É inevitável o morrer. Nem um
belo par de óculos de sol, como aqueles que vemos em todos os funerais, pode ‘ocultar’
ou ‘disfarçar’ esta realidade. Somos humanos, marcados pelo ‘dom da fragilidade’
mas também abraçados pela fé que ‘germina’ em nós o ‘dom da eternidade’. Sim, o
Evangelho, Boa notícia que desperta a Vida e que dá firmeza aos nossos passos, vem
ao nosso encontro, como foi ao encontro de Lázaro (Jo 11, 1-45), para nos ‘fazer
sair' dos círculos viciosos de morte que tantas vezes habitamos, isto é, das
nossas palavras ‘mal-ditas’, dos nossos olhares preconceituosos, das ‘etiquetas’
que facilmente colocamos, da indiferença consentida e repetida, do ‘desamor’ e
da ‘amargura’ com que tantas vezes nos olhamos e olhamos o mundo.
«Uma vida ‘cheia de morte’ ou uma
morte ‘cheia de Vida’?». Eis, portanto, a provocação que nos faz o Evangelho
neste Domingo. Recorda-te que o Evangelho nunca nos acusa! O Evangelho
estimula-nos a redescobrir sempre o melhor de nós e dos outros, desafia-nos a (re)construir
com simplicidade cada encontro, gesto, palavra ou silêncio com ‘o perfume da
eternidade’. É que confrontar-se com a Vida, deixar-se abraçar por ela e
habitar um diálogo que vá para além da banalidade, implica não ter medo de ‘dar
nome às nossas mortes’ e desperta-nos para aquele ‘essencial’ que nasce da fé e
que abraça a vida por inteiro, como no diálogo de Jesus com Marta: «Disse-lhe
Jesus: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem acredita em Mim, ainda que tenha
morrido, viverá; e todo aquele que vive e acredita em Mim, nunca morrerá.
Acreditas nisto?”». Talvez nos possa então acompanhar esta semana uma pergunta:
«de quanta Vida é feita a minha ‘morte’ quotidiana?».
Viver é, portanto, não adiar a ‘eternidade’,
porque ela está cá, em nós e no meio de nós. Aqui. Agora! A gerar, dentro e
fora de nós, a Páscoa e a despertar em nós o Reino. É que a eternidade não é um
prémio (para os ‘bonzinhos’!!!) no fim da vida, ela é a ‘opção’ e o ‘estilo’
com que somos chamados a acolher, viver e celebrar a Vida. Em cada dia. Todos os
dias. E nada disto é um dinamismo de ‘fuga angélica’ p’rá frente, muito pelo
contrário. Revestir de eternidade cada respiro, cada tempo, encontro, gesto ou
palavra significa necessariamente comprometer-se a ‘ressuscitar’ os que andam
mortos pela angústia, pelo desespero, pelo ‘não-futuro’...É transformar todos
os verbos passivos com que, tantas vezes, definimos a nossa existência numa ‘polifonia’
de verbos ativos de quem se sabe gerado, por amor e no amor, para uma vida
bem-aventurada (Mt 5). Aquele ‘sai para fora’ com que Jesus ‘atravessa’ e ‘desafia’
a morte do seu amigo Lázaro, é o grito que ‘rompe a nossa surdez’, que desbloqueia
os nossos corações fechados e que, fazendo-nos abrir os olhos, amplia os nossos
horizontes e fronteiras existenciais para além do tempo e da história. É uma ‘convocação’
para a Vida! É compromisso com o quotidiano. É que onde há amor, não há morte
que possa vencer…pois cada túmulo será, apenas e só, uma porta escancarada para
aquela Vida (e)terna que nos dá, e a que sempre nos convida, o Evangelho.
Vem aí a Páscoa! «Somos chamados a ‘sair do
túmulo’, pois Cristo não se resigna aos sepulcros que construímos com as nossas
escolhas de mal e de morte» (Papa Francisco). Vais tu resignar-te? Desejo-te
uma boa ‘saída’, Boa Semana!
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