quinta-feira, fevereiro 27, 2020

LEVA-ME MAIS LONGE...

É o primeiro passo que determina o ritmo do caminho. Nesta hora do "primeiro passo", é bom relembrar que a Páscoa vem ao nosso encontro! Sim, é para ela que caminhamos de "corações ao alto", sem ilusões, mas com o coração habitado pela serena confiança de quem sabe que Deus é o primeiro a acreditar em nós...e o único que sempre nos oferece recomeço.

Move-nos a certeza de que a Sua misericórdia é infinita; alegra-nos a oferta que Ele nos faz de uma Esperança que não é alienação; estimula o nosso caminhar a força da Oração e o 'perfume' da Caridade e, para tornar ainda mais lúcido o nosso discernimento, vivemos este tempo jejuando da banalidade. Sim, a quaresma não é tempo para remoer o passado, mas caminho de alegria para as núpcias do Cordeiro. Também não é tempo de rostos sombrios, nem melancólica amargura diante da história . A quaresma é tempo de plena liberdade diante de Deus e dos homens. É  tempo para agradecer, confiar e (re)aprender,  divinamente, o que nos faz humanos. 

Só os corações peregrinos conseguem habitar este mistério: a quaresma 'parte do futuro' para nos (re)lembrar que Deus continua a ter fé na gente! 

O caminho chama-nos para o primeiro passo...Vamos?!

Ao longo do caminho, podemos ir degustando, esta sublime melodia:

"Luz terna e suave, no meio da noite
Leva-me mais longe
Não tenho aqui morada permanente... "


quarta-feira, janeiro 01, 2020

(RE)COMEÇAR...ABENÇOANDO!



Aqui estamos, diante de um novo ano. Tempo de memória agradecida. Tempo de (re)começo. No mistério da fé sabemos que o futuro é apenas desconhecido, nunca incerto! Por isso, ousamos, diante do novo, fazer projetos, esculpir no tempo os traços da eternidade que nos habita e ver além dos dias e da história. Todo o recomeço é sempre contemplativo, um apelo a ver por dentro, nas raízes do coração, o mistério que somos e que se desvela no encontro com o outro...

Cada (re)começo é habitado por uma promessa: “Fazer novas todas as coisas”! Por isso, a cada ano que finda e (re)inicia, somos chamados a percorrer o grande mosaico da nossa história pessoal e a beijar nossas cicatrizes, sabendo que o tempo que passou deixou suas carícias indeléveis e nos faz agora, de coração escancarado, olhar com “determinada determinação” a novidade que está por vir.  

Gosto de olhar o novo como uma bênção. O novo é também processo de (des)construção. Diante dele é necessário descalçar as sandálias e caminhar na vulnerabilidade própria dos (re)começos. Não está tudo escrito, há muito a ser construído, compartilhado, comungado. O novo nos chama mais a ousar do que a temer! E esse é o grande sonho de Deus para nós: sermos, com Ele, protagonistas de uma história tecida, pelos fios da ternura e da misericórdia, que nos leva a sussurrar-lhe: “Abbá, Pai!”.
                                                                                                                         
Eis-nos no tempo novo! Diante de nós está o futuro cheio de possibilidades. É tempo de contemplar, ousar, celebrar...e arriscar. O novo chama por nós pedindo-nos confiança, amabilidade e criatividade. No “ainda não escrito” há uma eternidade que quer habitar nossos passos, nosso olhar, lábios, mãos e coração. Bora lá? E que tal (re)começar...abençoando?

Para ti, meu irmão, Feliz (re)começo de 2020! 

“O Senhor te abençoe e te guarde! O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face, e se compadeça de ti! O Senhor volte para ti o seu rosto e te dê a paz!” (Nm 6, 22-27).



terça-feira, dezembro 24, 2019

O(S) SEGREDO(S) DA MANJEDOURA...


"Deus não é uma ideia", é assim que a manjedoura começa por nos provocar ao mostrar-nos este grande mistério que celebramos. O Natal não é, portanto, um (re)começo, mas a plenitude do que somos e do que nos espera. Nascemos no Amor. Vivemos para Amar. E, no ocaso da vida, será o Amor a abraçar-nos e a sussurrar aos nossos corações: "Sê bem-vindo, Filho!".

"Deus não nos quer domesticados", é outra das provocações. No mistério do Natal, Ele é o primeiro a romper fronteiras, a iluminar os caminhos ainda não percorridos e a convocar-nos para a 'Peregrinação da Esperança', o cotidiano. Ele, e só Ele, é o primeiro a acreditar em nós e o único que não desiste de ter fé na gente! Um Deus assim, vale a pena chamar de Pai, "Abbà"...

"Deus se fez homem". Este é o segredo fundamental do Natal, talvez esse 'segredo' já não nos cause espanto, admiração, fé...Num tempo de consciências anestesiadas e indiferentes, talvez até a palavra Deus pareça não mais fazer sentido...Mas Ele conhece o nosso coração e sabe que em nosso peito há uma sede de infinito que só Ele, o Deus-conosco, pode saciar.

Misteriosamente escondido em nossa humanidade, Cristo deixa hoje "a manjedoura vazia" e...aí vai Ele, peregrino, no meio de nós, para nos fazer saborear o céu em cada encontro, pedindo-nos apenas que ousemos ser humanos, contemplativos do rosto do outro...que é meu irmão...rosto de Deus. 

Feliz Natal!




sábado, novembro 02, 2019

TU, QUE EU AMO, NÃO MORRERÁS! (Sobre a morte...e o sentido da vida)


Cara irmã morte, decidi escrever-te uma carta. 

Trago-te ‘colada’ a mim desde o dia em que nasci. Sei que no dia em que decidires vir ao meu encontro, para que eu faça a minha ‘última viagem’, há sonhos que vão ficar por realizar, palavras que vão ficar por dizer, abraços que vão ficar por dar…há também memórias que levarei comigo, rostos que jamais esquecerei! Será uma viagem feita de recordações, cheia de partilhas, com muita gratidão nos lábios e no coração. Nesse dia não me roubarás nada, apenas me convidarás a ‘ir mais adiante’ no caminho que desde sempre estava preparado para mim.

Queria pedir-te, no entanto, que quando ‘me abraçares’ tragas contigo, para derramar no coração daqueles que ficam, o ‘perfume da eternidade’. Não te peço que os impeças de chorar, pois sei que cada lágrima na hora da partida é um pequeno diamante que o amor foi lapidando ao longo da vida. Também não te peço que os iludas ou ‘anestesies’ tentando convencê-los que não é dor aquilo que sentem. Deixa que eles me sintam a desprender-me dos seus braços, faz que sintam ainda, por uma última vez, a doçura das minhas carícias e o calor do meu respirar. Deixa que me olhem nos olhos para me dizer: “a-Deus!” e assim me possam confiar (e confiar-se também eles!) Àquele que me sonhou, amou, fez viver e que agora me espera para entrar, do outro lado da porta da Vida, naquela comunhão de Amor que vai para além da paz e do silêncio do cemitério.

Nesse dia, em que o silêncio será teu companheiro de viagem, não te peço flores de alto preço, nem longos discursos, muito menos te peço que se escondam as lágrimas com óculos de sol. Não te peço, por fim, que me canonizem ou, no outro extremo, que me amaldiçoem. Peço-te apenas que dês àqueles a quem eventualmente magoei um pedido sincero de perdão e a certeza de que, abraçado pela infinita misericórdia de Deus, no céu serei seu intercessor; Se ainda puderes, e quiseres, deixa naqueles a quem mais amo, tatuada a certeza de que estarão sempre comigo. E, naqueles para quem tu és olhada como uma ‘irmã severa’, peço-te que faças germinar no seu íntimo a certeza serena da Esperança eterna, que agora se faz porta para que eu possa entrar no coração da Vida!

Cara irmã morte, peço-te apenas que, como no comum dos dias, esse ‘último abraço’ e esse “a-Deus” sejam marcados pela simplicidade e pela gratidão de um coração que cantou e viveu a alegria em cada passo. Que se cantem ‘aleluias serenos’. Sobre o caixão apenas ‘grãos de trigo’. Nos lábios palavras de ternura colhidas na Palavra. No coração, não o vazio mas a Vida. E quando a terra me entregar ao céu entoe-se um ‘magnificat’ cheio de Páscoa!

E agora, minha querida irmã, antes de terminar esta carta, e sabendo que todos os dias nos visitas, a nós que somos aqui peregrinos, deixa que desta vez seja eu que te abrace, te ‘surpreenda’ e te faça ‘degustar’ com a serena certeza que Aquele que me ama tatuou para sempre no meu coração:

«Eu sei que o meu Redentor está vivo e no último dia Se levantará sobre a terra. Revestido da minha pele, estarei de pé; na minha carne verei a Deus. Eu próprio O verei, meus olhos O hão-de contemplar» (Jó 19).

Minha querida irmã morte, vamo-nos cruzando, por aí, na ‘dança da vida’. Sabes, não te temo, e, no dia em que vieres, faremos juntos uma festa com a certeza de que em Cristo “nascemos e jamais morreremos” (Chiara Corbella).



sexta-feira, novembro 01, 2019

Com os pés no chão!...


A santidade não se improvisa. Também não é abstração. É a vida. Nua e cotidiana. Sem maquiagem. O Santo não é alguém desconectado, assexuado ou que vive numa bolha com medo de se ‘contaminar’. Os santos (Todos os Santos!) tiveram paixão, ternura, ousadia... profecia! São santos porque amaram!

Os santos trazem em si o perfume da Páscoa e, por onde passam, não somente tocam o chão da vida, mas também desnudam nossas almas e nos fazem ver para além da banalidade...Ensinam-nos a habitar a eternidade com um coração samaritano e, muito para além da cor pálida do rosto com que os fomos pintando e colocando em nossos altares, nos ensinam que (só) se chega ao céu com os pés na terra!

Como seria, talvez ainda mais provocador, se ao invés de colocarmos em nossas igrejas os santos em altares os colocássemos por terra, do nosso lado, com os pés no chão, para nos (re)lembrar e provocar a fazer de cada caminho cotidiano uma peregrinação onde cada passo nos leve a desejar, ainda mais, ser santo, ser céu...já...aqui...Hoje!

Por onde começa a santidade? Pelo encontro! Deixa que Ele possa ‘dançar’ e sussurrar no ‘santuário da tua consciência’ e na ‘tenda do teu coração’ aquela Palavra que te trará a paz interior que tantos buscas e aquela luz te fará ver, a partir de hoje, o invisível. Ele já anda por aí...pressentes os seus passos?





Diz(-nos) o Papa Francisco:

“Deixa que a graça do teu Batismo frutifique num caminho de santidade. Deixa que tudo esteja aberto a Deus e, para isso, opta por Ele, escolhe Deus sem cessar. Não desanimes, porque tens a força do Espírito Santo para tornar possível a santidade e, no fundo, esta é o fruto do Espírito Santo na tua vida. Quando sentires a tentação de te enredares na tua fragilidade, levanta os olhos para o Crucificado e diz-Lhe: «Senhor, sou um miserável! Mas Tu podes realizar o milagre de me tornar um pouco melhor». (...) Não tenhas medo da santidade. Não te tirará forças, nem vida nem alegria. Muito pelo contrário, porque chegarás a ser o que o Pai pensou quando te criou e serás fiel ao teu próprio ser. Depender d’Ele liberta-nos das escravidões e leva-nos a reconhecer a nossa dignidade. (...) Não tenhas medo de apontar para mais alto, de te deixares amar e libertar por Deus. Não tenhas medo de te deixares guiar pelo Espírito Santo. A santidade não te torna menos humano, porque é o encontro da tua fragilidade com a força da graça. No fundo, como dizia León Bloy, na vida «existe apenas uma tristeza: a de não ser santo»”.


domingo, abril 21, 2019

POR AMOR. PARA SEMPRE!


De quanta Páscoa é feita a tua vida? Não se trata de uma metáfora, mas de uma pergunta vital para quem encontrou em Cristo o sentido, o sabor e o significado da sua existência

Celebramos, com profunda alegria, a Páscoa de Jesus. Nossas igrejas se enchem de aleluias festivos, de flores e de tantos sinais que nos falam de esperança, futuro e renovação. Por entre cânticos de júbilo e de festa, é importante recordar que a Alegria Pascal não dá ressaca. Não é uma alegria mundana, é comunicação de Vida e Salvação. 

A Páscoa não nos pede coisas, pede-nos a vida. Por inteiro. Sabemos que na vida cotidiana podemos programar o divertimento, mas não a alegria. A alegria só nasce em vidas que se deixam trabalhar pelas ‘mãos do amor’, em olhares que não se deixam vencer pela indiferença, em corações que não se apegam ao ódio ou ao rancor…compreendem bem este ‘mistério’ os pobres! Sim, só os que vivem com ‘um coração de pobre’ é que sabem pressentir e degustar este vibrar cotidiano das ‘cordas do coração’ tocadas pelo amor sempre (e)terno de Deus.

A Páscoa de Jesus não é apenas uma alegria reservada a nós que nos reunimos em igreja, é Páscoa para o mundo, é ‘excesso do dom’ de um Deus que só sabe amar! A alegria Pascal não é egoísta, nem alienada, é concreta, contemplativa, oblativa, como o Pai que amou tanto o mundo que lhe deu o Seu Filho (Jo 3, 16). Páscoa é vida abundante que podemos beber no Coração de Cristo e que faz sintonizar todo nosso ser e agir, como diz o Concílio Vaticano II, com “as alegrias e esperanças, tristezas e angústias dos homens e mulheres nossos contemporâneos, dado que não há nada de verdadeiramente humano que possa ser estranho ao coração de um discípulo de Cristo” (Gaudium et Spes 1). 

Celebramos hoje a Ressurreição de Cristo, Alegria Eucarística e Compartilhada. Não celebramos apenas um evento, nem uma data na agenda, celebramos um Encontro e uma Vida feita de Amor oblativo, a partir do altar da Cruz, que se oferece a nós como pão para os famintos, caminho para os peregrinos, luz para as nossas trevas, misericórdia para todos. Por isso, a Páscoa não é um fim, é um começo, de um mundo novo, feito de irmãos. Por Cristo. Com Cristo. Em Cristo. Boa Páscoa!


quinta-feira, março 07, 2019

“Não precisamos temer o silêncio verdadeiro...”


Entrevista realizada por:
Mons. Virgílio Almeida e Prof. Luis Miranda
em exclusivo para o Jornal O Auxílio - Paróquia Nossa Senhora Auxílio dos Cristãos - Bessa (PB)



1. D. Laurence, vamos iniciar o período da quaresma, que entre tantos apelos nos convida à oração. “Entra no teu quarto e fecha a porta… e ora”. Que significa este convite para as pessoas do nosso tempo?

Passamos a ter uma cultura muito extrovertida e distraída. Nossos celulares e nossa mídia nos alienaram de nosso aposento interior. A interioridade é o primeiro elemento dos ensinamentos de Jesus acerca da prece. Caso não redescubramos esse significado estaremos condenados à superficialidade. O caminho para o aposento interior é simples, mas não é fácil. A meditação é a disciplina espiritual de um discípulo de Jesus.

2. Vivemos uma cultura, marcada pela ocupação, o ruído, o barulho…Encontramos pessoas cansadas e abatidas pelo peso da vida. Falamos muito de uma verdadeira "Crise existencial”, “vazio interior”.  Em que sentido o silêncio e a meditação podem inaugurar um novo caminho de paz interior, de equanimidade, sendo um “Evangelho” para o nosso tempo?

A meditação faz parte de nossa tradição espiritual e modo de orar. Mas, também é uma expertise de sobrevivência em nossa atualidade. O aprendizado da meditação é uma urgente prioridade. Melhor será se começarmos quando ainda crianças nas salas de aulas. Mas, também precisamos aprender em idade mais madura, e para isso precisamos de apoio. Felizmente, a meditação gera comunidade. Só precisamos começar.

3. D. Laurence, depois deste longo percurso da ‘meditação cristã’, há ainda algumas pessoas que não sabem o que ela é. Se tivesse que dar uma breve definição a nossos leitores, o que diria?

Trata-se da prece do coração: ela segue os ensinamentos de Jesus acerca da prece. Também é uma sabedoria universal que encontramos em todas as tradições. A meditação alia o silêncio à imobilidade e, à simplicidade, que são os elementos essenciais da contemplação. Ela é uma tradicional prática que encontramos na Igreja primitiva. Sente-se, esteja quieto(a), feche seus olhos. Repita mentalmente, e no seu coração, uma única palavra de prece. Sugerimos o termo antigo Maranathá (do Aramaico = Vem, Senhor!). Repita-o fielmente e continuamente, de modo a aprender a colocar de lado todos os pensamentos e imagens, pela repetição dessa única palavra. O objetivo disso é o de nos tornarmos radicalmente pobres em espírito. O resto é o trabalho do Espírito. Meditamos para nos aproximarmos mais da união com Jesus, e para adentrar a prece dele, de modo à com ele nos movermos para além do ego ao Pai no Espírito.

4. Em alguns círculos religiosos, cria-se uma suspeita da "pratica de meditação”. Em que a “Meditação Cristã se assemelha e como se diferencia das práticas orientais e de outros grupos não cristãos?

A meditação é cristã se meditamos na fé cristã, de modo a nos aproximarmos de Jesus. Trata-se de parcela de nossa tradição histórica e teológica. Meditamos com outros cristãos. A meditação não substitui quaisquer outras formas de prece, mas preenche a dimensão que falta à prece.

5. Encontramos em tantas pessoas um desejo de paz, de bênçãos, de contato com o divino. Quais os benefícios e frutos na vida de quem consegue fazer a Meditação Cristã regularmente?

Os benefícios podem ser medidos: na saúde cardiovascular, no sistema imunológico, no relaxamento, na melhoria da qualidade do sono, etc. Mas, esses benefícios são apenas os sinais exteriores de frutos espirituais mais profundos, aquilo que São Paulo chamava de a colheita do espírito (amor, alegria, paciência, bondade, suavidade, e auto-controle). Identificamos isso em nosso relacionamento com nós mesmos e, especialmente, com os outros.

6. Como falar da relação entre Meditação e saúde mental, entre Meditação e uma vida espiritual consistente?

Na tradição mística o termo para saúde espiritual é “apatheia”. Sem isso, calma e equanimidade, integração e harmonia pessoal, não poderemos estar íntegros e em paz em nós mesmos.

7. Por que as pessoas desejam, mas têm um certo medo do silêncio, têm dificuldades de uma pratica regular?  Que orientações daria a quem deseja iniciar um caminho de fé pela via do silêncio, da meditação?

Temos medo da realidade, mas deveríamos temer mais a ilusão. A meditação se parece a uma criança. Caso tenha medo do silêncio e da imobilidade, procure meditar com crianças. Elas nos mostram o quanto a meditação é natural e universal. Nada tema, Jesus disse. Assim, só é necessário começar, e tudo o que você precisa lhe será dado.

8. Estamos para iniciar o tempo quaresmal, tempo de deserto, de silêncio, de oração. Mas também é tempo de viver a Palavra, de cultivar a Caridade Há ainda quem pense que o caminho da oração/contemplação significa desligar-se da realidade. O que tem a nos dizer sobre isso? É a Meditação um caminho individualista ou exatamente o contrário, nos lança na aventura da caridade, da tolerância, da compaixão, da unidade com os outros?

A meditação é a cura, o antídoto, para a solidão e o isolamento. É o caminho da solitude, que é o reconhecimento e a aceitação de nossa identidade única aos olhos de Deus. Caso lhe pareça como um deserto, isso é bom. Jesus se encaminhou para o deserto para se encontrar a si mesmo em Deus, o Pai, e de lá saiu forte e cheio de coragem. Assim é também conosco.  A meditação é o nosso deserto, a região onde encontramos Deus em solitude, e onde transformamos nosso modo de viver e de nos relacionarmos com nós mesmos e com os outros.

9. Falamos em deserto, em silêncio. Quais são, na sua opinião, os grandes desertos que a humanidade está a atravessar? Que ‘silêncios’ mais o preocupam?

O silêncio é o fruto da atenção amorosa. Não é algo negativo. Trata-se de perfeita comunhão e da plenitude de comunicação. Deveríamos temer o falso silêncio que é recusa de nos abrirmos, de nos comunicarmos. Não precisamos temer o silêncio verdadeiro que nos conduz à plenitude da presença de Deus. “Parai e sabei que Eu sou Deus”. A meditação reduz e afinal sobrepuja o medo porque ela é a obra do amor, e o amor perfeito expulsa o medo.

10. Que sugestões daria a um cristão para viver bem esta quaresma que agora se inicia?

Tanto quanto possa: medite toda manhã e toda tarde, durante 20 minutos, ou tanto quanto consiga. Repita a sua palavra de prece ao longo de todo a meditação, de modo que você possa estar na real presença de Jesus, direta e plenamente. Adicionalmente, procure evitar o álcool e os doces (é o que eu faço), de modo a poder exercitar algum autocontrole e cuidado para com o corpo, que é o templo do espírito e um instrumento da prece. Busque a oportunidade especial que cada dia te oferece de ser gentil e generoso(a) para alguém (sem esperar agradecimento ou reconhecimento). Leia o Evangelho do dia após a meditação da manhã e da tarde. E esteja alegre e em paz. Nada há a temer, se você estiver disponível para o amor que flui em seu coração. Esteja disponível para mudanças.



Quem é Dom Laurence Freeman?

Laurence Freeman nasceu na Inglaterra em 1951 onde recebeu educação beneditina e estudou Literatura Inglesa no New College da Universidade de Oxford. Antes de entrar para a vida monástica ele trabalhou para a ONU em Nova Yorque, em banco e em jornalismo. Hoje D. Laurence é um monge beneditino do Mosteiro Christ our Saviour, de Turvey, na Inglaterra, um Mosteiro da congregação de Monte Oliveto. Ele é o diretor da WCCM - Comunidade Mundial para a Meditação Cristã.

D. Laurence estudou teologia na Universite de Montreal e na McGill University. e fez seus votos solenes monásticos em 1979 e foi ordenado sacerdote em 1980.  Em 1991 D. Laurence voltou à Inglaterra para estabelecer o Centro Internacional da recém criada WCCM, agora presente em mais de cem países e que se tornou um Mosteiro sem paredes pelo qual ele viaja e ensina amplamente.