sábado, setembro 15, 2007

Qual é o problema?...

1-Qual a tua opinião sobre os padres católicos casados de rito oriental?
2-Qual é o problema de coexistirem no Ocidente padres celibatários e padres casados?...

São estas as questões que um anónimo preocupado com a temática me deixou, apesar do anonimato(!) naturalmente responderei a estas questões, mas antes há algumas coisas que gostava de dizer:

A reflexão que se pode ou deve fazer sobre a questão do celibato não deve ser vista com um instrumento de batalha entre os que acham que devia acabar ou ser opcional e aqueles que o defendem com o mesmo fervor que os anteriores, mas antes deve merecer de todos uma amadurecida reflexão e oração. Não estamos a tratar de banalidades. Estamos a falar de vidas que se entregam. De um projecto de vida acolhido, rezado, assumido...Seria bom que se perdesse a lógica do ataque vs contra-ataque e todos fossemos capazes de serenamente acolher e ouvir os que discordam e, naturalmente, celebrar também o dom de todos aqueles que continuam a abraçar uma vida que incluí também esta dimensão. Os aspectos que partilhei no último post sobre esta temática centram-se aqui, neste diálogo franco e aberto, onde ninguém é excluído ou excluí.
Há um aspecto no entanto que gostava de incluir aqui hoje e coloco-o sem recriminar ou olhando os outros de cima para baixo, faço-o por uma questão de honestidade de consciência:
quando algumas vezes são publicitados alguns casos de padres que abandonaram o ministério tenho ouvido, quer da comunicação social quer de alguns cristãos, quer dos próprios, colocar sempre a tónica na questão do celibato, aliás é isso que habitualmente faz título na noticia. Contudo quando leio mais atentamente aquilo que os próprios dizem vejo que a razão de fundo para esta "partida" não é o celibato mas sim uma vida de oração desorganizada, um activismo frenético que faz com que se fale muito de Deus mas pouco com Ele, o desejo de uma Igreja e de um Evangelho à medida do que lhes convém e não segundo a medida de Cristo (profundidade/convicção, liberdade, alegria). é por isso que julgo muito conveniente quando falamos do celibato dos padres (ou do fim dele) perguntarmo-nos (e perguntar-lhes) também (e os cristãos têm esse direito) como vai a vida de oração, a sua pobreza (embora não façam um voto), como vai a sua obediência (que outra coisa não é se não a disponibilidade para caminhar com outros partilhando alegrias e dificuldades), como vai a sua comunhão com as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens e mulheres do nosso tempo. é que o celibato não é uma "moldura decorativa" do ministério presbiteral, ele é um dos muitos aspectos daquilo que constitui a vida de um padre, e são esses muitos que fazem a unidade, quando um vai mal todos os outros vão atrás...
Nos breves anos que levo de ministério presbiteral, os que me conhecem sabem que sou profundamente Feliz! Feliz por acreditar em Deus, por ter acolhido o seu convite a ser padre, Sou feliz no celibato que abracei neste projecto de vida e por poder partilhar este dom com todos os meus irmãos baptizados. Feliz por poder ser para crentes e não crentes uma presença acolhedora e misericordiosa e um sinal da ternura e alegria deste Deus "loucamente apaixonado por aqueles que criou à sua imagem e semelhança". Sou feliz por ser Padre e por me sentir irmão de todos e de cada um daqueles e daquelas que fazem parte do Povo Santo de Deus.
Quantos às questões deixadas:
1- A minha opinião sobre os padres católicos casados de rito oriental é a seguinte: são tão padres quanto eu que procuram certamente ser com a vida um sinal de Cristo, o Bom Pastor, e que pelo ministério que a Igreja lhes confiou vão procurando semear no coração dos homens e mulheres do nosso tempo a Boa Nova de Jesus Cristo, Morto e Ressucitado.
2-Qual é o problema de coexistirem no Ocidente padres celibatários e padres casados?
Não vejo problema nenhum. Aliás eles já coexistem. Conheço dois desses padres casados com quem já conversei longamente (também sobre a questão do celibato, que eles próprios colocaram). A Igreja Católica de rito Oriental não é uma igreja de "segunda classe" nem os seus padres são "sacristães promovidos a padres". São parte da mesma Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica da qual faço parte pelo baptismo. São para mim uma riqueza extraordinária que devemos acolher, acarinhar, conhecer.

4 comentários:

Anónimo disse...

Finalmente ouvi aquilo em que todos estamos de acordo: os padres casados e os padres celibatários "são uma riqueza extraordinária que devemos acolher, acarinhar e conhecer".
Se virmos assim as coisas já não dizemos tão facilmente "o celibato é uma das possibilidades, tal como o matrimónio", como se o matrimónio fosse incompativel com o sacramento da Ordem.
Mas poderiamos encontrar um leque de homens mais alargado e felizes.
Uns felizes por serem padres celibatários outros felizes por serem casados e também padres.
Uma enorme "riqueza" não achas?!!!
Não pensemos só naqueles que já decidiram, mas pensemos naqueles que poderiam ter sido padres (e eu conheço muitos) e não são porque a Igreja não aceita que homens casados possam ser padres como na Igreja Oriental. Não resolveria o problema das vocações, mas penso que seria uma grande "riqueza"...

no-coracão-de-Deus disse...

Caro "anónimo",
Fazer perguntas é próprio de quem leva a sério a vida e de quem procura com honestidade viver o futuro segundo a vontade de Deus. Obrigado pelas tuas perguntas!
procurei responder-te sempre com a honestidade da minha consciência, da minha fé, da minha vida.

Penso que no essencial estamos de acordo: uns e outros são um DOM de DEUS!

Reafirmo que o celibato e o matrimónio não são "inimigos" mas são irmãos: diferentes, mas ambos caminho para servir o mesmo Deus e a mesma Igreja. Um e outro são um dom precioso, um sinal que só fazem sentido por amor, com amor.

Se algum dia a nossa Igreja ocidental, fiel à voz do Espirito Santo, avançar por aí, cá estarei com a mesma alegria para acolher esses meus irmãos...

E aguardo também que antes disso acabe o teu "anonimato".

joaquim disse...

Bela reflexão com a qual concordo inteiramente.
Já agora, uma sugestão ao anónimo:
Se a vocação é forte, e se o homem casado sente essa chamada ao serviço consagrado, porque não o Diaconado Permanente.
Em muitos locais, paróquias, etc. agradece-se com certeza a ajuda...e se «Se algum dia a nossa Igreja ocidental, fiel à voz do Espirito Santo, avançar por aí,» alguns deles já poderão estar preparados para a Ordenação Sacerdotal.

Abraço em Cristo

Anónimo disse...

Caros amigos, (mais um anónimo para o role, lol), sim… "amigos" porque apesar de não vos conhecer, considero-vos meus amigos pelo simples facto de termos em comum, o amor e a Fé (uns mais que outros, mas é assim a vida;) ) por alguém superior e maior que nós, CRISTO, e que ao mesmo tempo se iguala a nós com Humildade e que se entrega na cruz por nós.
Apesar de ser um simples Leigo nesta matéria (tenho muito ainda a aprender e a discernir:) ), mas tenho uma opinião própria em relação a este assunto e gostaria de partilhar convosco as minhas ideias. Então cá vai...

Em parte concordo com o "anónimo", em relação ao facto de na igreja oriental os padres celibatários não serem superiores aos padres casados, porque todos somos irmãos, mas não nos esqueçamos que é uma cultura diferente com ideias próprias. Com desafios diferentes.
Mas tudo se resume a isto, ESCOLHAS, todos nós temos que tomar escolhas, como sabem existe de tudo, temos muita variedade de escolhas (fáceis, difíceis, aborrecidas, etc...), mas têm que se tomar, mas sempre que se toma uma escolha pessoal pensamos, se esta opção me fará feliz; não é verdade? Pois eu penso!!!
Neste caso concreto, a escolha é decidir se os padres se podem casar ou não. Primeiro gostaria de dizer o que penso em relação ao que é ser padre. Primeiro, alguém que tem como objectivo passar a "palavra" e os ensinamentos de Deus numa forma cativante e inovadora. Segundo, é alguém que se entrega, se doa, se oferece; a uma obra maior que ele mesmo, e que é movido pelo amor que sente pelos outros e por Deus.

Mas na verdade o que somos nós (Padres ou pessoas que querem ver os outros bem) para além de instrumentos de amor, usados para ajudar outros nos seus momentos de fraqueza e de dor, penso que a nossa felicidade enquanto cristãos, é tentar obter essa alegria, por nos darmos simplesmente ao serviço dos outros, tal como Cristo fez com os seus discípulos.
Penso que é um grande erro pensar que haverá mais padres pelo simples facto de se poderem casar e terem uma família, concordo que de inicio haveria mais, devido a alguns terem abandonado o sacerdócio por essa causa. Mas caímos no erro de antigamente, muitos padres sem vocação e sem o sentimento de felicidade que deveriam de exalar por todos os “poros”. Não existe correspondência entre quantidade vs qualidade. O que deve existir é a consciência de que ser Padre celibatário é uma opção, ninguém obriga ninguém a ser infeliz e frustrado na sua vida, é tudo uma questão de consciência e de escolha.
Não concordo que se deva ir pelo caminho mais fácil… Nem sempre ir pelo caminho mais fácil é o melhor. Acredito que devem haver Padres felizes por o serem com todas as suas condicionantes, nada na vida se faz sem sacrifício.

Talvez me chamem idealista, mas o que posso fazer, sou um jovem que quer fazer a diferença nos outros, mas primeiro, fazer essa diferença em mim. Posso parecer talvez um pouco confuso; só tenho a dizer que sim, estou confuso e com dúvidas, mas tenho também esperança de conseguir ultrapassar esta minha fase, para puder seguir um caminho mais ou menos definido.

Que a Luz de Cristo vos ilumine, um abraço amigo. (O que acham? anónimo 2)