segunda-feira, janeiro 08, 2018

QUANDO O CORAÇÃO VÊ...


Somos (e)ternos buscadores de sentido, sabor e significado. Como viandantes, somos ritmados pelo cotidiano que nos interpela e se apresenta diante do coração e da vida como ‘oferta de salvação’. Sim, precisamos ser salvos! Salvos, de dentro para fora, de tudo o que nos sufoca: os medos, as frustrações, a ansiedade, os nossos fracassos, os nossos pecados...enfim, tanta ‘bagagem’ para uma viagem onde só o essencial é necessário!

Gosto de olhar aqueles Magos, de que Mateus nos fala no Evangelho, como homens de coração inquieto, disponíveis e determinados. ‘Magos’ significa, literalmente, “ilustres” ou “grandes”; era a designação dada aos que se dedicavam à astrologia. Sendo ‘buscadores de sinais’, não os exigem. Sabem esperar. Sabem contemplar. Vivem com um coração não se entrega ao superficial.

Como os pastores, também os magos estão ‘nas periferias’. Não é a curiosidade que os move, é a sede da Vida! Eles sabem ver num ‘sinal que brilha na noite’ a convocação para ‘um novo dia’. Quando chega a luz do Céu, a ‘Glória a Deus nas alturas’ canta-se com os ‘pés na terra’, ‘peregrinando’, fazendo de cada passo um caminho sem retorno. O Céu ‘falou’ e o coração soube ‘ver’, agora é a ‘hora dos peregrinos’!
Os Magos interpelam-nos sobre ‘o que vemos’ e ‘o que contemplamos’. Com a sua determinação interrogam-nos sobre ‘o que esperamos’ e ‘com que disposição’. Com que frequência olhamos o Céu? Com que liberdade acolhemos os Seus sinais? Não são interrogações de ‘ocasião’, são o essencial para o nosso seguimento batismal de Jesus!

Não foi em vão que Jesus nos disse um dia: “Os últimos serão os primeiros”. Chegou a hora! Das ‘margens’ para o ‘Coração’, Jesus começa a convocar os ‘peregrinos’. De agora em diante o caminho faz-se passo a passo, dia após dia, seguindo-O com ‘determinada determinação’ (Teresa de Ávila). É uma convocação que vem do alto, que nos pede mergulho profundo ‘nas fontes da Salvação’. É que Isaías tinha razão, e com ele também nós cantamos e Adoramos neste dia:

“Deus é o meu Salvador, tenho confiança e nada temo. O Senhor é a minha força e o meu louvor. Ele é a minha salvação. Tirareis água, com alegria, das fontes da salvação. Agradecei ao Senhor, invocai o seu nome. Anunciai aos povos a grandeza das suas obras, proclamai a todos que o seu nome é Santo. Cantai ao Senhor, porque Ele fez maravilhas, anunciai-as em toda a terra. Entoai cânticos de alegria e exultai, habitantes de Sião: porque é grande no meio de vós o Santo de Israel» (cf. Is 12, 2-6)


domingo, dezembro 24, 2017

UM NATAL 'SUBVERSIVO'...


O Natal recorda-nos que Deus fez uma escolha: escolheu ser pobre. Não cedeu aos caprichos do Império Romano, símbolo do poder que subjuga e escraviza; Não cedeu aos caprichos religiosos de quem desejava um deus encerrado num templo e ‘domesticado’ pela vontade dos homens; Não cedeu à ‘falsa esperança’ de ser um poderoso guerreiro com ‘ódios de estimação’; Não cedeu aos preconceitos nacionalistas de ser ‘um deus só para alguns eleitos’; Não cedeu à falsa expectativa de se apresentar como um ‘deus-sádico’; não cedeu à tentação de se fazer conhecer como um deus ‘onipotente-vingativo’...

Subvertendo todas as lógicas, e purificando todas as nossas (falsas!) expectativas, em Jesus, Deus revela-se como um Deus de Ternura e Misericórdia, um Deus que não se cala diante da injustiça, um Deus que faz das periferias o centro, um Deus que nos traz uma paz que não é anestesia, nem ‘paz de cemitério’, mas compromisso em restituir dignidade; um Deus que se apresenta aos homens como fiel companheiro de viagem pelas estradas da vida, um Deus que rejubila com as nossas conquistas, um Deus que beija e cura as nossas feridas, um Deus que nos liberta de ‘tudo o que pesa dentro de nós’ e, com a força do perdão, nos ensina que toda a vida é feita de recomeços...Um Deus ‘pequenino’ que deseja tornar ‘grande’ o nosso existir.

Diante do presépio, e a partir dele, há uma lógica ‘subversiva’ que nos interpela. Ali, Deus recorda-nos que a experiência de fé nunca pode ser ‘superficial’ ou ‘banal’, pede-nos que não nos deixemos ‘convencer’ por uma religiosidade da ‘aparência’ e provoca-nos a tocar todas as feridas da humanidade, a caminhar delicadamente no território sagrado que é cada pessoa, a escutar ‘divinamente’, antepondo a misericórdia ao julgamento.


A partir de Belém, daquela manjedoura onde Ele assumiu nossa carne, o Céu não nos pede para ‘sermos bonzinhos’, mas sim para sermos humanos, plenamente humanos, tão humanos...que com Cristo, e em Cristo, nos tornemos divinos. FELIZ NATAL!



terça-feira, dezembro 05, 2017

O RISCO DO ENCONTRO...


Trazemos dentro de nós o poder de transformar vidas: palavras que salvam, gestos que curam, olhares que libertam, toques que transformam. É com esta perspectiva que mergulho neste Advento! É com esta ‘vigilância’ (não policial, mas evangélica!) que aceito percorrer um caminho que será tecido pela filigrana da fé e dos afetos, da Esperança e do Silêncio.

Muitos confundem o advento com ‘imobilização’ pensando que ele é (apenas) tempo de espera. Mas esperar (ou ter Esperança!) exige de nós atitude, determinação, exige que o nosso coração se mova, que nossos olhos se abram, que nossos lábios aprendam a sussurrar e a degustar cada palavra com a ternura que converte. Advento não é ficar ‘estacionado’ na garantia de que Deus continua a agir, a mover-se para nós e em nós. O Advento pede-nos que acolhamos o “Verbo procedente do Silêncio” (Inácio de Antioquia). É caso para nos perguntarmos, agora que iniciou mais um ano litúrgico: onde estava no último advento? De onde estou (re)partindo neste Advento?...

A Palavra da Vida, que escutámos no último Domingo, recordava-nos que o primeiro passo do nosso Advento deve ser a confiança. Temos um Pai! Um Pai que nos procura, um oleiro que nos molda sem nos esmagar, um Pai-peregrino que nos acompanha, consola e, mesmo diante das nossas rebeldias, não recua...antes se apressa para nos envolver num (e)terno abraço que nos aquece o coração e nos (re)lembra que na vida da fé o ‘milagre do recomeço’ dá solidez aos nossos passos.

Para perscrutarmos os sinais da Sua presença, e corrermos para Seus braços, a boa notícia do Evangelho recordava-nos que precisamos ‘vigiar’. E o que é afinal essa vigilância? Esse é o segundo passo do nosso caminho. Vigiar significa essencialmente estar desperto, estar acordado...não deixar que a ‘sonolência espiritual’ feche os olhos do nosso coração e da nossa vida. Advento é caminho para o Encontro! Se adormecermos, não faremos esta peregrinação que nos mostrará que “Ele está no meio de nós”!

Com todos estes desafios diante da vida, inteligência e do coração e, relendo alguns números da Evangelii Gaudium do Papa Francisco, onde diz: “O Evangelho convida-nos sempre a abraçar o risco do encontro com o rosto do outro, com a sua presença física que interpela, com os seus sofrimentos e suas reivindicações, com a sua alegria contagiosa permanecendo lado a lado. A verdadeira fé no Filho de Deus feito carne é inseparável do dom de si mesmo, da pertença à comunidade, do serviço, da reconciliação com a carne dos outros. Na sua encarnação, o Filho de Deus convidou-nos à revolução da ternura. (...) o desafio que hoje se nos apresenta é responder adequadamente à sede de Deus de muitas pessoas, para que não tenham de ir apagá-la com propostas alienantes ou com um Jesus Cristo sem carne e sem compromisso com o outro. Se não encontram na Igreja uma espiritualidade que os cure, liberte, encha de vida e de paz, ao mesmo tempo que os chame à comunhão solidária e à fecundidade missionária, acabarão enganados por propostas que não humanizam nem dão glória a Deus” (Evangelii Gaudium nº 88-89), dei por mim a pensar: e se o nosso Advento de 2017 fosse tempo para uma redescoberta do Pai Nosso?...Boa Semana!


O que te proponho:

1. Começa por escrever/colocar no teu diário, num papel em cima da tua mesa de trabalho ou noutro local à tua escolha, o texto do Pai Nosso.

2. Pelo menos 3x ao dia, para 5 minutos e reza tranquilamente.

3. Se quiseres podes seguir este esquema, começando em cada Domingo e deixando que ele faça eco no teu caminho semanal:

I Domingo – Tomo consciência da presença de Deus em minha vida como um Pai que molda, transforma e santifico o Seu nome sendo ternura e consolação para os outros.

“Pai Nosso que estais nos céus,
santificado seja o vosso Nome”

II Domingo – Preparo o meu coração para acolher e construir o Reino procurando ser honesto, acolhedor de quem pensa diferente de mim e aprendendo a dialogar com serenidade.

“Venha a nós o vosso Reino,
seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu”

III Domingo – Vivo a Alegria do Evangelho tendo durante esta semana um gesto concreto de partilha.

“O pão nosso de cada dia nos dai hoje”

IV Domingo – Celebro o dom do Natal de Jesus procurando reconciliar-me, com Deus e com os outros.

“Perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido
e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do Mal.



segunda-feira, novembro 20, 2017

O QUE TENS FEITO...?



O que tens feito com os teus talentos? É espontânea esta interrogação diante da Palavra que nos interpela esta semana (Mt 25, 14-30). A questão torna-se ainda mais incisiva se olharmos alguns dados que não podem ser para nós somente ‘estatísticas’: Uma em cada dez pessoas, 767 milhões no mundo todo, sobrevivem com menos de US$ 1,90 por dia... A região da África Subsaariana concentra mais pessoas em situação de pobreza extrema do que todo o resto do mundo. São cerca de 388 milhões, o que corresponde a mais de 40% da população local...O que tens feito com os teus talentos?

Com inspirada ousadia, o Papa Francisco recordava neste Domingo que somos todos ‘mendigos do essencial’, “mendigos do amor de Deus, que nos dá o sentido da vida e uma vida sem fim. Por isso, também hoje, estendemos a mão para Ele a fim de receber os seus dons”...Mais uma vez ressoa a questão: O que tens feito com os teus talentos?

É desconcertante escutar o Evangelho e contemplar esta confiança de quem reparte tudo o que é seu...e vai! Sim, só o Amor tem esta liberdade de se dar, de confiar...e de se fazer Peregrino. Só um Amor assim é capaz de nos fazer sair do medo e suscitar compromisso, fidelidade, entrega. Ele sabe que a criatividade é o outro nome do Amor, por isso não hesita, nem por um segundo, em colocar em nossas mãos frágeis e pequenas a imensidão do Seu ser, do Seu amor, da Sua vida. É assim que, de talento em talento, Deus assume este ‘escândalo’ de ser o primeiro a confiar em nós...e o único que jamais desiste! Eis, portanto, a questão: O que tens feito com os teus talentos?

A pergunta que se repete, não é para nos determos no nosso ‘umbiguismo’ pensando que resta-nos apenas a missão de ‘tarefeiros do Evangelho’, uma espécie de repetidores sem alma de uma Palavra ‘neutralizada’ pelas nossas incapacidades ou lamentações...aí de nós quando esse ‘veneno’ for o motor da nossa existência! A repetição é para nos despertar e para nos estimular a (re)aprender a olhar, saborear e realizar, de dentro para fora e do céu para a terra, esta ousada missão que é irmã da confiança e filha do Amor, a missão de sermos multiplicadores da vida, da dignidade, da ternura e da salvação de Deus...Para isso o Evangelho apresenta-nos uma ‘escola’ onde podemos diariamente reaprender a acolher e multiplicar os dons: os pobres!

Recordou-nos o Papa Francisco: “No pobre, Jesus bate à porta do nosso coração e, sedento, pede-nos amor...Lá, nos pobres, manifesta-se a presença de Jesus, que, sendo rico, Se fez pobre. Por isso neles, na sua fragilidade, há uma «força salvífica». E, se aos olhos do mundo têm pouco valor, são eles que nos abrem o caminho para o Céu, são o nosso «passaporte para o paraíso». Para nós, é um dever evangélico cuidar deles, que são a nossa verdadeira riqueza; e fazê-lo não só dando pão, mas também repartindo com eles o pão da Palavra, do qual são os destinatários mais naturais. Amar o pobre significa lutar contra todas as pobrezas, espirituais e materiais. E isto far-nos-á bem: abeirar-nos de quem é mais pobre do que nós, tocará a nossa vida. Lembrar-nos-á aquilo que conta verdadeiramente: amar a Deus e ao próximo. Só isto dura para sempre, tudo o resto passa; por isso, o que investimos em amor permanece, o resto desaparece. Hoje podemos perguntar-nos: «Para mim, o que conta na vida? Onde invisto?» Na riqueza que passa, da qual o mundo nunca se sacia, ou na riqueza de Deus, que dá a vida eterna? Diante de nós, está esta escolha: viver para ter na terra ou dar para ganhar o Céu. Com efeito, para o Céu, não vale o que se tem, mas o que se dá...”.


Os talentos multiplicam-se quando o nosso coração se volta para o pobre e, com ele, reaprendemos a confiança, a alegria e o Amor que Salva... O que tens feito com os teus talentos? BOA SEMANA!


terça-feira, novembro 07, 2017

O QUE TE MOVE?...


O que te move?  É uma boa pergunta para nos acompanhar esta semana! Aviso já que não é uma pergunta ‘individualista’, mas é um questionamento maduro para quem sabe que a vida não é apenas o frenesim de horas, minutos ou segundos que se sucedem ininterruptamente.

Há quem se mova e há quem se comova. Há os que são empurrados e há os que ousam dar pequenos passos. Há quem tenha dúvidas, e precise de uma pausa para discernir, mas há também aqueles que parecem ter (sempre) certezas e vemo-los caminharem destemidos diante da vida e rumo ao futuro. Todos, tal como nós, trazem dentro interrogações e projetos, sonhos e desafios que ora assustam, ora entusiasmam...

O Evangelho, Esperança e Sabedoria para os viandantes, recorda-nos que aquilo que nos move (ou que nos deve (co)mover), não podem ser nem os ‘títulos’ (e hoje há tantos!), nem os preconceitos (estão a aumentar!), muito menos os ‘ódios de estimação’, o protagonismo ou a ambição...

Habitados pela Palavra que salva, o que nos (co)move é aquele ‘milagre quotidiano’ a que chamamos Vida. Nela, e com ela, somos chamados a ser como ‘crianças ao colo da Mãe’, sem soberba nem ‘blindagem’, sem altivez nem ‘reumatismo espiritual’, oferecendo a todos a luz do Evangelho, pois “a verdadeira felicidade não consiste em possuir algo, nem em tornar-se alguém; a felicidade autêntica consiste em estar com o Senhor e viver por amor...” (Papa Francisco).

Com ousadia evangélica questionava recentemente o grande profeta-irmão-bispo D. António Couto: “por que será que os Santos se esforçaram tanto, e com tanta alegria, por serem pobres e humildes, e nós nos esforçamos tanto, e com tristeza quanto baste por sermos ricos e importantes?”.

Em cada recomeço, Deus nos concede infinitas possibilidades de voltar às ‘raízes’, é isso que te desejo e te convido a fazer esta semana. Senta. Deixa que a Palavra ‘dance’ na tua alma e reza assim:

“Senhor, não se eleva soberbo o meu coração, 

nem se levantam altivos os meus olhos. 
Não ambiciono riquezas, 
nem coisas superiores a mim. 
Antes fico sossegado e tranquilo, 
como criança ao colo da mãe. 
Espera, Israel, no Senhor, 
agora e para sempre”.
(Salmo 130 (131), 1.2.3 )



segunda-feira, outubro 23, 2017

VAIS CONTINUAR A FAZER CONTAS?...


Diante de um mundo complexo (e desafiador!), vemos como a maioria das pessoas tem uma tendência natural para ‘quantificar’ a vida e os seus acontecimentos. Diz-se que hoje tudo tem um preço...até a ética (segundo alguns!). Tornámos o existir uma espécie de ‘exercício matemático’ onde o que vale é ‘somar’...uma matemática estranha que tem feito da vida uma ‘correria imensa’ onde o saber e o sabor de cada dia se esfumam cada vez mais, tornando o dom maior que é o viver um ‘fardo’ em vez de um ‘milagre (e)terno’.

Para não continuarmos errantes e distraídos, pensando que o quotidiano é insignificante, a Palavra que a cada Domingo nos ressuscita, vem esta semana despertar-nos das nossas lamentações e provocar o nosso coração para mais um passo nesta peregrinação que é a vida.

É que a vida não se resume somente ao que os nossos olhos vêem! Por isso, diante da artimanha montada para surpreender e contradizer Jesus (Mt 22, 15-21), dá-se o ‘milagre do sentido’: enquanto os fariseus e os herodianos se unem para continuar a ‘fazer contas’, pensando que na vida só vale somar, o Mestre surpreende-os colocando-os diante do essencial: ‘afinal, quais são as prioridades da tua vida? O que faz com que os teus dias sejam um dom?’...

É bom lembrar que “dar a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” não é uma ‘oposição’ de poderes...até porque o único poder do Amor é servir! A expressão significa essencialmente: não criar idolatrias. Por outras palavras, onde há discernimento não há espaço para manipulação, nem para ‘ódios de estimação’, muito menos para uma ‘paz podre’.

Com a sabedoria de Pai e Pastor, neste dia mundial das missões, o Papa Francisco interpelou-nos (re)lembrando que: “a missão da Igreja não é a propagação duma ideologia religiosa, nem mesmo a proposta duma ética sublime. (...) Por meio da proclamação do Evangelho, Jesus torna-Se sem cessar nosso contemporâneo, consentindo à pessoa que O acolhe com fé e amor experimentar a força transformadora do seu Espírito de Ressuscitado que fecunda o ser humano e a criação, como faz a chuva com a terra (...). O mundo tem uma necessidade essencial do Evangelho de Jesus Cristo. Ele, através da Igreja, continua a sua missão de Bom Samaritano, curando as feridas sanguinolentas da humanidade, e a sua missão de Bom Pastor, buscando sem descanso quem se extraviou por veredas enviesadas e sem saída. ”. Mas também nos advertiu ao recordar que: “uma Igreja autorreferencial, que se compraza dos sucessos terrenos, não é a Igreja de Cristo, seu corpo crucificado e glorioso. Por isso mesmo, é preferível uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças”.


Na lógica sempre humanizadora do Evangelho, “dar a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” significa não ceder à tentação de ficar mudo diante da injustiça, não fechar os olhos diante dos ‘corações aflitos’, não hipotecar o coração deixando que algo possa mais do que o Amor...E Tu, vais continuar a fazer ‘contas’? BOA SEMANA!


segunda-feira, outubro 09, 2017

NÃO BASTA SER SEMENTE...


Se fosses uma semente, o que serias?...pode parecer-te estranho começar assim a semana, mas quem não se questiona, definha...e morre! Viver, é saborear em cada interrogação a possibilidade de deixar germinar o dom. Há sementes que germinam para ‘sufocar’ a vida (e hoje parecem ser tantas!); outras sabendo que a vida se constrói (e se partilha!) de dentro para fora, preferem permanecer na sua ‘esterilidade’...é mais cómodo assim!

A Palavra que desperta o coração e nos dá a Vida, coloca-nos esta semana diante da pedagogia de Deus. Não se trata de uma ‘pedagogia da resistência’ nem de uma ‘pedagogia da sobrevivência’, pois Deus não é adolescente e aos Seus olhos nenhum de nós é uma ameaça. A Palavra coloca-nos diante da ‘pedagogia do recomeço’...Deus sabe (só Ele sabe!) que nas entrelinhas da vida, no modo como vamos tecendo e habitando o cotidiano, são muitas as contradições nos habitam. Ele sabe os propósitos e a determinação com que damos em cada amanhecer o primeiro passo...mas também conhece a fragilidade para onde confluem os trilhos percorridos de pés descalços, mãos vazias e coração trémulo.

Deus sabe que o Seu Amor nos escandaliza! Quantas vezes tentamos domesticá-lo. No entanto, o Divino Amante, não hesita, nem por um instante, em habitar as nossas contradições com este paradoxo de ser Tudo para o nosso nada, Perdão para o nosso pecado, Vida na nossa morte, Paz para nossa inquietude.

Nos vinhateiros da parábola (Mt 21, 33-43), que Jesus nos sussurrou ao coração, estamos representados também nós cheios das nossas inseguranças passadas, agrilhoados nos nossos absolutos do tempo presente e nas nossas tentativas insanas de sufocar o futuro, esquecendo que ele será sempre dom e nunca ameaça.  

Não se trata, apenas, de ser semente...é preciso frutificar! É por isso que Deus não desiste. Também no seu tempo Jesus encontrou resistências, corações surdos e cegos. Não esqueçamos que o medo gera sempre fanatismos e violência...no tempo de Jesus, foi o medo que cristalizou atitudes e trancou os corações. E onde há medo, a liberdade será sempre escrava.

Deus quer-nos livres. Habitados pela gratidão de quem olha para a frente (e para o alto!) sabendo que a peregrinação da vida se vive de coração aberto, perfumando de ternura e compaixão os corações aflitos, ungindo com o dom da paz os viandantes cansados e sendo regaço acolhedor para todos os que se sentem indignos e órfãos.


Diante do nosso coração e da nossa inteligência coloca-se um desafio ‘cotidianamente solene’: Em cada semente, uma promessa. Em cada promessa, uma aliança. Em cada aliança, frutificar. Foi isso que lhe pedimos ao concluir a missa este domingo, rezando: “Senhor, neste sacramento em que saciais nossa fome e nossa sede, fazei que, ao comungarmos o Corpo e o Sangue do vosso Filho, nos transformemos n’Aquele que recebemos”...ainda te lembras? BOA SEMANA!