quinta-feira, março 14, 2013

uma ‘Igreja a céu aberto’...



Papa Francisco, vou falar-te do meu primeiro encontro contigo:



«Estava na Praça de S. Pedro. Completamente encharcado. Rezei, cantei, fiz silêncio. Estava acompanhado de vários italianos, meus colegas da Universidade Salesiana, e por dois Portugueses, um deles o Pe. Pedro Viva, estimado irmão, amigo e companheiro de viagem. Subitamente começa a aparecer o fumo que anunciava a tão desejada hora!



Dentro (e fora de mim) uma explosão de alegria. Estava ali, com milhares de irmãos, numa praça que era uma “igreja ‘católica’a céu aberto”. Curiosidade e serenidade foi o que senti ao ver aproximar-se o cardeal Tauran que tinha como missão fazer o “alegre anuncio”. O eleito não é um dos que fazia parte do elenco pré-anunciado em toda a comunicação! À minha volta alguém pergunta: “mas, quem é?”. Respondo: “é o cardeal de Buenos Aires, na Argentina!”. Alegre com a escolha ‘geográfica’, apesar de não conhecer muito de ti, mais alegre fiquei com o nome que escolheste.



A América Latina não é ‘o fim do mundo’ mas é, sem dúvida, um convite a pormos fim a um certo mundo ‘eurocêntrico’ e ‘egocêntrico’ de quem vive a fé de um modo demasiado formal, rico de ritos e tantas vezes ‘vazio de vida’.

Agrada-me por isso, para usar as tuas palavras Papa Francisco, que o novo Papa venha do “fim do mundo”…e isto já diz muito! Não advogas para ti o direito de ser o ‘princípio’ ou o ‘centro’ mas colocaste, desde o início, a partir do fim, dos últimos. E se isto parecer estranho, sobretudo aos sempre dotados e sabedores comentadores do momento, creio que se confirma facilmente pela escolha que vem ‘agrafada’ a esta, o teu ‘novo’ nome: FRANCISCO.



Partir dos pobres e com os pobres, fazendo brotar uma Primavera (uma Páscoa!) de esperança para a Humanidade, propondo com audácia o Evangelho e testemunhando-o com a alegria dos gestos e sinais proféticos. Não estou com isto a ‘fazer o programa’ para o teu ministério Papa Francisco, és tu quem guiará a barca de Pedro e a ti serei totalmente fiel, estou apenas a expressar com palavras o que vivi, o que sinto e como olho este caminho de irmãos que tu nos pede que façamos.



Mas, voltemos à praça, à ‘Igreja a céu aberto’. Eu estava ali, queria ver-te e queria ouvir-te! Uma vez mais a surpresa de Deus: um solene “Fratelli e sorelle, buonasera!”. É assim que tu, o Papa, saúdas não simplesmente os teus ‘devotos/fiéis’ mas a humanidade. Começas como um irmão que dialoga com o outro, num tom familiar, mesmo quando ‘já é noite’! E como se não bastasse esta ‘provocação’ ao ‘diálogo’ (fraterno), eis que nos fazes um convite muito claro: ‘rezemos todos juntos…!’.



Primeiro a oração, depois o caminho!

«Bispo e PovoUm caminho de fraternidade, de amor, de confiança entre nós. Rezemos sempre uns pelos outros. Rezemos por todo o mundo, para que haja uma grande fraternidade».



Emocionado, ainda tentei esconder algumas lágrimas, mas correram discretamente pela cara abaixo. E como não ‘estremecer’ com este teu pedido: «antes de o Bispo abençoar o povo, peço-vos que rezeis ao Senhor para que me abençoe a mim; é a oração do povo, pedindo a Bênção para o seu Bispo. Façamos em silêncio esta oração vossa por mim». Uma vez mais entre os ‘últimos’ e com todos…para todos! Porque é:

«é dando que se recebe, é perdoando que se é perdoado, e é morrendo que se vive para a vida eterna» (da oração atribuída a S. Francisco)



Quanto a mim, Papa Francisco,

este teu irmão fará todos os dias ‘silêncio’ para te dizer como os peregrinos a caminho:



«Por amor dos meus irmãos e amigos,
pedirei: "A paz esteja contigo!"
Por amor da casa do Senhor, nosso Deus,
pedirei o bem-estar para ti»
(salmo 122).



Obrigado PAPA FRANCISCO pelo que és e pelo que já suscitas em todos nós!»

segunda-feira, março 11, 2013

Nos (a)braços do Pai…

A nossa vida é uma viagem, melhor, uma ‘peregrinação’ feita de ritmos certos e de outros ‘descompassados’. Feita de passos dados com firmeza e de falta de ousadia para dar outros tantos. Somos uma história feita de audácia, de determinação, de criatividade e, em algumas circunstâncias, de medo(s), confusão e rotina. Mas quem bebe na fonte da esperança sabe sempre ver mais longe e mais profundamente…É que a história não se resume aos factos que se sucedem, aos acontecimentos que vivemos e/ou às memórias que ficaram… 
 
A HISTÓRIA É SEMPRE UM CONVITE A “LEVANTAR-SE!”, é apelo a construir futuro sem viver agrilhoado ao passado. É desafio a saborear o presente de modo activo e corresponsável. Gosto pois de olhar a vida como uma ‘pauta musical’ onde o silêncio e as notas entram numa ‘DANÇA’ feita de TERNURA e de AMOR que dão ritmo e fazem nascer a melodia. E foi assim, nesta cadência de escrever a melodia de ‘uma vida feita de partidas e regressos’, que me deixei interpelar pelo Evangelho deste Domingo.
Dei por mim a perguntar-me: «Como terão sido aqueles dias?...»…Um prato que sempre esteve na mesa, não estava a mais…apenas à espera! Um Pai ‘inquieto’, que não dorme e corre para a porta, de cada vez que ouve o rumor de passos, esperando aquele que parece nunca mais chegará...Um filho, ou melhor, dois que não se dão conta do quanto este Pai os ama e de como aquela casa ‘não faz sentido’ se eles não viverem esta ‘sinfonia’ de UM AMOR QUE SE DÁ SEMPRE, QUE SE DÁ TODO…EM TUDO!

Olhando a natureza, por entre a chuva que vai caindo, vejo também uma ‘polifonia de vida e de amor’ a despontar. As árvores vestem-se de ‘Páscoa’, muitas já cheias de flores, e a Páscoa acontece quando o nosso coração de filhos, estejamos onde estivermos, decide ‘levantar-se’ e ‘regressar a casa!’…

Por entre a memória e o afeto dos caminhos percorridos, por entre a exigência e a ternura de um regresso e de um futuro que nos pertence construir no ‘aqui’ e ‘agora’ da nossa existência, desperta-nos o apóstolo S. Paulo quando nos diz: «Se alguém está EM CRISTO, é uma nova criatura. As coisas antigas passaram; TUDO FOI RENOVADO. Tudo isto vem de Deus, que por Cristo nos reconciliou consigo» (2 Cor 5, 17-21).

Há um abraço que sempre nos espera,
Há um Deus que só sabe abraçar(-Te)!

A caminho da Páscoa espera-te 'esse abraço'!...BOA SEMANA!

domingo, março 03, 2013

"Minoria criativa" ...



Os frutos de um pontificado não se colhem todos no imediato, é preciso que o tempo passe para que se possam ler e colher com mais profundidade. Se tivesse que definir o pontificado de Bento XVI talvez a expressão que, a meu ver, melhor o definiria seria “minoria criativa”. Creio que a expressão condensa a renovação espiritual que ele pretendeu suscitar, o diálogo entre a fé e a razão que alimentou e desenvolveu com uma intensidade talvez nunca antes vista na história da Igreja e a experiência do diálogo ecuménico e inter-religioso que levou por diante. Por outro lado, creio que ao jeito dos profetas procurou trazer já à reflexão no presente, com a lucidez de quem lê na fé os acontecimentos da história, aquela que num tempo muito breve será a condição dos crentes, sobretudo no contexto europeu. A primeira vez que Bento XVI falou desta realidade foi na sua viagem no voo para Praga em, 26 setembro 2009, quando foi interpelado pelos jornalista acerca do facto da igreja ser, naquele país, uma minoria e de como poderia ela contribuir para o bem da nação. Na ocasião respondeu assim: «Normalmente são as minorias criativas que determinam o futuro, e neste sentido a Igreja católica deve compreender como minoria criativa que tem uma herança de valores que não são coisas do passado, mas uma realidade muito viva e actual».
Ser uma minoria criativa, capaz de interpelar pela densidade com que vive e celebra o dom da fé toda a humanidade, de modo a que esta repense o seu modo de viver, de olhar o homem e de se comprometer com a história, eis o trabalho destes 8 anos de pontificado. Passar de uma fé feita de uma ‘tradição’ que se deixou cristalizar pelo tempo e pela acomodação, a uma fé que ‘incomoda’, que suscita perguntas, dada a radicalidade e profundidade com que é vivida e anunciada nos gestos quotidianos. Basta estar atento ao percurso que nos propôs nas suas encíclicas e isso torna-se ainda mais evidente.
A uma Igreja (europeia!) errante e confusa o Papa propõem-lhe a redescoberta do ‘coração’ e dos ‘sinais da fé’, não pela via da opulência, do esplendor dos séculos passados, mas pela via da beleza e da verdade quotidianas de quem sabe dar razões da sua fé e da sua esperança, num cristianismo cheio de vida e audácia evangélica que faz da Igreja uma casa aberta ao mundo, no coração do mundo.
Esta insistência e este percurso do pontificado de Bento XVI não são uma ideia suscitada do acaso só porque hoje se ‘começam a esvaziar as igrejas na europa’, esta ‘intuição profética’ foi sendo amadurecida durante toda a sua vida, de um modo particular nos anos post-conciliares, quando o jovem teólogo Ratzinger em 1969, num conjunto de lições radiofónicas, disse o seguinte: «Da crise hodierna nascerá uma igreja que terá perdido muito. Tornar-se-á pequena e deverá repartir mais ou menos dos inícios. Não será mais capaz de habitar os edifícios que construiu em tempos de prosperidade. Com a diminuição dos seus fiéis, perderá também grande parte dos seus privilégios sociais. Repartirá de pequenos grupos, de movimentos e de uma minoria que recolocará a fé no centro da experiência. Será uma igreja mais espiritual, que não se arrogará um mandato politico flirtando ora com a esquerda ora com a direita. Será pobre e tornar-se-á a Igreja dos indigentes. Então as pessoas verão aquele pequeno rebanho de crentes como qualquer coisa de totalmente novo: descobri-lo-ão como uma esperança para si mesmos, a resposta que sempre tinham procurado em segredo» (J. Ratzinger, Faith and Future, Ignatius Press, 2009).
É para o futuro que aponta Bento XVI. Um futuro escrito não apenas com ‘tonalidades’ mas com a ‘verdade total’ do Evangelho. Ao apontar para o futuro deixa-nos como legado imediato três desafios muito concretos: Uma vida cristã autêntica, feita de um cristianismo ‘credível’; Uma igreja mais ‘leve’ e ‘transparente’, não assente no poder, nas intrigas palacianas, mas cada vez mais voltada para a missão, para o anuncio alegre e determinado da salvação de Deus em Cristo; Um apelo a vencer a indiferença e o relativismo que nos rodeiam com uma capacidade de diálogo capaz de ouvir os que pensam de modo diferente, trilhando com eles ‘o caminho do belo’ para que, por essa via, redescubram o Homem e o mundo como expressão de Deus que é Amor.