domingo, outubro 21, 2012

...'eles' também me incomodam a mim.




As palavras que se seguem são uma metáfora 
de uma longa viagem que tenho vindo a fazer,
partilho-as contigo. 
Se tens muita pressa não leias o que se segue, pode incomodar-te.
 
 «...Segui viagem, pelo meio ainda dormi um pouco. Sei que sonhei, mas não conto aqui agora todo o sonho, apenas te digo que foi bom. Sereno. Quando abri os olhos vi muita gente que estava na mesma carruagem que eu. Estavam também eles com um ar muito sereno e feliz. Pareciam-me ser alguém que sabia para onde ia, e que queria mesmo ir para onde estavam a ir. O comboio lá abrandou a marcha até que chegámos ao fim da linha, era a última estação. Não estava identificada com nenhum nome especial, tinha apenas a seguinte inscrição: Mateus 5, 1-12
Lá saí para fazer então uma visita.


Era muito curioso este lugar. Era um espaço habitado por homens e mulheres, jovens e crianças, idosos, doentes. Gente de todas as raças e cores. Era um grupo de pessoas que viviam modestamente, cada um da sua profissão e havia entre eles uns que se dedicavam a tempo inteiro aos outros, esses não tinham propriamente uma profissão, como eles mais tarde me explicaram tinham um Ministério: servir e dar a Vida.
Todos viviam com grande alegria e simplicidade. chamavam-se Igreja. Viviam em pequenos grupos, uns eram de grandes cidades, outros de aldeias, outros até de pequenas comunidades a que chamavam movimentos. “O que é que vos faz estar tão unidos uns aos outros, vocês são todos tão diferentes?” - Perguntei eu. Um deles disse-me: “vem e vê”. Eu fui e vi.


Eram homens e mulheres que tinham o seu 'coração rasgado', lembrei-me do de Jesus ["por Ti, por amor, para sempre"!]. Viviam no amor e na dedicação uns aos outros. Entre eles não havia nem indiferença, nem excluídos, nem marginalizados. Todos tinham lugar, vez e voz. Viviam com gratidão pelo passado, acolhiam com realismo o presente e olhavam o futuro com esperança. Não lhes era estranho nenhum dos problemas do mundo, eram homens e mulheres informados, preocupados e cheios de confiança em Deus. A sua alegria era aliviar todos os crucificados da terra. Tocavam todos dramas humanos sem ter medo de sujar as mãos e sem estarem preocupados com prestígio, fama ou sucesso. Iluminavam as situações com aquilo que eles chamavam de meditação da Palavra. Reuniam-se para celebrar o que chamam de Eucaristia, e diziam-me: “comemos o corpo de Cristo e esforçamo-nos, sem desanimar, por ser corpo de Cristo no mundo e para o mundo”. Diziam a verdade sem arrogância, eram pacificadores em todas as circunstâncias, praticavam com alegria a misericórdia e diziam-me repetidas vezes que: “Há mais alegria em dar do que em receber”. Procuravam com frequência recomeçar o caminho de cada vez que sentiam ter sido frágeis ou superficiais no seu modo de viver, chamavam a esse momento reconciliação, e em cada dia dedicavam algum do seu tempo ao encontro com o 'Amor de todo o Amor' naquilo que chamam de Adoração da Eucaristia.


Diziam-me ainda que viviam entre grandes tribulações, pois alguns não gostavam do seu estilo de vida e chamavam-nos 'conservadores e limitadores da liberdade humana', outros achavam ainda que aquilo a que eles chamavam religião, e o modo como a viviam, devia ser praticado apenas e só nos espaços a que chamam de igrejas; Mas, mesmo no meio de todos estes que lhe causavam tribulações, havia alguns, uma grande maioria silenciosa [e só aparentemente indiferente!], que no mais íntimo de si mesmos, apreciavam estes homens e mulheres, e timidamente tomavam-nos, em segredo, como modelo e referência. 
Os que os perseguiam achavam-nos 'perigosos', pois diziam que eles se afirmavam 'filhos de Deus', discípulos de Cristo, e sabiam que os regia uma lei e um lema. A sua lei chamava-se 'Amor' e o seu lema: “com Cristo estou crucificado, já não sou eu que vivo é Cristo que vive em mim”(Gálatas 2, 19-20)...Eram 'perigosos' por causa do bem que faziam despontar, pela gratuidade que semeavam, pela sabedoria com que viviam e que chamavam 'discernimento'. Ensinavam a ler a vida com Esperança e a projectá-la com Fidelidade. À 'sabedoria do coração' chamavam 'valores' e definiam a vida como uma 'peregrinação'.

'Peregrino' também eu, lá regressei a casa. Decidi fazer o caminho a pé, descalço como Moisés diante do 'Mistério', e enquanto repassava uma vez mais pelo coração cada rosto, cada sorriso, cada silêncio e palavras que ali escutei, dei-me conta que 'aqueles' que alí encontrei habitam todos os continentes, todas as terras, ruas e bairros. Vivem diante da minha porta e da tua...eu é que tenho andado distraído, e ainda não tinha percebido como afinal, 'eles', também me incomodam a mim...»

 ...e tu?

1 comentário:

Diogo Proença disse...

Olá Pe. Luís!
Isso é uma viagem sem fim e depois ousas a perguntar: "e tu?".
E eu tento peregrinar esta terra e tentando tocar também no invisível.
Há dias em que tudo se toca e outros nenhum existe.
Mas saber que somos filhos de Deus, o seu Amor tudo pode.
Um abraço,
Diogo Proença