ our Saviour, de Turvey, na Inglaterra, um Mosteiro da congregação de Monte Oliveto. Ele é o diretor da WCCM - Comunidade Mundial para a Meditação Cristã.

D. Laurence estudou teologia na Universite de Montreal e na McGill University. e fez seus votos solenes monásticos em 1979 e foi ordenado sacerdote em 1980.  Em 1991 D. Laurence voltou à Inglaterra para estabelecer o Centro Internacional da recém criada WCCM, agora presente em mais de cem países e que se tornou um Mosteiro sem paredes pelo qual ele viaja e ensina amplamente.

quarta-feira, março 06, 2019

Encher de Páscoa todas as coisas...



A Quaresma chegou. 

Não é apenas “mais uma” a somar a tantas outras que já vivemos. Há quaresma porque há Páscoa! Talvez não seja assim tão despropositado repetir: a quaresma não é uma ‘prévia’ do funeral de Cristo, mas um caminho, interior e comunitário, para redescobrir as fontes da nossa salvação. Um tempo ritmado pela alegria do jejum, da oração e da esmola (Mateus 6, 16-24). Tempo de sintonizar o coração e a vida com Cristo, tempo para saciar nossa sede de perdão, de paz interior, de silêncio...

Espiritualmente a quaresma é tempo para dilatar o coração e encher de Páscoa todas as coisas. Não é tempo para ‘fazer dieta’, é tempo de jejum verdadeiro fugindo da maledicência, da fofoca, dos olhares recriminatórios e de tantas outras coisas que envenenam o nosso cotidiano; É tempo para crescer na oração, pois só um coração de filho, habituado ao silêncio e à escuta, pode viver sem medo o chamado do Pai à conversão; Quaresma é tempo de se redescobrir irmão pela partilha, de que nos vale dar uns trocados se não partilhamos o que nos faz falta?...

O primeiro passo é sempre determinante! Iniciemos esta quaresma com profunda alegria, com um coração cheio de Páscoa, e peregrinemos ao encontro do “Deus dos humildes, auxiliador dos oprimidos, sustentador dos fracos, protetor dos abandonados, salvador dos desesperados” (Judite 9, 11). Ele já vem ao nosso encontro!...

sexta-feira, janeiro 11, 2019

AGRADECER, TAMBÉM, O QUE NÃO ME FOI DADO...



Neste DIA DO OBRIGADO, vale a pena agradecer e deixar-se guiar por estas palavras:


“O mais comum é agradecer o que nos foi dado. E não nos faltam motivos de gratidão. Há, é claro, imensas coisas que dependem do nosso esforço e engenho, coisas que fomos capazes de conquistar ao longo do tempo, contrariando mesmo o que seria previsível, ou que nos surgiram ao fim de um laborioso e solitário processo. Mas isso em nada apaga o essencial: as nossas vidas são um receptáculo do dom.

A nossa história começou antes de nós e persistirá depois. Somos o resultado de uma cadeia inumerável de encontros, de gestos, boas vontades, sementeiras, afagos, afetos. Colhemos inspiração e sentido de vidas que não são nossas, mas que se inclinam pacientemente para nós, iluminando-nos, fundando-nos na confiança. Esse movimento, sabemo-lo bem, não tem preço, nem se compra em parte alguma: só se efetiva através do dom. (...)

Hoje, porém, dei comigo a pensar também na importância do que não nos foi dado. E a provocação chegou-me por uma amiga que confidenciou: «Gosto de agradecer a Deus tudo o que Ele me dá, e é sempre tanto que nem tenho palavras para descrever. Sinto, contudo, que lhe tenho de agradecer igualmente o que Ele não me dá, as coisas que seriam boas e que eu não tive, o que até pedi e desejei muito, mas não encontrei. O facto de não me ter sido dado obrigou-me a descobrir forças que não sabia que tinha e, de certa maneira, permitiu-me ser eu».

Isto é tão verdadeiro. Mas exige uma transformação radical da nossa atitude interior. Tornar-se adulto por dentro não é propriamente um parto imediato ou indolor. No entanto, enquanto não agradecermos a Deus, à vida ou aos outros o que não nos deram, parece que a nossa prece permanece incompleta. Podemos facilmente continuar pela vida dentro a nutrir o ressentimento pelo que não nos foi dado, a compararmo-nos e a considerarmo-nos injustiçados, a prantear a dureza daquilo que em cada estação não corresponde ao que idealizamos.

Ou podemos olhar o que não nos foi dado como a oportunidade, ainda que misteriosa, ainda que ao inverso, para entabular um caminho de aprofundamento... e de ressurreição. Foi assim que numa das horas mais sombrias do século XX; desde o interior de um campo de concentração, a escritora Etty Hillesum conseguiu, por exemplo, protagonizar uma das mais admiráveis aventuras espirituais da contemporaneidade. No seu diário deixou escrito:

«A grandeza do ser humano, a sua verdadeira riqueza, não está naquilo que se vê, mas naquilo que traz no coração. A grandeza do homem não lhe advém do lugar que ocupa na sociedade, nem no papel que nela desempenha, nem do seu êxito social. Tudo isso pode ser-lhe tirado de um dia para o outro. Tudo isso pode desaparecer num nada de tempo. A grandeza do homem está naquilo que lhe resta precisamente quando tudo o que lhe dava algum brilho exterior, se apaga. E o que lhe resta? Os seus recursos interiores e nada mais»".

(José Tolentino Mendonça, 18.4.2014)



quarta-feira, junho 20, 2018

O 'PODER' DE SER SEMENTE*...



Por estes dias decorre o mundial de futebol. Entusiasmos e fracassos caminham lado a lado. Uns confirmam o talento, outros desiludem e outros...surpreendem!

Ao longo da semana, provocado pelo Evangelho (Mc 4, 26-34), tenho caminhado com um olhar mais atento ‘a tudo que é pequeno’. É bom (re)aprender a ‘ver as sementes’, um olhar contemplativo renova-nos e transforma-nos.

Esta ‘pedagogia do (re)começo’ ensina-nos a encher de futuro cada gesto, olhar, palavra e silêncio. Na semente estão os sonhos futuros, horizontes novos, caminhos ainda não andados. No seu íntimo a semente traz a esperança do novo...e como isso é decisivo diante dos contextos em que vivemos de violência crescendo, de agressividade se extremando, de fundamentalismos que nos cegam e sufocam o que ainda está por vir.

Gosto de imaginar como seria se todos nos vivêssemos com a consciência de que somos, diariamente, uma semente. É bom deixar-se desafiar: Que vida trago dentro? Que ‘futuro’ tenho para oferecer? De quanto silêncio preciso para ‘germinar’?...

Em cada semente, uma promessa. Em cada promessa, uma Aliança. Em cada Aliança, frutificar. Boa Semana!


*Homenagem a Joaquim Vidal de Negreiros que viveu sendo semente do bem para todos.

terça-feira, junho 05, 2018

UM DEUS ‘FORA DA LEI’?!...



Todos conhecemos a frase: “a pior prisão é um coração fechado”. Sabemos também das consequências devastadoras que a indiferença ou a absurda teimosia provocam em nós e ao nosso redor. Costumo chamar a isso a ‘perseverança do absurdo’. Lembrei-me imediatamente disso ao escutar o Evangelho este Domingo...Jesus é questionado como um ‘fora da lei’ por aqueles que vivem na ‘perseverança do absurdo’.

Há ‘perseverança (farisaica) no absurdo’ todas as vezes em que medimos a vida, apenas, pelos tons pálidos do ‘pode’ ou do ‘não pode’ (Mc 2, 23 – 3, 6). São fronteiras demasiado estreitas para quem se encontrou com o Evangelho e se reconhece como discípulo de Jesus. O Mestre, recorda-nos isso insistentemente quando nos desafia a converter o coração (e a vida); é bom entender que esta insistência do Mestre não é um apelo à ‘maquilhagem espiritual’, ela será sempre o primeiro passo para o absurdo. Jesus não nos pede apenas ‘a lei’, pede-nos mais, mais profundamente, de um jeito novo...sem querer ‘domesticar’ Deus, nem ludibriar a vida.

O Papa Francisco, recordando-nos que é possível ser santo hoje, diz-nos: “Precisamos do impulso do Espírito para não ser paralisados pelo medo e o calculismo, para não nos habituarmos a caminhar só dentro de confins seguros. Lembremo-nos disto: o que fica fechado acaba cheirando a mofo e criando um ambiente doentio. (...) Deus é sempre novidade, que nos impele a partir sem cessar e a mover-nos para ir mais além do conhecido, rumo às periferias e aos confins. Leva-nos aonde se encontra a humanidade mais ferida e aonde os seres humanos, sob a aparência da superficialidade e do conformismo, continuam à procura de resposta para a questão do sentido da vida. Deus não tem medo! Não tem medo! Ultrapassa sempre os nossos esquemas e não Lhe metem medo as periferias. Ele próprio Se fez periferia. Por isso, se ousarmos ir às periferias, lá O encontraremos: Ele já estará lá. Jesus antecipa-Se-nos no coração daquele irmão, na sua carne ferida, na sua vida oprimida, na sua alma sombria. Ele já está lá.” (GE nº 133-135)

O Evangelho, luz para os nossos passos, questiona-nos: Quais são, afinal, as tuas fronteiras? De quantos ‘absurdos’ é feito o teu quotidiano? Consegues contemplar a vida (e Deus!) para além dos teus ‘confins seguros’?...

Seguir Jesus, é dizer não à idolatria de um ‘deus-domesticado’, a idolatria de um ‘deus’ que corresponda, somente, às nossas medidas curtas e aos nossos corações fechados...num deus assim, seria impossível acreditar!

Jesus, Amor-Crucificado-Ressuscitado, revela-nos que ‘o essencial da lei’ está, primeiramente, em ‘tatuar’ no mais profundo do nosso ser a certeza que o profeta Isaías cantou, tão belamente, com estas palavras: “Deus é o meu Salvador,  tenho confiança e nada temo.  O Senhor é a minha força e o meu louvor,  Ele é a minha salvação. Agradecei ao Senhor,  bendizei o seu nome. Anunciai aos povos a grandeza das suas obras,  proclamai a todos que o seu nome é santo. Cantai ao Senhor, porque Ele fez maravilhas, anunciai-as em toda a terra. Entoai cânticos de alegria e exultai” (Isaías 12).

Aos que têm esta certeza ancorada no mais intimo do coração, Jesus e o Seu Evangelho, serão sempre uma vida, e um Deus,...‘fora da lei’! BOA SEMANA.



segunda-feira, abril 23, 2018

(IN)VOCAÇÃO...


As palavras que dizemos têm o poder mudar o rumo da história. Se forem ditas com banalidade farão da história, e da construção que todos fazemos dela, um momento ‘trágico’, difícil e, quem sabe, às vezes penoso. Essas são as palavras mal-ditas! Por outro lado, as palavras têm também o poder de reconstruir, entusiasmar, conectar, transformar, curar. Essas são palavras que nos fazem ver e experimentar a vida como um milagre permanente.

Uma dessas palavras que tem sido ‘gasta’ (ou mal-dita) pela banalidade com que muitas vezes a usamos, é a palavra vocação. Basta ler algumas das noticias eclesiais para vermos como a palavra vocação aparece associada à ‘mendicidade’ de uma Igreja (a nossa!) mais preocupada em manter estruturas passadas do que abrir-se à graça infinita do futuro. A cada ano, neste Domingo do Bom Pastor, a palavra vocação ‘reaparece’. Em alguns lugares ela é compartilhada com o entusiasmo de quem tem dentro o ‘perfume da Páscoa’ e sente/sabe que o Pastor Bom e Belo é sempre o primeiro a entusiasmar-nos!  Noutros lugares, repete-se o discurso monótono e bafiento, mais cheio de medo e de autopreservação,...

A Igreja, por ser obra do Espirito Santo, vive em mudança(s) permanente(s). É bom que nunca nos falte esta consciência e que não nos falte também a coragem para ousar ‘a novidade que Deus espera de nós’: Um Povo de homens e mulheres, chamados pelo nome, para viver de maneira quotidiana a eternidade plantada pelo nosso batismo! Para isso, não basta somente falar de vocação, é necessária que nos sintamos convocados para sermos ‘o povo da Invocação’, isto é, a redescoberta daquele essencial que faz com que sejamos Páscoa para a história, Páscoa no coração do mundo e da Igreja...

Recorda-nos isso mesmo o Papa Francisco, naquela sua linguagem sempre transparente e cheia da graça de Deus, na Exortação ‘Alegrai-vos e Exultai’ quando diz:

“O Concílio Vaticano II salientou vigorosamente: «munidos de tantos e tão grandes meios de salvação, todos os fiéis, seja qual for a sua condição ou estado, são chamados pelo Senhor à perfeição do Pai, cada um por seu caminho». «Cada um por seu caminho», diz o Concílio. Por isso, uma pessoa não deve desanimar, quando contempla modelos de santidade que lhe parecem inatingíveis. Há testemunhos que são úteis para nos estimular e motivar, mas não para procurarmos copiá-los, porque isso poderia até afastar-nos do caminho, único e específico, que o Senhor predispôs para nós. Importante é que cada crente discirna o seu próprio caminho e traga à luz o melhor de si mesmo, quanto Deus colocou nele de muito pessoal (cf. 1 Cor 12, 7), e não se esgote procurando imitar algo que não foi pensado para ele. Todos estamos chamados a ser testemunhas, mas há muitas formas existenciais de testemunho. (...) Isto deveria entusiasmar e animar cada um a dar o melhor de si mesmo para crescer rumo àquele projeto, único e irrepetível, que Deus quis, desde toda a eternidade, para ele: «antes de te haver formado no ventre materno, Eu já te conhecia; antes que saísses do seio de tua mãe, Eu te consagrei» (Jer 1, 5).
Para ser santo, não é necessário ser bispo, sacerdote, religiosa ou religioso. Muitas vezes somos tentados a pensar que a santidade esteja reservada apenas àqueles que têm possibilidade de se afastar das ocupações comuns, para dedicar muito tempo à oração. Não é assim. Todos somos chamados a ser santos, vivendo com amor e oferecendo o próprio testemunho nas ocupações de cada dia, onde cada um se encontra. És uma consagrada ou um consagrado? Sê santo, vivendo com alegria a tua doação. Estás casado? Sê santo, amando e cuidando do teu marido ou da tua esposa, como Cristo fez com a Igreja. És um trabalhador? Sê santo, cumprindo com honestidade e competência o teu trabalho ao serviço dos irmãos. És progenitor, avó ou avô? Sê santo, ensinando com paciência as crianças a seguirem Jesus. Estás investido em autoridade? Sê santo, lutando pelo bem comum e renunciando aos teus interesses pessoais. Deixa que a graça do teu Batismo frutifique num caminho de santidade. Deixa que tudo esteja aberto a Deus e, para isso, opta por Ele, escolhe Deus sem cessar. Não desanimes, porque tens a força do Espírito Santo para tornar possível a santidade e, no fundo, esta é o fruto do Espírito Santo na tua vida (cf. Gal 5, 22-23). Quando sentires a tentação de te enredares na tua fragilidade, levanta os olhos para o Crucificado e diz-Lhe: «Senhor, sou um miserável! Mas Vós podeis realizar o milagre de me tornar um pouco melhor». Na Igreja, santa e formada por pecadores, encontrarás tudo o que precisas para crescer rumo à santidade. (...)
Esta santidade, a que o Senhor te chama, irá crescendo com pequenos gestos. (...) sucede, às vezes, que a vida apresenta desafios maiores e, através deles, o Senhor convida-nos a novas conversões que permitam à sua graça manifestar-se melhor na nossa existência, «para nos fazer participantes da sua santidade» (Heb 12, 10). Outras vezes trata-se apenas de encontrar uma forma mais perfeita de viver o que já fazemos: «há inspirações que nos fazem apenas tender para uma perfeição extraordinária das práticas ordinárias da vida cristã». Quando estava na prisão, o Cardeal Francisco Xavier Nguyen van Thuan renunciou a desgastar-se com a ânsia da sua libertação. A sua decisão foi «viver o momento presente, cumulando-o de amor»; eis o modo como a concretizava: «aproveito as ocasiões que vão surgindo cada dia para realizar ações ordinárias de maneira extraordinária».
 Deste modo, sob o impulso da graça divina, com muitos gestos vamos construindo aquela figura de santidade que Deus quis para nós: não como seres autossuficientes, mas «como bons administradores das várias graças de Deus» (1 Ped 4, 10). Os Bispos da Nova Zelândia ensinaram-nos, justamente, que é possível amar com o amor incondicional do Senhor, porque o Ressuscitado partilha a sua vida poderosa com as nossas vidas frágeis: «o seu amor não tem limites e, uma vez doado, nunca volta atrás. Foi incondicional e permaneceu fiel. Amar assim não é fácil, porque muitas vezes somos tão frágeis; mas, precisamente para podermos amar como Ele nos amou, Cristo partilha conosco a sua própria vida ressuscitada. Desta forma, a nossa vida demonstra o seu poder em ação, inclusive no meio da fragilidade humana»”. 



segunda-feira, março 26, 2018

OS OLHOS DO CENTURIÃO...



Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.  Assim escreveu Saramago, como que a provocar-nos com a pergunta que fica nas entrelinhas: Afinal, O que vês? Em que(m) reparas? Num tempo tão cheio de ritmos frenéticos, de indiferença e de ‘liturgias da banalidade', abre-se diante de nós um pórtico que interpela o nosso coração e a nossa inteligência, VEM AÍ A PÁSCOA!


Fomos chamados e convocados há 40 dias para um caminho de renovação interior. Logo no primeiro passo, que é sempre iniciativa d’Ele, começámos com a garantia de que Deus é o primeiro a acreditar em nós e o único que não desiste de nós. Ali mesmo Ele deixou claras as suas intenções: «Estabelecerei a minha aliança convosco, com a vossa descendência e com todos os seres vivos que vos acompanham ...» (Gen 9, 8-15 ).

Chegámos agora diante da Páscoa, estamos no começo da Semana Maior (ela não vai ter mais dias, mas é a grande semana que nos leva a mergulhar nas fontes da Salvação!). O que vimos (e ouvimos) durante o grande caminho dos 40 dias? Onde nos detivemos? Com que determinação deixámos Deus tocar nossas feridas e curar nossos lamentos? Onde o sussurro da Páscoa foi mais forte que o nosso medo e o nosso pecado? Deus chamou-nos para um caminho Batismal-Pascal e, como Pai, dispôs-se a moldar o nosso coração endurecido pelo medo e pela vergonha do pecado. De aliança em aliança foi-nos narrando e oferecendo ternura e recomeço...

Entremos então nesta ‘Semana da Ternura e do Recomeço deixando-nos guiar pelos olhos do centurião. Aquele homem, não sabemos se era o mesmo de Cafarnaum (Lc 7), era para os seus contemporâneos um homem importante, tinha poder e podia exigir obediência...No entanto, encontramo-lo ali, diante do calvário, mudo! Estava, num frente a frente com Jesus! Não sabemos o que o silêncio daquele espetáculo cruel lhe perguntava interiormente...Sabemos apenas que do seu olhar contemplativo e, do seu coração e inteligência, brotou a ‘bem-aventurança’ do Calvário: “Na verdade, Este homem era o Filho de Deus!” (Mc 14, 1- 15, 47)...

Os olhos do Centurião são janelas pelas quais a Ternura de Deus nos interpela a dar passos concretos rumo à Páscoa.  O que vamos viver e celebrar, o oceano em que vamos mergulhar nos próximos dias, não é uma liturgia da banalidade ou do superficial, muito menos um rito para aplacar a ira do deus-sádico, menos ainda um tempo para ‘lágrimas de crocodilo’...

A PÁSCOA VEM AO NOSSO ENCONTRO, pede-nos imersão, do coração e da vida, no coração de Deus. No Calvário é-nos oferecido sentido, sabor e significado para a nossa vulnerabilidade quotidiana. Da Cruz do Crucificado-Ressuscitado, Deus que é Pai de Misericórdia, quer-nos fazer beber das fontes da Salvação para que possamos caminhar com um Coração-Pascal. Talvez seja oportuno tatuarmos por dentro dos nossos corações esta certeza de Isaac de Nínive: “Deus só pode dar-nos o seu amor!”. Então, quando assim fizermos, abriremos nossos olhos e, como o centurião, também nós reconheceremos o nosso Salvador. O Salvador do Mundo. Por todos. Por Amor. Para Sempre! BOM CAMINHO. BOA SEMANA...SANTA!




segunda-feira, março 12, 2018

O ‘essencial’ do Evangelho...



Caro Nicodemos, faz algum tempo que queria escrever-te.

Sei que de Deus sabes muitas coisas, tens estudado a Torah e, nas tuas obras cotidianas, os ‘últimos’ têm encontrado em ti um bálsamo para as suas dores, seja pelas tuas palavras doces e plenas de sabedoria e sensibilidade, seja pela tua esmola generosa que sempre restitui dignidade e abre portas de esperança. Se outros me falassem de ti diriam que és um homem correto, honesto e caridoso. Nada mal, heim?!

Esta minha carta, caro Nicodemos, é mais do que ‘uma carta’, na verdade ela é uma conversa muito simples que faz tempo quero ter contigo. Sou, como tu, um peregrino. Amo a vida, as pessoas, a natureza. Gosto do que é simples, não fico indiferente diante do sofrimento, não me calo diante da injustiça e procuro viver cada dia plantando um pouco de ternura através daquilo que chamo ‘os milagres cotidianos’. Seria bom que tudo isso fosse diariamente a 100%, mas nunca te esqueças: sou um peregrino...sempre precisado de perdão ( = Recomeço). Não te disse ainda, mas sou discípulo de Jesus. Sim, esse que vens seguindo há já algum tempo em silêncio! E tem tanta gente fazendo o mesmo...

Vou contar-te um segredo: durante muito tempo houve uma pergunta que me tirou o sono: “Haverá um Amor capaz de curar, iluminar e salvar?”, imagino que também essa pergunta te acompanhe! Não te preocupes, não vou dar-te uma resposta, compreenderás mais tarde o motivo...

Sabes, Nicodemos, quando se busca o que é (e)terno, não bastam as ‘respostas já prontas’. Diante das grandes perguntas da vida há uma decisão importante: não se entregar à aparente ‘frustração’, isso já é um começo importante! Tem tanta gente que busca respostas e, na primeira ‘não resposta’, baixa os olhos e, daí em diante, apenas vê o chão...

Soube por João que esta noite vieste ao encontro de Jesus...sei como é entusiasmante esse caminho! Ir ao encontro de Jesus e deixar simplesmente que Ele nos olhe. Afinal, só Ele sabe quem nós somos! Descobrimos nessa hora o ‘essencial’ do Evangelho: “Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito, para que todo o que acredita n’Ele não morra, mas tenha a vida eterna. Porque Deus não enviou o Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele” (Jo 3, 16-17).

Caro Nicodemos, não sei o que farás depois desse encontro. Quero apenas dizer-te que a comunidade dos discípulos de Jesus, também conhecida como Igreja, estará de portas abertas para te acolher, a ti e a todos os outros ‘Nicodemos’ que de noite, ou de dia, andam à procura de uma luz e de um Amor capaz de curar, iluminar e salvar! Aqui as tuas dores serão as nossas dores, as tuas alegrias as nossas alegrias, e as tuas dúvidas, ao invés de serem um problema, serão mais um passo para juntos sedimentarmos o caminho do nosso seguimento de Jesus... Sê bem-vindo, meu irmão!



segunda-feira, fevereiro 05, 2018

A 'BOA NOTÍCIA'...


De quantas rugas é feita a tua história? Parece despropositada a pergunta. Para alguns será ‘deselegante’ e ofensiva, mas gostaria de começar por aqui esta semana!

Habitamos um tempo marcado por grande arrogância e violência. Ser vulnerável é ‘coisa de fracos’. Os afetos são facilmente mascarados (e manipulados!), as ‘etiquetas’ que colocamos nos outros  são uma ‘auto-defesa infantil’ de quem não é capaz de, com adultez e sabedoria, lidar com os próprios limites. E, pensar diferente, é hoje uma ‘ousadia quase pornográfica’...é paradoxal mas, quanto mais ‘democráticos’ dizemos ser, quer como pessoas, igreja ou sociedade, mais intolerantes nos manifestamos em nossas atitudes, palavras e gestos. Não se trata de um ‘diagnóstico pessimista’, até porque sou 'evangelicamente otimista' por natureza. Gosto de escutar e de contemplar as pessoas, e vou-me dando conta do quanto temos afetivamente regredido, humanamente decrescido e espiritualmente adoecido...voltemos à pergunta: "de quantas rugas é feita a tua história?"

Vem tudo isto a propósito da Palavra com que Deus nos visita esta semana (Mc 1, 29-39). Jesus continua itinerante (peregrino!) e revela-nos que uma ‘Igreja em saída’ implica também ‘sair da igreja’, pois nenhum muro pode deter a graça de Deus que é sempre ‘sedutoramente irradiante’, é que “a casa de Deus é um abrigo, não uma prisão” (Papa Francisco).  Jesus sai dos ‘limites religiosos’ e inicia uma ‘peregrinação da ternura’ que rompe preconceitos e derruba os muros da indiferença. Para seguir Jesus é preciso ‘não ter fronteiras’! Por onde passa, Ele se faz próximo, toca e ‘levanta’. 3 verbos essenciais para fazer irromper o Evangelho nos corações e na vida.

O ‘Mestre dos recomeços’, ensina-nos que segui-lO não implica um ‘intimismo de fuga’ nem, no extremo oposto, um apelo a sermos ‘tarefeiros do evangelho’. Na hora da ‘saída’, Jesus é claro: precisamos ser ‘porta escancarada’ para quem chega, sem qualquer tipo de blindagem ou subterfúgio (espiritual!). Precisamos cuidar e deixar-nos cuidar. Precisamos de silêncio e de palavras. Precisamos escutar, mas também responder. Precisamos rezar para saber discernir. Precisamos agir para não atrofiar o amor. Precisamos avançar...para ir ao encontro!

Sair, não ter fronteiras, tocar e curar. É neste ‘cenário’ que Cristo nos coloca e questiona. Diante da ‘síndrome da vida perfeita’, o Evangelho ‘devolve-nos’, como um espelho, as nossas dores e as nossas ‘rugas’ e leva-nos a descobrir, cada vez mais, que elas são fruto do afeto e da memória, do tempo compartilhado e da vida entregue. Sem pressas.

‘Sair’, não nos levará muito longe, talvez nos leve somente ‘até à Porta’... aí, no sabor e no saber de cada dia, descobriremos tantos e tantas, de ‘coração faminto de esperança’. Vão pedir-nos abrigo e ‘o pão dos afetos’. Nessa hora, tocaremos suas feridas, dançaremos juntos e, olhando-nos longamente nos olhos, ofereceremos uns aos outros os ‘sulcos’ que o tempo escavou em nossos rostos. Então, de mãos dadas, iremos sussurrar mutuamente essa entrega dizendo: 

Toma as minhas rugas, a minha história, o meu afeto, 
o meu tempo, a minha vida. Sem pressas”. 





terça-feira, janeiro 23, 2018

O QUE NOS FAZ CRISTÃOS?...


Eis a pergunta que nos pode acompanhar essa semana! Não te apresses em responder... saboreia a interrogação como um convite a fazer uma ‘peregrinação interior’.

O “vinde e vede” (Jo 1, 35-42) com que João nos colocou olhos-nos-olhos com Jesus, tem agora um capítulo novo e decisivo.  Não há discipulado sem intimidade, mas também não há seguimento de Jesus sem conversão. Discipulado e conversão são gêmeos! Duas faces de uma mesma moeda: seguir Jesus, ser como Ele foi, fazer como Ele fez!

É comum escutarmos em discurso religioso (com frequência quase infinita!) a palavra ‘conversão’, em muitos casos, ela tornou-se um jargão/refúgio de ‘disparo automático’. Importa esclarecer que ‘conversão’ não é uma ‘conversa grande’, muito menos algo ‘obscurantista’ do tipo ‘refúgio impermeável para preguiçosos’. A conversão dá trabalho! Ela nasce de uma urgência: “seguir Jesus de modo que o seu Evangelho seja guia concreta da vida; significa deixar que Deus nos transforme, parar de pensar que somos nós os únicos construtores da nossa existência; significa reconhecer que somos criaturas, que dependemos de Deus, do seu amor” (Bento XVI).

Há uma 'urgência do coração' que define prioridades! Naquele “Cumpriu-se o tempo e está próximo o Reino de Deus” (Mc 1, 14-20), o Evangelho introduz-nos num tempo e numa realidade nova. Deus convoca-nos para realizarmos, como dizia um grande pedagogo, os 'inéditos possíveis'. Pede-nos que façamos com Cristo o percurso das periferias (Galileia) para o centro (Jerusalém). Não se trata apenas de um itinerário geográfico, nem de meras referências ‘religiosas’, trata-se de um caminho de purificação da vida e da fé. Chegou a hora de abandonar todas as idolatrias (e são sempre tantas dentro de nós!). O ‘Deus Vivo’ pede-nos a coragem da humildade, a determinação do coração, a intimidade que transforma e a profundidade que renova.

A conversão nasce das ‘raízes do coração’. Quando Jesus nos interpela o coração e a vida, e nos recorda que se ‘cumpriu o tempo’, não está com isto a amedrontar-nos, ameaçar-nos ou a dizer-nos que agora tudo tem de ser feito à pressa... Está, isso sim, a fazer ressoar no nosso coração aquela ‘memória’ que nos desperta e recorda que somos nutridos por um amor infinito que nos levanta, acaricia e estimula a fazer caminho. Enquanto caminhava entre nós, recordava-nos o Ir. Roger de Taizé:

“Se soubesse que Deus vem sempre ter contigo...O mais importante é descobrir que Ele te ama, mesmo quando tu pensas que não O amas. Cristo espera ser acolhido por cada um de nós. Se tu não consegues dar-Lhe uma resposta, Ele respeita o teu silêncio. Mas quando te abres e O acolhes, por ação do Espírito Santo, cria dentro de ti uma comunhão íntima com Ele. Na surpresa dessa comunhão, Ele habita no mais fundo da tua alma. A sua presença é tão clara como a tua própria existência. Tens dúvidas? Escavam-se em ti como que buracos de incredulidade? Contudo, permaneces na fidelidade. A dúvida, por vezes, é apenas o outro lado da fé. Na invisibilidade da Sua presença, o Ressuscitado poderia dizer-te: “sei que há dias cinzentos e opacos na tua vida. Conheço as tuas dificuldades e a tua pobreza, mas apesar disso és abençoado, habitado por fontes vivas, fontes de fé escondidas no mais profundo de ti mesmo. A surpresa da presença de Jesus, o Ressuscitado, cria em ti uma morada de luz. Ela ilumina mesmo quando tudo parece envolto em obscuridade e brilha como brasas debaixo da cinza. Por vezes perguntas-te a ti mesmo: o fogo que há em mim vai apagar-se? Não foste tu que o acendeste. Não é a tua fé que cria Deus, não são as tuas dúvidas que O vão lançar para o nada. Lembra-te: o simples desejo de Deus é já o começo da fé. Quando te abres à vida eterna, a confiança da fé começa e não tem mais fim...”. Boa Semana!





segunda-feira, janeiro 08, 2018

QUANDO O CORAÇÃO VÊ...


Somos (e)ternos buscadores de sentido, sabor e significado. Como viandantes, somos ritmados pelo cotidiano que nos interpela e se apresenta diante do coração e da vida como ‘oferta de salvação’. Sim, precisamos ser salvos! Salvos, de dentro para fora, de tudo o que nos sufoca: os medos, as frustrações, a ansiedade, os nossos fracassos, os nossos pecados...enfim, tanta ‘bagagem’ para uma viagem onde só o essencial é necessário!

Gosto de olhar aqueles Magos, de que Mateus nos fala no Evangelho, como homens de coração inquieto, disponíveis e determinados. ‘Magos’ significa, literalmente, “ilustres” ou “grandes”; era a designação dada aos que se dedicavam à astrologia. Sendo ‘buscadores de sinais’, não os exigem. Sabem esperar. Sabem contemplar. Vivem com um coração não se entrega ao superficial.

Como os pastores, também os magos estão ‘nas periferias’. Não é a curiosidade que os move, é a sede da Vida! Eles sabem ver num ‘sinal que brilha na noite’ a convocação para ‘um novo dia’. Quando chega a luz do Céu, a ‘Glória a Deus nas alturas’ canta-se com os ‘pés na terra’, ‘peregrinando’, fazendo de cada passo um caminho sem retorno. O Céu ‘falou’ e o coração soube ‘ver’, agora é a ‘hora dos peregrinos’!
Os Magos interpelam-nos sobre ‘o que vemos’ e ‘o que contemplamos’. Com a sua determinação interrogam-nos sobre ‘o que esperamos’ e ‘com que disposição’. Com que frequência olhamos o Céu? Com que liberdade acolhemos os Seus sinais? Não são interrogações de ‘ocasião’, são o essencial para o nosso seguimento batismal de Jesus!

Não foi em vão que Jesus nos disse um dia: “Os últimos serão os primeiros”. Chegou a hora! Das ‘margens’ para o ‘Coração’, Jesus começa a convocar os ‘peregrinos’. De agora em diante o caminho faz-se passo a passo, dia após dia, seguindo-O com ‘determinada determinação’ (Teresa de Ávila). É uma convocação que vem do alto, que nos pede mergulho profundo ‘nas fontes da Salvação’. É que Isaías tinha razão, e com ele também nós cantamos e Adoramos neste dia:

“Deus é o meu Salvador, tenho confiança e nada temo. O Senhor é a minha força e o meu louvor. Ele é a minha salvação. Tirareis água, com alegria, das fontes da salvação. Agradecei ao Senhor, invocai o seu nome. Anunciai aos povos a grandeza das suas obras, proclamai a todos que o seu nome é Santo. Cantai ao Senhor, porque Ele fez maravilhas, anunciai-as em toda a terra. Entoai cânticos de alegria e exultai, habitantes de Sião: porque é grande no meio de vós o Santo de Israel» (cf. Is 12, 2-6)


domingo, dezembro 24, 2017

UM NATAL 'SUBVERSIVO'...


O Natal recorda-nos que Deus fez uma escolha: escolheu ser pobre. Não cedeu aos caprichos do Império Romano, símbolo do poder que subjuga e escraviza; Não cedeu aos caprichos religiosos de quem desejava um deus encerrado num templo e ‘domesticado’ pela vontade dos homens; Não cedeu à ‘falsa esperança’ de ser um poderoso guerreiro com ‘ódios de estimação’; Não cedeu aos preconceitos nacionalistas de ser ‘um deus só para alguns eleitos’; Não cedeu à falsa expectativa de se apresentar como um ‘deus-sádico’; não cedeu à tentação de se fazer conhecer como um deus ‘onipotente-vingativo’...

Subvertendo todas as lógicas, e purificando todas as nossas (falsas!) expectativas, em Jesus, Deus revela-se como um Deus de Ternura e Misericórdia, um Deus que não se cala diante da injustiça, um Deus que faz das periferias o centro, um Deus que nos traz uma paz que não é anestesia, nem ‘paz de cemitério’, mas compromisso em restituir dignidade; um Deus que se apresenta aos homens como fiel companheiro de viagem pelas estradas da vida, um Deus que rejubila com as nossas conquistas, um Deus que beija e cura as nossas feridas, um Deus que nos liberta de ‘tudo o que pesa dentro de nós’ e, com a força do perdão, nos ensina que toda a vida é feita de recomeços...Um Deus ‘pequenino’ que deseja tornar ‘grande’ o nosso existir.

Diante do presépio, e a partir dele, há uma lógica ‘subversiva’ que nos interpela. Ali, Deus recorda-nos que a experiência de fé nunca pode ser ‘superficial’ ou ‘banal’, pede-nos que não nos deixemos ‘convencer’ por uma religiosidade da ‘aparência’ e provoca-nos a tocar todas as feridas da humanidade, a caminhar delicadamente no território sagrado que é cada pessoa, a escutar ‘divinamente’, antepondo a misericórdia ao julgamento.


A partir de Belém, daquela manjedoura onde Ele assumiu nossa carne, o Céu não nos pede para ‘sermos bonzinhos’, mas sim para sermos humanos, plenamente humanos, tão humanos...que com Cristo, e em Cristo, nos tornemos divinos. FELIZ NATAL!



terça-feira, dezembro 05, 2017

O RISCO DO ENCONTRO...


Trazemos dentro de nós o poder de transformar vidas: palavras que salvam, gestos que curam, olhares que libertam, toques que transformam. É com esta perspectiva que mergulho neste Advento! É com esta ‘vigilância’ (não policial, mas evangélica!) que aceito percorrer um caminho que será tecido pela filigrana da fé e dos afetos, da Esperança e do Silêncio.

Muitos confundem o advento com ‘imobilização’ pensando que ele é (apenas) tempo de espera. Mas esperar (ou ter Esperança!) exige de nós atitude, determinação, exige que o nosso coração se mova, que nossos olhos se abram, que nossos lábios aprendam a sussurrar e a degustar cada palavra com a ternura que converte. Advento não é ficar ‘estacionado’ na garantia de que Deus continua a agir, a mover-se para nós e em nós. O Advento pede-nos que acolhamos o “Verbo procedente do Silêncio” (Inácio de Antioquia). É caso para nos perguntarmos, agora que iniciou mais um ano litúrgico: onde estava no último advento? De onde estou (re)partindo neste Advento?...

A Palavra da Vida, que escutámos no último Domingo, recordava-nos que o primeiro passo do nosso Advento deve ser a confiança. Temos um Pai! Um Pai que nos procura, um oleiro que nos molda sem nos esmagar, um Pai-peregrino que nos acompanha, consola e, mesmo diante das nossas rebeldias, não recua...antes se apressa para nos envolver num (e)terno abraço que nos aquece o coração e nos (re)lembra que na vida da fé o ‘milagre do recomeço’ dá solidez aos nossos passos.

Para perscrutarmos os sinais da Sua presença, e corrermos para Seus braços, a boa notícia do Evangelho recordava-nos que precisamos ‘vigiar’. E o que é afinal essa vigilância? Esse é o segundo passo do nosso caminho. Vigiar significa essencialmente estar desperto, estar acordado...não deixar que a ‘sonolência espiritual’ feche os olhos do nosso coração e da nossa vida. Advento é caminho para o Encontro! Se adormecermos, não faremos esta peregrinação que nos mostrará que “Ele está no meio de nós”!

Com todos estes desafios diante da vida, inteligência e do coração e, relendo alguns números da Evangelii Gaudium do Papa Francisco, onde diz: “O Evangelho convida-nos sempre a abraçar o risco do encontro com o rosto do outro, com a sua presença física que interpela, com os seus sofrimentos e suas reivindicações, com a sua alegria contagiosa permanecendo lado a lado. A verdadeira fé no Filho de Deus feito carne é inseparável do dom de si mesmo, da pertença à comunidade, do serviço, da reconciliação com a carne dos outros. Na sua encarnação, o Filho de Deus convidou-nos à revolução da ternura. (...) o desafio que hoje se nos apresenta é responder adequadamente à sede de Deus de muitas pessoas, para que não tenham de ir apagá-la com propostas alienantes ou com um Jesus Cristo sem carne e sem compromisso com o outro. Se não encontram na Igreja uma espiritualidade que os cure, liberte, encha de vida e de paz, ao mesmo tempo que os chame à comunhão solidária e à fecundidade missionária, acabarão enganados por propostas que não humanizam nem dão glória a Deus” (Evangelii Gaudium nº 88-89), dei por mim a pensar: e se o nosso Advento de 2017 fosse tempo para uma redescoberta do Pai Nosso?...Boa Semana!


O que te proponho:

1. Começa por escrever/colocar no teu diário, num papel em cima da tua mesa de trabalho ou noutro local à tua escolha, o texto do Pai Nosso.

2. Pelo menos 3x ao dia, para 5 minutos e reza tranquilamente.

3. Se quiseres podes seguir este esquema, começando em cada Domingo e deixando que ele faça eco no teu caminho semanal:

I Domingo – Tomo consciência da presença de Deus em minha vida como um Pai que molda, transforma e santifico o Seu nome sendo ternura e consolação para os outros.

“Pai Nosso que estais nos céus,
santificado seja o vosso Nome”

II Domingo – Preparo o meu coração para acolher e construir o Reino procurando ser honesto, acolhedor de quem pensa diferente de mim e aprendendo a dialogar com serenidade.

“Venha a nós o vosso Reino,
seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu”

III Domingo – Vivo a Alegria do Evangelho tendo durante esta semana um gesto concreto de partilha.

“O pão nosso de cada dia nos dai hoje”

IV Domingo – Celebro o dom do Natal de Jesus procurando reconciliar-me, com Deus e com os outros.

“Perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido
e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do Mal.