terça-feira, novembro 07, 2017

O QUE TE MOVE?...


O que te move?  É uma boa pergunta para nos acompanhar esta semana! Aviso já que não é uma pergunta ‘individualista’, mas é um questionamento maduro para quem sabe que a vida não é apenas o frenesim de horas, minutos ou segundos que se sucedem ininterruptamente.

Há quem se mova e há quem se comova. Há os que são empurrados e há os que ousam dar pequenos passos. Há quem tenha dúvidas, e precise de uma pausa para discernir, mas há também aqueles que parecem ter (sempre) certezas e vemo-los caminharem destemidos diante da vida e rumo ao futuro. Todos, tal como nós, trazem dentro interrogações e projetos, sonhos e desafios que ora assustam, ora entusiasmam...

O Evangelho, Esperança e Sabedoria para os viandantes, recorda-nos que aquilo que nos move (ou que nos deve (co)mover), não podem ser nem os ‘títulos’ (e hoje há tantos!), nem os preconceitos (estão a aumentar!), muito menos os ‘ódios de estimação’, o protagonismo ou a ambição...

Habitados pela Palavra que salva, o que nos (co)move é aquele ‘milagre quotidiano’ a que chamamos Vida. Nela, e com ela, somos chamados a ser como ‘crianças ao colo da Mãe’, sem soberba nem ‘blindagem’, sem altivez nem ‘reumatismo espiritual’, oferecendo a todos a luz do Evangelho, pois “a verdadeira felicidade não consiste em possuir algo, nem em tornar-se alguém; a felicidade autêntica consiste em estar com o Senhor e viver por amor...” (Papa Francisco).

Com ousadia evangélica questionava recentemente o grande profeta-irmão-bispo D. António Couto: “por que será que os Santos se esforçaram tanto, e com tanta alegria, por serem pobres e humildes, e nós nos esforçamos tanto, e com tristeza quanto baste por sermos ricos e importantes?”.

Em cada recomeço, Deus nos concede infinitas possibilidades de voltar às ‘raízes’, é isso que te desejo e te convido a fazer esta semana. Senta. Deixa que a Palavra ‘dance’ na tua alma e reza assim:

“Senhor, não se eleva soberbo o meu coração, 

nem se levantam altivos os meus olhos. 
Não ambiciono riquezas, 
nem coisas superiores a mim. 
Antes fico sossegado e tranquilo, 
como criança ao colo da mãe. 
Espera, Israel, no Senhor, 
agora e para sempre”.
(Salmo 130 (131), 1.2.3 )



segunda-feira, outubro 23, 2017

VAIS CONTINUAR A FAZER CONTAS?...


Diante de um mundo complexo (e desafiador!), vemos como a maioria das pessoas tem uma tendência natural para ‘quantificar’ a vida e os seus acontecimentos. Diz-se que hoje tudo tem um preço...até a ética (segundo alguns!). Tornámos o existir uma espécie de ‘exercício matemático’ onde o que vale é ‘somar’...uma matemática estranha que tem feito da vida uma ‘correria imensa’ onde o saber e o sabor de cada dia se esfumam cada vez mais, tornando o dom maior que é o viver um ‘fardo’ em vez de um ‘milagre (e)terno’.

Para não continuarmos errantes e distraídos, pensando que o quotidiano é insignificante, a Palavra que a cada Domingo nos ressuscita, vem esta semana despertar-nos das nossas lamentações e provocar o nosso coração para mais um passo nesta peregrinação que é a vida.

É que a vida não se resume somente ao que os nossos olhos vêem! Por isso, diante da artimanha montada para surpreender e contradizer Jesus (Mt 22, 15-21), dá-se o ‘milagre do sentido’: enquanto os fariseus e os herodianos se unem para continuar a ‘fazer contas’, pensando que na vida só vale somar, o Mestre surpreende-os colocando-os diante do essencial: ‘afinal, quais são as prioridades da tua vida? O que faz com que os teus dias sejam um dom?’...

É bom lembrar que “dar a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” não é uma ‘oposição’ de poderes...até porque o único poder do Amor é servir! A expressão significa essencialmente: não criar idolatrias. Por outras palavras, onde há discernimento não há espaço para manipulação, nem para ‘ódios de estimação’, muito menos para uma ‘paz podre’.

Com a sabedoria de Pai e Pastor, neste dia mundial das missões, o Papa Francisco interpelou-nos (re)lembrando que: “a missão da Igreja não é a propagação duma ideologia religiosa, nem mesmo a proposta duma ética sublime. (...) Por meio da proclamação do Evangelho, Jesus torna-Se sem cessar nosso contemporâneo, consentindo à pessoa que O acolhe com fé e amor experimentar a força transformadora do seu Espírito de Ressuscitado que fecunda o ser humano e a criação, como faz a chuva com a terra (...). O mundo tem uma necessidade essencial do Evangelho de Jesus Cristo. Ele, através da Igreja, continua a sua missão de Bom Samaritano, curando as feridas sanguinolentas da humanidade, e a sua missão de Bom Pastor, buscando sem descanso quem se extraviou por veredas enviesadas e sem saída. ”. Mas também nos advertiu ao recordar que: “uma Igreja autorreferencial, que se compraza dos sucessos terrenos, não é a Igreja de Cristo, seu corpo crucificado e glorioso. Por isso mesmo, é preferível uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças”.


Na lógica sempre humanizadora do Evangelho, “dar a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” significa não ceder à tentação de ficar mudo diante da injustiça, não fechar os olhos diante dos ‘corações aflitos’, não hipotecar o coração deixando que algo possa mais do que o Amor...E Tu, vais continuar a fazer ‘contas’? BOA SEMANA!


segunda-feira, outubro 09, 2017

NÃO BASTA SER SEMENTE...


Se fosses uma semente, o que serias?...pode parecer-te estranho começar assim a semana, mas quem não se questiona, definha...e morre! Viver, é saborear em cada interrogação a possibilidade de deixar germinar o dom. Há sementes que germinam para ‘sufocar’ a vida (e hoje parecem ser tantas!); outras sabendo que a vida se constrói (e se partilha!) de dentro para fora, preferem permanecer na sua ‘esterilidade’...é mais cómodo assim!

A Palavra que desperta o coração e nos dá a Vida, coloca-nos esta semana diante da pedagogia de Deus. Não se trata de uma ‘pedagogia da resistência’ nem de uma ‘pedagogia da sobrevivência’, pois Deus não é adolescente e aos Seus olhos nenhum de nós é uma ameaça. A Palavra coloca-nos diante da ‘pedagogia do recomeço’...Deus sabe (só Ele sabe!) que nas entrelinhas da vida, no modo como vamos tecendo e habitando o cotidiano, são muitas as contradições nos habitam. Ele sabe os propósitos e a determinação com que damos em cada amanhecer o primeiro passo...mas também conhece a fragilidade para onde confluem os trilhos percorridos de pés descalços, mãos vazias e coração trémulo.

Deus sabe que o Seu Amor nos escandaliza! Quantas vezes tentamos domesticá-lo. No entanto, o Divino Amante, não hesita, nem por um instante, em habitar as nossas contradições com este paradoxo de ser Tudo para o nosso nada, Perdão para o nosso pecado, Vida na nossa morte, Paz para nossa inquietude.

Nos vinhateiros da parábola (Mt 21, 33-43), que Jesus nos sussurrou ao coração, estamos representados também nós cheios das nossas inseguranças passadas, agrilhoados nos nossos absolutos do tempo presente e nas nossas tentativas insanas de sufocar o futuro, esquecendo que ele será sempre dom e nunca ameaça.  

Não se trata, apenas, de ser semente...é preciso frutificar! É por isso que Deus não desiste. Também no seu tempo Jesus encontrou resistências, corações surdos e cegos. Não esqueçamos que o medo gera sempre fanatismos e violência...no tempo de Jesus, foi o medo que cristalizou atitudes e trancou os corações. E onde há medo, a liberdade será sempre escrava.

Deus quer-nos livres. Habitados pela gratidão de quem olha para a frente (e para o alto!) sabendo que a peregrinação da vida se vive de coração aberto, perfumando de ternura e compaixão os corações aflitos, ungindo com o dom da paz os viandantes cansados e sendo regaço acolhedor para todos os que se sentem indignos e órfãos.


Diante do nosso coração e da nossa inteligência coloca-se um desafio ‘cotidianamente solene’: Em cada semente, uma promessa. Em cada promessa, uma aliança. Em cada aliança, frutificar. Foi isso que lhe pedimos ao concluir a missa este domingo, rezando: “Senhor, neste sacramento em que saciais nossa fome e nossa sede, fazei que, ao comungarmos o Corpo e o Sangue do vosso Filho, nos transformemos n’Aquele que recebemos”...ainda te lembras? BOA SEMANA!


quarta-feira, setembro 27, 2017

DEUS NÃO TEM BOLSOS!...


São muitas as imagens que precisamos desconstruir no nosso relacionamento com Deus. Há quem tenha sido mais educado para temer a Deus do que para o amar, o medo faz-nos sempre escravos! Se a nossa vida se rege pelo medo, facilmente nos tornamos uma ‘sinfonia de lamentações’, peregrinos do absurdo e da desilusão...isso não é discipulado, é veneno!

Para não nos perdermos nesta grande peregrinação que é a vida, precisamos voltar sempre ao Evangelho para degustar e contemplar quem Deus é e quem somos para Ele, qual o seu projeto e como isso tem eco, ou não, em nossos corações. Isaías recordou-nos magistralmente, na Palavra deste Domingo, que o nosso Deus escuta(-nos) e é generoso no perdão (Is 55, 6-9) e enfatiza o fato de Deus não corresponder às nossas medidas curtas, forjadas (quase sempre) pela nossa mesquinhez .

O Deus de Jesus Cristo, Esperança para os viandantes e força para os fracos, não fica refém dos nossos limites, faz-nos ir além...mostra-nos que em cada ferida há a possibilidade de cicatrizar, que em cada mágoa há sempre a possibilidade do perdão e que, mesmo no meio da solidão mais profunda, há sempre uma voz que sussurra ao intimo dos nossos corações aquele: “Não temas, Eu estou contigo!”, que nos levanta e escancara as portas do coração deixando que a luz da vida ilumine o nosso ‘jardim interior’ e transforme nossa alma numa ‘primavera cheia de Páscoa’.

Vem tudo isto a propósito da desconcertante Palavra que esta semana ilumina os nossos caminhos e amplia as nossas medidas (Mt 20, 1-16). O nosso Deus é um Deus em ‘êxodo’ e em ‘êxtase’, faz-se peregrino para que não nos sintamos órfãos, visita-nos nas praças da nossa solidão e acomodação, chama-nos para sermos atores (e não meros espectadores!) nesse grande sonho e projeto a que chamamos ‘Reino de Deus’ e, no Seu soberano e infinito excesso de dom, é um Deus que quer ficar de ‘mãos vazias’, dando tudo, dando-se todo...a todos...para sempre!

Sim, Deus não tem bolsos! Sua economia não assenta no mérito, mas na oferta (infinita e permanente) de dignidade. Na ‘matemática divina’ o começo faz-se a partir dos últimos, é a eles que é primeiramente oferecido o dom, não porque Deus goste de fazer ‘birra’ (Ele não é adolescente!), muito menos porque seja injusto, mas para nos colocar diante do coração e da vida a ‘medida do Evangelho’, ou se preferirmos, a medida do ‘coração que encontrou em Cristo as razões de seu viver’ (Fil 1, 20-27).


Na ‘contabilidade’ do Reino, ganhamos tudo quando não deixamos que ninguém fique de fora, ocioso, na praça da solidão...é que o nosso Deus é comunhão, de pessoas e de corações, e isso não cabe nos bolsos! BOA SEMANA!


segunda-feira, setembro 11, 2017

ON/OFF?...


“A que(m) te ligas? De que(m) te desligas?”, duas perguntas essenciais para quem quer fazer da peregrinação cotidiana um caminho de sabedoria, sentido e significado. Não há caminho sem desprendimento, cada passo dado em frente deixa para trás trilhos percorridos, memórias, encontros afetos...seguir em frente não significa ‘apagar’ a história, só peregrina com leveza quem sabe levar no coração uma memória agradecida, memória de quem se entrega ao futuro sabendo que ele é apenas desconhecido, mas nunca incerto!

Se há memórias que aprisionam, há outras que libertam. Ousar ‘ir além’ é medida do Evangelho! Não podemos resignar-nos ou acomodar-nos, o Evangelho, palavra de Libertação e Vida, convoca-nos para sermos instrumento de re-ligação (a etimologia de religião!). Religar é mais do que unir...é saber esperar, acolher, cuidar, integrar...religar é dizer ao outro: ‘aceito que as tuas fragilidades não sejam o fim. Acredito em ti, e contigo, que é possível ir mais além e mais profundamente’... é aprender a tecer com a filigrana da ternura e da compaixão cada recomeço até que cada um ao nosso lado (e nós próprios também!) sejamos inteiros...e por inteiro!

Habitados pela Palavra que nos abre horizontes de novidade e vida plena, somos desafiados pelo Mestre a re-ligar e a re-unir: “Em verdade vos digo: tudo o que ligardes sobre a terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes sobre a terra será também desligado no céu. Digo-vos ainda isto: se dois de vós se unirem sobre a terra para pedir, seja o que for, consegui-lo-ão de meu Pai que está nos céus. Porque onde dois ou três estão reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles” (cf. Mt 18, 15-20)

Sonhados para a unidade e para a comunhão fraterna, precisamos hoje, mais do que nunca, de re-descobrir e re-ligar o que é verdadeiramente humano...há laços de afeto e ternura que não podem sucumbir diante da indiferença generalizada; há muito bem sendo feito que tem rostos e nomes que precisam ser conhecidos; há tantos ‘milagres’ de perseverança e de paz diante de tanta violência e agressividade que deveríamos compartilhar mais frequentemente...

Todo re-começo nasce da escuta...por isso: “Escuto, mas não sei se o que oiço é silêncio ou Deus. Escuto sem saber se estou ouvindo o ressoar das planícies do vazio ou a consciência atenta que nos confins do universo me decifra e fita. Apenas sei que caminho como quem  é olhado, amado e conhecido. E, por isso, em cada gesto ponho solenidade e risco” (Sophia de Mello Breyner Andresen).


Temos uma semana pela frente. Ligar ou desligar? Eis a questão!


domingo, agosto 06, 2017

O AMOR, ESCUTAI-O!


De quanta escuta é feita a tua vida?...

A fé cristã vive da escuta. Sempre que escutamos reencontramo-nos! É difícil escutar...vivemos hoje tão freneticamente cheios de ruído à nossa volta que facilmente nos acomodamos e cedemos à ‘tentação do barulho’...sempre que deixo de escutar, desumanizo-me.

Na grande peregrinação da fé, escutar não é atitude passiva, é o ‘coração do encontro’ com um Deus que é diálogo, comunhão, Trindade. Só escuta quem é capaz de amar...o orgulhoso ‘não tem tempo’, ‘não pode’ e ‘não sabe’ escutar...Também não basta ter ouvidos, para escutar é preciso ter coração (bom!), um coração que se (co)move, que se deixa ‘ferir’ e não se entrega à indiferença, um coração mais disposto a abraçar do que  a julgar...Se a escuta fosse o paradigma do nosso cotidiano, seriamos menos juízes e mais irmãos; ousaríamos mais, em vez de sermos ‘escravos do medo’; e, como a fé nasce da escuta, nosso discipulado e seguimento de Jesus seria mais criativo, mais cheio da alegria do ‘Reino’ e menos cheios das lamentações!

É a escuta que transfigura a vida! A Palavra de Deus que nos alimenta esta semana desperta-nos, mais uma vez, para essa urgência da “Escuta que faz seguir”(Mt 17, 1-9)...O encontro com Aquele que é a Luz dos Povos (LG) vence as nossas escuridões interiores e impede-nos que cedamos à tentação de estacionarmos no já conquistado. O Encontro com Jesus exige desapego. O Seu seguimento pede-nos 'determinação batismal', isto é, encher o cotidiano com um novo sabor e uma nova luz, não foi á toa que Ele nos disse que era ‘o Pão da vida’, a ‘Luz do mundo’!

O tempo que vivemos, a história que habitamos, não se compadece com um ‘cristianismo de escuridão’...É preciso ir além, ir mais longe, ir mais profundamente! Este (re)começo só pode ser feito a partir da escuta. É nela que os nossos passos ganham a densidade do (e)terno.


Olhos contemplativos, mente que reflete e coração aberto...eis o ‘mapa existencial’ para uma oportuna revisão de vida. Em tempo de férias e de (re)começos talvez seja o momento para  ‘transfigurar as nossas rotinas’...recomeçamos com uma pergunta: De quanta escuta é feita a tua vida?. Boa semana! Boas Férias!


"Quando o amor vos chamar, segui-o,
Embora seus caminhos sejam agrestes e escarpados;
E quando ele vos envolver com suas asas, cedei-lhe,
Embora a espada oculta na sua plumagem possa ferir-vos;
E quando ele vos falar, acreditai nele,
Embora sua voz possa despedaçar vossos sonhos
Como o vento devasta o jardim.
Pois, da mesma forma que o amor vos coroa,
Assim ele vos crucifica.
E da mesma forma que contribui para vosso crescimento,
Trabalha para vossa poda.
E da mesma forma que alcança vossa altura
E acaricia vossos ramos mais tenros que se embalam ao sol,
Assim também desce até vossas raízes
E as sacode no seu apego à terra.
Como feixes de trigo, ele vos aperta junto ao seu coração.
Ele vos debulha para expor vossa nudez.
Ele vos peneira para libertar-vos das palhas.
Ele vos mói até a extrema brancura.
Ele vos amassa até que vos torneis maleáveis.
Então, ele vos leva ao fogo sagrado e vos transforma
No pão místico do banquete divino.
Todas essas coisas, o amor operará em vós
Para que conheçais os segredos de vossos corações
E, com esse conhecimento,
Vos convertais no pão místico do banquete divino.
Todavia, se no vosso temor,
Procurardes somente a paz do amor e o gozo do amor,
Então seria melhor para vós que cobrísseis vossa nudez
E abandonásseis a eira do amor,
Para entrar num mundo sem estações,
Onde rireis, mas não todos os vossos risos,
E chorareis, mas não todas as vossas lágrimas.
O amor nada dá senão de si próprio
E nada recebe senão de si próprio.
O amor não possui, nem se deixa possuir.
Porque o amor basta-se a si mesmo.
Quando um de vós ama, que não diga:
“Deus está no meu coração”,
Mas que diga antes:
“Eu estou no coração de Deus”.
E não imagineis que possais dirigir o curso do amor,
Pois o amor, se vos achar dignos,
Determinará ele próprio o vosso curso.
O amor não tem outro desejo
Senão o de atingir a sua plenitude.
Se, contudo, amardes e precisardes ter desejos,
Sejam estes os vossos desejos:
De vos diluirdes no amor e serdes como um riacho
Que canta sua melodia para a noite;
De conhecerdes a dor de sentir ternura demasiada;
De ficardes feridos por vossa própria compreensão do amor
E de sangrardes de boa vontade e com alegria;
De acordardes na aurora com o coração alado
E agradecerdes por um novo dia de amor;
De descansardes ao meio-dia
E meditardes sobre o êxtase do amor;
De voltardes para casa à noite com gratidão;
E de adormecerdes com uma prece no coração para o bem-amado,
E nos lábios uma canção de bem-aventurança"


(Khalil Gibran, in O Profeta)

domingo, julho 02, 2017

CANTAR...(E)TERNAMENTE!




De quanta gratidão são feitos os teus dias?...Andamos todos tão anestesiados na correria do ‘muito para fazer’, das metas a atingir, que facilmente os nossos olhos se habituam a planilhas, agendas e reuniões...e, aos poucos, vamo-nos tornando incapazes de redescobrir a ‘eternidade no instante’, o calor do afeto, a beleza daquele café compartilhado, um olhar mais demorado para perceber que Ele está no meio de nós e nos visita no que é ‘extraordinariamente cotidiano’ e ‘milagrosamente simples’... isto acontece não somente nos ambientes de trabalho mas também na vida eclesial.

O Evangelho, Palavra e Vida que nos desassossega e converte, recorda-nos que a fé é ao mesmo tempo renúncia e acolhimento. Renúncia de tudo aquilo que desfigura em nós a santidade batismal e acolhimento dos critérios de ‘bem-aventurança’ que fazem da nossa vida uma oferta de amor, de discipulado e de anúncio alegre do único Amor que salva. É assim que gestos simples, aparentemente banais e cotidianos, se tornam um milagre que torna presente ‘o Reino de Deus e a sua justiça’, é que o Amor não se explica...acolhe-se, vive-se, celebra-se...dá-se!

É assim também que, no seguimento de Jesus, a nossa cruz cotidiana se torna uma Páscoa sem fim, um Evangelho mais anunciado pelos gestos do que pelas palavras, mais eficaz com o testemunho do que com o alarde superficial de quem só avança ‘quando vê milagres’ ou de quem espera de Deus aquilo que Ele não é!
Recorda-nos Jesus, referindo-se aos discípulos que havia enviado, que «se alguém der de beber, nem que seja um copo de água fresca, a um destes pequeninos, por ele ser meu discípulo, Não perderá a sua recompensa». É que na lógica do Evangelho a gratidão é irmã gêmea do acolhimento...e, quando se acolhe o dom de Deus, o amor tende a ser expansivo, oblativo, gratuito...(e)terno!

Não somos meros espectadores da história! Como nos recorda o Papa Francisco: “Eu sou uma missão nesta terra, e para isso estou neste mundo. É preciso considerarmo-nos como que marcados a fogo por esta missão de iluminar, abençoar, vivificar, levantar, curar, libertar. Nisto uma pessoa se revela enfermeira no espírito, professor no espírito, político no espírito..., ou seja, pessoas que decidiram, no mais íntimo de si mesmas, estar com os outros e ser para os outros” (EG 273). 

Acolher o Evangelho, deixar-se moldar e transformar por ele, assumir os critérios do Reino e testemunhar um Amor que ressuscita, eis a missão e a gratidão que temos para cantar!
Com a gratidão no coração e nos lábios, cantando eternamente as misericórdias do Senhor, continuamos o caminho e acolhermos o desafio: “Como o caminhante: canta e segue adiante (…) Avança no bem! (…) Progride no bem, progride na fé, sem desvios, progride na vida santa! Canta e caminha!” (Santo Agostinho, Sermão 256). Bom caminho, boa semana!
 

“Meu Senhor, Amo-te,
Meu Deus, peço-te perdão,
Meu Deus, creio em Ti,
Meu Deus, confio em Ti.
Ajuda-nos a amarmo-nos uns aos outros
como Tu nos amas” 
(Madre Teresa de Calcutá)



sexta-feira, maio 12, 2017

Ouvir a Sua voz...





O Evangelho surpreende-nos com a ternura de um Deus que teima não desistir de nos procurar, abraçar, curar e acompanhar. Não se tratam apenas de atitudes ou de uma mera delicadeza cheia de ‘respeitos humanos’ da parte de Deus para conosco. No amor Deus gosta sempre de perder(-se)! No Seu excesso de ternura Ele busca-nos, não para ter um grupo de adeptos ou garantir claque mas sim para nos fazer experimentar aquilo que desde sempre Ele sonhou em oferecer-nos: uma paz inquieta que sara as nossas feridas e desassossega os nossos corações fazendo-nos ‘peregrinos-dom’ para a humanidade.

Com o Evangelho no coração e na vida, há circunstâncias especiais que fazem desta nossa semana um tempo privilegiado para degustar de forma mais intima e intensa tudo aquilo que nos renova. Os nossos corações experimentam já a sintonia (e a sinfonia!) de quem escancara as portas do coração e da vida para acolher o Pastor bom e pai de ternura que nos confirma na fé, o Papa Francisco.

Escancara-se também o nosso coração para recebermos aquela ‘vida em abundância’ que a Senhora mais brilhante que o sol nos revelou quando nos disse que seu coração Imaculado seria nosso refúgio e o caminho que nos conduzirá ao céu.

Enche-se de vigor e entusiasmo o nosso coração ao saborearmos, com Jacinta e Francisco, aquela alegria de ter os ‘corações ao alto’ e de viver a sublime experiência de nos deixarmos inundar da única Luz que nos aquece o coração e transforma a vida.

Pelo caminho (e a caminho!) cruzamo-nos nesta bendita ‘peregrinação’ com tantos rostos e histórias, com tanta ‘terra sagrada’ a quem Deus visitou no meio da dor, do sofrimento ou angústia mas também no meio das alegrias cotidianas que fizeram com que se pudesse experimentar ‘o eterno no instante’.

Portugal e toda a humanidade encontram-se nestes dias à mesa com o Bom Pastor naquele que é ‘o altar do mundo’. Não esperamos milagres. Não pedimos milagres. Ali estaremos de coração escancarado, envolvidos pela misericórdia e graça que só o céu nos pode dar. E, juntos, vindos de todos os cantos e lugares, numa sintonia feita de silêncio e gratidão cantaremos o Magnificat da Esperança que renova o mundo e o salva do desespero e da noite eterna...com um coração que escuta e se abre à ternura deixaremos ressoar em nós a voz de Deus...e (re)partiremos sabendo que Ele vai conosco e nos desafia a fazer de cada dia um grande milagre para o mundo!



“Meu Deus eu Creio, Adoro, Espero e Amo-vos. Peço-Vos perdão para os que não crêem, não adoram, não esperam e não vos amam.”