um espaço de partilha, reflexão, discussão e anuncio do amor misericordioso de um Deus loucamente enamorado por todos os que criou à sua imagem e semelhança...
O Evangelho surpreende-nos com a
ternura de um Deus que teima não desistir de nos procurar, abraçar, curar e acompanhar.
Não se tratam apenas de atitudes ou de uma mera delicadeza cheia de ‘respeitos
humanos’ da parte de Deus para conosco. No amor Deus gosta sempre de perder(-se)!
No Seu excesso de ternura Ele busca-nos, não para ter um grupo de adeptos ou
garantir claque mas sim para nos fazer experimentar aquilo que desde sempre Ele
sonhou em oferecer-nos: uma paz inquieta que sara as nossas feridas e
desassossega os nossos corações fazendo-nos ‘peregrinos-dom’ para a humanidade.
Com o Evangelho no coração e na
vida, há circunstâncias especiais que fazem desta nossa semana um tempo
privilegiado para degustar de forma mais intima e intensa tudo aquilo que nos
renova. Os nossos corações experimentam já a sintonia (e a sinfonia!) de quem
escancara as portas do coração e da vida para acolher o Pastor bom e pai de
ternura que nos confirma na fé, o Papa Francisco.
Escancara-se também o nosso coração
para recebermos aquela ‘vida em abundância’ que a Senhora mais brilhante que o sol
nos revelou quando nos disse que seu coração Imaculado seria nosso refúgio e o
caminho que nos conduzirá ao céu.
Enche-se de vigor e entusiasmo o
nosso coração ao saborearmos, com Jacinta e Francisco, aquela alegria de ter os
‘corações ao alto’ e de viver a sublime experiência de nos deixarmos inundar da
única Luz que nos aquece o coração e transforma a vida.
Pelo caminho (e a caminho!)
cruzamo-nos nesta bendita ‘peregrinação’ com tantos rostos e histórias, com
tanta ‘terra sagrada’ a quem Deus visitou no meio da dor, do sofrimento ou
angústia mas também no meio das alegrias cotidianas que fizeram com que se
pudesse experimentar ‘o eterno no instante’.
Portugal e toda a humanidade
encontram-se nestes dias à mesa com o Bom Pastor naquele que é ‘o altar do
mundo’. Não esperamos milagres. Não pedimos milagres. Ali estaremos de coração
escancarado, envolvidos pela misericórdia e graça que só o céu nos pode dar. E,
juntos, vindos de todos os cantos e lugares, numa sintonia feita de silêncio e
gratidão cantaremos o Magnificat da Esperança que renova o mundo e o salva do
desespero e da noite eterna...com um coração que escuta e se abre à ternura
deixaremos ressoar em nós a voz de Deus...e (re)partiremos sabendo que Ele vai
conosco e nos desafia a fazer de cada dia um grande milagre para o mundo!
“Meu Deus eu Creio,
Adoro, Espero e Amo-vos. Peço-Vos perdão para os que não crêem, não adoram, não
esperam e não vos amam.”
“No nosso tempo,
especialmente depois de ter atravessado o século passado, a humanidade
tornou-se particularmente sensível ao mistério do Sábado Santo. O escondimento
de Deus faz parte da espiritualidade do homem contemporâneo, de maneira
existencial, quase inconsciente, como um vazio no coração que se foi alargando
cada vez mais. No final do século XIX, Nietzsche escreveu: "Deus
está morto! E quem o matou fomos nós!". Esta célebre expressão, observando
bem, é tomada quase ao pé da letra da tradição cristã, frequentemente a
repetimos na Via-Sacra, talvez sem nos darmos conta plenamente do que dizemos.
Depois de duas guerras mundiais, os lager e os gulag, Hiroshima e Nagasaki, a
nossa época tornou-se um Sábado Santo em medida cada vez maior: a
escuridão desse dia interpela todos os que se questionam sobre a vida, de modo
particular interpela a nós, crentes. Também nós somos responsáveis por esta escuridão.
E, no entanto, a
morte do Filho de Deus, de Jesus de Nazaré tem um aspecto oposto, totalmente
positivo, fonte de consolação e de esperança. Isto faz-me pensar no facto de
que o Santo Sudário se comporta como um documento "fotográfico",
dotado de um "positivo" e de um "negativo". Com efeito, é
exatamente assim: o mistério mais obscuro da fé, ao mesmo tempo, é o
sinal mais luminoso de uma esperança que não tem confim. O Sábado Santo é a
"terra de ninguém" entre a morte e a ressurreição, mas nesta "terra
de ninguém" entrou Um, o Único, que a atravessou com os sinais da sua
Paixão pelo homem: "Passio
Christi. Passio hominis". O Sudário fala-nos precisamente deste
momento, está a testemunhar aquele intervalo único e irrepetível na história da
humanidade e do universo, no qual Deus, em Jesus Cristo, partilhou não só o
nosso morrer, mas inclusive o nosso permanecer na morte. A solidariedade mais
radical.
Naquele
"tempo-além-do-tempo" Jesus Cristo "desceu à mansão dos
mortos". O que significa esta expressão? Quer dizer que Deus, feito homem,
chegou até ao ponto de entrar na solidão extrema e absoluta do homem, onde não
chega raio de amor algum, onde reina o abandono total sem palavra de conforto
alguma: "mansão dos mortos". Jesus Cristo, permanecendo na
morte, ultrapassou a porta desta solidão última para nos guiar também a nós a
ultrapassá-la com Ele. Todos nós sentimos algumas vezes uma sensação assustadora
de abandono, e o que mais nos assusta é precisamente isto, como quando somos
crianças, temos medo de estar sozinhos no escuro e só a presença de uma pessoa
que nos ama pode dar-nos segurança. Aconteceu exatamente isto no Sábado
Santo: no reino da morte ressoou a voz de Deus. Sucedeu o
impensável: ou seja, que o Amor penetrou "na mansão dos
mortos": também no escuro extremo da solidão humana mais absoluta
nós podemos escutar uma voz que nos chama e encontrar alguém que nos pega pela
mão e nos conduz para fora. O ser humano vive porque é amado e pode amar; e se
até no espaço da morte penetrou o amor, então também lá chegou a vida. Na hora
da extrema solidão nunca estaremos sozinhos: "Passio Christi. Passio hominis".
Este é o mistério do
Sábado Santo! Exatamente do escuro da morte do Filho de Deus brilhou a luz de
uma esperança nova: a luz da Ressurreição”
Nietzsche,
filósofo e proclamador da ‘morte de Deus’, escreveu um dia que ‘os cristãos não
têm rosto de gente salva!’...talvez inspirado pelo ar sombrio com que muitos
dos cristãos, no seu tempo (e no nosso!), se dirigem para as Igrejas, pelo
menos neste dia de sexta-feira santa...
Não
é fácil acolher um Deus cuja omnipotência se revela no Amor que oferece recomeço...os nossos corações estão demasiados
habituados a uma ‘espiritualidade do sepulcro’ cheia de passado, de morte, de
muitos silêncios ensurdecedores que habitam nossos corações e são fruto daquela
‘raivazinha de estimação’ que teimamos guardar, acumular, ampliar. As nossas
rotinas anseiam, na maioria das vezes, por um Deus que faça ‘a nossa vontade’;
os nossos projetos constroem-se habitualmente na auto-referencialidade, como se
o nosso umbigo fosse o centro do universo...
O
Deus de Jesus Cristo, que hoje se revela a nós como ‘Amor-Crucificado’, dá
morte à idolatria que tantas vezes nos habita e nos faz pensar que Ele é apenas
um ‘super-homem’ ou um ‘deus sádico’ indiferente às nossas dores e angústias. Isaías
recorda-nos que ‘pelas suas chagas fomos curados’ e assim nos revela que um Deus impassível é um Deus impossível!
Nenhum dos nossos sofrimentos lhe é indiferente, não há dor que Ele não conheça
pelo nome. Solidário conosco ‘a partir de baixo’ faz-nos experimentar um amor (e)terno,
que é dom do Alto, mas que não nos sufoca. É Amor que salva e cura. Amor que abraça
e transforma. Amor que não julga, Amor que levanta.
Mas
voltemos ao(s) rosto(s). Durante a celebração da Paixão há um personagem que
aparece quase a fechar o Evangelho e que facilmente passa despercebido, Nicodemos.
Sim, aquele que durante a noite foi ao encontro de Jesus e que se ‘escandalizou’
quando o Mestre lhe disse que precisava ‘nascer de novo’. Deixámo-lo no capítulo
3 do Evangelho de João e hoje, no capítulo 19, voltamos a reencontrá-lo. Ainda
com ‘muita vergonha na cara’, ei-lo que chega carregado de perfume, 32, 7 kg de
resina de mirra e alóes moído!...esta ‘medida’, tão pesada e grandiosa, é sinal
de que para ele tinha sido dita ‘a última palavra’. A morte parecia, mais uma
vez, encerrar uma história que havia trazido para a luz os cegos, dado
esperança aos desesperados, curado as feridas dos enfermos, feito saborear o
perdão aos pecadores...era portanto necessário ‘ungir em excesso’ para que os
maus odores da decomposição mortal não voltassem a trazer a lembrança da
desilusão...e quantas vezes o nosso caminho Pascal é tão cheio desta ‘unção
nicodémica’!
O
que Nicodemos havia esquecido (e nós também!) é que o caminho Pascal de Jesus
passa sim pela morte, mas não fica agrilhoado nela. Diante do Amor “não há
morte que nos mate”, não há sepulcro que nos detenha, a morte “não é mais um castigo, mas um
esplendoroso ato de amor e de perdão, o termo de toda a ausência de comunhão e
de toda a solidão. A condenação é
transformada em perdão” (Paulus Tomanini).
Se
Nicodemos se (re)lembrasse da lição do Mestre: “Deus amou tanto
o mundo, que lhe entregou o seu Filho Unigénito, a fim de que todo o que nele
crê não se perca, mas tenha a vida eterna. De facto, Deus não
enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja
salvo por Ele” (Jo 3, 16-17), teria perdido a vergonha na cara e, com um Rosto Salvo, cheio de Páscoa no coração,
iria carregado de perfume não para ungir o morto, mas para celebrar a Vida...
Agora
que a celebração já passou e temos um dia de ‘silêncio’ pela frente...talvez
valha a pena pensar nisto. Bom caminho!
Iniciámos no passado Domingo a semana, ‘Santa’ e ‘Maior’,
marcados pelo grande sinal (e mistério!) da Vulnerabilidade
omnipotente do Amor que salva. A narração da Paixão, pórtico com que Deus
nos introduz no ‘mistério de Jerusálem’, despertou-nos para O escutarmos como
discípulos (Isaías 50, 4-7). Ao nosso redor as marcas da Paixão tornaram-se (ainda
mais) visíveis na tragédia do ataque às igrejas Coptas, como que a
sussurrar-nos ao coração a verdade que teimamos em não aceitar: ‘se o grão de
trigo não morrer, não produzirá fruto’. Sim, o Evangelho não rima com poder,
com altivez ou agressividade; também não é paz indolente ou acomodação; não
responde ‘na mesma moeda’, nem se blinda...
Encontrar-se com o Evangelho significa desnudar-se, isto é,
entrar num excesso de dom e num desassossego de Amor que nos faz ver, tocar e celebrar
cada realidade com a mesma ternura e misericórdia com que Deus vê e toca o
nosso frágil barro. Foi assim em todo caminho quaresmal, é assim de um modo
mais intenso nesta noite em que iniciamos o Tríduo Pascal.
O que celebramos hoje não é somente um rito ou uma Tradição!
Celebramos um Deus que nos escancara e introduz na Sua intimidade. Um Deus que
nos oferece comunhão e nos comunga naquilo que são as nossas dores e angústias,
feridas e pecados, sonhos e projetos...Um Deus que nos pede que deixemos Suas
mão acariciar nossos pés cansados ou acomodados (Jo 13, 1 -35). Um Deus que nos
pede coragem e criatividade para fazer do mundo ‘uma casa de irmãos’ onde todos
se sintam, no Amor, ungidos, sarados, salvos.
O Sonho de Deus para a Humanidade vem (re)lembrar-nos, de um
modo especial nesta noite, que o Amor não se improvisa. O Amor cristão é
concreto, beija as chagas do nosso sofrimento, enxuga as lágrimas das nossas
dores, abraça os nossos desesperos para nos fazer sentir o calor e a
proximidade de uma esperança que não engana, toca a nossa fragilidade e pecado
sem medo de ‘sujar as mãos’ e, no fim, olhando-nos de baixo para cima, lava os
nossos pés cansados e senta-nos na mesa onde o ‘Amor de todo o amor’ sacia as
nossas fomes de sentido. Não é apenas um milagre. É a opção de Deus por nós!
Nesta noite, diante dos nossos olhos habituados ao
superficial e diante do nosso coração tantas vezes inquieto, (re)inicia-se a ‘revolução
da ternura’. Ele, o Rosto do Amor que salva, revela-nos que o único poder que o
Amor tem é o serviço, sua omnipotência está na delicadeza com que toca cada
história, cada pessoa...o Seu milagre de Amor está no apelo que nos faz a
sermos, com Ele e como Ele, Pão que se reparte para que o mundo tenha a Vida...
Para avançar, Ele pede-nos uma resposta. Não se trata de uma condição mas sim
de assumir uma identidade! Aceitas?...Que o perfume da Páscoa preencha já estes
teus primeiros passos do caminho!
Vamos começar com uma pergunta: ‘de
quantas cegueiras são feitos os teus passos cotidianos’? Se em cada passo o teu
coração fosse uma porta escancarada, uma vida que se lê com a filigrana da
ternura, talvez os teus dias fossem menos indolentes e a tua vida menos
monótona...
Se para amar não basta ter
coração...o mesmo acontece para o ver, não basta ter olhos ou simplesmente
olhar...quantas vezes feridos com a vida, e com os outros, o nosso coração habitado
pelo rancor e o ódio nos torna ‘viandantes cegos de olhos abertos’.
Um coração cheio de alfândegas,
portagens ou muros, onde tudo é taxado ou cobrado, torna-nos amargos diante do
presente, diante dos outros, diante do dom. Quando é assim, continuamos naquela
lógica dos discípulos: “quem é que pecou para ele nascer cego?” (Jo 9, 1-41).
Deus quer-nos de olhos abertos e
de coração escancarado, não nos quer enclausurados em questionamentos estéreis
que fazem d’Ele uma caricatura, um ‘deus-sádico’...o Deus de Jesus Cristo é
Luz, é presença sanante, unção para os corações atribulados. Deus também não
nos quer mendigos, quer-nos Filhos!
É assim que Ele, o Caminho, se
faz peregrino e Deus-conosco nos trilhos do nosso cotidiano. É aí que Ele nos
toca, cura...e salva. É assim que Ele enche de luz a nossa cegueira, desata os
nós da nossa indigência e nos restitui à dignidade original com que Deus sempre
nos sonhou e amou.
Voltemos à pergunta inicial: de
quantas cegueiras são feitos os teus passos cotidianos? De quanta cegueira são
feitos os teus olhares? Quanta cegueira habita o teu coração? A quem têm ‘ungido’
as tuas mãos?
Na graça do Espírito que nos convoca
e anima, seguindo no discipulado daquele que é a Luz do mundo, há um Reino que
nos desassossega e chama, dado que «o Espírito do Senhor está sobre mim, me
ungiu para anunciar a Boa-Nova aos pobres; envia-me a proclamar a libertação
aos cativos e, aos cegos, a recuperação da vista; a mandar em liberdade os
oprimidos, a proclamar um ano favorável da parte do Senhor» (Lc 4, 18-19).
Eis a Alegria do nosso caminho
Batismal-Pascal: Abrir os olhos do coração e da vida! Seguir Jesus e proclamar
em gestos de reconciliação e unção a graça que nos liberta da mendicidade e de
toda a cegueira, isto é, saber que “Ele é o Pastor que nos conduz, nada nos
falta...nada tememos...pois a sua bondade e graça nos acompanham” (Salmo 23).
Não é intimismo, é gratidão do coração, é missão! BOA SEMANA!
De quanta escuta são feitos os
nossos dias? Quanta ousadia carregam os nossos frágeis gestos? São perguntas
essenciais para quem aceita a peregrinação que nos leva à Páscoa. Não há
conversão ‘improvisada’, nem discipulado ‘morno’...a ousadia da fé pede-nos uma
‘totalidade’ feita de cotidiano, tecida nos encontros e palavras, nos olhares
demorados e nos abraços que oferecem recomeço e Páscoa. É a fé que nos faz
contemplar. É a escuta que nos faz avançar. É o discernimento que nos faz
ousar. É a caridade que nos faz agir.
Convocados e reunidos pela
Palavra que liberta e salva, somos esta semana inspirados e desafiados pela ‘vulnerável
firmeza’ de Abraão. Sair, avançar, crer, caminhar...verbos que nos despertam os
sentidos e a inteligência, atitudes que nos mobilizam de dentro para fora e nos
colocam diante da mais essencial das questões: temer ou ousar?...o caminho iniciado
por Abraão é metáfora de todas as nossas peregrinações...somos feitos para
caminhar, para saborear cada passo degustando neles a eternidade...a quaresma,
caminho que nos rasga o coração para acolher o dom e nos coloca como horizonte a
Páscoa, faz-nos redescobrir o essencial da identidade cristã: caminhar...e
descobrir o caminho como bênção e como Aliança.
Não se trata de correr
quilómetros, nem mesmo de ver quem chega primeiro! No caminho da fé só se
atrasa quem cede à banalidade...para os que ousam, mesmo de mãos sujas ou
coração ferido, Deus espera-os e acompanha-os com a filigrana da sua ternura e
misericórdia.
O Evangelho, Palavra que desperta
o coração e rasga novos horizontes ao nosso existir, narra-nos que a intimidade
com Deus exige itinerância (Mt 17, 1-9). Seria muito cómoda uma fé que nos anestesiasse
ou nos afastasse da realidade...mas o nosso Deus não vive nas nuvens! “levantai-vos
e não tenhais medo” não é apenas um imperativo, é uma condição existencial. O
Evangelho não é para tornar ‘doce’ a nossa existência, é Palavra que quer
tornar fecundo o nosso viver, por isso não há lugar para a acomodação, para uma
experiência religiosa alienante do tipo maniqueísta...a realidade está aí,
cheia de contradições e de ‘novas escravidões’, cheia de complexidade e de muitos
corações feridos...precisamos Levantar! Deus espera-nos nas cidades e bairros,
nas ruas e lugares que cotidianamente percorremos. Deus convoca-nos para não
cedermos à tentação de um cristianismo de bem-estar ou de uma religião que
formalmente satisfaça a idolatria do nosso ego...
Precisamos levantar e descer para
não vermos a realidade somente do alto mas, sobretudo, lado a lado...olhos nos
olhos, coração a coração, deixando que aí, nas nossas planícies e trilhos cotidianos,
Deus nos interpele a (re)descobrir e a compartilhar a única luz que dá sentido,
sabor e significado...Ele coloca-nos diariamente diante dos corações aflitos,
cansados ou desnorteados...e aí nos sussurra: “Este é o meu Filho muito amado,
escuta-O!”...e não será assim que a Luz transfigura a Ação?...Boa Semana!
Chegou
a quaresma! Não se trata de uma ‘prescrição médica’ para combater os ‘excessos
pós carnaval’, também não é uma ‘maratona espiritual’ para recuperar ‘o tempo
perdido’ e, se ainda persistir alguma dúvida, que fique claro que a quaresma
também não é ‘um tempo sombrio e sisudo’ que a Igreja nos impõe para ver se
chegamos à Páscoa ‘bem comportadinhos’.
A quaresma é o fruto maduro da Páscoa
de Cristo! Com ela o
próprio Deus, que se faz caminho e peregrino conosco, nos convida a iniciar
esta peregrinação que não se resume apenas a 40 dias, é um itinerário de
vida...de uma vida que na escuta e no acolhimento, no discernimento e na
oração, na gratidão e no dom, vai colhendo em cada passo a Salvação, a Graça e
a Misericórdia. A grande questão que o caminho Pascal que hoje (re)iniciamos
nos coloca é: velhos propósitos ou vida nova? Repetição ou ousadia?
Comodismo ou conversão? É que por debaixo das cinzas que hoje são
colocadas na tua cabeça há um 'perfume novo', um 'tempo novo' e um 'fogo
novo' com o qual Deus quer ungir a tua vida, sarar tuas feridas, renovar o
teu coração.
O caminho quaresmal está grávido de
Páscoa, de Vida em
abundância. Se a cada ano a Igreja nos interpela e desafia ao recomeço é porque
na sua sabedoria ela descobriu que o coração humano precisa ser estimulado
para não se acomodar em vãs repetições, precisa ser desafiado a deixar as
miopias rotineiras e a abrir-se de novo ao dom, ao outro, a Deus.
Não
se trata, portanto, de fazer do Jejum
um exercício diet ou fitness; muito menos fazer da Caridade um ‘aumento de boas intenções’; menos ainda de fazer da Oração um palavreado infinito onde não
há espaço para a escuta, a gratidão e o discernimento. O segredo Pascal do qual está grávida toda a quaresma é-nos sussurrado
por Jesus ao coração quando nos diz: “Assim, quando deres esmola, não
toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas
ruas, para serem louvados pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua
recompensa. Quando deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a
direita, para que a tua esmola fique em segredo; e teu Pai, que vê o que está
oculto, te dará a recompensa. Quando rezardes, não sejais como os hipócritas,
porque eles gostam de orar de pé, nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para
serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa.
Tu, porém, quando rezares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora a teu Pai
em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa. Quando
jejuardes, não tomeis um ar sombrio, como os hipócritas, que desfiguram o
rosto, para mostrarem aos homens que jejuam. Em verdade vos digo: já receberam
a sua recompensa. Tu, porém, quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto,
para que os homens não percebam que jejuas, mas apenas o teu Pai, que está
presente em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa»
(Mt 6, 1-18).
O
Evangelho convoca-nos. A Igreja, como Mãe, acompanha-nos. Ao nosso lado
caminham os peregrinos que são nossos irmãos. À nossa frente vai Cristo a
pedir-nos para abrir a porta e escancarar o coração, pois é nesse ‘altar
cotidiano’ que Ele nos vai revelar os segredos do Reino ao longo do caminho (Mt
25, 33-40) e assim se fazer Páscoa em nossa vida!
A
Páscoa está plantada em nossos corações, chegou a hora de deixar o dom
florescer e produzir fruto. Pelo caminho é bom ir relembrando:
“A
Quaresma é o tempo para dizer não.
Não à asfixia do espírito pela poluição causada pela indiferença, pela
negligência de pensar que a vida do outro não me diz respeito; por toda a
tentativa de banalizar a vida, especialmente a daqueles que carregam na sua
própria carne o peso de tanta superficialidade. A Quaresma significa não à
poluição intoxicante das palavras vazias e sem sentido, da crítica grosseira e
superficial, das análises simplistas que não conseguem abraçar a complexidade
dos problemas humanos, especialmente os problemas de quem mais sofre. A
Quaresma é o tempo de dizer não; não à asfixia duma oração que nos tranquilize
a consciência, duma esmola que nos deixe satisfeitos, dum jejum que nos faça
sentir bem. A Quaresma é o tempo de dizer não à asfixia que nasce de intimismos
que excluem, que querem chegar a Deus esquivando-se das chagas de Cristo
presentes nas chagas dos seus irmãos: espiritualidades que reduzem a fé a
culturas de gueto e exclusão.
A
Quaresma é tempo de memória, é o
tempo para pensar perguntando-nos: Que seria de nós se Deus nos tivesse fechado
as portas? Que seria de nós sem a sua misericórdia, que não se cansou de
perdoar-nos e sempre nos deu uma oportunidade para começar de novo? A Quaresma
é o tempo para nos perguntarmos: Onde estaríamos nós sem a ajuda de tantos
rostos silenciosos que nos estenderam a mão de mil modos e, com ações muito
concretas, nos devolveram a esperança e ajudaram a recomeçar?
A
Quaresma é o tempo para voltar a
respirar, é o tempo para abrir o coração ao sopro do Único capaz de
transformar o nosso pó em humanidade. É o tempo não tanto para rasgar as vestes
frente ao mal que nos rodeia, como sobretudo para dar espaço na nossa vida a
todo o bem que possamos realizar, despojando-nos daquilo que nos isola, fecha e
paralisa. A Quaresma é o tempo da compaixão para dizer com o salmista: «Dai-nos
[, Senhor,] a alegria da vossa salvação, sustentai-nos com um espírito
generoso», a fim de proclamarmos com a nossa vida o vosso louvor (cf. Sal
51/50, 14), e que o nosso pó – pela força do vosso sopro de vida – se transforme
em «pó enamorado»”(Papa
Francisco, Homilia da Missa de imposição das cinzas 2017).
Chegou
o tempo do (re)começo, não estranhes que te deseje: BOA PÁSCOA... É para lá
que caminhamos!