Domingo, Março 18, 2012

É de dia…em plena noite!

Habituados que estamos ao cinzento dos dias [cheios de lamentações e desculpas] e à profunda escuridão da noite [de cada vez que desistimos de (com)viver], não será estranho vermos no diálogo nocturno de Nicodemos, também ele cheio de noite, um homem que parece procurar sem querer expor-se, alguém que precisa de aprender a confiar mas não se quer comprometer, alguém que busca mas não se quer deixar encontrar…

Aquele homem é uma parábola de todos nós. Por entre contradições e errância, também nós, tantas vezes, passamos pela vida cheios de medo e de noite, não deixando florescer a coragem e limitando-nos a obedecer ao medo de ser visto, de ser (re)conhecido, como alguém que anda à procura do Mestre, que quer escutá-Lo, que quer (re)conhecer-se n’Ele, com Ele…

O medo de errar torna-nos escravos, o medo de correr riscos minoriza a nossa criatividade, o medo de confiar torna-nos egoístas, vaidosos por causa de tudo…e com uma vida cheia de nada. É preciso romper a [nossa] noite com um coração disponível para a escuta…

Diante disto torna-se desconcertante/desafiador escutar S. Paulo que, luminosamente, em plena noite [a nossa!] faz despontar [por dentro!] a aurora de um dia radioso: “Deus, que é rico em misericórdia, restituiu-nos à vida com Cristo” (Ef 2, 4-10). S. João, com o seu olhar sempre contemplativo, obriga-nos a mergulhar em águas mais profundas, as do mistério amoroso de Deus, recordando-nos que: “Deus não enviou o Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele”( Jo 3, 14-21).

Na sabedoria colhida pelo povo, que viveu a dureza do exílio na Babilónia, ressoa um convite ao (re)começo, um convite a desenhar com um coração novo um tempo novo, é esse convite que é feito também a mim e a ti: “Quem de entre vós fizer parte do seu povo ponha-se a caminho e que Deus esteja com ele” (cf. 2 Crónicas 36, 14-23).

E tu, vais ficar aí parado?

...Não vês já a luz do dia a despontar nas tuas noites?

Domingo, Março 04, 2012

Transfigura(-TE)

Para crescer é preciso aprender a escutar.
Para amar é preciso dar-se.
Para ver não bastam os olhos, é preciso também o coração.
Para caminhar não basta saber onde se deve ir, é preciso dar passos
...pois, para quem tem fé, o futuro é sempre desconhecido, mas nunca é incerto.

A Transfiguração de Jesus vem perguntar-te então: Que tipo de homem/mulher queres ser tu, dos que arriscam (como Abraão) ou dos que se resignam numa passividade interminável?

É que “Transfigurar” a vida, o nosso quotidiano, é muito mais do que fazer coisas…é, acima de tudo, encontrar um sentido para tudo o que se faz. Nesta busca de sentido importa que não esqueças que Deus é o primeiro a acreditar(-Te) quando diz: “Este é o meu filho muito amado”.

Há já uma luz que brilha e um perfume que se sente lá no mais profundo de ti, é a luz da Páscoa e é o perfume da ressurreição, não a vês? não o sentes?

... e que tal, pelo menos hoje, ires à procura?...

Para te despertar do sono, da dormência da vida, S. Paulo recorda(-Te): Se Deus está por nós, quem estará contra nós? Deus, que não poupou o seu próprio Filho, mas O entregou à morte por todos nós, como não havia de nos dar, com Ele, todas as coisas? (Rom. 8, 31b-34).

Senhor, abre os nossos ouvidos à Tua voz
E rasga os nossos corações
com a ternura da Tua Palavra.
Transfigura os nossos dias,
Com o Teu amor feito Páscoa,
faz brilhar nas nossas trevas a luz do teu perdão,
e faz que os nossos gestos e palavras nunca sejam de vaidade e orgulho.
Reveste-nos de coragem para não cairmos na indolência
De quem se resigna a ver a vida passar…
E, no fim, dá-nos a alegria plena de viver para sempre contigo.

Terça-feira, Fevereiro 21, 2012

...e que tal começar pelo silêncio?

A nossa vida está cheia de palavras, de ruídos, de um frenesim incontável onde se calam o grito e a voz de tantos e tantas que, por não terem o que dizer, gemem, numa solidão que os tritura, num silêncio amargo que desgasta e destroi.

Habituámo-nos a correr, a passar pelo tempo e a não querer que ele passe por nós. E de desgaste em desgaste preenchemos os nossos dias com palavras ocas, vazias de sentido e sem sabor.

Aí a temos, uma vez mais, a QUARESMA. Vem como irmã e companheira para nos levantar o olhar (e o coração!) e nos fazer já sentir os sinais da PÁSCOA. É a PÁSCOA que se aproxima de nós, passo a passo, pois o Eterno Peregrino de Emaús vem uma vez mais explicar-nos o sentido da escritura e repartir connosco, para nós e em nós, o Pão da vida!

Para que a PÁSCOA aconteça há que vencer com ousadia os medos que sempre contornamos, há que enfrentar com verdade a verdade que tantas vezes calamos, há sobretudo que escutar essa voz que nos diz que o tempo novo já chegou, que a conversão já começou e que a mudança já se vê...é a voz d'Ele que uma vez mais te diz: estás pronto para (re)começar?

Quinta-feira, Fevereiro 02, 2012

Quem és tu?... (Consagrad@s)

Quem és tu,
que trazes o sol na fronte e no coração a imensa sede
De fazer de cada encontro um milagre de amor?

Quem és tu,
que habitas cada palavra
com o silêncio de um coração inquieto
pela justiça, pela paz, pela dignidade de cada homem e mulher?

Quem és tu,
Que por entre a noite cerrada denuncias que é morte:
a mentira, a vaidade e o orgulho?

Quem és tu,
Pobre instrumento,
vulnerável e cheio de alento,
a gritar a um mundo surdo
Como é estranho e absurdo
Calar-se quando o Amor
É mais forte do que a dor, a morte, a mentira ou a noite?

Neste dia, e balbuciando estas palavras, quero dizer um “Obrigado” muito especial a todos os consagrados e consagradas pelo seu testemunho luminoso de Vida e de Esperança.

Como vosso irmão, estou unido a cada um e cada uma, como sempre…No coração de Deus!

FELIZ DIA DO CONSAGRADO!

Sábado, Novembro 26, 2011

Educar(-se) na Esperança…

Há quem espere e há quem desespere e, na voragem do tempo presente, damo-nos conta que continuamos a correr demasiado. À nossa volta os ritmos vão sendo alterados, até a natureza, ainda que palidamente, começa já a dizer-nos que os seus ciclos, bem definidos por séculos, parecem agora querer alterar-se. Se olharmos mais atentamente, vamos ver já as ruas cheias de gente que em tempo de crise(s) vê apelos por todos os lados (promoções para todos os gostos: -20%, -50%, -70%...) e um sem fim de enfeites, luzinhas e montras que nos dizem: “já é natal!”.

Estranhamente, iniciamos hoje o tempo do Advento [tempo de expectativa, de espera paciente, isto é, plena de esperança] quase que em “contra-corrente” ao que já vêem os nossos olhos e ao rumor que já chega aos nossos ouvidos. Alguns que gostam de “comentar na hora” a realidade vão dizer uma vez mais que a Igreja é “retrógrada e incapaz de acompanhar a evolução dos tempos” e, também alguns mais habituados a conformar-se com o que é dito no imediato, acharão estas vozes sedutoras porque se auto-convencem (uma vez mais!) de que a vida é feita de pressa, a correr…e que não há tempo a perder. Esses continuarão a correr…para chegar a lado nenhum!

Todas as vidas são feitas de espera, esperança e expectativa. Num tempo tão centrado nos ponteiros do relógio, que parecem cavalgar cada segundo a um ritmo capaz de superar o próprio tempo, importa sobretudo redescobrir como precisamos de esperar e de esperança! Todo o fruto maduro só pode ser colhido, para ser verdadeiramente saboreado, no tempo oportuno. A vida toda, só pode ser lida na sua profundidade e verdade, quando “degustada” em cada encontro, em cada pormenor. Com tempo e com ritmo, mas sem pressa! Também é assim ser cristão. É sê-lo com tempo e com ritmo, sem a pressa voraz de um relógio que nos diz que o tempo passa sem nós passarmos por ele.

Habitando uma história concreta, a nossa e a dos homens e mulheres nossos irmãos, olhamos para o presente como um dom, mas sabemos que não temos aqui “morada permanente” e, voltados para “Aquele que sempre nos espera”, assumimos como medida para o tempo não o ritmo do relógio (Χρόνος) mas a Esperança.

Uma Esperança que refaz a vida a partir de cada encontro, olhos nos olhos com cada pessoa, coração-a-coração. Uma Esperança que em cada manhã abre os meus olhos para o milagre da vida e me convida a ser construtor de um futuro melhor onde humildade e verdade, empenho e dedicação caminham de mãos dadas. Uma esperança que não se torna uma alienação ou utopia que me distancia dos outros e da realidade, mas uma esperança que vê e me diz, no concreto da vida, que é aqui que acontece o tempo da salvação (καιρός).

É por isso que a Esperança Cristã, celebrada uma vez mais em advento, não é descompromisso mas empenho; é desafio, recomeço, construção. Ter esperança (ou esperar) para um cristão nunca é um exercício de individualismo, é sempre uma realidade dialógica:

Esperamos em Cristo, com Ele, n’Ele. Esperamos com a Igreja, casa dos ressuscitados, tenda da Esperança, testemunha da Nova e Eterna Aliança. Esperamos no Mundo com todos aqueles que querem ver mais longe e mais profundamente, sobretudo com os que têm fome e sede de justiça e de verdade, de misericórdia e de paz, de Amor…Esperamos com todos os viandantes que, com fome e sede de Deus, deixam que seja Ele o primeiro a encontrá-los.Esperamos, Alegramo-nos e Fazemos caminho…porque Ele vem!

Para aprofundar a Esperança, em tempo de advento, aqui fica uma sugestão de leitura (clicar AQUI)


Quarta-feira, Novembro 09, 2011

Tudo é um milagre…quando aprendemos a ver!

Há dias em que a rotina (parece que) nos mata! Há outros dias em que andamos tão anestesiados que não vemos um palmo à frente do nariz, tudo corre (e decorre) diante da nossa apática vontade. E há outros em que o dom e os dons de Deus parecem tão vivos e presentes que acabamos por despertar e dar-nos conta que afinal eles sempre lá estiveram…nós é que não quisemos vê-los!

Vem isto a propósito de um “milagre do quotidiano”, como costumo chamar-lhe.

Por estes dias, no rebuliço da vida académica quotidiana, uma colega partilhava comigo a dificuldade que uma outra colega sua estava a ter para realizar um determinado trabalho para uma das disciplinas que está a frequentar este semestre. Contou-me que a viu chorar muito estes dias, pois é estrangeira e está aqui apenas há 2 meses, e as dificuldades com a língua ainda são grandes, e sublinhou que ela não estava a ser capaz de escrever uma linha para esse bendito trabalho, de tão bloqueada que estava com os nervos.

Em segredo esta colega decidiu, para a ajudar e estimular, fazer-lhe uma das páginas desse trabalho, segundo ela a parte mais difícil, pois envolvia a análise de um estudo sociológico italiano e a consequente elaboração de um gráfico com dados estatísticos… e lá meteu mãos à obra! Pediu a minha ajuda e, durante a hora de almoço, lá trabalhámos. Depois do trabalho feito fomos participar num simpósio organizado pela nossa Universidade sobre “a Missão em tempos de Nova Evangelização”.

Terminado o simpósio, Roma brindava-nos com um inicio de noite muito chuvoso, tínhamos de apanhar o autocarro e lá saímos apressados do auditório; Enquanto saíamos ela agradecia imenso a ajuda, com os olhos a brilhar de lágrimas, pois tinha a certeza de que quando chegasse a casa a colega, que não sabia desta sua iniciativa, iria sentir-se bem e iria animar-se.

Enquanto passávamos apressados diante da capela da universidade ela puxa-me pelo braço e diz-me: “anda daí que eu não posso ir embora sem te agradecer a ajuda”. Eu lá lhe disse que não precisava de me agradecer, etc. e lá acabámos por entrar na capela da universidade.

Ajoelhámo-nos e ela começou a prostrar-se e a beijar o chão. Fazia-o com uma delicadeza tal que me impressionou. Ficámos ali alguns instantes em silêncio, e quando saímos disse-me: “é assim que se agradece a alguém na minha cultura! E como eu sei que o fizeste por Deus não podíamos ir embora sem eu Lhe agradecer a ajuda que ele me deu por ti. Obrigado!”. Dei-lhe um abraço e lá fomos apanhar o autocarro.

Diante de mais este “milagre do quotidiano” dei por mim em silêncio, por entre a chuva e um autocarro cheio de gente, a recordar-me do dia da minha ordenação sacerdotal, também eu prostrado por terra a escutar a ladainha dos santos…e a dizer-Lhe: “Obrigado, eis-me aqui!” Cheguei a casa, ainda em silêncio, era o fim de mais um dia, mas com uma certeza renovada: Tudo é um milagre…quando aprendemos a ver!

www.youtube.com/watch?v=zUed26NaIz0



Segunda-feira, Maio 30, 2011

O Anjo da Palavra...






Atravessado, a pé enxuto,
nos meus desertos,
pelo Anjo da Palavra,

vou colhendo nos seus passos
o doce mel com que me regou...




e vou, saboreando a Alegria


(que sedutoramente me atrai)
de seguir os trilhos da Palavra

deixando-me narrar, em cada passo,
por Aquele que é o Autor da Vida!





"Não temas", disse-me.


"Achaste graça aos olhos de Deus!"
Mergulhado no mistério


dei por mim a ver o Invisível


e, com o coração no Essencial,


segui o Anjo...



atravessei o pórtico da Esperança


e bebi, na torrente da Vida, a Eternidade.



Sei que agora,


mesmo que vulnerável,


com o coração trespassado pela Páscoa,


por entre as exigências da ternura,


devo ser ponte...vida...silêncio...Amor.