domingo, abril 21, 2019

POR AMOR. PARA SEMPRE!


De quanta Páscoa é feita a tua vida? Não se trata de uma metáfora, mas de uma pergunta vital para quem encontrou em Cristo o sentido, o sabor e o significado da sua existência

Celebramos, com profunda alegria, a Páscoa de Jesus. Nossas igrejas se enchem de aleluias festivos, de flores e de tantos sinais que nos falam de esperança, futuro e renovação. Por entre cânticos de júbilo e de festa, é importante recordar que a Alegria Pascal não dá ressaca. Não é uma alegria mundana, é comunicação de Vida e Salvação. 

A Páscoa não nos pede coisas, pede-nos a vida. Por inteiro. Sabemos que na vida cotidiana podemos programar o divertimento, mas não a alegria. A alegria só nasce em vidas que se deixam trabalhar pelas ‘mãos do amor’, em olhares que não se deixam vencer pela indiferença, em corações que não se apegam ao ódio ou ao rancor…compreendem bem este ‘mistério’ os pobres! Sim, só os que vivem com ‘um coração de pobre’ é que sabem pressentir e degustar este vibrar cotidiano das ‘cordas do coração’ tocadas pelo amor sempre (e)terno de Deus.

A Páscoa de Jesus não é apenas uma alegria reservada a nós que nos reunimos em igreja, é Páscoa para o mundo, é ‘excesso do dom’ de um Deus que só sabe amar! A alegria Pascal não é egoísta, nem alienada, é concreta, contemplativa, oblativa, como o Pai que amou tanto o mundo que lhe deu o Seu Filho (Jo 3, 16). Páscoa é vida abundante que podemos beber no Coração de Cristo e que faz sintonizar todo nosso ser e agir, como diz o Concílio Vaticano II, com “as alegrias e esperanças, tristezas e angústias dos homens e mulheres nossos contemporâneos, dado que não há nada de verdadeiramente humano que possa ser estranho ao coração de um discípulo de Cristo” (Gaudium et Spes 1). 

Celebramos hoje a Ressurreição de Cristo, Alegria Eucarística e Compartilhada. Não celebramos apenas um evento, nem uma data na agenda, celebramos um Encontro e uma Vida feita de Amor oblativo, a partir do altar da Cruz, que se oferece a nós como pão para os famintos, caminho para os peregrinos, luz para as nossas trevas, misericórdia para todos. Por isso, a Páscoa não é um fim, é um começo, de um mundo novo, feito de irmãos. Por Cristo. Com Cristo. Em Cristo. Boa Páscoa!


quinta-feira, março 07, 2019

“Não precisamos temer o silêncio verdadeiro...”


Entrevista realizada por:
Mons. Virgílio Almeida e Prof. Luis Miranda
em exclusivo para o Jornal O Auxílio - Paróquia Nossa Senhora Auxílio dos Cristãos - Bessa (PB)



1. D. Laurence, vamos iniciar o período da quaresma, que entre tantos apelos nos convida à oração. “Entra no teu quarto e fecha a porta… e ora”. Que significa este convite para as pessoas do nosso tempo?

Passamos a ter uma cultura muito extrovertida e distraída. Nossos celulares e nossa mídia nos alienaram de nosso aposento interior. A interioridade é o primeiro elemento dos ensinamentos de Jesus acerca da prece. Caso não redescubramos esse significado estaremos condenados à superficialidade. O caminho para o aposento interior é simples, mas não é fácil. A meditação é a disciplina espiritual de um discípulo de Jesus.

2. Vivemos uma cultura, marcada pela ocupação, o ruído, o barulho…Encontramos pessoas cansadas e abatidas pelo peso da vida. Falamos muito de uma verdadeira "Crise existencial”, “vazio interior”.  Em que sentido o silêncio e a meditação podem inaugurar um novo caminho de paz interior, de equanimidade, sendo um “Evangelho” para o nosso tempo?

A meditação faz parte de nossa tradição espiritual e modo de orar. Mas, também é uma expertise de sobrevivência em nossa atualidade. O aprendizado da meditação é uma urgente prioridade. Melhor será se começarmos quando ainda crianças nas salas de aulas. Mas, também precisamos aprender em idade mais madura, e para isso precisamos de apoio. Felizmente, a meditação gera comunidade. Só precisamos começar.

3. D. Laurence, depois deste longo percurso da ‘meditação cristã’, há ainda algumas pessoas que não sabem o que ela é. Se tivesse que dar uma breve definição a nossos leitores, o que diria?

Trata-se da prece do coração: ela segue os ensinamentos de Jesus acerca da prece. Também é uma sabedoria universal que encontramos em todas as tradições. A meditação alia o silêncio à imobilidade e, à simplicidade, que são os elementos essenciais da contemplação. Ela é uma tradicional prática que encontramos na Igreja primitiva. Sente-se, esteja quieto(a), feche seus olhos. Repita mentalmente, e no seu coração, uma única palavra de prece. Sugerimos o termo antigo Maranathá (do Aramaico = Vem, Senhor!). Repita-o fielmente e continuamente, de modo a aprender a colocar de lado todos os pensamentos e imagens, pela repetição dessa única palavra. O objetivo disso é o de nos tornarmos radicalmente pobres em espírito. O resto é o trabalho do Espírito. Meditamos para nos aproximarmos mais da união com Jesus, e para adentrar a prece dele, de modo à com ele nos movermos para além do ego ao Pai no Espírito.

4. Em alguns círculos religiosos, cria-se uma suspeita da "pratica de meditação”. Em que a “Meditação Cristã se assemelha e como se diferencia das práticas orientais e de outros grupos não cristãos?

A meditação é cristã se meditamos na fé cristã, de modo a nos aproximarmos de Jesus. Trata-se de parcela de nossa tradição histórica e teológica. Meditamos com outros cristãos. A meditação não substitui quaisquer outras formas de prece, mas preenche a dimensão que falta à prece.

5. Encontramos em tantas pessoas um desejo de paz, de bênçãos, de contato com o divino. Quais os benefícios e frutos na vida de quem consegue fazer a Meditação Cristã regularmente?

Os benefícios podem ser medidos: na saúde cardiovascular, no sistema imunológico, no relaxamento, na melhoria da qualidade do sono, etc. Mas, esses benefícios são apenas os sinais exteriores de frutos espirituais mais profundos, aquilo que São Paulo chamava de a colheita do espírito (amor, alegria, paciência, bondade, suavidade, e auto-controle). Identificamos isso em nosso relacionamento com nós mesmos e, especialmente, com os outros.

6. Como falar da relação entre Meditação e saúde mental, entre Meditação e uma vida espiritual consistente?

Na tradição mística o termo para saúde espiritual é “apatheia”. Sem isso, calma e equanimidade, integração e harmonia pessoal, não poderemos estar íntegros e em paz em nós mesmos.

7. Por que as pessoas desejam, mas têm um certo medo do silêncio, têm dificuldades de uma pratica regular?  Que orientações daria a quem deseja iniciar um caminho de fé pela via do silêncio, da meditação?

Temos medo da realidade, mas deveríamos temer mais a ilusão. A meditação se parece a uma criança. Caso tenha medo do silêncio e da imobilidade, procure meditar com crianças. Elas nos mostram o quanto a meditação é natural e universal. Nada tema, Jesus disse. Assim, só é necessário começar, e tudo o que você precisa lhe será dado.

8. Estamos para iniciar o tempo quaresmal, tempo de deserto, de silêncio, de oração. Mas também é tempo de viver a Palavra, de cultivar a Caridade Há ainda quem pense que o caminho da oração/contemplação significa desligar-se da realidade. O que tem a nos dizer sobre isso? É a Meditação um caminho individualista ou exatamente o contrário, nos lança na aventura da caridade, da tolerância, da compaixão, da unidade com os outros?

A meditação é a cura, o antídoto, para a solidão e o isolamento. É o caminho da solitude, que é o reconhecimento e a aceitação de nossa identidade única aos olhos de Deus. Caso lhe pareça como um deserto, isso é bom. Jesus se encaminhou para o deserto para se encontrar a si mesmo em Deus, o Pai, e de lá saiu forte e cheio de coragem. Assim é também conosco.  A meditação é o nosso deserto, a região onde encontramos Deus em solitude, e onde transformamos nosso modo de viver e de nos relacionarmos com nós mesmos e com os outros.

9. Falamos em deserto, em silêncio. Quais são, na sua opinião, os grandes desertos que a humanidade está a atravessar? Que ‘silêncios’ mais o preocupam?

O silêncio é o fruto da atenção amorosa. Não é algo negativo. Trata-se de perfeita comunhão e da plenitude de comunicação. Deveríamos temer o falso silêncio que é recusa de nos abrirmos, de nos comunicarmos. Não precisamos temer o silêncio verdadeiro que nos conduz à plenitude da presença de Deus. “Parai e sabei que Eu sou Deus”. A meditação reduz e afinal sobrepuja o medo porque ela é a obra do amor, e o amor perfeito expulsa o medo.

10. Que sugestões daria a um cristão para viver bem esta quaresma que agora se inicia?

Tanto quanto possa: medite toda manhã e toda tarde, durante 20 minutos, ou tanto quanto consiga. Repita a sua palavra de prece ao longo de todo a meditação, de modo que você possa estar na real presença de Jesus, direta e plenamente. Adicionalmente, procure evitar o álcool e os doces (é o que eu faço), de modo a poder exercitar algum autocontrole e cuidado para com o corpo, que é o templo do espírito e um instrumento da prece. Busque a oportunidade especial que cada dia te oferece de ser gentil e generoso(a) para alguém (sem esperar agradecimento ou reconhecimento). Leia o Evangelho do dia após a meditação da manhã e da tarde. E esteja alegre e em paz. Nada há a temer, se você estiver disponível para o amor que flui em seu coração. Esteja disponível para mudanças.



Quem é Dom Laurence Freeman?

Laurence Freeman nasceu na Inglaterra em 1951 onde recebeu educação beneditina e estudou Literatura Inglesa no New College da Universidade de Oxford. Antes de entrar para a vida monástica ele trabalhou para a ONU em Nova Yorque, em banco e em jornalismo. Hoje D. Laurence é um monge beneditino do Mosteiro Christ our Saviour, de Turvey, na Inglaterra, um Mosteiro da congregação de Monte Oliveto. Ele é o diretor da WCCM - Comunidade Mundial para a Meditação Cristã.

D. Laurence estudou teologia na Universite de Montreal e na McGill University. e fez seus votos solenes monásticos em 1979 e foi ordenado sacerdote em 1980.  Em 1991 D. Laurence voltou à Inglaterra para estabelecer o Centro Internacional da recém criada WCCM, agora presente em mais de cem países e que se tornou um Mosteiro sem paredes pelo qual ele viaja e ensina amplamente.

quarta-feira, março 06, 2019

Encher de Páscoa todas as coisas...



A Quaresma chegou. 

Não é apenas “mais uma” a somar a tantas outras que já vivemos. Há quaresma porque há Páscoa! Talvez não seja assim tão despropositado repetir: a quaresma não é uma ‘prévia’ do funeral de Cristo, mas um caminho, interior e comunitário, para redescobrir as fontes da nossa salvação. Um tempo ritmado pela alegria do jejum, da oração e da esmola (Mateus 6, 16-24). Tempo de sintonizar o coração e a vida com Cristo, tempo para saciar nossa sede de perdão, de paz interior, de silêncio...

Espiritualmente a quaresma é tempo para dilatar o coração e encher de Páscoa todas as coisas. Não é tempo para ‘fazer dieta’, é tempo de jejum verdadeiro fugindo da maledicência, da fofoca, dos olhares recriminatórios e de tantas outras coisas que envenenam o nosso cotidiano; É tempo para crescer na oração, pois só um coração de filho, habituado ao silêncio e à escuta, pode viver sem medo o chamado do Pai à conversão; Quaresma é tempo de se redescobrir irmão pela partilha, de que nos vale dar uns trocados se não partilhamos o que nos faz falta?...

O primeiro passo é sempre determinante! Iniciemos esta quaresma com profunda alegria, com um coração cheio de Páscoa, e peregrinemos ao encontro do “Deus dos humildes, auxiliador dos oprimidos, sustentador dos fracos, protetor dos abandonados, salvador dos desesperados” (Judite 9, 11). Ele já vem ao nosso encontro!...

sexta-feira, janeiro 11, 2019

AGRADECER, TAMBÉM, O QUE NÃO ME FOI DADO...



Neste DIA DO OBRIGADO, vale a pena agradecer e deixar-se guiar por estas palavras:


“O mais comum é agradecer o que nos foi dado. E não nos faltam motivos de gratidão. Há, é claro, imensas coisas que dependem do nosso esforço e engenho, coisas que fomos capazes de conquistar ao longo do tempo, contrariando mesmo o que seria previsível, ou que nos surgiram ao fim de um laborioso e solitário processo. Mas isso em nada apaga o essencial: as nossas vidas são um receptáculo do dom.

A nossa história começou antes de nós e persistirá depois. Somos o resultado de uma cadeia inumerável de encontros, de gestos, boas vontades, sementeiras, afagos, afetos. Colhemos inspiração e sentido de vidas que não são nossas, mas que se inclinam pacientemente para nós, iluminando-nos, fundando-nos na confiança. Esse movimento, sabemo-lo bem, não tem preço, nem se compra em parte alguma: só se efetiva através do dom. (...)

Hoje, porém, dei comigo a pensar também na importância do que não nos foi dado. E a provocação chegou-me por uma amiga que confidenciou: «Gosto de agradecer a Deus tudo o que Ele me dá, e é sempre tanto que nem tenho palavras para descrever. Sinto, contudo, que lhe tenho de agradecer igualmente o que Ele não me dá, as coisas que seriam boas e que eu não tive, o que até pedi e desejei muito, mas não encontrei. O facto de não me ter sido dado obrigou-me a descobrir forças que não sabia que tinha e, de certa maneira, permitiu-me ser eu».

Isto é tão verdadeiro. Mas exige uma transformação radical da nossa atitude interior. Tornar-se adulto por dentro não é propriamente um parto imediato ou indolor. No entanto, enquanto não agradecermos a Deus, à vida ou aos outros o que não nos deram, parece que a nossa prece permanece incompleta. Podemos facilmente continuar pela vida dentro a nutrir o ressentimento pelo que não nos foi dado, a compararmo-nos e a considerarmo-nos injustiçados, a prantear a dureza daquilo que em cada estação não corresponde ao que idealizamos.

Ou podemos olhar o que não nos foi dado como a oportunidade, ainda que misteriosa, ainda que ao inverso, para entabular um caminho de aprofundamento... e de ressurreição. Foi assim que numa das horas mais sombrias do século XX; desde o interior de um campo de concentração, a escritora Etty Hillesum conseguiu, por exemplo, protagonizar uma das mais admiráveis aventuras espirituais da contemporaneidade. No seu diário deixou escrito:

«A grandeza do ser humano, a sua verdadeira riqueza, não está naquilo que se vê, mas naquilo que traz no coração. A grandeza do homem não lhe advém do lugar que ocupa na sociedade, nem no papel que nela desempenha, nem do seu êxito social. Tudo isso pode ser-lhe tirado de um dia para o outro. Tudo isso pode desaparecer num nada de tempo. A grandeza do homem está naquilo que lhe resta precisamente quando tudo o que lhe dava algum brilho exterior, se apaga. E o que lhe resta? Os seus recursos interiores e nada mais»".

(José Tolentino Mendonça, 18.4.2014)



quarta-feira, junho 20, 2018

O 'PODER' DE SER SEMENTE*...



Por estes dias decorre o mundial de futebol. Entusiasmos e fracassos caminham lado a lado. Uns confirmam o talento, outros desiludem e outros...surpreendem!

Ao longo da semana, provocado pelo Evangelho (Mc 4, 26-34), tenho caminhado com um olhar mais atento ‘a tudo que é pequeno’. É bom (re)aprender a ‘ver as sementes’, um olhar contemplativo renova-nos e transforma-nos.

Esta ‘pedagogia do (re)começo’ ensina-nos a encher de futuro cada gesto, olhar, palavra e silêncio. Na semente estão os sonhos futuros, horizontes novos, caminhos ainda não andados. No seu íntimo a semente traz a esperança do novo...e como isso é decisivo diante dos contextos em que vivemos de violência crescendo, de agressividade se extremando, de fundamentalismos que nos cegam e sufocam o que ainda está por vir.

Gosto de imaginar como seria se todos nos vivêssemos com a consciência de que somos, diariamente, uma semente. É bom deixar-se desafiar: Que vida trago dentro? Que ‘futuro’ tenho para oferecer? De quanto silêncio preciso para ‘germinar’?...

Em cada semente, uma promessa. Em cada promessa, uma Aliança. Em cada Aliança, frutificar. Boa Semana!


*Homenagem a Joaquim Vidal de Negreiros que viveu sendo semente do bem para todos.

terça-feira, junho 05, 2018

UM DEUS ‘FORA DA LEI’?!...



Todos conhecemos a frase: “a pior prisão é um coração fechado”. Sabemos também das consequências devastadoras que a indiferença ou a absurda teimosia provocam em nós e ao nosso redor. Costumo chamar a isso a ‘perseverança do absurdo’. Lembrei-me imediatamente disso ao escutar o Evangelho este Domingo...Jesus é questionado como um ‘fora da lei’ por aqueles que vivem na ‘perseverança do absurdo’.

Há ‘perseverança (farisaica) no absurdo’ todas as vezes em que medimos a vida, apenas, pelos tons pálidos do ‘pode’ ou do ‘não pode’ (Mc 2, 23 – 3, 6). São fronteiras demasiado estreitas para quem se encontrou com o Evangelho e se reconhece como discípulo de Jesus. O Mestre, recorda-nos isso insistentemente quando nos desafia a converter o coração (e a vida); é bom entender que esta insistência do Mestre não é um apelo à ‘maquilhagem espiritual’, ela será sempre o primeiro passo para o absurdo. Jesus não nos pede apenas ‘a lei’, pede-nos mais, mais profundamente, de um jeito novo...sem querer ‘domesticar’ Deus, nem ludibriar a vida.

O Papa Francisco, recordando-nos que é possível ser santo hoje, diz-nos: “Precisamos do impulso do Espírito para não ser paralisados pelo medo e o calculismo, para não nos habituarmos a caminhar só dentro de confins seguros. Lembremo-nos disto: o que fica fechado acaba cheirando a mofo e criando um ambiente doentio. (...) Deus é sempre novidade, que nos impele a partir sem cessar e a mover-nos para ir mais além do conhecido, rumo às periferias e aos confins. Leva-nos aonde se encontra a humanidade mais ferida e aonde os seres humanos, sob a aparência da superficialidade e do conformismo, continuam à procura de resposta para a questão do sentido da vida. Deus não tem medo! Não tem medo! Ultrapassa sempre os nossos esquemas e não Lhe metem medo as periferias. Ele próprio Se fez periferia. Por isso, se ousarmos ir às periferias, lá O encontraremos: Ele já estará lá. Jesus antecipa-Se-nos no coração daquele irmão, na sua carne ferida, na sua vida oprimida, na sua alma sombria. Ele já está lá.” (GE nº 133-135)

O Evangelho, luz para os nossos passos, questiona-nos: Quais são, afinal, as tuas fronteiras? De quantos ‘absurdos’ é feito o teu quotidiano? Consegues contemplar a vida (e Deus!) para além dos teus ‘confins seguros’?...

Seguir Jesus, é dizer não à idolatria de um ‘deus-domesticado’, a idolatria de um ‘deus’ que corresponda, somente, às nossas medidas curtas e aos nossos corações fechados...num deus assim, seria impossível acreditar!

Jesus, Amor-Crucificado-Ressuscitado, revela-nos que ‘o essencial da lei’ está, primeiramente, em ‘tatuar’ no mais profundo do nosso ser a certeza que o profeta Isaías cantou, tão belamente, com estas palavras: “Deus é o meu Salvador,  tenho confiança e nada temo.  O Senhor é a minha força e o meu louvor,  Ele é a minha salvação. Agradecei ao Senhor,  bendizei o seu nome. Anunciai aos povos a grandeza das suas obras,  proclamai a todos que o seu nome é santo. Cantai ao Senhor, porque Ele fez maravilhas, anunciai-as em toda a terra. Entoai cânticos de alegria e exultai” (Isaías 12).

Aos que têm esta certeza ancorada no mais intimo do coração, Jesus e o Seu Evangelho, serão sempre uma vida, e um Deus,...‘fora da lei’! BOA SEMANA.



segunda-feira, abril 23, 2018

(IN)VOCAÇÃO...


As palavras que dizemos têm o poder mudar o rumo da história. Se forem ditas com banalidade farão da história, e da construção que todos fazemos dela, um momento ‘trágico’, difícil e, quem sabe, às vezes penoso. Essas são as palavras mal-ditas! Por outro lado, as palavras têm também o poder de reconstruir, entusiasmar, conectar, transformar, curar. Essas são palavras que nos fazem ver e experimentar a vida como um milagre permanente.

Uma dessas palavras que tem sido ‘gasta’ (ou mal-dita) pela banalidade com que muitas vezes a usamos, é a palavra vocação. Basta ler algumas das noticias eclesiais para vermos como a palavra vocação aparece associada à ‘mendicidade’ de uma Igreja (a nossa!) mais preocupada em manter estruturas passadas do que abrir-se à graça infinita do futuro. A cada ano, neste Domingo do Bom Pastor, a palavra vocação ‘reaparece’. Em alguns lugares ela é compartilhada com o entusiasmo de quem tem dentro o ‘perfume da Páscoa’ e sente/sabe que o Pastor Bom e Belo é sempre o primeiro a entusiasmar-nos!  Noutros lugares, repete-se o discurso monótono e bafiento, mais cheio de medo e de autopreservação,...

A Igreja, por ser obra do Espirito Santo, vive em mudança(s) permanente(s). É bom que nunca nos falte esta consciência e que não nos falte também a coragem para ousar ‘a novidade que Deus espera de nós’: Um Povo de homens e mulheres, chamados pelo nome, para viver de maneira quotidiana a eternidade plantada pelo nosso batismo! Para isso, não basta somente falar de vocação, é necessária que nos sintamos convocados para sermos ‘o povo da Invocação’, isto é, a redescoberta daquele essencial que faz com que sejamos Páscoa para a história, Páscoa no coração do mundo e da Igreja...

Recorda-nos isso mesmo o Papa Francisco, naquela sua linguagem sempre transparente e cheia da graça de Deus, na Exortação ‘Alegrai-vos e Exultai’ quando diz:

“O Concílio Vaticano II salientou vigorosamente: «munidos de tantos e tão grandes meios de salvação, todos os fiéis, seja qual for a sua condição ou estado, são chamados pelo Senhor à perfeição do Pai, cada um por seu caminho». «Cada um por seu caminho», diz o Concílio. Por isso, uma pessoa não deve desanimar, quando contempla modelos de santidade que lhe parecem inatingíveis. Há testemunhos que são úteis para nos estimular e motivar, mas não para procurarmos copiá-los, porque isso poderia até afastar-nos do caminho, único e específico, que o Senhor predispôs para nós. Importante é que cada crente discirna o seu próprio caminho e traga à luz o melhor de si mesmo, quanto Deus colocou nele de muito pessoal (cf. 1 Cor 12, 7), e não se esgote procurando imitar algo que não foi pensado para ele. Todos estamos chamados a ser testemunhas, mas há muitas formas existenciais de testemunho. (...) Isto deveria entusiasmar e animar cada um a dar o melhor de si mesmo para crescer rumo àquele projeto, único e irrepetível, que Deus quis, desde toda a eternidade, para ele: «antes de te haver formado no ventre materno, Eu já te conhecia; antes que saísses do seio de tua mãe, Eu te consagrei» (Jer 1, 5).
Para ser santo, não é necessário ser bispo, sacerdote, religiosa ou religioso. Muitas vezes somos tentados a pensar que a santidade esteja reservada apenas àqueles que têm possibilidade de se afastar das ocupações comuns, para dedicar muito tempo à oração. Não é assim. Todos somos chamados a ser santos, vivendo com amor e oferecendo o próprio testemunho nas ocupações de cada dia, onde cada um se encontra. És uma consagrada ou um consagrado? Sê santo, vivendo com alegria a tua doação. Estás casado? Sê santo, amando e cuidando do teu marido ou da tua esposa, como Cristo fez com a Igreja. És um trabalhador? Sê santo, cumprindo com honestidade e competência o teu trabalho ao serviço dos irmãos. És progenitor, avó ou avô? Sê santo, ensinando com paciência as crianças a seguirem Jesus. Estás investido em autoridade? Sê santo, lutando pelo bem comum e renunciando aos teus interesses pessoais. Deixa que a graça do teu Batismo frutifique num caminho de santidade. Deixa que tudo esteja aberto a Deus e, para isso, opta por Ele, escolhe Deus sem cessar. Não desanimes, porque tens a força do Espírito Santo para tornar possível a santidade e, no fundo, esta é o fruto do Espírito Santo na tua vida (cf. Gal 5, 22-23). Quando sentires a tentação de te enredares na tua fragilidade, levanta os olhos para o Crucificado e diz-Lhe: «Senhor, sou um miserável! Mas Vós podeis realizar o milagre de me tornar um pouco melhor». Na Igreja, santa e formada por pecadores, encontrarás tudo o que precisas para crescer rumo à santidade. (...)
Esta santidade, a que o Senhor te chama, irá crescendo com pequenos gestos. (...) sucede, às vezes, que a vida apresenta desafios maiores e, através deles, o Senhor convida-nos a novas conversões que permitam à sua graça manifestar-se melhor na nossa existência, «para nos fazer participantes da sua santidade» (Heb 12, 10). Outras vezes trata-se apenas de encontrar uma forma mais perfeita de viver o que já fazemos: «há inspirações que nos fazem apenas tender para uma perfeição extraordinária das práticas ordinárias da vida cristã». Quando estava na prisão, o Cardeal Francisco Xavier Nguyen van Thuan renunciou a desgastar-se com a ânsia da sua libertação. A sua decisão foi «viver o momento presente, cumulando-o de amor»; eis o modo como a concretizava: «aproveito as ocasiões que vão surgindo cada dia para realizar ações ordinárias de maneira extraordinária».
 Deste modo, sob o impulso da graça divina, com muitos gestos vamos construindo aquela figura de santidade que Deus quis para nós: não como seres autossuficientes, mas «como bons administradores das várias graças de Deus» (1 Ped 4, 10). Os Bispos da Nova Zelândia ensinaram-nos, justamente, que é possível amar com o amor incondicional do Senhor, porque o Ressuscitado partilha a sua vida poderosa com as nossas vidas frágeis: «o seu amor não tem limites e, uma vez doado, nunca volta atrás. Foi incondicional e permaneceu fiel. Amar assim não é fácil, porque muitas vezes somos tão frágeis; mas, precisamente para podermos amar como Ele nos amou, Cristo partilha conosco a sua própria vida ressuscitada. Desta forma, a nossa vida demonstra o seu poder em ação, inclusive no meio da fragilidade humana»”.