terça-feira, maio 10, 2016

CORAÇÕES AO ALTO!


De quanto céu é feita a tua vida? É uma pergunta essencial para quem ousa ir além da espuma dos dias! Não se trata de ‘ser bonzinho’ ou de ‘fazer de conta que o mal não existe’, muito menos se trata de ser ‘ingénuo’. Encher a vida de céu significa colocar como ponto de partida de cada passo, e em cada gesto ou palavra, o discernimento. Trata-se essencialmente de um processo de ‘degustação interior’ que permite ver o que nos humaniza e aquilo que nos desfigura.

Vivemos num tempo onde leveza é confundida com superficialidade, reflexão e ponderação são olhadas como ‘uma perda de tempo’, e como já ‘não temos tempo’ segue-se adiante, de experiência em experiência, aumentando cada vez mais o vazio existencial. Vai-se enraizando, sobretudo nas novas gerações, um certo ‘analfabetismo emocional’ que privilegia uma vida cheia de emoções e comoções mas que é incapaz de fazer olhar ‘para longe’ e ‘para o alto’. A grande crise que vivemos não é primeiramente moral, vivemos isso sim uma verdadeira ‘crise humanitária’ e espiritual. Precisamos reaprender a ser humanos, precisamos reencontrar-nos com as grandes questões da vida e do mundo, não basta saber para onde temos de ir é preciso educar a vontade...e querer ir! Esta é talvez a maior pobreza do nosso tempo: não sabermos quem somos, esquecermo-nos de onde viemos e não ousarmos ir onde Deus nos sonhou e nos espera.

O Evangelho, boa notícia do coração de Deus para o mundo, vem em nosso auxílio e desperta-nos da ‘espuma dos dias’ (Lc 24, 46-53).  O Ressuscitado encontra-nos, como aos discípulos, em Betânia ( = Casa do Pobre) e pede que a nossa pobreza, sem deixar de ter os pés bem firmes na terra, se habitue a ‘olhar para o alto’. Não se trata de fuga, mas de um sentido: aceitar que cada gesto da nossa inteligência e do nosso coração esteja ‘cheio de céu’. É que, quando o céu nos habita, a indiferença dá lugar ao diálogo, o ódio é vencido pela ternura, a distância encurta-se e faz-se encontro, o egoísmo é vencido e tudo se torna motivo para servir.

Na escola do Evangelho só avança quem aceita ser moldado pelo ‘Amor do Pai e do Filho’, o Espírito Santo. Aqui não há lugar para auto-suficiência! Neste caminho o ‘fazer juntos’ é mais importante que o ‘fazer tudo certo’. É por isso que esta ‘sedução pelo céu’ só é possível, e acontece, num coração-templo!

Com ritmos e experiências diferentes é fundamental redescobrir que somos ‘peregrinos com um coração-templo’. A caminho do Pentecostes, pedimos ao Único Amor capaz de ‘renovar a face da terra’ que venha em nosso auxílio, cure as nossas feridas e nos ajude a “que os nossos olhos, feitos para olhar as estrelas, não morram a olhar para os nossos sapatos” (J. Tolentino Mendonça).




“Quem és tu, doce Luz que me preenche e ilumina a obscuridade do meu coração? Conduzes-me como a mão de uma mãe e se me soltasses, não saberia nem dar mais um passo. És o espaço que envolve todo meu ser e o encerra em si. Se fosse abandonado por ti cairia no abismo do nada, de onde tu o elevas ao ser. Tu, mais próximo de mim que eu mesmo e mais íntimo que minha intimidade, e sem dúvida, permaneces inalcançável e incompreensível, e que faz brotar todo nome: Espírito Santo – Amor eterno!”
(Oração de Edith Stein, uma santa nossa contemporânea e vítima do regime nazi em Auschwitz)

1 comentário:

Kiara Raquel Apolinário disse...

Maravilhosa reflexão!
Muita grata por suas sábias palavras Luís!
Deus o abençoe!