sábado, abril 15, 2017

Nunca estaremos sozinhos...


Assim escreveu, de maneira sublime, Bento XVI:

“No nosso tempo, especialmente depois de ter atravessado o século passado, a humanidade tornou-se particularmente sensível ao mistério do Sábado Santo. O escondimento de Deus faz parte da espiritualidade do homem contemporâneo, de maneira existencial, quase inconsciente, como um vazio no coração que se foi alargando cada vez mais. No final do século XIX, Nietzsche escreveu:  "Deus está morto! E quem o matou fomos nós!". Esta célebre expressão, observando bem, é tomada quase ao pé da letra da tradição cristã, frequentemente a repetimos na Via-Sacra, talvez sem nos darmos conta plenamente do que dizemos. Depois de duas guerras mundiais, os lager e os gulag, Hiroshima e Nagasaki, a nossa época tornou-se um Sábado Santo em medida cada vez maior:  a escuridão desse dia interpela todos os que se questionam sobre a vida, de modo particular interpela a nós, crentes. Também nós somos responsáveis por esta escuridão.

E, no entanto, a morte do Filho de Deus, de Jesus de Nazaré tem um aspecto oposto, totalmente positivo, fonte de consolação e de esperança. Isto faz-me pensar no facto de que o Santo Sudário se comporta como um documento "fotográfico", dotado de um "positivo" e de um "negativo". Com efeito, é exatamente assim:  o mistério mais obscuro da fé, ao mesmo tempo, é o sinal mais luminoso de uma esperança que não tem confim. O Sábado Santo é a "terra de ninguém" entre a morte e a ressurreição, mas nesta "terra de ninguém" entrou Um, o Único, que a atravessou com os sinais da sua Paixão pelo homem:  "Passio Christi. Passio hominis". O Sudário fala-nos precisamente deste momento, está a testemunhar aquele intervalo único e irrepetível na história da humanidade e do universo, no qual Deus, em Jesus Cristo, partilhou não só o nosso morrer, mas inclusive o nosso permanecer na morte. A solidariedade mais radical.

Naquele "tempo-além-do-tempo" Jesus Cristo "desceu à mansão dos mortos". O que significa esta expressão? Quer dizer que Deus, feito homem, chegou até ao ponto de entrar na solidão extrema e absoluta do homem, onde não chega raio de amor algum, onde reina o abandono total sem palavra de conforto alguma:  "mansão dos mortos". Jesus Cristo, permanecendo na morte, ultrapassou a porta desta solidão última para nos guiar também a nós a ultrapassá-la com Ele. Todos nós sentimos algumas vezes uma sensação assustadora de abandono, e o que mais nos assusta é precisamente isto, como quando somos crianças, temos medo de estar sozinhos no escuro e só a presença de uma pessoa que nos ama pode dar-nos segurança. Aconteceu exatamente isto no Sábado Santo:  no reino da morte ressoou a voz de Deus. Sucedeu o impensável:  ou seja, que o Amor penetrou "na mansão dos mortos":  também no escuro extremo da solidão humana mais absoluta nós podemos escutar uma voz que nos chama e encontrar alguém que nos pega pela mão e nos conduz para fora. O ser humano vive porque é amado e pode amar; e se até no espaço da morte penetrou o amor, então também lá chegou a vida. Na hora da extrema solidão nunca estaremos sozinhos:  "Passio Christi. Passio hominis".

Este é o mistério do Sábado Santo! Exatamente do escuro da morte do Filho de Deus brilhou a luz de uma esperança nova:  a luz da Ressurreição”

(Bento XVI, 02/05/2010)

sexta-feira, abril 14, 2017

O PERFUME DE NICODEMOS...


(Jesus Descido da Cruz de Sieger Koder)

Nietzsche, filósofo e proclamador da ‘morte de Deus’, escreveu um dia que ‘os cristãos não têm rosto de gente salva!’...talvez inspirado pelo ar sombrio com que muitos dos cristãos, no seu tempo (e no nosso!), se dirigem para as Igrejas, pelo menos neste dia de sexta-feira santa...

Não é fácil acolher um Deus cuja omnipotência se revela no Amor que oferece recomeço...os nossos corações estão demasiados habituados a uma ‘espiritualidade do sepulcro’ cheia de passado, de morte, de muitos silêncios ensurdecedores que habitam nossos corações e são fruto daquela ‘raivazinha de estimação’ que teimamos guardar, acumular, ampliar. As nossas rotinas anseiam, na maioria das vezes, por um Deus que faça ‘a nossa vontade’; os nossos projetos constroem-se habitualmente na auto-referencialidade, como se o nosso umbigo fosse o centro do universo...

O Deus de Jesus Cristo, que hoje se revela a nós como ‘Amor-Crucificado’, dá morte à idolatria que tantas vezes nos habita e nos faz pensar que Ele é apenas um ‘super-homem’ ou um ‘deus sádico’ indiferente às nossas dores e angústias. Isaías recorda-nos que ‘pelas suas chagas fomos curados’ e assim nos revela que um Deus impassível é um Deus impossível! Nenhum dos nossos sofrimentos lhe é indiferente, não há dor que Ele não conheça pelo nome. Solidário conosco ‘a partir de baixo’ faz-nos experimentar um amor (e)terno, que é dom do Alto, mas que não nos sufoca. É Amor que salva e cura. Amor que abraça e transforma. Amor que não julga, Amor que levanta.

Mas voltemos ao(s) rosto(s). Durante a celebração da Paixão há um personagem que aparece quase a fechar o Evangelho e que facilmente passa despercebido, Nicodemos. Sim, aquele que durante a noite foi ao encontro de Jesus e que se ‘escandalizou’ quando o Mestre lhe disse que precisava ‘nascer de novo’. Deixámo-lo no capítulo 3 do Evangelho de João e hoje, no capítulo 19, voltamos a reencontrá-lo. Ainda com ‘muita vergonha na cara’, ei-lo que chega carregado de perfume, 32, 7 kg de resina de mirra e alóes moído!...esta ‘medida’, tão pesada e grandiosa, é sinal de que para ele tinha sido dita ‘a última palavra’. A morte parecia, mais uma vez, encerrar uma história que havia trazido para a luz os cegos, dado esperança aos desesperados, curado as feridas dos enfermos, feito saborear o perdão aos pecadores...era portanto necessário ‘ungir em excesso’ para que os maus odores da decomposição mortal não voltassem a trazer a lembrança da desilusão...e quantas vezes o nosso caminho Pascal é tão cheio desta ‘unção nicodémica’!

O que Nicodemos havia esquecido (e nós também!) é que o caminho Pascal de Jesus passa sim pela morte, mas não fica agrilhoado nela. Diante do Amor “não há morte que nos mate”, não há sepulcro que nos detenha, a morte “não é mais um castigo, mas um esplendoroso ato de amor e de perdão, o termo de toda a ausência de comunhão e de toda a solidão. A condenação é transformada em perdão” (Paulus Tomanini).

Se Nicodemos se (re)lembrasse da lição do Mestre: “Deus amou tanto o mundo, que lhe entregou o seu Filho Unigénito, a fim de que todo o que nele crê não se perca, mas tenha a vida eterna. De facto, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele” (Jo 3, 16-17), teria perdido a vergonha na cara e, com um Rosto Salvo, cheio de Páscoa no coração, iria carregado de perfume não para ungir o morto, mas para celebrar a Vida...

Agora que a celebração já passou e temos um dia de ‘silêncio’ pela frente...talvez valha a pena pensar nisto. Bom caminho!

quinta-feira, abril 13, 2017

Aceitas ‘ser Pão’?...


Iniciámos no passado Domingo a semana, ‘Santa’ e ‘Maior’, marcados pelo grande sinal (e mistério!) da Vulnerabilidade omnipotente do Amor que salva. A narração da Paixão, pórtico com que Deus nos introduz no ‘mistério de Jerusálem’, despertou-nos para O escutarmos como discípulos (Isaías 50, 4-7). Ao nosso redor as marcas da Paixão tornaram-se (ainda mais) visíveis na tragédia do ataque às igrejas Coptas, como que a sussurrar-nos ao coração a verdade que teimamos em não aceitar: ‘se o grão de trigo não morrer, não produzirá fruto’. Sim, o Evangelho não rima com poder, com altivez ou agressividade; também não é paz indolente ou acomodação; não responde ‘na mesma moeda’, nem se blinda...

Encontrar-se com o Evangelho significa desnudar-se, isto é, entrar num excesso de dom e num desassossego de Amor que nos faz ver, tocar e celebrar cada realidade com a mesma ternura e misericórdia com que Deus vê e toca o nosso frágil barro. Foi assim em todo caminho quaresmal, é assim de um modo mais intenso nesta noite em que iniciamos o Tríduo Pascal.

O que celebramos hoje não é somente um rito ou uma Tradição! Celebramos um Deus que nos escancara e introduz na Sua intimidade. Um Deus que nos oferece comunhão e nos comunga naquilo que são as nossas dores e angústias, feridas e pecados, sonhos e projetos...Um Deus que nos pede que deixemos Suas mão acariciar nossos pés cansados ou acomodados (Jo 13, 1 -35). Um Deus que nos pede coragem e criatividade para fazer do mundo ‘uma casa de irmãos’ onde todos se sintam, no Amor, ungidos, sarados, salvos.

O Sonho de Deus para a Humanidade vem (re)lembrar-nos, de um modo especial nesta noite, que o Amor não se improvisa. O Amor cristão é concreto, beija as chagas do nosso sofrimento, enxuga as lágrimas das nossas dores, abraça os nossos desesperos para nos fazer sentir o calor e a proximidade de uma esperança que não engana, toca a nossa fragilidade e pecado sem medo de ‘sujar as mãos’ e, no fim, olhando-nos de baixo para cima, lava os nossos pés cansados e senta-nos na mesa onde o ‘Amor de todo o amor’ sacia as nossas fomes de sentido. Não é apenas um milagre. É a opção de Deus por nós!

Nesta noite, diante dos nossos olhos habituados ao superficial e diante do nosso coração tantas vezes inquieto, (re)inicia-se a ‘revolução da ternura’. Ele, o Rosto do Amor que salva, revela-nos que o único poder que o Amor tem é o serviço, sua omnipotência está na delicadeza com que toca cada história, cada pessoa...o Seu milagre de Amor está no apelo que nos faz a sermos, com Ele e como Ele, Pão que se reparte para que o mundo tenha a Vida... Para avançar, Ele pede-nos uma resposta. Não se trata de uma condição mas sim de assumir uma identidade! Aceitas?...Que o perfume da Páscoa preencha já estes teus primeiros passos do caminho!





terça-feira, março 28, 2017

ABRE OS OLHOS...



Vamos começar com uma pergunta: ‘de quantas cegueiras são feitos os teus passos cotidianos’? Se em cada passo o teu coração fosse uma porta escancarada, uma vida que se lê com a filigrana da ternura, talvez os teus dias fossem menos indolentes e a tua vida menos monótona...

Se para amar não basta ter coração...o mesmo acontece para o ver, não basta ter olhos ou simplesmente olhar...quantas vezes feridos com a vida, e com os outros, o nosso coração habitado pelo rancor e o ódio nos torna ‘viandantes cegos de olhos abertos’.

Um coração cheio de alfândegas, portagens ou muros, onde tudo é taxado ou cobrado, torna-nos amargos diante do presente, diante dos outros, diante do dom. Quando é assim, continuamos naquela lógica dos discípulos: “quem é que pecou para ele nascer cego?” (Jo 9, 1-41).

Deus quer-nos de olhos abertos e de coração escancarado, não nos quer enclausurados em questionamentos estéreis que fazem d’Ele uma caricatura, um ‘deus-sádico’...o Deus de Jesus Cristo é Luz, é presença sanante, unção para os corações atribulados. Deus também não nos quer mendigos, quer-nos Filhos!

É assim que Ele, o Caminho, se faz peregrino e Deus-conosco nos trilhos do nosso cotidiano. É aí que Ele nos toca, cura...e salva. É assim que Ele enche de luz a nossa cegueira, desata os nós da nossa indigência e nos restitui à dignidade original com que Deus sempre nos sonhou e amou.

Voltemos à pergunta inicial: de quantas cegueiras são feitos os teus passos cotidianos? De quanta cegueira são feitos os teus olhares? Quanta cegueira habita o teu coração? A quem têm ‘ungido’ as tuas mãos?

Na graça do Espírito que nos convoca e anima, seguindo no discipulado daquele que é a Luz do mundo, há um Reino que nos desassossega e chama, dado que «o Espírito do Senhor está sobre mim, me ungiu para anunciar a Boa-Nova aos pobres; envia-me a proclamar a libertação aos cativos e, aos cegos, a recuperação da vista; a mandar em liberdade os oprimidos, a proclamar um ano favorável da parte do Senhor» (Lc 4, 18-19).

Eis a Alegria do nosso caminho Batismal-Pascal: Abrir os olhos do coração e da vida! Seguir Jesus e proclamar em gestos de reconciliação e unção a graça que nos liberta da mendicidade e de toda a cegueira, isto é, saber que “Ele é o Pastor que nos conduz, nada nos falta...nada tememos...pois a sua bondade e graça nos acompanham” (Salmo 23). Não é intimismo, é gratidão do coração, é missão! BOA SEMANA!


quarta-feira, março 15, 2017

Transfigur-AÇÃO!


De quanta escuta são feitos os nossos dias? Quanta ousadia carregam os nossos frágeis gestos? São perguntas essenciais para quem aceita a peregrinação que nos leva à Páscoa. Não há conversão ‘improvisada’, nem discipulado ‘morno’...a ousadia da fé pede-nos uma ‘totalidade’ feita de cotidiano, tecida nos encontros e palavras, nos olhares demorados e nos abraços que oferecem recomeço e Páscoa. É a fé que nos faz contemplar. É a escuta que nos faz avançar. É o discernimento que nos faz ousar. É a caridade que nos faz agir.

Convocados e reunidos pela Palavra que liberta e salva, somos esta semana inspirados e desafiados pela ‘vulnerável firmeza’ de Abraão. Sair, avançar, crer, caminhar...verbos que nos despertam os sentidos e a inteligência, atitudes que nos mobilizam de dentro para fora e nos colocam diante da mais essencial das questões: temer ou ousar?...o caminho iniciado por Abraão é metáfora de todas as nossas peregrinações...somos feitos para caminhar, para saborear cada passo degustando neles a eternidade...a quaresma, caminho que nos rasga o coração para acolher o dom e nos coloca como horizonte a Páscoa, faz-nos redescobrir o essencial da identidade cristã: caminhar...e descobrir o caminho como bênção e como Aliança.

Não se trata de correr quilómetros, nem mesmo de ver quem chega primeiro! No caminho da fé só se atrasa quem cede à banalidade...para os que ousam, mesmo de mãos sujas ou coração ferido, Deus espera-os e acompanha-os com a filigrana da sua ternura e misericórdia.

O Evangelho, Palavra que desperta o coração e rasga novos horizontes ao nosso existir, narra-nos que a intimidade com Deus exige itinerância (Mt 17, 1-9). Seria muito cómoda uma fé que nos anestesiasse ou nos afastasse da realidade...mas o nosso Deus não vive nas nuvens! “levantai-vos e não tenhais medo” não é apenas um imperativo, é uma condição existencial. O Evangelho não é para tornar ‘doce’ a nossa existência, é Palavra que quer tornar fecundo o nosso viver, por isso não há lugar para a acomodação, para uma experiência religiosa alienante do tipo maniqueísta...a realidade está aí, cheia de contradições e de ‘novas escravidões’, cheia de complexidade e de muitos corações feridos...precisamos Levantar! Deus espera-nos nas cidades e bairros, nas ruas e lugares que cotidianamente percorremos. Deus convoca-nos para não cedermos à tentação de um cristianismo de bem-estar ou de uma religião que formalmente satisfaça a idolatria do nosso ego...

Precisamos levantar e descer para não vermos a realidade somente do alto mas, sobretudo, lado a lado...olhos nos olhos, coração a coração, deixando que aí, nas nossas planícies e trilhos cotidianos, Deus nos interpele a (re)descobrir e a compartilhar a única luz que dá sentido, sabor e significado...Ele coloca-nos diariamente diante dos corações aflitos, cansados ou desnorteados...e aí nos sussurra: “Este é o meu Filho muito amado, escuta-O!”...e não será assim que a Luz transfigura a Ação?...Boa Semana!
(Salmo 26/27 na voz de João Paulo II)





quarta-feira, março 01, 2017

PORTA E CORAÇÃO ESCANCARADOS...


Chegou a quaresma! Não se trata de uma ‘prescrição médica’ para combater os ‘excessos pós carnaval’, também não é uma ‘maratona espiritual’ para recuperar ‘o tempo perdido’ e, se ainda persistir alguma dúvida, que fique claro que a quaresma também não é ‘um tempo sombrio e sisudo’ que a Igreja nos impõe para ver se chegamos à Páscoa ‘bem comportadinhos’.

A quaresma é o fruto maduro da Páscoa de Cristo! Com ela o próprio Deus, que se faz caminho e peregrino conosco, nos convida a iniciar esta peregrinação que não se resume apenas a 40 dias, é um itinerário de vida...de uma vida que na escuta e no acolhimento, no discernimento e na oração, na gratidão e no dom, vai colhendo em cada passo a Salvação, a Graça e a Misericórdia. A grande questão que o caminho Pascal que hoje (re)iniciamos nos coloca é: velhos propósitos ou vida nova? Repetição ou ousadia? Comodismo ou conversão? É que por debaixo das cinzas que hoje são colocadas na tua cabeça há um 'perfume novo', um 'tempo novo' e um 'fogo novo' com o qual Deus quer ungir a tua vida, sarar tuas feridas, renovar o teu coração.

O caminho quaresmal está grávido de Páscoa, de Vida em abundância. Se a cada ano a Igreja nos interpela e desafia ao recomeço é porque na sua sabedoria ela descobriu que o coração humano precisa ser estimulado para não se acomodar em vãs repetições, precisa ser desafiado a deixar as miopias rotineiras e a abrir-se de novo ao dom, ao outro, a Deus.

Não se trata, portanto, de fazer do Jejum um exercício diet ou fitness; muito menos fazer da Caridade um ‘aumento de boas intenções’; menos ainda de fazer da Oração um palavreado infinito onde não há espaço para a escuta, a gratidão e o discernimento. O segredo Pascal do qual está grávida toda a quaresma é-nos sussurrado por Jesus ao coração quando nos diz: “Assim, quando deres esmola, não toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, para serem louvados pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. Quando deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a direita, para que a tua esmola fique em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa. Quando rezardes, não sejais como os hipócritas, porque eles gostam de orar de pé, nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. Tu, porém, quando rezares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora a teu Pai em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa. Quando jejuardes, não tomeis um ar sombrio, como os hipócritas, que desfiguram o rosto, para mostrarem aos homens que jejuam. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. Tu, porém, quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto, para que os homens não percebam que jejuas, mas apenas o teu Pai, que está presente em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa» (Mt 6, 1-18).

O Evangelho convoca-nos. A Igreja, como Mãe, acompanha-nos. Ao nosso lado caminham os peregrinos que são nossos irmãos. À nossa frente vai Cristo a pedir-nos para abrir a porta e escancarar o coração, pois é nesse ‘altar cotidiano’ que Ele nos vai revelar os segredos do Reino ao longo do caminho (Mt 25, 33-40) e assim se fazer Páscoa em nossa vida!
A Páscoa está plantada em nossos corações, chegou a hora de deixar o dom florescer e produzir fruto. Pelo caminho é bom ir relembrando:

“A Quaresma é o tempo para dizer não. Não à asfixia do espírito pela poluição causada pela indiferença, pela negligência de pensar que a vida do outro não me diz respeito; por toda a tentativa de banalizar a vida, especialmente a daqueles que carregam na sua própria carne o peso de tanta superficialidade. A Quaresma significa não à poluição intoxicante das palavras vazias e sem sentido, da crítica grosseira e superficial, das análises simplistas que não conseguem abraçar a complexidade dos problemas humanos, especialmente os problemas de quem mais sofre. A Quaresma é o tempo de dizer não; não à asfixia duma oração que nos tranquilize a consciência, duma esmola que nos deixe satisfeitos, dum jejum que nos faça sentir bem. A Quaresma é o tempo de dizer não à asfixia que nasce de intimismos que excluem, que querem chegar a Deus esquivando-se das chagas de Cristo presentes nas chagas dos seus irmãos: espiritualidades que reduzem a fé a culturas de gueto e exclusão.
A Quaresma é tempo de memória, é o tempo para pensar perguntando-nos: Que seria de nós se Deus nos tivesse fechado as portas? Que seria de nós sem a sua misericórdia, que não se cansou de perdoar-nos e sempre nos deu uma oportunidade para começar de novo? A Quaresma é o tempo para nos perguntarmos: Onde estaríamos nós sem a ajuda de tantos rostos silenciosos que nos estenderam a mão de mil modos e, com ações muito concretas, nos devolveram a esperança e ajudaram a recomeçar?
A Quaresma é o tempo para voltar a respirar, é o tempo para abrir o coração ao sopro do Único capaz de transformar o nosso pó em humanidade. É o tempo não tanto para rasgar as vestes frente ao mal que nos rodeia, como sobretudo para dar espaço na nossa vida a todo o bem que possamos realizar, despojando-nos daquilo que nos isola, fecha e paralisa. A Quaresma é o tempo da compaixão para dizer com o salmista: «Dai-nos [, Senhor,] a alegria da vossa salvação, sustentai-nos com um espírito generoso», a fim de proclamarmos com a nossa vida o vosso louvor (cf. Sal 51/50, 14), e que o nosso pó – pela força do vosso sopro de vida – se transforme em «pó enamorado»” (Papa Francisco, Homilia da Missa de imposição das cinzas 2017).

Chegou o tempo do (re)começo, não estranhes que te deseje: BOA PÁSCOA... É para lá que caminhamos!






segunda-feira, fevereiro 13, 2017

A ‘BENDITA TRANSGRESSÃO’...


Somos confrontados diariamente com um crescimento assustador da agressividade. Das palavras aos atos ela aí está, não só nos muros que se anunciam como ‘defesa’ da invasão dos migrantes ou no jargão repetido de que o oriente é uma ameaça pois nele (quase) todos são fundamentalistas ou na violência com que nos (des)informam os jornais, mas também nos nossos olhares recriminadores, nas nossas ‘palavras apressadas’, nos julgamentos silenciosos, muitas vezes carregados de ira ou sede de vingança...nenhum de nós está imune a esta ‘tentação quotidiana’.

Vem tudo isto a propósito da Palavra com que Deus visita o nosso coração esta semana (MT 5, 17-37). Há um caminho que Ele iniciou no mais intimo da nossa alma, o Concílio Vaticano II chamou-lhe ‘santuário da consciência’ (GS 16), é aí que Ele nos fala e revela o seu projeto de Amor. Pede-nos escuta atenta, uma fé de 'pés descalços’, um coração aberto ao discernimento. É assim que Ele nos faz saborear não somente o ‘amor à Lei’ mas aquela ‘Lei do Amor’ que Ele solenemente plantou e vem cuidando sempre que nos deixamos modelar e nos transformamos em ‘altar de reconciliação’.

O Encontro Pascal que gera o seguimento e o discipulado faz-nos descobrir que seguir Jesus implica sempre ‘ir além da lei’, é a ‘bendita transgressão’ que se torna ‘medida’ do Evangelho, sinal do Reino e da descoberta fundante de quem sabe, sente e vive que a sua identidade é a de servo inútil, nunca juíz!

Um coração ressuscitado nunca se detém na ‘matemática’, alegra-se sempre com ‘o milagre dos recomeços’, das feridas saradas, dos passos que ousam seguir em frente e para o alto! A plenitude, como nos revela Jesus não está somente (nem primeiramente!) no cumprimento escrupuloso da lei mas no sentido, sabor e significado que o ‘coração-santuário’ sabe descobrir nela e nos ‘pés descalços’ que, de passo em passo, sabem iniciar o caminho da mudança que, na lei do Amor, se chama ‘conversão’.

Somente tocados pela graça e habitados pelo Reino, é que podemos ser um ‘presente’ e uma ‘presença’ para o irmãos de quem nos esquecemos quando, na correria dos dias, vamos a caminho da casa do Pai... Não é à toa que o Evangelho nos manda ‘voltar atrás’...Reconciliar...(Re)unir...é assim que o dom se torna sal e luz para o mundo. E só assim se cumpre a Lei plenamente! Boa Semana!


"Embora aparentemente não nos traga benefícios tangíveis e imediatos, é indispensável prestar atenção e debruçar-nos sobre as novas formas de pobreza e fragilidade, nas quais somos chamados a reconhecer Cristo sofredor: os sem abrigo, os toxicodependentes, os refugiados, os povos indígenas, os idosos cada vez mais sós e abandonados, etc. Os migrantes representam um desafio especial para mim, por ser Pastor duma Igreja sem fronteiras que se sente mãe de todos. Por isso, exorto os países a uma abertura generosa, que, em vez de temer a destruição da identidade local, seja capaz de criar novas sínteses culturais. Como são belas as cidades que superam a desconfiança doentia e integram os que são diferentes, fazendo desta integração um novo factor de progresso! Como são encantadoras as cidades que, já no seu projecto arquitectónico, estão cheias de espaços que unem, relacionam, favorecem o reconhecimento do outro! Sempre me angustiou a situação das pessoas que são objecto das diferentes formas de tráfico. Quem dera que se ouvisse o grito de Deus, perguntando a todos nós: «Onde está o teu irmão?» (Gn 4, 9). Onde está o teu irmão escravo? Onde está o irmão que estás matando cada dia na pequena fábrica clandestina, na rede da prostituição, nas crianças usadas para a mendicidade, naquele que tem de trabalhar às escondidas porque não foi regularizado? Não nos façamos de distraídos! Há muita cumplicidade... A pergunta é para todos! Nas nossas cidades, está instalado este crime mafioso e aberrante, e muitos têm as mãos cheias de sangue devido a uma cómoda e muda cumplicidade." 

(Evangelli Gaudium 210-211)

terça-feira, janeiro 31, 2017

“ALEGRIA SEM RESSACA”...


De quanta alegria é feito o nosso caminho quotidiano? Quanta alegria oferecem as nossas palavras e o nosso olhar? Vivemos num tempo marcado por uma ‘cultura da insegurança’ que gera em muitos uma estranha nostalgia do passado. Os profetas da desgraça, que sempre se apresentam nestas circunstâncias, parecem querer roubar-nos a alegria sincera ao ‘demonizarem’ o mundo contemporâneo...incapazes de dialogarem, refugiam-se numa vida blindada pelo veneno da amargura de quem não sabe ver o bom, o bem e o belo; Incapazes de contemplar o milagre da presença e ação de Deus nos outros, tornam-se pregadores de uma solidão egoísta; Incapazes de se inclinarem para cuidar da fragilidade humana, tornam-se ‘fiscais’ com uma moral rígida cheia de absolutos e pouco aberta ao dinamismo da graça e do discernimento; incapazes de se deixar interrogar pelo dom, tornam-se idolatras de um deus criado à sua imagem e semelhança, a quem servem mais por medo do que por amor.

É bom não esquecermos que a alegria não se improvisa! A alegria cristã é fruto do encontro, um encontro Pascal que muda a vida com a radicalidade da simplicidade, do serviço e da fraternidade. Não é alienação, é compromisso!

Vem tudo isto a propósito do Evangelho que nos acompanha esta semana (Mt 5, 1-12). Em que consiste afinal a felicidade? O Evangelho faz-nos ver que é feliz aquele que abre o coração a Deus, aquele que se deixa ‘desnudar’ dos ‘absolutos que nos desfiguram’ e aceita caminhar na lógica da vulnerabilidade.

Para vencer a lógica do egoísmo somos chamados à pobreza; para vencer a indiferença o evangelho nos convoca para a compaixão; diante da agressividade o Evangelho nos interpela a viver o discernimento; diante das injustiças o Evangelho nos estimula à lógica da profecia e do compromisso; Se no caminho houver erros, falhas ou pecados o Evangelho coloca-nos diante da lógica do dom; diante da ‘mundanização’ e do desiquilíbrio o Evangelho nos chama a viver por inteiro no coração de Cristo; por fim, diante de todas as guerras (por dentro ou por fora) o Evangelho nos interpela a assumir a não violência como medida de sabedoria para fazer pontes e reconstruir o diálogo. Não se trata de uma lógica ‘perversa’ ou simplesmente ‘do avesso’, trata-se de um caminho espiritual que nasce do encontro com Cristo-Vivo e só se torna efetivo quando em nossos corações reinarem os mesmo sentimentos que habitam o d’Ele.


A alegria cristã não é ‘piegas’, muito menos ‘romântica’ como se fosse uma ‘cena perfeita’ de filme com final ao ‘estilo americano’, em tarde de domingo chuvoso com lareira acesa, manta e chocolate...A alegria cristã nasce do encontro e se fortalece e redescobre no discipulado! Ela tem essa capacidade paradoxal de se deixar experimentar, e de se fazer presente, mesmo no meio do mais árido dos desertos. É por isso que a alegria cristã nunca é alienação, nem dá ressaca! Ela é dinamismo e opção, é decisão e compromisso, é seguimento! E se ela estiver no início de tudo, não precisaremos de ‘esperar o fim’ para a saborear...ela nos dará o sabor e o saber em cada passo e fará do milagre da nossa existência uma ‘alegria completa’...quotidianamente! Boa Semana!


segunda-feira, janeiro 16, 2017

...NÃO É SÓ UMA QUESTÃO DE ÁGUA!


Zygmunt Bauman escreveu que “a vida é muito maior que a soma dos seus momentos”. O dom que nos é dado para viver não se resume à ‘contabilidade’ superficial dos bons ou maus acontecimentos, vai além! Em cada encontro, em cada lugar onde estamos, nas pessoas com quem nos cruzamos, nos caminhos que percorremos, há uma centelha divina que nos acompanha, ilumina e desafia.

Vem isto a propósito da Palavra com que Deus nos visita esta semana (Jo 1, 29-34). Jesus faz-se caminho e vem ao nosso encontro nas circunstâncias em que nos encontramos. Deus sempre gosta de nos visitar nos locais que habitamos! O ‘extraordinário’ de Deus acontece no nosso cotidiano, habitualmente na dinâmica de um encontro que suscita intimidade e seguimento. Tal como João, também nós precisamos estar atentos a Cristo que passa e aprender a decifrar os ‘sinais’ da Sua presença.

Sabemos que a predileção de Deus é começar sempre ‘pelas margens’, foi assim naquele encontro no rio Jordão, é também assim com cada um de nós. Onde houver necessidade de presença, cura, esperança e libertação, aí está Deus a fazer-se próximo, a transformar a partir de dentro, a atrair para caminhar juntos! Somente Ele sabe o que somos e o que precisamos, por isso não hesita um instante em se fazer consolação, misericórdia, ternura e salvação.

Jesus gosta de estreitar as margens, de fazer pontes, de iniciar o diálogo, de oferecer perdão, de abrir horizontes. Como Deus-Peregrino, Jesus oferece comunhão para vencermos a solidão e a indiferença, unge as nossas feridas e transforma os nossos corações para que possamos ser vasos de esperança para a humanidade, chama-nos para o seguirmos pois sabe que, mais do que nunca, o mundo precisa hoje de rostos e de ternura para (re)aprender a olhar para além da ‘soma dos momentos’ e a degustar com sabedoria e discernimento o eterno e o instante.

Contemplar, Acolher, Escutar, Seguir e Imitar Jesus, eis os verbos essências para uma ‘gramática cotidiana’ do nosso discipulado. Como tenho conjugado estes verbos? Qual o peso que eles têm na minha vida?

Só podemos ‘ver’ o que João viu quando estes verbos deixarem de ser apenas ‘infinitivos impessoais’ e se tornarem uma ‘conjugação pessoal’ de verbos transitivos que unem o cotidiano com o Mistério da Fé. Aí sim, veremos o ‘Cordeiro’, nos sentaremos em Sua mesa e saborearemos com Ele o Pão que dá vida e coragem, o Pão que nos transforma em ‘Luz para as nações’. Nessa hora, nossos olhos se abrirão para ver ‘mais além’ e ‘para o alto’ e o nosso batismo não terá sido somente ‘uma questão de água’, mas sim o motor decisivo de uma vida ritmada pelo ‘Fogo-Amor Eterno de Deus’ que permanece em nós e nos faz Ver-Seguir e Dizer: “Eu vi e dou testemunho de que Ele é o Filho de Deus”. BOA SEMANA!



Um bom desafio para esta semana pode ser a (re)leitura do nº 262-283 da Exortação Evangelii Gaudium do Papa Francisco procurando refletir sobre como andas a conjugar os verbos essenciais da ‘gramática do seguimento de Jesus’. Pode encontrar o texto do Papa clicando Aqui