domingo, setembro 26, 2010

O mendigo que pintava malmequeres...

A Vida faz-se de histórias, de memórias cujo coração não esquece e de encontros que nos marcam, que nos moldam...e que nos mudam.
"Pode um mendigo mudar a cidade?" é esta a pergunta que me acompanha há já alguns dias...
é que tenho sido brindado pelo sorriso de Deus em cada manhã à porta de uma Igreja onde tenho entrado para rezar. Uma mulher, com um olhos muito vivos e um sorriso muito expressivo ali está, a pedir, a mendigar moedas...a mim têm-me "pedido" sorrisos com o seu olhar meigo e terno. Creio que já somos cúmplices no sorrir!
Ternamente em cada manhã, mal a vejo (e ao seu sorriso), logo lhe dou a alegria de uma saudação carinhosa, num bom dia de irmão-amigo, num braço que se estende para o céu e para lhe acenar e que lhe diz, não baixes os olhos, não estás só...eu estou aqui contigo.
Foi Ela, o sorriso de Deus, que me despertou e motivou a minha escrita para a breve história que se segue...Agradeço-lhe... e agradeço a Deus que a tem feito cruzar-se comigo e ser este "Sorriso divino de cada manhã"...
"Era uma vez uma cidade como todas as cidades...um corre-corre de gente, em rotinas feitas de tudo mas cheias de nada; Habitada por mestres solitários habituados a cogitar sobre a vida dos outros e pouco dados a uma reflexão séria sobre a sua. Aquela era uma cidade misteriosa...cheia de segredos, nublosamente criados e divulgados. Esta era, afinal, uma cidade cinzenta, com muitas estórias, conhecidas, ditas...comentadas, mas sem memória, daquela que faz sim a História de vidas que se entre-cruzam no tecer da Vida e que se contam no Mistério do encontro face a face, que me devolve no outro o que fui e o que sou, quem me espera e onde estou...
Nesta cidade os malmequeres eram cinzentos, tão rotineiramente olhados que ninguém se dava conta da cor que lhes faltava...e assim se tecia a vida, ser cor e sempre vazia. Como viandante percorria a cidade um pobre bêbado, um mendigo, desses de quem cinicamente desviamos a cara para não vermos nele o mendigo que somos. Este mendigo calcorreava a cidade todas as noites..."embebido" em vinho procurava degustar a amargura da vida, de uma vida dura e longinqua que procurava esquecer...mas a memória insistia cada noite em trazer-lhe à lembrança, com a luz da lua, essa outra história que o virava do avesso e que lhe martelava o coração dizendo: "bem-aventurados os que têm a mania de fazer os outros felizes!". Essa repulsa da lembrança de outras horas, noutros dias, em outros encontros, era o martírio do pobre mendigo que sabia não ser capaz de mudar o mundo...e que por isso, se sentava a chorar, solitário, na praça pela falta de coragem em mudar-se.
já a noite ia alta, e dormitava o mendigo depois de mais umas litradas, quando desperta de um sonho estranho...ao seu lado um balde de tinta amarela e pelo chão, discretamente aqui e ali, algumas penas, pequeninas, brancas como a neve, que pareciam quase as contas de um rosário de tão alinhadas que estavam...pareciam indicar-lhe um rumo, e meio ensonado, ressacando as amarguras de mais um dia sem coragem, o pobre mendigo lá seguiu esta "estranha bússola" que apontava para além dele, dos seus medos, e como que lhe dizia: "é agora!".
Resolutamente, o pobre mendigo, lá foi trilhando e soluçando cada passo...parecia mais leve de cada vez que avançava...sempre que estacava as pernas, pensando se devia avançar ou não, voltava-lhe de novo à memória a lembrança dessa outra História que com a luz do luar lhe soltava o pregão: "bem-aventurados..." ...e avançou!
Quanto mais andava...mais parecia querer andar, agora já não torcido pelo peso o vinho mas determinado pela coragem de arriscar, de balde e tinta na mão logo se pôs a pintar nos trilhos por onde passava...e a noite ia fugindo beijada agora pelo dia. E quando, por fim, se encaminhavam para a praça, para uma vez cogitar sobre "que sentido dar ao nobre acto de pensar?", os sábios daquela terra, mudos e estarrecidos, viram um anjo passar, de asas brancas como pérolas, com um balde de tinta amarela na mão que insistia em pintar todos os malmequeres cinzentos. E nesta cidade cinzenta, sem histórias p'ra contar, fcou p'ra sempre a lembrança, deste corajoso mendigo que um dia se pôs a pintar...e tu?

1 comentário:

pontodeluz disse...

hmmmm! Delicioso! ;)