segunda-feira, janeiro 16, 2017

...NÃO É SÓ UMA QUESTÃO DE ÁGUA!


Zygmunt Bauman escreveu que “a vida é muito maior que a soma dos seus momentos”. O dom que nos é dado para viver não se resume à ‘contabilidade’ superficial dos bons ou maus acontecimentos, vai além! Em cada encontro, em cada lugar onde estamos, nas pessoas com quem nos cruzamos, nos caminhos que percorremos, há uma centelha divina que nos acompanha, ilumina e desafia.

Vem isto a propósito da Palavra com que Deus nos visita esta semana (Jo 1, 29-34). Jesus faz-se caminho e vem ao nosso encontro nas circunstâncias em que nos encontramos. Deus sempre gosta de nos visitar nos locais que habitamos! O ‘extraordinário’ de Deus acontece no nosso cotidiano, habitualmente na dinâmica de um encontro que suscita intimidade e seguimento. Tal como João, também nós precisamos estar atentos a Cristo que passa e aprender a decifrar os ‘sinais’ da Sua presença.

Sabemos que a predileção de Deus é começar sempre ‘pelas margens’, foi assim naquele encontro no rio Jordão, é também assim com cada um de nós. Onde houver necessidade de presença, cura, esperança e libertação, aí está Deus a fazer-se próximo, a transformar a partir de dentro, a atrair para caminhar juntos! Somente Ele sabe o que somos e o que precisamos, por isso não hesita um instante em se fazer consolação, misericórdia, ternura e salvação.

Jesus gosta de estreitar as margens, de fazer pontes, de iniciar o diálogo, de oferecer perdão, de abrir horizontes. Como Deus-Peregrino, Jesus oferece comunhão para vencermos a solidão e a indiferença, unge as nossas feridas e transforma os nossos corações para que possamos ser vasos de esperança para a humanidade, chama-nos para o seguirmos pois sabe que, mais do que nunca, o mundo precisa hoje de rostos e de ternura para (re)aprender a olhar para além da ‘soma dos momentos’ e a degustar com sabedoria e discernimento o eterno e o instante.

Contemplar, Acolher, Escutar, Seguir e Imitar Jesus, eis os verbos essências para uma ‘gramática cotidiana’ do nosso discipulado. Como tenho conjugado estes verbos? Qual o peso que eles têm na minha vida?

Só podemos ‘ver’ o que João viu quando estes verbos deixarem de ser apenas ‘infinitivos impessoais’ e se tornarem uma ‘conjugação pessoal’ de verbos transitivos que unem o cotidiano com o Mistério da Fé. Aí sim, veremos o ‘Cordeiro’, nos sentaremos em Sua mesa e saborearemos com Ele o Pão que dá vida e coragem, o Pão que nos transforma em ‘Luz para as nações’. Nessa hora, nossos olhos se abrirão para ver ‘mais além’ e ‘para o alto’ e o nosso batismo não terá sido somente ‘uma questão de água’, mas sim o motor decisivo de uma vida ritmada pelo ‘Fogo-Amor Eterno de Deus’ que permanece em nós e nos faz Ver-Seguir e Dizer: “Eu vi e dou testemunho de que Ele é o Filho de Deus”. BOA SEMANA!



Um bom desafio para esta semana pode ser a (re)leitura do nº 262-283 da Exortação Evangelii Gaudium do Papa Francisco procurando refletir sobre como andas a conjugar os verbos essenciais da ‘gramática do seguimento de Jesus’. Pode encontrar o texto do Papa clicando Aqui



terça-feira, dezembro 27, 2016

SAUDAÇÕES INCÔMODAS!...

(foto retirada de http://radioalansaar.co.za/barrel-bomb-attack-kills-11-children-in-syrias-aleppo-monitor/)

Caríssimos, eu desobedeceria ao meu dever de bispo se lhes dissesse “Feliz Natal” sem incomodá-los. E eu quero incomodar. Eu não posso suportar a ideia de fazer saudações inócuas, formais, impostas pela rotina do calendário.

Então, meus queridos irmãos, a vocês as minhas melhores saudações incômodas!

Que Jesus, nascido por amor, lhes dê náuseas pela vida egoísta, absurda, sem impulso vertical, e lhes conceda a graça de recriar a sua vida na doação de si mesmos, na oração, no silêncio, na coragem. Que o Bebê que dorme em cima da palha lhes tire o sono e faça vocês sentirem o travesseiro da sua cama tão duro quanto uma pedra até acolherem de verdade um desalojado, um necessitado, um pobre que vaga pelas suas ruas por falta de compaixão.

Que o Deus feito carne faça vocês se sentirem vermes toda vez que a sua carreira se tornar o ídolo da sua vida; toda vez que passar os outros para trás for o projeto dos seus dias; toda vez que as costas do próximo se tornarem o instrumento da sua escalada.

Que Maria, a mãe que só encontrou no esterco dos animais o berço em que deitar com ternura o fruto do seu ventre, force vocês, com os seus olhos feridos, a suspender suas festinhas de fim de ano até que a sua consciência hipócrita enxergue que as latas de lixo e os incineradores das clínicas são transformados impunemente em túmulos sem cruz de vidas humanas exterminadas.

Que José, aquele que encarou mil portas fechadas na cara e que é símbolo de todas as desilusões paternas, incomode a esbórnia da sua comilança e dê curto-circuito no seu desperdício de luzes piscantes até vocês entrarem em crise sincera diante do sofrimento de tantos pais que derramam lágrimas pelos filhos sem saúde, sem trabalho e sem oportunidades.

Que os anjos, anunciadores da paz, tragam a guerra à sua tranquilidade sonolenta, incapaz de enxergar que, sob o seu silêncio cúmplice, perpetram-se injustiças, expulsam-se pessoas, fabricam-se armas, militariza-se a terra dos humildes, condenam-se povos ao extermínio da fome.

Que os pobres que acorrem à gruta de Belém enquanto os poderosos conspiram na escuridão e a cidade dorme na indiferença façam vocês entenderem que, se quiserem ver “uma grande luz”, precisam se levantar e partir; façam vocês entenderem que as esmolas de quem lucra com o couro das pessoas são calmantes inúteis; façam vocês entenderem que as belas roupas compradas com o décimo terceiro podem até causar boa impressão, mas não aquecem a alma; façam vocês entenderem que a coexistência de pessoas sem lar e de especulação corporativa é um ato de horrendo sacrilégio.

Que os pastores que velavam no meio da noite vigiando o rebanho e perscrutando a alvorada deem a vocês um sentido para a história, a emoção da expectativa, a alegria do abandono em Deus e lhes inspirem o desejo profundo de viver pobres em espírito, porque viver pobre em espírito é a única maneira de morrer rico aos olhos de Deus.

Que, em nosso velho mundo moribundo, nasça a esperança. Feliz Natal!

(Nasceu 18 março 1935 /faleceu 20 abril 1993)



Se quiseres podes ainda ler as palavras incômodas do PAPA FRANCISCO clicando AQUI



segunda-feira, dezembro 19, 2016

(RE)NASCE!...


Todos os nomes têm rosto, trazem consigo uma história para contar, revelam-nos um mundo polifónico de afetos, uma sinfonia de sentimentos, experiências e vivências. Dar nome é, portanto, entrar num território sagrado, é tocar o mistério do outro...é dizer ao outro: “o que tu és, tem sentido e significado dentro de mim”.

Também Jesus quis ter um nome e uma família, quis fazer história conosco e em nós, quis dizer-nos, com o seu ser e agir, que n’Ele temos um sentido e um significado. Não somos um acaso ou simplesmente criaturas, somos seus irmãos, herdeiros com ele do Reino que o Pai preparou, n’Ele e com Ele somos uma história de salvação!

Diante do Amor não precisamos ter medo! O Amor fez-se Emanuel, um Deus-conosco e para nós, como nos recordou tão sabiamente Bento XVI: “O sinal de Deus é a simplicidade. O sinal de Deus é o menino. O sinal de Deus é que Ele faz-se pequeno por nós. Este é o seu modo de reinar. Ele não vem com poder e grandiosidades externas. Ele vem como menino - inerme e necessitado da nossa ajuda. Não nos quer dominar com a força. Tira-nos o medo da sua grandeza. Ele pede o nosso amor: por isto faz-se menino. Nada mais quer de nós senão o nosso amor, mediante o qual aprendemos espontaneamente a entrar nos seus sentimentos, no seu pensamento e na sua vontade - aprendemos a viver com Ele e a praticar com Ele a humildade da renúncia que faz parte da essência do amor. Deus fez-se pequeno a fim de que nós pudéssemos compreendê-Lo, acolhê-Lo, amá-Lo”.

Gosto de olhar José a saborear tudo isto interiormente (Mt 1, 18-24). Gosto de contemplar Deus a habitar os seus sonhos. Gosto do jeito com que Deus sussurra ao coração de José a ternura do Mistério que ele é chamado a acolher e a viver. No silêncio ativo de José gosto de ler as entrelinhas de quem se deixa moldar pelo divino Oleiro, de quem aceita fazer do seu nada amor. Gosto da determinação de José! Sim, para tudo é necessária uma ‘determinada determinação’ (Stª Teresa de Ávila) e José sabe que o caminho que Deus lhe abre diante dos olhos e do coração é o caminho da (e)ternidade, do dom, do silêncio que sabe dar-se e que se faz amor eterno.

A caminho do Natal, deixemos que o Mistério toque o nosso cotidiano. Deixemo-nos interrogar: “Como acolhemos a ternura de Deus? Deixo-me alcançar por Ele, deixo-me abraçar, ou impeço-Lhe de aproximar-Se? Porém a coisa mais importante não é procurá-Lo, mas deixar que seja Ele a procurar-me, a encontrar-me e a cobrir-me amorosamente com suas carícias. Esta é a pergunta que o Menino nos coloca com a sua mera presença: permito a Deus que me queira bem?” (Papa Francisco).

A casa está pronta. A mesa está posta. Por entre o frio gélido de um rigoroso inverno, vem ao nosso encontro a Luz do mundo, a única luz que aquece nossos corações e dissipa as nossas trevas. De quanta Luz vais encher o teu coração neste Natal? Com quanta Ternura vais aquecer os corações ao teu redor? Quantas portas vais destrancar e permitir aos outros que habitem a tua história sagrada?

Tal como Jesus, também o teu nome é uma história sagrada. Também o teu rosto é sinal de salvação! também a tua vida é um Evangelho. Também tu podes fazer a diferença. Crês nisso? Boa Semana. Vem aí o Natal...(Re)nasce!


*caso a indiferença ainda não te tenha anestesiado, a foto postada no início é de Aleppo...o que está a acontecer ali não é uma 'guerra civil'...é a terceira e pior das guerras mundiais...a da indiferença!

segunda-feira, dezembro 05, 2016

ARREPENDER-SE NÃO MATA, CONVERTE!


Nenhuma história pessoal é um livro já acabado! Somos ‘peregrinos’, a nossa história sagrada é feita dos ‘milagres’ cotidianos, dos pequenos encontros, do cruzar de olhares que vencem a indiferença, das batidas do coração algumas vezes aceleradas outras mais tranquilas...temos muito para narrar, dentro e fora de nós. Se nos déssemos conta do muito e do belo que acontece dentro de nós todos os dias, talvez os nossos olhos fossem menos míopes, nossos lábios menos lamurientos, nossas palavras mais afetuosas, nos gestos mais delicados e nosso coração um altar onde celebraríamos em cada entardecer a doce alegria da nossa existência.

Gosto de olhar o tempo do Advento com a tónica do afeto...gosto de contemplar o nosso Deus-paciente naquele Seu excesso de dom que o faz precipitar-se dos altos céus para ser conosco, e em nós, o Deus-baixíssimo...um Deus que não se limita à medida dos homens mas que é plenamente humano! Gosto de ler Deus nas entrelinhas da vida e ver, de surpresa em surpresa, o seu agir discreto e silencioso oferecendo uma paz não melancólica ou nostálgica, mas uma paz ativa que desperta sentidos, convoca a inteligência e pede discernimento. Gosto de escutar Deus nos seus profetas, os de ontem e os de hoje, e de vê-lo consolar, acompanhar e despertar o seu Povo...

A Palavra que nos nutre ao longo desta semana faz-nos entrar num dinamismo de novidade que transforma os nossos desertos em caminhos, as nossas certezas em tempo de discernimento, as nossas fragilidades em oportunidade de crescer, as nossas chagas em ‘tesouro fecundo’ que o tempo cicatriza fazendo delas porta do futuro. Naquele “Arrependei-vos” (Mt 13, 1-12) com que João nos inquieta nos desertos que nos habitam está condensada a provocação de Deus a deixarmos que Ele reine em nós, na nossa vida, em nossas opções, nos nossos afetos...é que onde Deus reina o humano é pleno, o silêncio torna-se fecundo, o agir não cansa.

Há arrependimentos que nos amarguram e torturam, neles há sempre histórias e acontecimentos que insistimos repetir, ruminar, até nos autodestruirmos e deprimirmos. Isso não é arrependimento, é apenas um processo de culpa e de acusação com que lutamos diariamente...e diante do qual nos sentimos sempre vencidos.
O arrependimento que nasce da fé não nos coloca ‘contra a parede’, não nos ‘aponta o dedo’, liberta-nos da culpa e aponta-nos caminhos! Arrepender-se não mata, converte! E toda a conversão é sempre uma primavera da alma que faz florir a esperança mesmo no meio do mais rigoroso inverno.


Esta semana vamos cruzar-nos no caminho com a ‘Cheia de Graça’, Ela nos garante como ‘sacramento da Ternura’ que o segredo é confiar. E toda a conversão começa sempre com esse gesto sublime de quem aceita entregar tudo nas mãos do único que nos pode oferecer recomeço. A todos. Sempre! Boa Semana.



domingo, novembro 27, 2016

Advento...PARTIR DO FUTURO!


Partilho contigo meu irmão do Advento, uma bela meditação de um profeta da Paz, e desejo-te um caminho 'inquieto' até ao Natal:

"Nós olhamos para o Advento um pouco demasiado a partir do homem. Talvez fosse necessário olhá-lo mais a partir de Deus. Explico:

O Advento a partir do homem

Há uma palavra chave que caracteriza este arco do ano litúrgico, e à volta do qual nós articulamos habilmente os conteúdos do anuncio cristão: espera.

É como uma matrioska: quando a abres encontras outra, isto é, a vigilância. Se abres essa, encontras dentro a esperança. E por aí adiante, até chegares às mais interessantes sub-espécies da mesma família. Colocadas a descoberto, todas estas matrioskas encheriam uma mesa de bons sentimentos.

É um jogo muito belo de implicações e explicações que nos faz ver quanto é extensa a realidade na qual se deve exprimir a nossa conversão neste período que nos prepara para o Natal.

Espera. Vigilância. Esperança. Oração. Pobreza. Penitência. Conversão. Testemunho. Solidariedade. Paz. Transparência. Depois de ter meditado os textos bíblicos, seria interessante sentar-se à volta da mesa com as pessoas e perguntar-lhes, a cada matrioska que vão abrindo, que nome dariam às outras que ainda estão dentro. Teríamos assim uma amostra de atitudes interiores que, por nascerem de um processo crítico, poderiam ser assumidas com mais facilidade como um quadro ascético para desenhar o caminho do Advento.

Mas, com este procedimento, continuamos ainda um pouco a partir do homem. Dá-se muitas vezes a impressão que o Advento constitui um expediente cíclico que com as suas fontes, nos estimula a recentrar a vida num plano moral, e basta.

Sem dúvida que isso não é errado. Mas corre-se o risco de transformar o Advento numa espécie de ginásio espiritual, no qual se pratica um treino intensivo das boas virtudes. Permanecendo sempre como um exercício excelente, mas dando uma imagem redutora deste grande momento de graça.

O advento a partir de Deus

É momento de olharmos agora as coisas a partir de Deus. Sim, porque no céu também hoje começa o advento, o período da espera. Aqui na terra é o homem que espera o regresso do Senhor. No céu é o Senhor que espera o regresso do homem.

É uma visão prospética esplendida, que nos faz recuperar uma dimensão menos preocupada dos aspectos morais da vida cristã e mais interessada no desígnio divino da salvação.

Talvez se pudesse repetir também aqui o jogo das matrioskas. Uma vez que também para Deus a palavra chave é espera: mas que ulteriores palavras se poderiam encontrar uma no interior da outra? Podemos tentar indicando duas, colhendo assim a alma dos textos bíblicos proclamados: salvação e paz.

A palavra salvação evoca o projeto final de Deus, tal como foi desenhado na primeira leitura e no salmo responsorial. Os povos que sobem ao monte do Senhor e que exultam finalmente diante de Jerusalém, exprimem o sobressalto de Deus que vê reunidos ao seu redor todos os povos na fase final do Reino. Expectativas irresistíveis de comunhão. Solidariedade com o homem. Desejo de comunicar-lhe a própria vida. Disponibilidade para um perdão sem cálculos. Estes são os sentimentos de Deus, tal como nos é dado colher na filigrana das leituras bíblicas.

Hoje é impossível, durante a liturgia, não se referir à ternura do Pai, à sua solicitude, à sua ânsia pelo retorno a casa de seu filho. Vem-nos em mente a expressão da parábola do filho pródigo: “Enquanto estava ainda longe, o Pai o viu” (Lc 15, 20). Aqui está o início da Esperança em cada um de nós. Coragem “a noite vai avançada, o dia está próximo. A nossa salvação está agora mais próxima do que quando abraçamos a fé”.

Aqui está também o inicio do compromisso. O que fazer para não desiludir as esperas do Senhor? Quais são as ‘obras das trevas’ que é preciso recusar, e quais são as ‘armas da luz das quais é preciso revestir-se?

Não se poderia fazer hoje, talvez com oportunos silêncios, um check-up, individual e coletivo, em termos de comunhão? Talvez se volte agora ao manual das boas atitudes morais, só que desta vez como uma galáxia de compromissos para que a alergia de Deus seja completa.

A Palavra Paz evoca, por sua vez, toda uma série de percursos obrigatórios para se chegar à salvação.

Hoje não devemos perder a ocasião de ser concretos e de dizer, sem frases enfraquecidas, que a paz, a justiça e a salvaguarda da criação são o trabalho primordial de cada comunidade cristã. Que acolher de mãos cheias a reserva utópica do Evangelho é o único realismo que hoje nos é consentido. Que ousar pela fé a Paz, desafiando o bom senso da carne e do sangue, é a ‘prova dos nove’ do crédito que damos à Palavra de Deus. Que a não violência ativa deve tornar-se critério irrenunciável que regula todos os relacionamentos pessoais e comunitários.

A profecia de Isaías não tolera interpretações cómodas. Se nós cristãos permitirmos o aumento dos arsenais de espadas e de lanças em detrimento dos arados e das foices, não responderemos às expectativas de Deus.

Assim também, se não soubermos ler em termos fortemente críticos os exercícios dos povos na arte da guerra, desvalorizaremos Isaías, extinguiremos a nossa dimensão profética e, dificilmente na noite de Natal, poderemos acolher a explosão daquele 'Shalom' anunciado pelos anjos aos homens que Deus ama (Lc 2, 14)".


+Don Tonino Bello, Bispo de Molfetta, Giovinazzo e Terlizzi,
faleceu com cancro em 1993, está a decorrer o seu processo de beatificação



domingo, novembro 20, 2016

A TUA CRUZ NÃO ME É INDIFERENTE...


Não há solidão e dor maior do que a de não ser amado. Uma das doenças mais mortíferas do tempo em que vivemos é a solidão do esquecimento e da exclusão. Os novos esquecem os velhos, em família os laços são cada vez mais ténues e ‘os muros’ cada vez mais crescentes...O cotidiano facilmente se vai transformando num ‘deserto existencial’ onde se cruzam a alta velocidade indivíduos e onde aumenta o vazio de quem já não dialoga, escuta, olha nos olhos...

No encontro com o Evangelho, Palavra que restitui dignidade e oferece salvação, damo-nos conta como para Jesus cada encontro é um ‘sacramento’. Ele gosta de se demorar no encontro, gosta de olhar nos olhos, de escutar e de ler o coração, de ver para além dos nossos limites, de rasgar fronteiras onde só vemos muros, de oferecer infinito onde só olhamos perdição...gosta de entrar no nosso cotidiano, saborear conosco os passos do caminho e sentar-se conosco na mesa da nossa intimidade mais profunda para aí repartir o pão que dá sabor, sabedoria e significado ao nosso existir.

Não poderia ser diferente nesta página que acolhemos como alimento para esta semana! Ei-lo, o nosso Rei, sem blindagem nem filtros, entregue à morte para nos abrir (e)ternamente a porta da vida! Na hora da cruz continua a ser tentado pela arrogância egoísta e mesquinha que tantas vezes nos habita: “Tu não és o Cristo. Salva-te a ti mesmo!”...Como é que o Amor poderia agora contradizer-se?! Deus sabe que o nosso egoísmo gera solidão, Deus sabe que com a ânsia de querermos tudo rápido, muitas vezes ficamos sozinhos, isolados, perdidos... Deus sabe (sim, só Ele o sabe!) que o desamor com que tantas vezes vivemos, somos e nos olhamos precisa de um amor fiel, não só até à cruz mas para além dela! Precisamos de um amor que nos abrace nas nossas contradições, que nos cure sem nos alienar, que nos perdoe sem nos humilhar...e esse Amor só Ele nos pode dar!

Seduzido pela voz suplicante do malfeitor crucificado-arrependido, o Amor-de-todo-Amor não resiste a fazer o seu penúltimo milagre, faz-se perdão...pois o Amor só sabe uma coisa: oferecer recomeço onde todos põem fim! BOA SEMANA.



Esperei por Ti,
na viagem do tempo,
no amanhecer de cada estação.

Ao cair de cada folha no outono,
no alegre despontar da vida
na aurora de todas as primaveras,
no pôr do sol de cada verão,
na travessia serena de cada inverno…

Esperei por Ti,
sem pressa e sem medo,
porque o Amor nunca se atrasa.

E dancei contigo em todas as praças da Vida
embalado pelo perfume suave de um abraço
Que fazia de nós uma só carne.

Esperei por Ti,
para beijar e abraçar a tua história,
derramando em cada uma das tuas feridas
o bálsamo da paz e a delicadeza da ternura
que enche de futuro cada passo
e que amplia as fronteiras do coração.

Esperei por Ti,
sem pressa e sem medo,
porque o Amor nunca se atrasa.

E, as encruzilhadas do tempo,
sabendo que Te esperava,
fizeram de teu coração um diamante
para que brilhassem nele todas as cores da Vida
e pudesses vir ao meu encontro
trazendo no peito a doce luz
que nenhuma noite pode apagar.

Descalço,
corri ao Teu encontro,
beijei-te na fronte para te dar a paz
e, naquela hora de graça,
o tempo tornou-se apenas um instante
que agora nos abraça 'para sempre'
…e nos faz casa um para o outro.

Esperarei por Ti,
sem pressa e sem medo,
porque o Amor nunca se atrasa.



terça-feira, novembro 08, 2016

VIDA (E)TERNA...


“Quanta Ressurreição habita os teus gestos cotidianos?”. É com esta provocação que nos deixamos encontrar pela Palavra desta semana (Lc 20, 27-38). No caminho para Jerusalém, metáfora dos nossos caminhos diários, Jesus deixa-se questionar por aqueles que negavam a ressurreição. É assim o nosso Deus, um Deus que não teme as nossas perguntas, um Deus que não ignora os nossos questionamentos, um Deus que pacientemente se deixa ‘pôr em causa’ pelas nossas dúvidas, pelas nossas ‘incredulidades’. O Deus de Jesus Cristo não nos dá respostas a la carte, acolhe as nossas fragilidades e aceita fazer caminho nelas. Não nos responde o óbvio e estimula-nos a contemplar para além do banal.

A grande provocação de Jesus ao responder aos questionadores do caminho, e a nós também, parece ser a de nos confrontar com as nossas escolhas, os nossos olhares, o ‘peso’ que levam as nossas palavras, a intensidade dos nossos encontros, os nossos projetos, e nos devolver a questão: tudo isso que fazes no teu dia a dia está ‘grávido’ de vida (e)terna?

Não se trata de olhar a vida como um caminho que lá no final se encontra com o céu, trata-se sim de perceber que cada passo do caminho ou vai cheio dele...ou vai cheio de nada! Se as nossas escolhas são cheias de céu, se de cada vez que nos cruzarmos uns com os outros aprendemos a olhar-nos mais olhos nos olhos do que olhar para o chão ou para o lado, então é aos poucos que vamos morrendo para a indiferença, a superficialidade, o banal e é assim que se vai enraizando em nós esse jeito novo de ser de Deus e de ser com Ele...pois pelo caminho vamos semeando e fazendo germinar o grande sonho que ele mesmo plantou no mais íntimo do nosso coração e que Agostinho cantou assim: “Tu nos criaste para Ti, Senhor, e nosso coração anda inquieto enquanto não repousa em Ti”.

Ressuscitar é dizer ao(s) outro(s), diariamente e para além dos nossos preconceitos, “Tu continuas a existir dentro de mim!”. É aprender a olhar o horizonte quando o sol vem beijando a terra e, com a determinação de um primeiro passo, (re)iniciar a peregrinação de atravessar a noite com a doce luz da esperança no coração e nos lábios; é entusiasmar-se, como as crianças, com as coisas simples e belas da vida, tão simples e belas como um abraço demorado, um olhar pacificador, o calor de um ‘obrigado’ ou a carícia de um ‘estou aqui!’...Ressuscitar é não deixar que os sonhos morram sufocados, é viver com ousadia sabendo que em cada limite há uma possibilidade e é saber também que nenhum pecado pode mais que a misericórdia, pois o perdão que o abraça sabe fazer de cada queda um recomeço...

Como um dia escreveu tão belamente escreveu Frei Prudente Nery: “Quando chega o inverno, sem que ninguém os instrua, os pássaros erguem-se espontaneamente aos céus em incrível aventura. Conduzidos por um misterioso legado de sua espécie, seguindo apenas os pulsos magnéticos da terra, eles voam, pelas trilhas do sol, milhares de quilômetros, noite e dia, à busca apenas de permanecer na vida. Assim há de ser também conosco, quando, no crepúsculo de todos os outonos, cair sobre nós o frio do inverno. Carregados, então, pelo fascinante destino de nossa espécie, nós voaremos, seguindo apenas os acenos da eternidade, rumo à morada da luz, o coração de Deus. E aí saberemos o que, agora, apenas intuímos e, ouvindo Jesus Cristo, o Caminho, a Verdade, a Vida, cremos: Não existem dois reinos, o reino dos mortos e o reino dos vivos, o reino da terra e o reino dos céus, mas apenas o Reino de Deus, que quis que fôssemos eternos”. BOA SEMANA!