segunda-feira, fevereiro 13, 2017

A ‘BENDITA TRANSGRESSÃO’...


Somos confrontados diariamente com um crescimento assustador da agressividade. Das palavras aos atos ela aí está, não só nos muros que se anunciam como ‘defesa’ da invasão dos migrantes ou no jargão repetido de que o oriente é uma ameaça pois nele (quase) todos são fundamentalistas ou na violência com que nos (des)informam os jornais, mas também nos nossos olhares recriminadores, nas nossas ‘palavras apressadas’, nos julgamentos silenciosos, muitas vezes carregados de ira ou sede de vingança...nenhum de nós está imune a esta ‘tentação quotidiana’.

Vem tudo isto a propósito da Palavra com que Deus visita o nosso coração esta semana (MT 5, 17-37). Há um caminho que Ele iniciou no mais intimo da nossa alma, o Concílio Vaticano II chamou-lhe ‘santuário da consciência’ (GS 16), é aí que Ele nos fala e revela o seu projeto de Amor. Pede-nos escuta atenta, uma fé de 'pés descalços’, um coração aberto ao discernimento. É assim que Ele nos faz saborear não somente o ‘amor à Lei’ mas aquela ‘Lei do Amor’ que Ele solenemente plantou e vem cuidando sempre que nos deixamos modelar e nos transformamos em ‘altar de reconciliação’.

O Encontro Pascal que gera o seguimento e o discipulado faz-nos descobrir que seguir Jesus implica sempre ‘ir além da lei’, é a ‘bendita transgressão’ que se torna ‘medida’ do Evangelho, sinal do Reino e da descoberta fundante de quem sabe, sente e vive que a sua identidade é a de servo inútil, nunca juíz!

Um coração ressuscitado nunca se detém na ‘matemática’, alegra-se sempre com ‘o milagre dos recomeços’, das feridas saradas, dos passos que ousam seguir em frente e para o alto! A plenitude, como nos revela Jesus não está somente (nem primeiramente!) no cumprimento escrupuloso da lei mas no sentido, sabor e significado que o ‘coração-santuário’ sabe descobrir nela e nos ‘pés descalços’ que, de passo em passo, sabem iniciar o caminho da mudança que, na lei do Amor, se chama ‘conversão’.

Somente tocados pela graça e habitados pelo Reino, é que podemos ser um ‘presente’ e uma ‘presença’ para o irmãos de quem nos esquecemos quando, na correria dos dias, vamos a caminho da casa do Pai... Não é à toa que o Evangelho nos manda ‘voltar atrás’...Reconciliar...(Re)unir...é assim que o dom se torna sal e luz para o mundo. E só assim se cumpre a Lei plenamente! Boa Semana!


"Embora aparentemente não nos traga benefícios tangíveis e imediatos, é indispensável prestar atenção e debruçar-nos sobre as novas formas de pobreza e fragilidade, nas quais somos chamados a reconhecer Cristo sofredor: os sem abrigo, os toxicodependentes, os refugiados, os povos indígenas, os idosos cada vez mais sós e abandonados, etc. Os migrantes representam um desafio especial para mim, por ser Pastor duma Igreja sem fronteiras que se sente mãe de todos. Por isso, exorto os países a uma abertura generosa, que, em vez de temer a destruição da identidade local, seja capaz de criar novas sínteses culturais. Como são belas as cidades que superam a desconfiança doentia e integram os que são diferentes, fazendo desta integração um novo factor de progresso! Como são encantadoras as cidades que, já no seu projecto arquitectónico, estão cheias de espaços que unem, relacionam, favorecem o reconhecimento do outro! Sempre me angustiou a situação das pessoas que são objecto das diferentes formas de tráfico. Quem dera que se ouvisse o grito de Deus, perguntando a todos nós: «Onde está o teu irmão?» (Gn 4, 9). Onde está o teu irmão escravo? Onde está o irmão que estás matando cada dia na pequena fábrica clandestina, na rede da prostituição, nas crianças usadas para a mendicidade, naquele que tem de trabalhar às escondidas porque não foi regularizado? Não nos façamos de distraídos! Há muita cumplicidade... A pergunta é para todos! Nas nossas cidades, está instalado este crime mafioso e aberrante, e muitos têm as mãos cheias de sangue devido a uma cómoda e muda cumplicidade." 

(Evangelli Gaudium 210-211)

terça-feira, janeiro 31, 2017

“ALEGRIA SEM RESSACA”...


De quanta alegria é feito o nosso caminho quotidiano? Quanta alegria oferecem as nossas palavras e o nosso olhar? Vivemos num tempo marcado por uma ‘cultura da insegurança’ que gera em muitos uma estranha nostalgia do passado. Os profetas da desgraça, que sempre se apresentam nestas circunstâncias, parecem querer roubar-nos a alegria sincera ao ‘demonizarem’ o mundo contemporâneo...incapazes de dialogarem, refugiam-se numa vida blindada pelo veneno da amargura de quem não sabe ver o bom, o bem e o belo; Incapazes de contemplar o milagre da presença e ação de Deus nos outros, tornam-se pregadores de uma solidão egoísta; Incapazes de se inclinarem para cuidar da fragilidade humana, tornam-se ‘fiscais’ com uma moral rígida cheia de absolutos e pouco aberta ao dinamismo da graça e do discernimento; incapazes de se deixar interrogar pelo dom, tornam-se idolatras de um deus criado à sua imagem e semelhança, a quem servem mais por medo do que por amor.

É bom não esquecermos que a alegria não se improvisa! A alegria cristã é fruto do encontro, um encontro Pascal que muda a vida com a radicalidade da simplicidade, do serviço e da fraternidade. Não é alienação, é compromisso!

Vem tudo isto a propósito do Evangelho que nos acompanha esta semana (Mt 5, 1-12). Em que consiste afinal a felicidade? O Evangelho faz-nos ver que é feliz aquele que abre o coração a Deus, aquele que se deixa ‘desnudar’ dos ‘absolutos que nos desfiguram’ e aceita caminhar na lógica da vulnerabilidade.

Para vencer a lógica do egoísmo somos chamados à pobreza; para vencer a indiferença o evangelho nos convoca para a compaixão; diante da agressividade o Evangelho nos interpela a viver o discernimento; diante das injustiças o Evangelho nos estimula à lógica da profecia e do compromisso; Se no caminho houver erros, falhas ou pecados o Evangelho coloca-nos diante da lógica do dom; diante da ‘mundanização’ e do desiquilíbrio o Evangelho nos chama a viver por inteiro no coração de Cristo; por fim, diante de todas as guerras (por dentro ou por fora) o Evangelho nos interpela a assumir a não violência como medida de sabedoria para fazer pontes e reconstruir o diálogo. Não se trata de uma lógica ‘perversa’ ou simplesmente ‘do avesso’, trata-se de um caminho espiritual que nasce do encontro com Cristo-Vivo e só se torna efetivo quando em nossos corações reinarem os mesmo sentimentos que habitam o d’Ele.


A alegria cristã não é ‘piegas’, muito menos ‘romântica’ como se fosse uma ‘cena perfeita’ de filme com final ao ‘estilo americano’, em tarde de domingo chuvoso com lareira acesa, manta e chocolate...A alegria cristã nasce do encontro e se fortalece e redescobre no discipulado! Ela tem essa capacidade paradoxal de se deixar experimentar, e de se fazer presente, mesmo no meio do mais árido dos desertos. É por isso que a alegria cristã nunca é alienação, nem dá ressaca! Ela é dinamismo e opção, é decisão e compromisso, é seguimento! E se ela estiver no início de tudo, não precisaremos de ‘esperar o fim’ para a saborear...ela nos dará o sabor e o saber em cada passo e fará do milagre da nossa existência uma ‘alegria completa’...quotidianamente! Boa Semana!


segunda-feira, janeiro 16, 2017

...NÃO É SÓ UMA QUESTÃO DE ÁGUA!


Zygmunt Bauman escreveu que “a vida é muito maior que a soma dos seus momentos”. O dom que nos é dado para viver não se resume à ‘contabilidade’ superficial dos bons ou maus acontecimentos, vai além! Em cada encontro, em cada lugar onde estamos, nas pessoas com quem nos cruzamos, nos caminhos que percorremos, há uma centelha divina que nos acompanha, ilumina e desafia.

Vem isto a propósito da Palavra com que Deus nos visita esta semana (Jo 1, 29-34). Jesus faz-se caminho e vem ao nosso encontro nas circunstâncias em que nos encontramos. Deus sempre gosta de nos visitar nos locais que habitamos! O ‘extraordinário’ de Deus acontece no nosso cotidiano, habitualmente na dinâmica de um encontro que suscita intimidade e seguimento. Tal como João, também nós precisamos estar atentos a Cristo que passa e aprender a decifrar os ‘sinais’ da Sua presença.

Sabemos que a predileção de Deus é começar sempre ‘pelas margens’, foi assim naquele encontro no rio Jordão, é também assim com cada um de nós. Onde houver necessidade de presença, cura, esperança e libertação, aí está Deus a fazer-se próximo, a transformar a partir de dentro, a atrair para caminhar juntos! Somente Ele sabe o que somos e o que precisamos, por isso não hesita um instante em se fazer consolação, misericórdia, ternura e salvação.

Jesus gosta de estreitar as margens, de fazer pontes, de iniciar o diálogo, de oferecer perdão, de abrir horizontes. Como Deus-Peregrino, Jesus oferece comunhão para vencermos a solidão e a indiferença, unge as nossas feridas e transforma os nossos corações para que possamos ser vasos de esperança para a humanidade, chama-nos para o seguirmos pois sabe que, mais do que nunca, o mundo precisa hoje de rostos e de ternura para (re)aprender a olhar para além da ‘soma dos momentos’ e a degustar com sabedoria e discernimento o eterno e o instante.

Contemplar, Acolher, Escutar, Seguir e Imitar Jesus, eis os verbos essências para uma ‘gramática cotidiana’ do nosso discipulado. Como tenho conjugado estes verbos? Qual o peso que eles têm na minha vida?

Só podemos ‘ver’ o que João viu quando estes verbos deixarem de ser apenas ‘infinitivos impessoais’ e se tornarem uma ‘conjugação pessoal’ de verbos transitivos que unem o cotidiano com o Mistério da Fé. Aí sim, veremos o ‘Cordeiro’, nos sentaremos em Sua mesa e saborearemos com Ele o Pão que dá vida e coragem, o Pão que nos transforma em ‘Luz para as nações’. Nessa hora, nossos olhos se abrirão para ver ‘mais além’ e ‘para o alto’ e o nosso batismo não terá sido somente ‘uma questão de água’, mas sim o motor decisivo de uma vida ritmada pelo ‘Fogo-Amor Eterno de Deus’ que permanece em nós e nos faz Ver-Seguir e Dizer: “Eu vi e dou testemunho de que Ele é o Filho de Deus”. BOA SEMANA!



Um bom desafio para esta semana pode ser a (re)leitura do nº 262-283 da Exortação Evangelii Gaudium do Papa Francisco procurando refletir sobre como andas a conjugar os verbos essenciais da ‘gramática do seguimento de Jesus’. Pode encontrar o texto do Papa clicando Aqui



terça-feira, dezembro 27, 2016

SAUDAÇÕES INCÔMODAS!...

(foto retirada de http://radioalansaar.co.za/barrel-bomb-attack-kills-11-children-in-syrias-aleppo-monitor/)

Caríssimos, eu desobedeceria ao meu dever de bispo se lhes dissesse “Feliz Natal” sem incomodá-los. E eu quero incomodar. Eu não posso suportar a ideia de fazer saudações inócuas, formais, impostas pela rotina do calendário.

Então, meus queridos irmãos, a vocês as minhas melhores saudações incômodas!

Que Jesus, nascido por amor, lhes dê náuseas pela vida egoísta, absurda, sem impulso vertical, e lhes conceda a graça de recriar a sua vida na doação de si mesmos, na oração, no silêncio, na coragem. Que o Bebê que dorme em cima da palha lhes tire o sono e faça vocês sentirem o travesseiro da sua cama tão duro quanto uma pedra até acolherem de verdade um desalojado, um necessitado, um pobre que vaga pelas suas ruas por falta de compaixão.

Que o Deus feito carne faça vocês se sentirem vermes toda vez que a sua carreira se tornar o ídolo da sua vida; toda vez que passar os outros para trás for o projeto dos seus dias; toda vez que as costas do próximo se tornarem o instrumento da sua escalada.

Que Maria, a mãe que só encontrou no esterco dos animais o berço em que deitar com ternura o fruto do seu ventre, force vocês, com os seus olhos feridos, a suspender suas festinhas de fim de ano até que a sua consciência hipócrita enxergue que as latas de lixo e os incineradores das clínicas são transformados impunemente em túmulos sem cruz de vidas humanas exterminadas.

Que José, aquele que encarou mil portas fechadas na cara e que é símbolo de todas as desilusões paternas, incomode a esbórnia da sua comilança e dê curto-circuito no seu desperdício de luzes piscantes até vocês entrarem em crise sincera diante do sofrimento de tantos pais que derramam lágrimas pelos filhos sem saúde, sem trabalho e sem oportunidades.

Que os anjos, anunciadores da paz, tragam a guerra à sua tranquilidade sonolenta, incapaz de enxergar que, sob o seu silêncio cúmplice, perpetram-se injustiças, expulsam-se pessoas, fabricam-se armas, militariza-se a terra dos humildes, condenam-se povos ao extermínio da fome.

Que os pobres que acorrem à gruta de Belém enquanto os poderosos conspiram na escuridão e a cidade dorme na indiferença façam vocês entenderem que, se quiserem ver “uma grande luz”, precisam se levantar e partir; façam vocês entenderem que as esmolas de quem lucra com o couro das pessoas são calmantes inúteis; façam vocês entenderem que as belas roupas compradas com o décimo terceiro podem até causar boa impressão, mas não aquecem a alma; façam vocês entenderem que a coexistência de pessoas sem lar e de especulação corporativa é um ato de horrendo sacrilégio.

Que os pastores que velavam no meio da noite vigiando o rebanho e perscrutando a alvorada deem a vocês um sentido para a história, a emoção da expectativa, a alegria do abandono em Deus e lhes inspirem o desejo profundo de viver pobres em espírito, porque viver pobre em espírito é a única maneira de morrer rico aos olhos de Deus.

Que, em nosso velho mundo moribundo, nasça a esperança. Feliz Natal!

(Nasceu 18 março 1935 /faleceu 20 abril 1993)



Se quiseres podes ainda ler as palavras incômodas do PAPA FRANCISCO clicando AQUI



segunda-feira, dezembro 19, 2016

(RE)NASCE!...


Todos os nomes têm rosto, trazem consigo uma história para contar, revelam-nos um mundo polifónico de afetos, uma sinfonia de sentimentos, experiências e vivências. Dar nome é, portanto, entrar num território sagrado, é tocar o mistério do outro...é dizer ao outro: “o que tu és, tem sentido e significado dentro de mim”.

Também Jesus quis ter um nome e uma família, quis fazer história conosco e em nós, quis dizer-nos, com o seu ser e agir, que n’Ele temos um sentido e um significado. Não somos um acaso ou simplesmente criaturas, somos seus irmãos, herdeiros com ele do Reino que o Pai preparou, n’Ele e com Ele somos uma história de salvação!

Diante do Amor não precisamos ter medo! O Amor fez-se Emanuel, um Deus-conosco e para nós, como nos recordou tão sabiamente Bento XVI: “O sinal de Deus é a simplicidade. O sinal de Deus é o menino. O sinal de Deus é que Ele faz-se pequeno por nós. Este é o seu modo de reinar. Ele não vem com poder e grandiosidades externas. Ele vem como menino - inerme e necessitado da nossa ajuda. Não nos quer dominar com a força. Tira-nos o medo da sua grandeza. Ele pede o nosso amor: por isto faz-se menino. Nada mais quer de nós senão o nosso amor, mediante o qual aprendemos espontaneamente a entrar nos seus sentimentos, no seu pensamento e na sua vontade - aprendemos a viver com Ele e a praticar com Ele a humildade da renúncia que faz parte da essência do amor. Deus fez-se pequeno a fim de que nós pudéssemos compreendê-Lo, acolhê-Lo, amá-Lo”.

Gosto de olhar José a saborear tudo isto interiormente (Mt 1, 18-24). Gosto de contemplar Deus a habitar os seus sonhos. Gosto do jeito com que Deus sussurra ao coração de José a ternura do Mistério que ele é chamado a acolher e a viver. No silêncio ativo de José gosto de ler as entrelinhas de quem se deixa moldar pelo divino Oleiro, de quem aceita fazer do seu nada amor. Gosto da determinação de José! Sim, para tudo é necessária uma ‘determinada determinação’ (Stª Teresa de Ávila) e José sabe que o caminho que Deus lhe abre diante dos olhos e do coração é o caminho da (e)ternidade, do dom, do silêncio que sabe dar-se e que se faz amor eterno.

A caminho do Natal, deixemos que o Mistério toque o nosso cotidiano. Deixemo-nos interrogar: “Como acolhemos a ternura de Deus? Deixo-me alcançar por Ele, deixo-me abraçar, ou impeço-Lhe de aproximar-Se? Porém a coisa mais importante não é procurá-Lo, mas deixar que seja Ele a procurar-me, a encontrar-me e a cobrir-me amorosamente com suas carícias. Esta é a pergunta que o Menino nos coloca com a sua mera presença: permito a Deus que me queira bem?” (Papa Francisco).

A casa está pronta. A mesa está posta. Por entre o frio gélido de um rigoroso inverno, vem ao nosso encontro a Luz do mundo, a única luz que aquece nossos corações e dissipa as nossas trevas. De quanta Luz vais encher o teu coração neste Natal? Com quanta Ternura vais aquecer os corações ao teu redor? Quantas portas vais destrancar e permitir aos outros que habitem a tua história sagrada?

Tal como Jesus, também o teu nome é uma história sagrada. Também o teu rosto é sinal de salvação! também a tua vida é um Evangelho. Também tu podes fazer a diferença. Crês nisso? Boa Semana. Vem aí o Natal...(Re)nasce!


*caso a indiferença ainda não te tenha anestesiado, a foto postada no início é de Aleppo...o que está a acontecer ali não é uma 'guerra civil'...é a terceira e pior das guerras mundiais...a da indiferença!

segunda-feira, dezembro 05, 2016

ARREPENDER-SE NÃO MATA, CONVERTE!


Nenhuma história pessoal é um livro já acabado! Somos ‘peregrinos’, a nossa história sagrada é feita dos ‘milagres’ cotidianos, dos pequenos encontros, do cruzar de olhares que vencem a indiferença, das batidas do coração algumas vezes aceleradas outras mais tranquilas...temos muito para narrar, dentro e fora de nós. Se nos déssemos conta do muito e do belo que acontece dentro de nós todos os dias, talvez os nossos olhos fossem menos míopes, nossos lábios menos lamurientos, nossas palavras mais afetuosas, nos gestos mais delicados e nosso coração um altar onde celebraríamos em cada entardecer a doce alegria da nossa existência.

Gosto de olhar o tempo do Advento com a tónica do afeto...gosto de contemplar o nosso Deus-paciente naquele Seu excesso de dom que o faz precipitar-se dos altos céus para ser conosco, e em nós, o Deus-baixíssimo...um Deus que não se limita à medida dos homens mas que é plenamente humano! Gosto de ler Deus nas entrelinhas da vida e ver, de surpresa em surpresa, o seu agir discreto e silencioso oferecendo uma paz não melancólica ou nostálgica, mas uma paz ativa que desperta sentidos, convoca a inteligência e pede discernimento. Gosto de escutar Deus nos seus profetas, os de ontem e os de hoje, e de vê-lo consolar, acompanhar e despertar o seu Povo...

A Palavra que nos nutre ao longo desta semana faz-nos entrar num dinamismo de novidade que transforma os nossos desertos em caminhos, as nossas certezas em tempo de discernimento, as nossas fragilidades em oportunidade de crescer, as nossas chagas em ‘tesouro fecundo’ que o tempo cicatriza fazendo delas porta do futuro. Naquele “Arrependei-vos” (Mt 13, 1-12) com que João nos inquieta nos desertos que nos habitam está condensada a provocação de Deus a deixarmos que Ele reine em nós, na nossa vida, em nossas opções, nos nossos afetos...é que onde Deus reina o humano é pleno, o silêncio torna-se fecundo, o agir não cansa.

Há arrependimentos que nos amarguram e torturam, neles há sempre histórias e acontecimentos que insistimos repetir, ruminar, até nos autodestruirmos e deprimirmos. Isso não é arrependimento, é apenas um processo de culpa e de acusação com que lutamos diariamente...e diante do qual nos sentimos sempre vencidos.
O arrependimento que nasce da fé não nos coloca ‘contra a parede’, não nos ‘aponta o dedo’, liberta-nos da culpa e aponta-nos caminhos! Arrepender-se não mata, converte! E toda a conversão é sempre uma primavera da alma que faz florir a esperança mesmo no meio do mais rigoroso inverno.


Esta semana vamos cruzar-nos no caminho com a ‘Cheia de Graça’, Ela nos garante como ‘sacramento da Ternura’ que o segredo é confiar. E toda a conversão começa sempre com esse gesto sublime de quem aceita entregar tudo nas mãos do único que nos pode oferecer recomeço. A todos. Sempre! Boa Semana.



domingo, novembro 27, 2016

Advento...PARTIR DO FUTURO!


Partilho contigo meu irmão do Advento, uma bela meditação de um profeta da Paz, e desejo-te um caminho 'inquieto' até ao Natal:

"Nós olhamos para o Advento um pouco demasiado a partir do homem. Talvez fosse necessário olhá-lo mais a partir de Deus. Explico:

O Advento a partir do homem

Há uma palavra chave que caracteriza este arco do ano litúrgico, e à volta do qual nós articulamos habilmente os conteúdos do anuncio cristão: espera.

É como uma matrioska: quando a abres encontras outra, isto é, a vigilância. Se abres essa, encontras dentro a esperança. E por aí adiante, até chegares às mais interessantes sub-espécies da mesma família. Colocadas a descoberto, todas estas matrioskas encheriam uma mesa de bons sentimentos.

É um jogo muito belo de implicações e explicações que nos faz ver quanto é extensa a realidade na qual se deve exprimir a nossa conversão neste período que nos prepara para o Natal.

Espera. Vigilância. Esperança. Oração. Pobreza. Penitência. Conversão. Testemunho. Solidariedade. Paz. Transparência. Depois de ter meditado os textos bíblicos, seria interessante sentar-se à volta da mesa com as pessoas e perguntar-lhes, a cada matrioska que vão abrindo, que nome dariam às outras que ainda estão dentro. Teríamos assim uma amostra de atitudes interiores que, por nascerem de um processo crítico, poderiam ser assumidas com mais facilidade como um quadro ascético para desenhar o caminho do Advento.

Mas, com este procedimento, continuamos ainda um pouco a partir do homem. Dá-se muitas vezes a impressão que o Advento constitui um expediente cíclico que com as suas fontes, nos estimula a recentrar a vida num plano moral, e basta.

Sem dúvida que isso não é errado. Mas corre-se o risco de transformar o Advento numa espécie de ginásio espiritual, no qual se pratica um treino intensivo das boas virtudes. Permanecendo sempre como um exercício excelente, mas dando uma imagem redutora deste grande momento de graça.

O advento a partir de Deus

É momento de olharmos agora as coisas a partir de Deus. Sim, porque no céu também hoje começa o advento, o período da espera. Aqui na terra é o homem que espera o regresso do Senhor. No céu é o Senhor que espera o regresso do homem.

É uma visão prospética esplendida, que nos faz recuperar uma dimensão menos preocupada dos aspectos morais da vida cristã e mais interessada no desígnio divino da salvação.

Talvez se pudesse repetir também aqui o jogo das matrioskas. Uma vez que também para Deus a palavra chave é espera: mas que ulteriores palavras se poderiam encontrar uma no interior da outra? Podemos tentar indicando duas, colhendo assim a alma dos textos bíblicos proclamados: salvação e paz.

A palavra salvação evoca o projeto final de Deus, tal como foi desenhado na primeira leitura e no salmo responsorial. Os povos que sobem ao monte do Senhor e que exultam finalmente diante de Jerusalém, exprimem o sobressalto de Deus que vê reunidos ao seu redor todos os povos na fase final do Reino. Expectativas irresistíveis de comunhão. Solidariedade com o homem. Desejo de comunicar-lhe a própria vida. Disponibilidade para um perdão sem cálculos. Estes são os sentimentos de Deus, tal como nos é dado colher na filigrana das leituras bíblicas.

Hoje é impossível, durante a liturgia, não se referir à ternura do Pai, à sua solicitude, à sua ânsia pelo retorno a casa de seu filho. Vem-nos em mente a expressão da parábola do filho pródigo: “Enquanto estava ainda longe, o Pai o viu” (Lc 15, 20). Aqui está o início da Esperança em cada um de nós. Coragem “a noite vai avançada, o dia está próximo. A nossa salvação está agora mais próxima do que quando abraçamos a fé”.

Aqui está também o inicio do compromisso. O que fazer para não desiludir as esperas do Senhor? Quais são as ‘obras das trevas’ que é preciso recusar, e quais são as ‘armas da luz das quais é preciso revestir-se?

Não se poderia fazer hoje, talvez com oportunos silêncios, um check-up, individual e coletivo, em termos de comunhão? Talvez se volte agora ao manual das boas atitudes morais, só que desta vez como uma galáxia de compromissos para que a alergia de Deus seja completa.

A Palavra Paz evoca, por sua vez, toda uma série de percursos obrigatórios para se chegar à salvação.

Hoje não devemos perder a ocasião de ser concretos e de dizer, sem frases enfraquecidas, que a paz, a justiça e a salvaguarda da criação são o trabalho primordial de cada comunidade cristã. Que acolher de mãos cheias a reserva utópica do Evangelho é o único realismo que hoje nos é consentido. Que ousar pela fé a Paz, desafiando o bom senso da carne e do sangue, é a ‘prova dos nove’ do crédito que damos à Palavra de Deus. Que a não violência ativa deve tornar-se critério irrenunciável que regula todos os relacionamentos pessoais e comunitários.

A profecia de Isaías não tolera interpretações cómodas. Se nós cristãos permitirmos o aumento dos arsenais de espadas e de lanças em detrimento dos arados e das foices, não responderemos às expectativas de Deus.

Assim também, se não soubermos ler em termos fortemente críticos os exercícios dos povos na arte da guerra, desvalorizaremos Isaías, extinguiremos a nossa dimensão profética e, dificilmente na noite de Natal, poderemos acolher a explosão daquele 'Shalom' anunciado pelos anjos aos homens que Deus ama (Lc 2, 14)".


+Don Tonino Bello, Bispo de Molfetta, Giovinazzo e Terlizzi,
faleceu com cancro em 1993, está a decorrer o seu processo de beatificação