domingo, março 20, 2011

Atravessar o deserto com um coração novo…

Os poetas são, por natureza, os melhores “cantores” do mistério da vida. Assim escreveu magnificamente Sophia de Mello Breyner Andresen:

“Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade, para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei…”

Cada quaresma é este desafio a atravessar o deserto com um coração novo, transfigurado. É o tempo favorável para deixar a lamentação de outros tempos, fazendo do tempo, e de cada passo, uma oportunidade para crescer no dom, na intimidade, na fidelidade…

Neste contexto de Povo (Cristão) a caminho, o deserto configura-se pois como o espaço (e o tempo!) para o discernimento, para a escuta, para o despojamento…É ao mesmo tempo lugar do encontro com a nossa nudez, tempo de luta com o nosso pecado, espaço privilegiado para acolher a graça e oportunidade sempre dada para (re)habitar mais profundamente o Mistério que desde sempre nos habita.

Transfigurar a vida (o coração e a inteligência) não significa por isso um esforço voluntarista do “vou lutar até conseguir!” mas implica algo de muito mais “arriscado e profundo” que resumo de um modo muito simples assim: “confio-me/entrego-me…para ser Ressuscitado”, ou seja, colaboro com a graça e vivo uma vida permanentemente agraciada e agradecida…Pode-se falar da vida transfigurada como sendo uma “vida engraçada” (= cheia da graça/vida de Deus nosso Pai!)

Importa não esquecer que neste caminho é sempre o dom que nos conduz! Talvez por isso (habituados que estamos a uma educação para possuir, dominar, vencer…etc.) esta “transfiguração da vida” nos apareça tantas vezes como “um caminho de tal forma exigente que…parece impossível”.

Só com Deus, e com a ternura sempre sedutora do Seu amor até ao fim, percebemos que “o santo é um pecador arrependido que se deixou revestir com o manto da misericórdia do Pai, que aceitou o convite para se sentar na mesa do Banquete das núpcias do Cordeiro e que se deixou desassossegar pelo Espírito Santo percebendo que outra coisa não é senão um discípulo enviado aos confins da terra”.

Conduzidos para a Páscoa por “Aquele que é a nossa paz”, torna-se urgente diante da proposta de Deus uma resposta, sem equívocos, ao Seu chamamento: “Deixa a tua terra, a tua família e a casa do teu pai, e vai para a terra que Eu te indicar” (Génesis 12,1-4).

E porque cada resposta comporta o risco, reais são também as consequências deste seguimento: “Não te envergonhes de dar testemunho de Nosso Senhor!” (2 Timóteo 1,8-10.)

Peço por isso a Deus que transfigure:

- As nossas mãos cansadas,

- O nosso olhar preconceituoso,

- O nosso coração tantas vezes egoísta

- A nossa inteligência que, algumas vezes no caminhar quotidiano, se faz peregrina de um modo desesperado e desorientado.

- A nossa vida de fé…tantas vezes rotineira e sem a criatividade própria de quem é habitado pelo Espírito Santo.

Vais adiar uma vez mais

Transfigurar-Te?

1 comentário:

Jorge Luis disse...

Olá, achei seu blog por acaso quando procurava para material de estudo sobre teologia, patrística, iconografia, epigrafia, arqueologia bíblica, etc.

E acredito que você possa se interessar por esses blogs

http://patristicabrasil.blogspot.com/, história e patrística da igreja do século I ao VIII, todo em português.

http://iconografiascristas.blogspot.com/, Ícones antigos da igreja.

http://angelusexverum.blogspot.com, que pretende comprovar verdades da Igreja a partir de achados arqueológicos.

Conheça a história da sua igreja para saber a razões de sua fé.