sábado, fevereiro 02, 2013

Um 'sonho' ao entardecer…



Há pessoas e momentos que nos marcam para sempre. Há rostos que despertam em nós uma ousadia que nem o coração pode conter. Há momentos da vida (nossa e dos outros) em que o Eterno passa e desassossega para sempre, para o bem…para todos. 

Gosto de olhar a vida consagrada como esta multidão que caminha na história e que, com o desassossego do coração (pois são os insurretos no amor!), vai lançando as sementes do Reino com gestos de ternura que ressuscita, de compaixão que dignifica, de amor que converte.
 

Hoje, pela tarde, passei pela praça de S. Pedro. Estava cheia de consagrados que iam para a celebração com o Papa. É o seu dia e no rosto, mesmo que marcado pelos anos, via-se o perfume da Páscoa.

Na diversidade de cores (do rosto e dos seus hábitos) vi também o peso das rotinas, de uma certa acomodação que toca a todos nós quando nos parece (quase) impossível ‘vencer’ o tão famoso ‘relativismo’ do mundo contemporâneo…

De repente dei por mim a pensar que podia ser diferente a celebração, talvez já hoje, talvez para o ano, não sei…o que sei é que há momentos que são providenciais, e há sonhos que nos habitam e não podemos calar.


Qual foi o sonho?



«Olhei o Papa, velhinho e dobrado pelo peso do tempo, mas com um olhar penetrante, cheio da “luz das nações”.

Descendo muito serena, mas lentamente, as escadarias do “Altar da Confissão” caminhou pelo meio da multidão de homens e mulheres consagrados. Enquanto caminhava cantava com voz límpida: “Levantai, ó portas, os vossos umbrais, alteai-vos, pórticos antigos” [Salmo 23 (24)].

Dirigindo-se à porta da Basílica disse aos que ali se encontravam: Caros irmãos e irmãs Aquele que é a “Luz para se revelar às nações”[Lc 2, 32] tocou um dia o mais profundo dos nossos corações. Desde essa hora que não deve haver em nós mais espaço para a indiferença. “Ele não veio em auxílio dos Anjos, mas dos descendentes de Abraão.” [Hebr. 2, 14-18] por isso, vinde comigo e continuemos, com Ele e como Ele, a ser “sinal de contradição”[Lc 2, 22-40]. Com esta vela acesa, com o perfume da Páscoa em nossos corações, saíamos da casa do Senhor ao encontro das trevas desta cidade. Vamos às periferias do mundo beijar a miséria humana. Depois fez um pouco de silêncio.

De seguida, com uma voz ainda mais decidida disse: ‘Onde a dignidade está ferida levaremos o óleo da consolação. Onde a esperança está adormecida seremos sentinelas que suscitam, na noite o despertar do coração e da mente para o futuro. Onde a injustiça e a mentira crucificam a humanidade, aí nos ajoelharemos diante do homem caído por terra e, como o Mestre, lhe lavaremos os pés. Beijaremos todas as suas feridas com a ternura de um coração de mãe. E, no fim, sabendo que somos ‘servos inúteis a tempo pleno’, viremos de novo aqui, com todos eles: os sem-abrigo, as prostitutas, os estrangeiros que mendigam,… e com eles comeremos o Pão da Vida e adoraremos Aquele que é o nosso Caminho e a Verdade’. 

Dito isto, com passo determinado e uma vela acesa na mão, o Papa saiu do templo. Alguns pensaram que ele tinha enlouquecido! Outros timidamente lá começaram a sair, lentamente, com ele. Por fim, na praça viu-se um mar de luz que se dirigia às periferias da cidade…e à frente caminhava Pedro. Sem pressa ou vaidade. Mas simplesmente como um discípulo e peregrino, vulnerável, tal como naquela manhã junto ao lago quando o Mestre lhe tinha perguntado: “Pedro, tu amas-me?...”».



Depois do sonho, e já em casa, dei-me conta das muitas vezes em que não saio para a praça para levar a luz à periferia…será que vai ser hoje, ou só p’ró ano?...

2 comentários:

Maria José Garcia disse...

Luis como eu gosto de ler o que escreve. Sabe, é isso mesmo, a Luz a que se refere tem mesmo que sair do centro para a periferia, porque é aí mesmo, nos "arrabaldes" que Ela mais tem que ser anunciada. Um abraço Luis e bom Domingo.

pontodeluz disse...

Muito, muito bom! espalhar a luz que em nós trazemos... ;)