terça-feira, junho 05, 2018

UM DEUS ‘FORA DA LEI’?!...



Todos conhecemos a frase: “a pior prisão é um coração fechado”. Sabemos também das consequências devastadoras que a indiferença ou a absurda teimosia provocam em nós e ao nosso redor. Costumo chamar a isso a ‘perseverança do absurdo’. Lembrei-me imediatamente disso ao escutar o Evangelho este Domingo...Jesus é questionado como um ‘fora da lei’ por aqueles que vivem na ‘perseverança do absurdo’.

Há ‘perseverança (farisaica) no absurdo’ todas as vezes em que medimos a vida, apenas, pelos tons pálidos do ‘pode’ ou do ‘não pode’ (Mc 2, 23 – 3, 6). São fronteiras demasiado estreitas para quem se encontrou com o Evangelho e se reconhece como discípulo de Jesus. O Mestre, recorda-nos isso insistentemente quando nos desafia a converter o coração (e a vida); é bom entender que esta insistência do Mestre não é um apelo à ‘maquilhagem espiritual’, ela será sempre o primeiro passo para o absurdo. Jesus não nos pede apenas ‘a lei’, pede-nos mais, mais profundamente, de um jeito novo...sem querer ‘domesticar’ Deus, nem ludibriar a vida.

O Papa Francisco, recordando-nos que é possível ser santo hoje, diz-nos: “Precisamos do impulso do Espírito para não ser paralisados pelo medo e o calculismo, para não nos habituarmos a caminhar só dentro de confins seguros. Lembremo-nos disto: o que fica fechado acaba cheirando a mofo e criando um ambiente doentio. (...) Deus é sempre novidade, que nos impele a partir sem cessar e a mover-nos para ir mais além do conhecido, rumo às periferias e aos confins. Leva-nos aonde se encontra a humanidade mais ferida e aonde os seres humanos, sob a aparência da superficialidade e do conformismo, continuam à procura de resposta para a questão do sentido da vida. Deus não tem medo! Não tem medo! Ultrapassa sempre os nossos esquemas e não Lhe metem medo as periferias. Ele próprio Se fez periferia. Por isso, se ousarmos ir às periferias, lá O encontraremos: Ele já estará lá. Jesus antecipa-Se-nos no coração daquele irmão, na sua carne ferida, na sua vida oprimida, na sua alma sombria. Ele já está lá.” (GE nº 133-135)

O Evangelho, luz para os nossos passos, questiona-nos: Quais são, afinal, as tuas fronteiras? De quantos ‘absurdos’ é feito o teu quotidiano? Consegues contemplar a vida (e Deus!) para além dos teus ‘confins seguros’?...

Seguir Jesus, é dizer não à idolatria de um ‘deus-domesticado’, a idolatria de um ‘deus’ que corresponda, somente, às nossas medidas curtas e aos nossos corações fechados...num deus assim, seria impossível acreditar!

Jesus, Amor-Crucificado-Ressuscitado, revela-nos que ‘o essencial da lei’ está, primeiramente, em ‘tatuar’ no mais profundo do nosso ser a certeza que o profeta Isaías cantou, tão belamente, com estas palavras: “Deus é o meu Salvador,  tenho confiança e nada temo.  O Senhor é a minha força e o meu louvor,  Ele é a minha salvação. Agradecei ao Senhor,  bendizei o seu nome. Anunciai aos povos a grandeza das suas obras,  proclamai a todos que o seu nome é santo. Cantai ao Senhor, porque Ele fez maravilhas, anunciai-as em toda a terra. Entoai cânticos de alegria e exultai” (Isaías 12).

Aos que têm esta certeza ancorada no mais intimo do coração, Jesus e o Seu Evangelho, serão sempre uma vida, e um Deus,...‘fora da lei’! BOA SEMANA.



segunda-feira, abril 23, 2018

(IN)VOCAÇÃO...


As palavras que dizemos têm o poder mudar o rumo da história. Se forem ditas com banalidade farão da história, e da construção que todos fazemos dela, um momento ‘trágico’, difícil e, quem sabe, às vezes penoso. Essas são as palavras mal-ditas! Por outro lado, as palavras têm também o poder de reconstruir, entusiasmar, conectar, transformar, curar. Essas são palavras que nos fazem ver e experimentar a vida como um milagre permanente.

Uma dessas palavras que tem sido ‘gasta’ (ou mal-dita) pela banalidade com que muitas vezes a usamos, é a palavra vocação. Basta ler algumas das noticias eclesiais para vermos como a palavra vocação aparece associada à ‘mendicidade’ de uma Igreja (a nossa!) mais preocupada em manter estruturas passadas do que abrir-se à graça infinita do futuro. A cada ano, neste Domingo do Bom Pastor, a palavra vocação ‘reaparece’. Em alguns lugares ela é compartilhada com o entusiasmo de quem tem dentro o ‘perfume da Páscoa’ e sente/sabe que o Pastor Bom e Belo é sempre o primeiro a entusiasmar-nos!  Noutros lugares, repete-se o discurso monótono e bafiento, mais cheio de medo e de autopreservação,...

A Igreja, por ser obra do Espirito Santo, vive em mudança(s) permanente(s). É bom que nunca nos falte esta consciência e que não nos falte também a coragem para ousar ‘a novidade que Deus espera de nós’: Um Povo de homens e mulheres, chamados pelo nome, para viver de maneira quotidiana a eternidade plantada pelo nosso batismo! Para isso, não basta somente falar de vocação, é necessária que nos sintamos convocados para sermos ‘o povo da Invocação’, isto é, a redescoberta daquele essencial que faz com que sejamos Páscoa para a história, Páscoa no coração do mundo e da Igreja...

Recorda-nos isso mesmo o Papa Francisco, naquela sua linguagem sempre transparente e cheia da graça de Deus, na Exortação ‘Alegrai-vos e Exultai’ quando diz:

“O Concílio Vaticano II salientou vigorosamente: «munidos de tantos e tão grandes meios de salvação, todos os fiéis, seja qual for a sua condição ou estado, são chamados pelo Senhor à perfeição do Pai, cada um por seu caminho». «Cada um por seu caminho», diz o Concílio. Por isso, uma pessoa não deve desanimar, quando contempla modelos de santidade que lhe parecem inatingíveis. Há testemunhos que são úteis para nos estimular e motivar, mas não para procurarmos copiá-los, porque isso poderia até afastar-nos do caminho, único e específico, que o Senhor predispôs para nós. Importante é que cada crente discirna o seu próprio caminho e traga à luz o melhor de si mesmo, quanto Deus colocou nele de muito pessoal (cf. 1 Cor 12, 7), e não se esgote procurando imitar algo que não foi pensado para ele. Todos estamos chamados a ser testemunhas, mas há muitas formas existenciais de testemunho. (...) Isto deveria entusiasmar e animar cada um a dar o melhor de si mesmo para crescer rumo àquele projeto, único e irrepetível, que Deus quis, desde toda a eternidade, para ele: «antes de te haver formado no ventre materno, Eu já te conhecia; antes que saísses do seio de tua mãe, Eu te consagrei» (Jer 1, 5).
Para ser santo, não é necessário ser bispo, sacerdote, religiosa ou religioso. Muitas vezes somos tentados a pensar que a santidade esteja reservada apenas àqueles que têm possibilidade de se afastar das ocupações comuns, para dedicar muito tempo à oração. Não é assim. Todos somos chamados a ser santos, vivendo com amor e oferecendo o próprio testemunho nas ocupações de cada dia, onde cada um se encontra. És uma consagrada ou um consagrado? Sê santo, vivendo com alegria a tua doação. Estás casado? Sê santo, amando e cuidando do teu marido ou da tua esposa, como Cristo fez com a Igreja. És um trabalhador? Sê santo, cumprindo com honestidade e competência o teu trabalho ao serviço dos irmãos. És progenitor, avó ou avô? Sê santo, ensinando com paciência as crianças a seguirem Jesus. Estás investido em autoridade? Sê santo, lutando pelo bem comum e renunciando aos teus interesses pessoais. Deixa que a graça do teu Batismo frutifique num caminho de santidade. Deixa que tudo esteja aberto a Deus e, para isso, opta por Ele, escolhe Deus sem cessar. Não desanimes, porque tens a força do Espírito Santo para tornar possível a santidade e, no fundo, esta é o fruto do Espírito Santo na tua vida (cf. Gal 5, 22-23). Quando sentires a tentação de te enredares na tua fragilidade, levanta os olhos para o Crucificado e diz-Lhe: «Senhor, sou um miserável! Mas Vós podeis realizar o milagre de me tornar um pouco melhor». Na Igreja, santa e formada por pecadores, encontrarás tudo o que precisas para crescer rumo à santidade. (...)
Esta santidade, a que o Senhor te chama, irá crescendo com pequenos gestos. (...) sucede, às vezes, que a vida apresenta desafios maiores e, através deles, o Senhor convida-nos a novas conversões que permitam à sua graça manifestar-se melhor na nossa existência, «para nos fazer participantes da sua santidade» (Heb 12, 10). Outras vezes trata-se apenas de encontrar uma forma mais perfeita de viver o que já fazemos: «há inspirações que nos fazem apenas tender para uma perfeição extraordinária das práticas ordinárias da vida cristã». Quando estava na prisão, o Cardeal Francisco Xavier Nguyen van Thuan renunciou a desgastar-se com a ânsia da sua libertação. A sua decisão foi «viver o momento presente, cumulando-o de amor»; eis o modo como a concretizava: «aproveito as ocasiões que vão surgindo cada dia para realizar ações ordinárias de maneira extraordinária».
 Deste modo, sob o impulso da graça divina, com muitos gestos vamos construindo aquela figura de santidade que Deus quis para nós: não como seres autossuficientes, mas «como bons administradores das várias graças de Deus» (1 Ped 4, 10). Os Bispos da Nova Zelândia ensinaram-nos, justamente, que é possível amar com o amor incondicional do Senhor, porque o Ressuscitado partilha a sua vida poderosa com as nossas vidas frágeis: «o seu amor não tem limites e, uma vez doado, nunca volta atrás. Foi incondicional e permaneceu fiel. Amar assim não é fácil, porque muitas vezes somos tão frágeis; mas, precisamente para podermos amar como Ele nos amou, Cristo partilha conosco a sua própria vida ressuscitada. Desta forma, a nossa vida demonstra o seu poder em ação, inclusive no meio da fragilidade humana»”. 



segunda-feira, março 26, 2018

OS OLHOS DO CENTURIÃO...



Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.  Assim escreveu Saramago, como que a provocar-nos com a pergunta que fica nas entrelinhas: Afinal, O que vês? Em que(m) reparas? Num tempo tão cheio de ritmos frenéticos, de indiferença e de ‘liturgias da banalidade', abre-se diante de nós um pórtico que interpela o nosso coração e a nossa inteligência, VEM AÍ A PÁSCOA!


Fomos chamados e convocados há 40 dias para um caminho de renovação interior. Logo no primeiro passo, que é sempre iniciativa d’Ele, começámos com a garantia de que Deus é o primeiro a acreditar em nós e o único que não desiste de nós. Ali mesmo Ele deixou claras as suas intenções: «Estabelecerei a minha aliança convosco, com a vossa descendência e com todos os seres vivos que vos acompanham ...» (Gen 9, 8-15 ).

Chegámos agora diante da Páscoa, estamos no começo da Semana Maior (ela não vai ter mais dias, mas é a grande semana que nos leva a mergulhar nas fontes da Salvação!). O que vimos (e ouvimos) durante o grande caminho dos 40 dias? Onde nos detivemos? Com que determinação deixámos Deus tocar nossas feridas e curar nossos lamentos? Onde o sussurro da Páscoa foi mais forte que o nosso medo e o nosso pecado? Deus chamou-nos para um caminho Batismal-Pascal e, como Pai, dispôs-se a moldar o nosso coração endurecido pelo medo e pela vergonha do pecado. De aliança em aliança foi-nos narrando e oferecendo ternura e recomeço...

Entremos então nesta ‘Semana da Ternura e do Recomeço deixando-nos guiar pelos olhos do centurião. Aquele homem, não sabemos se era o mesmo de Cafarnaum (Lc 7), era para os seus contemporâneos um homem importante, tinha poder e podia exigir obediência...No entanto, encontramo-lo ali, diante do calvário, mudo! Estava, num frente a frente com Jesus! Não sabemos o que o silêncio daquele espetáculo cruel lhe perguntava interiormente...Sabemos apenas que do seu olhar contemplativo e, do seu coração e inteligência, brotou a ‘bem-aventurança’ do Calvário: “Na verdade, Este homem era o Filho de Deus!” (Mc 14, 1- 15, 47)...

Os olhos do Centurião são janelas pelas quais a Ternura de Deus nos interpela a dar passos concretos rumo à Páscoa.  O que vamos viver e celebrar, o oceano em que vamos mergulhar nos próximos dias, não é uma liturgia da banalidade ou do superficial, muito menos um rito para aplacar a ira do deus-sádico, menos ainda um tempo para ‘lágrimas de crocodilo’...

A PÁSCOA VEM AO NOSSO ENCONTRO, pede-nos imersão, do coração e da vida, no coração de Deus. No Calvário é-nos oferecido sentido, sabor e significado para a nossa vulnerabilidade quotidiana. Da Cruz do Crucificado-Ressuscitado, Deus que é Pai de Misericórdia, quer-nos fazer beber das fontes da Salvação para que possamos caminhar com um Coração-Pascal. Talvez seja oportuno tatuarmos por dentro dos nossos corações esta certeza de Isaac de Nínive: “Deus só pode dar-nos o seu amor!”. Então, quando assim fizermos, abriremos nossos olhos e, como o centurião, também nós reconheceremos o nosso Salvador. O Salvador do Mundo. Por todos. Por Amor. Para Sempre! BOM CAMINHO. BOA SEMANA...SANTA!




segunda-feira, março 12, 2018

O ‘essencial’ do Evangelho...



Caro Nicodemos, faz algum tempo que queria escrever-te.

Sei que de Deus sabes muitas coisas, tens estudado a Torah e, nas tuas obras cotidianas, os ‘últimos’ têm encontrado em ti um bálsamo para as suas dores, seja pelas tuas palavras doces e plenas de sabedoria e sensibilidade, seja pela tua esmola generosa que sempre restitui dignidade e abre portas de esperança. Se outros me falassem de ti diriam que és um homem correto, honesto e caridoso. Nada mal, heim?!

Esta minha carta, caro Nicodemos, é mais do que ‘uma carta’, na verdade ela é uma conversa muito simples que faz tempo quero ter contigo. Sou, como tu, um peregrino. Amo a vida, as pessoas, a natureza. Gosto do que é simples, não fico indiferente diante do sofrimento, não me calo diante da injustiça e procuro viver cada dia plantando um pouco de ternura através daquilo que chamo ‘os milagres cotidianos’. Seria bom que tudo isso fosse diariamente a 100%, mas nunca te esqueças: sou um peregrino...sempre precisado de perdão ( = Recomeço). Não te disse ainda, mas sou discípulo de Jesus. Sim, esse que vens seguindo há já algum tempo em silêncio! E tem tanta gente fazendo o mesmo...

Vou contar-te um segredo: durante muito tempo houve uma pergunta que me tirou o sono: “Haverá um Amor capaz de curar, iluminar e salvar?”, imagino que também essa pergunta te acompanhe! Não te preocupes, não vou dar-te uma resposta, compreenderás mais tarde o motivo...

Sabes, Nicodemos, quando se busca o que é (e)terno, não bastam as ‘respostas já prontas’. Diante das grandes perguntas da vida há uma decisão importante: não se entregar à aparente ‘frustração’, isso já é um começo importante! Tem tanta gente que busca respostas e, na primeira ‘não resposta’, baixa os olhos e, daí em diante, apenas vê o chão...

Soube por João que esta noite vieste ao encontro de Jesus...sei como é entusiasmante esse caminho! Ir ao encontro de Jesus e deixar simplesmente que Ele nos olhe. Afinal, só Ele sabe quem nós somos! Descobrimos nessa hora o ‘essencial’ do Evangelho: “Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito, para que todo o que acredita n’Ele não morra, mas tenha a vida eterna. Porque Deus não enviou o Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele” (Jo 3, 16-17).

Caro Nicodemos, não sei o que farás depois desse encontro. Quero apenas dizer-te que a comunidade dos discípulos de Jesus, também conhecida como Igreja, estará de portas abertas para te acolher, a ti e a todos os outros ‘Nicodemos’ que de noite, ou de dia, andam à procura de uma luz e de um Amor capaz de curar, iluminar e salvar! Aqui as tuas dores serão as nossas dores, as tuas alegrias as nossas alegrias, e as tuas dúvidas, ao invés de serem um problema, serão mais um passo para juntos sedimentarmos o caminho do nosso seguimento de Jesus... Sê bem-vindo, meu irmão!



segunda-feira, fevereiro 05, 2018

A 'BOA NOTÍCIA'...


De quantas rugas é feita a tua história? Parece despropositada a pergunta. Para alguns será ‘deselegante’ e ofensiva, mas gostaria de começar por aqui esta semana!

Habitamos um tempo marcado por grande arrogância e violência. Ser vulnerável é ‘coisa de fracos’. Os afetos são facilmente mascarados (e manipulados!), as ‘etiquetas’ que colocamos nos outros  são uma ‘auto-defesa infantil’ de quem não é capaz de, com adultez e sabedoria, lidar com os próprios limites. E, pensar diferente, é hoje uma ‘ousadia quase pornográfica’...é paradoxal mas, quanto mais ‘democráticos’ dizemos ser, quer como pessoas, igreja ou sociedade, mais intolerantes nos manifestamos em nossas atitudes, palavras e gestos. Não se trata de um ‘diagnóstico pessimista’, até porque sou 'evangelicamente otimista' por natureza. Gosto de escutar e de contemplar as pessoas, e vou-me dando conta do quanto temos afetivamente regredido, humanamente decrescido e espiritualmente adoecido...voltemos à pergunta: "de quantas rugas é feita a tua história?"

Vem tudo isto a propósito da Palavra com que Deus nos visita esta semana (Mc 1, 29-39). Jesus continua itinerante (peregrino!) e revela-nos que uma ‘Igreja em saída’ implica também ‘sair da igreja’, pois nenhum muro pode deter a graça de Deus que é sempre ‘sedutoramente irradiante’, é que “a casa de Deus é um abrigo, não uma prisão” (Papa Francisco).  Jesus sai dos ‘limites religiosos’ e inicia uma ‘peregrinação da ternura’ que rompe preconceitos e derruba os muros da indiferença. Para seguir Jesus é preciso ‘não ter fronteiras’! Por onde passa, Ele se faz próximo, toca e ‘levanta’. 3 verbos essenciais para fazer irromper o Evangelho nos corações e na vida.

O ‘Mestre dos recomeços’, ensina-nos que segui-lO não implica um ‘intimismo de fuga’ nem, no extremo oposto, um apelo a sermos ‘tarefeiros do evangelho’. Na hora da ‘saída’, Jesus é claro: precisamos ser ‘porta escancarada’ para quem chega, sem qualquer tipo de blindagem ou subterfúgio (espiritual!). Precisamos cuidar e deixar-nos cuidar. Precisamos de silêncio e de palavras. Precisamos escutar, mas também responder. Precisamos rezar para saber discernir. Precisamos agir para não atrofiar o amor. Precisamos avançar...para ir ao encontro!

Sair, não ter fronteiras, tocar e curar. É neste ‘cenário’ que Cristo nos coloca e questiona. Diante da ‘síndrome da vida perfeita’, o Evangelho ‘devolve-nos’, como um espelho, as nossas dores e as nossas ‘rugas’ e leva-nos a descobrir, cada vez mais, que elas são fruto do afeto e da memória, do tempo compartilhado e da vida entregue. Sem pressas.

‘Sair’, não nos levará muito longe, talvez nos leve somente ‘até à Porta’... aí, no sabor e no saber de cada dia, descobriremos tantos e tantas, de ‘coração faminto de esperança’. Vão pedir-nos abrigo e ‘o pão dos afetos’. Nessa hora, tocaremos suas feridas, dançaremos juntos e, olhando-nos longamente nos olhos, ofereceremos uns aos outros os ‘sulcos’ que o tempo escavou em nossos rostos. Então, de mãos dadas, iremos sussurrar mutuamente essa entrega dizendo: 

Toma as minhas rugas, a minha história, o meu afeto, 
o meu tempo, a minha vida. Sem pressas”. 





terça-feira, janeiro 23, 2018

O QUE NOS FAZ CRISTÃOS?...


Eis a pergunta que nos pode acompanhar essa semana! Não te apresses em responder... saboreia a interrogação como um convite a fazer uma ‘peregrinação interior’.

O “vinde e vede” (Jo 1, 35-42) com que João nos colocou olhos-nos-olhos com Jesus, tem agora um capítulo novo e decisivo.  Não há discipulado sem intimidade, mas também não há seguimento de Jesus sem conversão. Discipulado e conversão são gêmeos! Duas faces de uma mesma moeda: seguir Jesus, ser como Ele foi, fazer como Ele fez!

É comum escutarmos em discurso religioso (com frequência quase infinita!) a palavra ‘conversão’, em muitos casos, ela tornou-se um jargão/refúgio de ‘disparo automático’. Importa esclarecer que ‘conversão’ não é uma ‘conversa grande’, muito menos algo ‘obscurantista’ do tipo ‘refúgio impermeável para preguiçosos’. A conversão dá trabalho! Ela nasce de uma urgência: “seguir Jesus de modo que o seu Evangelho seja guia concreta da vida; significa deixar que Deus nos transforme, parar de pensar que somos nós os únicos construtores da nossa existência; significa reconhecer que somos criaturas, que dependemos de Deus, do seu amor” (Bento XVI).

Há uma 'urgência do coração' que define prioridades! Naquele “Cumpriu-se o tempo e está próximo o Reino de Deus” (Mc 1, 14-20), o Evangelho introduz-nos num tempo e numa realidade nova. Deus convoca-nos para realizarmos, como dizia um grande pedagogo, os 'inéditos possíveis'. Pede-nos que façamos com Cristo o percurso das periferias (Galileia) para o centro (Jerusalém). Não se trata apenas de um itinerário geográfico, nem de meras referências ‘religiosas’, trata-se de um caminho de purificação da vida e da fé. Chegou a hora de abandonar todas as idolatrias (e são sempre tantas dentro de nós!). O ‘Deus Vivo’ pede-nos a coragem da humildade, a determinação do coração, a intimidade que transforma e a profundidade que renova.

A conversão nasce das ‘raízes do coração’. Quando Jesus nos interpela o coração e a vida, e nos recorda que se ‘cumpriu o tempo’, não está com isto a amedrontar-nos, ameaçar-nos ou a dizer-nos que agora tudo tem de ser feito à pressa... Está, isso sim, a fazer ressoar no nosso coração aquela ‘memória’ que nos desperta e recorda que somos nutridos por um amor infinito que nos levanta, acaricia e estimula a fazer caminho. Enquanto caminhava entre nós, recordava-nos o Ir. Roger de Taizé:

“Se soubesse que Deus vem sempre ter contigo...O mais importante é descobrir que Ele te ama, mesmo quando tu pensas que não O amas. Cristo espera ser acolhido por cada um de nós. Se tu não consegues dar-Lhe uma resposta, Ele respeita o teu silêncio. Mas quando te abres e O acolhes, por ação do Espírito Santo, cria dentro de ti uma comunhão íntima com Ele. Na surpresa dessa comunhão, Ele habita no mais fundo da tua alma. A sua presença é tão clara como a tua própria existência. Tens dúvidas? Escavam-se em ti como que buracos de incredulidade? Contudo, permaneces na fidelidade. A dúvida, por vezes, é apenas o outro lado da fé. Na invisibilidade da Sua presença, o Ressuscitado poderia dizer-te: “sei que há dias cinzentos e opacos na tua vida. Conheço as tuas dificuldades e a tua pobreza, mas apesar disso és abençoado, habitado por fontes vivas, fontes de fé escondidas no mais profundo de ti mesmo. A surpresa da presença de Jesus, o Ressuscitado, cria em ti uma morada de luz. Ela ilumina mesmo quando tudo parece envolto em obscuridade e brilha como brasas debaixo da cinza. Por vezes perguntas-te a ti mesmo: o fogo que há em mim vai apagar-se? Não foste tu que o acendeste. Não é a tua fé que cria Deus, não são as tuas dúvidas que O vão lançar para o nada. Lembra-te: o simples desejo de Deus é já o começo da fé. Quando te abres à vida eterna, a confiança da fé começa e não tem mais fim...”. Boa Semana!





segunda-feira, janeiro 08, 2018

QUANDO O CORAÇÃO VÊ...


Somos (e)ternos buscadores de sentido, sabor e significado. Como viandantes, somos ritmados pelo cotidiano que nos interpela e se apresenta diante do coração e da vida como ‘oferta de salvação’. Sim, precisamos ser salvos! Salvos, de dentro para fora, de tudo o que nos sufoca: os medos, as frustrações, a ansiedade, os nossos fracassos, os nossos pecados...enfim, tanta ‘bagagem’ para uma viagem onde só o essencial é necessário!

Gosto de olhar aqueles Magos, de que Mateus nos fala no Evangelho, como homens de coração inquieto, disponíveis e determinados. ‘Magos’ significa, literalmente, “ilustres” ou “grandes”; era a designação dada aos que se dedicavam à astrologia. Sendo ‘buscadores de sinais’, não os exigem. Sabem esperar. Sabem contemplar. Vivem com um coração não se entrega ao superficial.

Como os pastores, também os magos estão ‘nas periferias’. Não é a curiosidade que os move, é a sede da Vida! Eles sabem ver num ‘sinal que brilha na noite’ a convocação para ‘um novo dia’. Quando chega a luz do Céu, a ‘Glória a Deus nas alturas’ canta-se com os ‘pés na terra’, ‘peregrinando’, fazendo de cada passo um caminho sem retorno. O Céu ‘falou’ e o coração soube ‘ver’, agora é a ‘hora dos peregrinos’!
Os Magos interpelam-nos sobre ‘o que vemos’ e ‘o que contemplamos’. Com a sua determinação interrogam-nos sobre ‘o que esperamos’ e ‘com que disposição’. Com que frequência olhamos o Céu? Com que liberdade acolhemos os Seus sinais? Não são interrogações de ‘ocasião’, são o essencial para o nosso seguimento batismal de Jesus!

Não foi em vão que Jesus nos disse um dia: “Os últimos serão os primeiros”. Chegou a hora! Das ‘margens’ para o ‘Coração’, Jesus começa a convocar os ‘peregrinos’. De agora em diante o caminho faz-se passo a passo, dia após dia, seguindo-O com ‘determinada determinação’ (Teresa de Ávila). É uma convocação que vem do alto, que nos pede mergulho profundo ‘nas fontes da Salvação’. É que Isaías tinha razão, e com ele também nós cantamos e Adoramos neste dia:

“Deus é o meu Salvador, tenho confiança e nada temo. O Senhor é a minha força e o meu louvor. Ele é a minha salvação. Tirareis água, com alegria, das fontes da salvação. Agradecei ao Senhor, invocai o seu nome. Anunciai aos povos a grandeza das suas obras, proclamai a todos que o seu nome é Santo. Cantai ao Senhor, porque Ele fez maravilhas, anunciai-as em toda a terra. Entoai cânticos de alegria e exultai, habitantes de Sião: porque é grande no meio de vós o Santo de Israel» (cf. Is 12, 2-6)